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julho 16, 2005
RUÍNAS EM LIVRO; OU VICE-VERSA
Para me auxiliar na tarefa de co-apresentar o livro do Ruínas Circulares, alinhavei à pressa um esquisso de guião. Claro está que, na altura H, quando se iluminaram os holofotes e vi aquela dúzia de câmaras a olhar para mim, tratei logo de esquecer os meus planos e baralhei tudo de forma irrecuperável. De qualquer forma – e pedindo-vos alguma indulgência – deixo-vos aqui os meus apontamentos de quinta-feira…
Até ter este objecto na mão, não fazia ideia porque haveria de lembrar a alguém passar um blogue a livro.
Se o blogue é político, já se sabe o que o autor escreveu na próxima página antes de lá se chegar. No momento de reacção a um qualquer acontecimento, a coisa ainda tem graça; mas quem quererá saber daqui a um ano o que foi escrito na blogosfera a propósito, por exemplo, das bombas de Londres?
Se o dispositivo é mais confessional e íntimo, parece-me quase cruel retirar as minudências existenciais de alguém ao registo frágil e efémero em que vieram ao mundo. Cheira-me a traição, passar a escultura imutável o que nasceu carne viva.
Nos casos dos blogues colectivos, torna-se mais clara a disparidade de talentos, o que não deve fazer nada bem à coesão da malta.
Ainda por cima, os blogues que passam a livro parecem de seguida acometidos por um sentimento de esgotamento, de terem alcançado um cume a seguir ao qual nenhum objectivo valerá muito a pena.
Quando soube que o blogue do João Pedro Costa ia entrar na galáxia de Gutenberg, tive um mau pressentimento. Como imprimir o que foi feito para brilhar num ecrã: a genial pirotecnia de efeitos visuais que sempre animou o Ruínas?
Mas logo vi que tinha andado a ver a coisa ao contrário. É que nunca poderia haver um livro assim sem ter como origem uma destas coisas imprevisíveis, nada coerentes e esplendorosamente desiguais que só os blogues sabem ser.
Ainda por cima, as Ruínas Circulares não são bem um blogue. São antes um mostruário de quase tudo que um blogue pode ser, se tiver sorte e autor talentoso: encerra passagens irónicas, textos doridos e líricos, achados visuais, paródias hilariantes, brincadeiras várias com formas e formatos, sei lá. É assim uma espécie de festival de fogo-de-artifício sem fim à vista, onde cada nova invenção nos surpreende e deixa de boca aberta: "Mas como é que o gajo se lembrou disto"?
Quem é que se arriscaria a escrever um livro assim? Um livro que em 3 páginas se veste de 5 estilos e é decorado por 3 ou 4 bonecos maravilhosamente toscos? Poucos escritores (se algum) se lançariam a escrever um livro que nega a sua própria condição de Autor com "a" maiúsculo, personagem de voz una e inconfundível, génio de estilo inconfundível e temas recorrentes. Mas os blogues surgiram ao João Pedro como a página em branco ideal para acolher tudo o que lhe passava pela cabeça. E olhem que passa cada coisa por lá… Aquilo parece obra de um Fernando Pessoa perdido numa floresta de heterónimos desvairados: nunca se sabe como será o post seguinte.
Agora, tal como já o Ruínas blogue não se parecia com nenhum outro blogue, também o Ruínas livro não se parece com livro algum que já me tenha vindo parar às mãos.
Mas não ficaria bem com a minha consciência se não partilhasse convosco uma surpreendente descoberta: a verdadeira identidade do autor deste blogue e deste livro. É que "João Pedro Costa" é em si um pseudónimo. Pois "His name is Becho, José Becho", como confessava logo o primeiro texto que por aquelas bandas li. Ora vamos lá respigar uns excertos cortados à pedrada:
"Todas as semanas, o José Becho tem um problema bicudo para resolver: preencher uma página inteira do dito suplemento com um texto de 1500 palavras. Nesse texto, há sempre uma espécie de lição de moral sobre um determinado assunto informático que, na verdade, poderia ser enunciado numa ou duas frases."
"Na crónica de ontem, José Becho resolveu dizer-nos esta coisa que jamais nos passou pela cabeça que é o facto dos toners das impressoras serem «altamente tóxicos e perigosos se forem inalados». Como vêem, são sempre informações úteis e que, pessoalmente, já me convenceram a desistir da ideia de mamar ao lanche uma sandes de paio com dois toners HP. O José Becho salva vidas e bastaria isso para ser merecedor da minha consideração."
"No texto em causa, nota-se que José Becho despachou o que queria dizer (não se deve comer toners) muito cedo e que ainda lhe faltam cerca de 400 palavras para receber o cheque pelo correio. Eu imagino-o em casa, em cuecas, a suar e de cigarro na boca, a accionar o contador de palavras do processador de texto e acrescentar um adjectivo aqui, um advérbio ali, ou uma frase catita acolá."
Até aqui, tudo parece certinho.
Mas, no livro, o João Pedro tem a lata de juntar o acrescento revelador: "Coincidência das coincidências, José Becho não voltaria a escrever para o suplemento Bytes após a publicação deste post."
Agora, se tivermos em conta que no início do blogue o João Pedro admitiu a sua condição de desempregado, e tendo em vista que ele e José Becho nunca foram vistos juntos, a teoria da conspiração parece mais que provada.
José Becho desapareceu do seu suplemento e surgiu no Ruínas Circulares, já não para encher chouriças e cumprir quotas de caracteres, mas sim para nos assombrar com textos em que tanto pode criticar um conhecido fármaco como se fosse um Quitério dos analgésicos ou apresentar-nos o produto de arriscados cruzamentos entre Magritte e os famosos Coelhos Suicidas, ou relembrar a figura sempre próxima do seu pai, ou…
QED: his name is Becho…
Publicado por Luis Rainha às julho 16, 2005 04:48 PM
Comentários
Sabes uma coisa? Não coisa nada que me dê mais prazer e me pareça tão urgente desde que vim de Lisboa do que te dizer obrigado, Luís. Por mais envergonhado e sem-jeito que fique com as tuas palavras: obrigado, Luís. Obrigado.
Publicado por: João Pedro da Costa em julho 17, 2005 12:29 AM
Excelente o blog. Obrigado JPC pelo óbvio (a obra). Obrigado LR pela divulgação.
Publicado por: BMA em julho 19, 2005 11:21 AM