junho 08, 2004

AS PALAVRAS SÃO MESMO IMPORTANTES

Tinha como propósito inabalável não voltar ao bendito "Padeiro" do Bloco de Esquerda. Mas, uma vez que a coisa continua a dar que falar no Barnabé, em redor deste post, não resisti.
Mas tarde decidi piar: o principal do que ia escrever já foi antecipado pelo Rui Tavares. Por isso, vou ater-me às críticas que figuram n’A Praia, da forma mais sucinta que conseguir:
"O padeiro na sua pose javarda vale por mil palavras do candidato Miguel Portas. E o que diz o cartaz do Bloco? O elemento mais grave desta nova campanha nem é, a meu ver, o desejo de ‘bater’; é a subtil inserção do ‘lhes’. ‘Lhes’ são obviamente ‘eles’, os ‘gaijos’, ‘esses malandros’, os políticos."
A pose será talvez javarda, mas não consigo ver porquê: o homem até sorri com bonomia e nada na sua pose é agressivo. Mas trata-se de um pormenor sem relevância. Importante é a afirmação seguinte, que o "lhes" remete para a classe política em geral. Isto é mais que invenção: é torcer o óbvio em busca de reforços para pré-concepções inabaláveis.
Para qualquer observador isento – e consultei uns quantos em devido tempo - o alvo da frase é claro e inconfundível: o Governo. Reivindicar para o BE um património de luta encarniçada contra inúmeros aspectos da acção governativa é mais que justo, penso eu. Foi, aliás, o ponto de partida destes cartazes: relembrar ao eleitorado descontente com o presente estado das coisas que o Bloco sempre "bateu forte" nas iniciativas da maioria que tinha como inaceitáveis.
Não acredito que isto possa ser confusão inocente: ver "retórica anti-políticos" neste cartaz é um argumento desonesto e estapafúrdio. Como ignorar que atacar "os políticos" seria coisa impensável para quem faz naturalmente parte desse grupo, como é o caso do BE?
Nos dias que correm, há novos desempregados a cada hora; há um fosso que se aprofunda entre nós e a tal Europa a que deveríamos pertencer; há um governo em funções que olha para os trabalhadores e só vê uma massa de malandros a precisar de correctivos; há miséria moral por todos os recantos onde chegam os tentáculos dos rapazinhos do PP e do PSD; temos um país que agora está mesmo "de tanga", muito por culpa de quem aterrorizou consumidores e investidores, na sua ânsia cega de responsabilizar os seus antecessores. É esta a situação presente: vivemos num tempo que dispensa bem jogos florais com os chavões do costume; este tempo exige gente com a coragem de dizer "basta!", não apaniguados dos jargões opacos da "semiologia gasosa" de que fala o Rui Tavares.

Duzentas palavras do post em questão são gastas a laborar neste equívoco mal-intencionado. Depois, o Ivan segue afirmando que "o Bloco talvez esteja tranquilo com as críticas que têm sido feitas ao cartaz – às quais, que eu saiba, nem sequer responde – com base no pressuposto de que ‘isto não é uma campanha para intelectuais’. Se não é para intelectuais, não é preciso prestar-lhes contas, nem atenção, nem discutir com eles. A ideia de que há as ‘massas’, para quem se produz o lixo que não requer pruridos morais nem de inteligência, e os ‘intelectuais’, que se ocupam de pensar, é certamente das mais perniciosas e reaccionárias possíveis."
Resumindo: ele está zangado com os dirigentes do Bloco por não lhe responderem às críticas e até se adivinha capaz de calcular os motivos por detrás de tão altaneira obstinação: o desdém pelas massas e pelos intelectuais! O justiceiro denuncia o crime, expõe os culpados e descortina o móbil, tudo de uma penada. O castigo vem logo a seguir: acusa-se o BE de tratar as "massas" – por certo ígnaras e carentes de tão esclarecida protecção – com "paternalismo".
Além destas imaginativas asserções, apresentadas a seco, sem qualquer farrapo de facto a consubstanciá-las, nada nos é dito para justificar a ideia de que o "padeiro" dá corpo "à tentação de tratar ‘o povo’ com condescendência, com paternalismo." Porque será este cartaz acusado de tal e não o seu irmão gémeo, que nos mostra uma jovem urbana? Será proibido tentar levar para cartazes eleitorais figuras de aparência simples e pouco "intelectual"? Cá para mim, esta ideia é que pode bem ser acusada de paternalista.

