maio 26, 2004

AINDA A QUESTÃO DO MÉDIO ORIENTE

O comentário do tchernignobyl de resposta à leitora Ana Albergaria sintetiza bem a posição sobre o conflito israelo-palestino que é, também, a minha. Nomeadamente, quando se refere o facto crucial de todo este processo que é o de Israel ser inequivocamente a potência colonizadora e ocupante. Para mim, comparada com esta questão, todas as outras são secundárias. Conforme já aqui afirmei, mas pode não ter ficado bem claro, Israel tem todo o direito de se defender do terrorismo; não pode é dar motivos para que ele aconteça. Ora, ocupar terras e destruir casas de um povo que não tem nenhum exército que o defenda é provocar o terrorismo. Não me importa se há em Israel um governo democraticamente eleito; tal não dá legitimidade nenhuma a esse governo para as acções que tem tomado, pelo que tal questão é aqui totalmente irrelevante. Por isso Israel tem de desocupar os colonatos imediata e incondicionalmente. Só depois desta desocupação Israel poderá queixar-se dos terroristas e defender-se com toda a legitimidade. Embora eu não seja optimista ao ponto de crer que esta desocupação bastasse para acabar com o terrorismo, estou certo de que melhoraria e muito a situação de ambos os povos. Um acordo de paz que incluisse tal retirada já foi possível no passado, com o mesmo líder da OLP e com outros dirigentes israelitas. E os extremistas que assassinaram o primeiro-ministro israelita que assinou tal acordo foram... judeus, e não muçulmanos!
A minha posição sobre este conflito é, portanto: qualquer iniciativa de paz só pode provir de Israel, que tem a faca e o queijo na mão. Infelizmente, Israel já demonstrou várias vezes, com este e com outros governos, não estar interessado em tomar esta iniciativa, devido ao forte apoio internacional (e ao incondicional apoio norte-americano) que tem tido. As grandes manifestações pela paz da semana passada, que já aqui referi, fazem-me ter esperança de que talvez a situação mude, mas infelizmente Ariel Sharon venceu confortavelmente as duas últimas eleições, tendo inclusivé governado em coligação com o Partido Trabalhista no primeiro mandato.

Publicado por Filipe Moura em maio 26, 2004 02:18 AM | TrackBack
Comentários

Palestina como estado único, laico e democrático... a única via para a Paz

Muitos "bem pensantes" não perceberam ainda que esta é a única solução. Que a fonte de todos os problemas está no próprio conceito de sionismo, um roubo de terras acompanhado de massacres e limpezas étnicas. Claro que, com Rabin e sem SSharon, as coisas iriam muito melhor. Mas não se resolveriam definitivamente e novas derrapagens seriam inevitáveis. Acresce qua a solução "dois estados" é claramente inviável. Até porque não se trata de um verdadeiro estado palestiniano, mesmo na proposta Beilin, a mais favorável de todas. Poder-se-á falar de estado quando não há soberania militar e esse estado-bantustão é privado de exército e tem as suas fronteiras exteriores ocupadas por forças que sempre o massacraram e poderão a todo o momento voltar a massacrar ? A segurança dos palestinianos em tal "estado" seria igual a zero, tal como hoje...

E ninguém vê, que a "solução 2 estados" pressupõe o inaceitável (para todos os palestinianos): a renuncia ao direito de retorno de todos os refugiados desde 1948, isto é, implicaria a legalização de um crime intolerável para a nação árabe ? Deixem-se de lirismos. Com essa solução sionista NUNCA HAVERÁ PAZ !

Que fazer então ? É simples. Basta pensar na reconciliação franco-alemã (após 3 grandes guerras em menos de 70 anos que fizeram milhões de mortos)e na reconciliação inter-étnica na Africa do Sul de Mandela. Todos sabemos que se não tivesse havido CEE nos anos 50 e a Alemanha fosse de novo humilhada (como no Tratado de Versalhes), haveria uma III Guerra Mundial... Só unindo os povos se evita a guerra, a exclusão, com a dos estados fundamentalistas puros (como Israel, em que só crentes judeus são cidadãos de pleno direito, sendo os restantes expulsos e guettizados) trazem em si mesmos os germes da destruição e do conflito. Se na Africa do Sul tivesse prevalecido a bantustização dos negros (como Israel pretende com os bantustões de Gaza e Cisjordânia) ainda hoje haveria guerra.

A ÚNICA SOLUÇÃO é pois a "sul-africana": aplicar literalmente o princípio "one man, one vote" a todos os que legalmente têm o direito de viver na Palestina-Israel. Todos os refugiados (desde 48) poderão regressar e votar. Se, como é natural, dado o peso demográfico dos muçulmanos, o novo governo for de maioria muçulmana (embora com judeus e cristãos) isso não será nenhuma tragédia (tal como a maioria negra não o foi na Africa do Sul...). E então, sim, a Palestina será o estado mais democrático de Médio Oriente (hoje Israel é o menos democrático, já que 60% da sua população de jure não pode votar...).

Caso contrário, teremos uma "self-fulfilling profecy": as medidas ssharonescas adoptadas para conjurar a destruição de Israel, causarão elas próprias essa destruição inevitável a prazo, porque o novo Saladino aparecerá mais tarde ou mais cedo. Israel não será sempre o mais forte... Os primeiros cruzados estiveram em Jerusalém 100 anos, os segundos há 56...

E, depois, de nada serve qualificar de "terroristas" os patriotas da resistência palestiniana (Hamas, Fatah, Jihad), que não são grupos de "radicais", mas o braço armado apoiado por TODO o povo palestiniano. Não há "estremistas" e moderados. Há só patriotas e poucos, muito poucos, colaboracionistas. A guerra de libertação do ocupante (que implica matar ocupantes e retaliar sobre os seus civis quando este ataca civis) é legítima à luz do direito internacional. O que é ilegal é a ocupação. Essas confusões semânticas contribuem também para dificultar o correcto diagonóstico e inviabilizam e retardam o único tratamento possível...

Afixado por: euroliberal em maio 26, 2004 09:45 AM
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