«O escritor cronista: perora sobre tudo, numa olímpica omnisciência. Está convencido de que tem muita graça e de que influi profundamente nos destinos do país. Imagina os governantes a lê-lo e a dizerem às mulheres (ou aos maridos): "Tem graça! Olha que este rapaz tem carradas de razão, vou passar a fazer como ele diz..." Às vezes é feroz, faz ameaças: "Ah, sim? Então eu desanco-o na minha crónica!" No entanto, fica um pouco perplexo quando os amigos exclamam, jovialmente: "Lá li a tua coisa no Diário Popular. Aquela dos rinocerontes, muito gira..." - quando ele tinha escrito umas considerações hábeis sobre chalés suíços no Diário de Notícias.»
Mário de Carvalho (excerto do texto «Espelho de Escritores», publicado no Jornal de Letras, em 1987, e citado na antologia «Crónica Jornalística - Século XX», de Fernando Venâncio, Círculo de Leitores)
Publicado por José Mário Silva em junho 7, 2004 10:15 AM | TrackBack:-))))
Afixado por: Rui MCB em junho 7, 2004 11:22 AMLindo.
Vou-te roubar isto lá para o Afixe...
Faz-me lembrar a ocasião em que tive de, por motivos profissionais, conversar longamente com um conhecido cronista. O homem, de quem eu não lera coisa alguma, passou o tempo todo a repetir a frase: "como deve ter lido na minha crónica sobre o..."
Afixado por: Luis Rainha em junho 7, 2004 03:51 PMquando topamos com um desses não devemos desconcertar-nos por não termos lido a tal crónica.
eles encarregam-se de nos lembrar o conteúdo voluntariamente.