Mas não está assim tão longe da verdade, o autor do queixume: não se trata de um cartaz concebido para intelectuais, seja lá isso o que for ao certo. Trata-se sim de uma peça de campanha que dispõe de 10 ou 11 palavras para fazer passar – junto a semiólogos, padeiros ou trolhas - uma mensagem clara: votar no Bloco é votar em quem não tem dado tréguas ao governo, é confiar numa força que sabe que há um tempo para rodriguinhos estilosos e outro tempo para lutar pelo que vale a pena e é urgente.

Quando se cita a frase de Moretti - «as palavras são importantes» - convém não esquecer de onde ela vem:
"Giornalista- Io non sono alle prime armi.
Nanni- Alle prime armi...ma come parla?
Giornalista- Anche se il mio ambiente è molto "cheap"
Nanni- Il suo ambiente è molto...?
Giornalista- E' molto "cheap"
Nanni, schiaffegiandola- Ma come parla?
Giornalista- Senta, ma lei è fuori di testa!
Nanni, gridando- E due. Come parla! Come parla! Le parole sono importanti. Come parla!"

Esta cena do Palombella Rossa contém uma revolta contra o palavreado da moda, contra a troca do inteligível pelo discurso florido e sempre chique. Hoje, como nunca, também precisamos de palavras directas, palavras que nos ajudem a falar com as pessoas. Essas é que são importantes. E foi com essas que tentei fazer o raio do cartaz. Se falhei, desculpem lá.

Publicado por Luis Rainha em junho 8, 2004 05:46 PM | TrackBack
Comentários

VOTO – POSIÇÃO OFICIAL DESTE BLOG www.antidireitaportuguesa.blogspot.com
1) Ou vote no Partido Socialista (PS)
2) ou vote no Partido Comunista Português (PCP) – Coligação CDU com Os Verdes -
3) ou vote no Bloco de Esquerda (BE)
4) Se não suporta nenhum destes partidos
a) vote no PCTP-MRPP.
b) Vá para a praia marítima ou fluvial
c) Se é ecologista vá passear pela floresta
d) Fique a transar o dia todo
e) Nunca vote na Coligação PSD-PP (+ Bush + Rumsfeld +Carlucci)

Afixado por: j.silva em junho 8, 2004 06:09 PM

Ao que acho mais piada nestas eleições, vistas via tv, é ao irmão do Paulinho das feiras todo enrascado nas ditas, o homem não sabe o que fazer no meio da plebe, nota-se que aquilo não é para ele, ainda um dia destes perante a questão colocada por um feirante de carne, da obrigação de a partir de agora esses comerciantes serem obrigados a terem carros, frigorificos ele respondeu que alguma coisa se havia de arranjar, eu sugiro uma solução, porque não um enxota moscas?
Barato e eficiente.

Afixado por: provocador em junho 8, 2004 06:47 PM

Só estás a fazre publicidade ao gajo...

Afixado por: Mérovée em junho 8, 2004 07:04 PM

luis
Eu até gosto do cartaz.
mas julgo que é um pouco infeliz a escolha do padeiro com o rolo da massa
julgo que se o BE quer deixar de ser um partido de elites urbanas, seria mais prático abordar tema que "toquem essas camadas"
Alias o teu post termina com um extrato de um dialogo em italiano, lingua que todo o cidadão domina
Só não percebo pq é que não consegues ncaiar uma critica que pode estar errada mas é válida.
Nós devemos votar não em quem zupa forte e feio no governo, mas em quem propõem uma alternativa credivél a governo(sem fazer juizos de valor se o BE é ou não essa alternativa)
eu gosto mais dos cartazes do BE do que dos do PS e da CDU com aquele ar de aanos 80,
mas o BE deve nivelar o discurso politico por cima e não por baixo

Afixado por: abtisectario em junho 8, 2004 07:17 PM

Passo a passo, a "esquerda" balnear vai fazendo o seu trajecto para o lugar a que a sua condição de classe a destinou... A arrogância e os medos classistas estão lá todos, mais ou menos mitigados, nos seus actos e nas suas prosas. O rancor à esquerda que não rima com merda, a que chama "beata", também. Julga que descobriu a pólvora... mas, em termos de criatividade e de percepção da realidade, ainda não chegou sequer à roda.
A "esquerda" balnear não é caviar, nem bacalhau: é uma alforreca!

Afixado por: zás!pás! em junho 8, 2004 07:32 PM

Com tanta coisa para descutir, acho incrível é como se perde tanto tempo a falar de um "simples" cozinheiro de um cartaz.
Eu sei que a campanha tem sido tão miserável que só nos resta falar deste tipo de coisas, mas pelo menos nós, ou seja, quem vota, podia aliar-se um pouco dessas parvoíces, e tentar descutir alguma coisa de importante para a europa.

Afixado por: cachucho em junho 8, 2004 07:52 PM

"temos um país que agora está mesmo "de tanga", muito por culpa de quem aterrorizou consumidores e investidores, na sua ânsia cega de responsabilizar os seus antecessores..."

Um partido anti-capitalista a falar de investidores?

Afixado por: eu em junho 8, 2004 09:10 PM

Agora é que fiquei admirada, com a última frase. Mas o cartaz era teu? Está a gente para aqui a falar, e podias desde o princípio ter explicado qual era o conceito. Por mim, não quis ofender [ também, por acaso, fui das poucas que não falou no pobre do cartaz... ]
:)

Afixado por: Emiéle em junho 8, 2004 10:23 PM

Caro Luís Rainha,

Não fui eu que puxei esta história, mas visto que me sou citado no teu post como "apaniguado dos jargões opacos da "semiologia gasosa" respondo. Esta história do padeiro em si não tem muita importância. Mas o que ela revela já sim. Para ti, há os que fazem semiologia gasosa e os que têm a coragem de agir. Há os intelectuais e os que não têm problemas em falar simples e para as massas. Como se tu fosses um trolha ou um padeiro. Ora, isto é que é populista. A campanha do Bloco é susceptível de crítica e a interpretação do cartaz como populista não é delirante (li várias opiniões neste sentido em pessoas de esquerda). Acho que aqui nos blogues, nomedamente no meu e no teu, podemos dispensar esta chantagem política, a bem da discussão.

Um abraço

Afixado por: André Belo em junho 8, 2004 11:27 PM

O discurso político desde que o BE apareceu baixou até ao nivel do mar morto daqui por 60 anos. se antes era dificil descortinar quais as ideias dos diferentes candidatos, agora é impossível: em vez de irem à feira, fazem eles a feira.
o pcp e o mrpp, esses são dos poucos que conseguem fazer passar alguma msg. mas parece que isso não dá votos. qualquer dia havemos de ver o francisco louçã no big brother, a ver se chega ao governo, coligado com o ps.
bem, mas como é que o BE deixará de ser um partido de elites, se eles são elitistas, a esquerda caviar?

Afixado por: Acolito Espirita em junho 9, 2004 05:47 AM

Acolito, passar a msg. não chega, é preciso que esta não seja má. E, até para um gajo de esquerda como eu, a msg. do MRPP e do PCP é má! O PNR tmabém faz passar uma msg., MÁ!!

Afixado por: Tesla em junho 9, 2004 02:29 PM

Evitando cuidadosamente o "o palavreado da moda" e a "troca do inteligível pelo discurso florido e sempre chique", devo dizer q o cartaz do padeiro é uma boa merda. E, já agora, o da chavala também.

Afixado por: lucrecia em junho 11, 2004 02:02 AM
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