Na The Spectator de 15 de Maio de 2004, Emma Williams, em “Trapped behind the wall”, dá-nos mais algumas achegas acerca das verdadeiras motivações anti-semitas que ensombram a perspectiva que temos do conflito israelo-palestiniano.
Escreve a Emma:
“No dia seguinte segui numa visita guiada por autocarro com dois israelitas e um grupo de padres norte-americanos. Vimos então o muro na sua vastidão, os oito metros de altura e em comprimento estendendo-se sem se alcançarem os seus limites, dividindo em duas partes o subúrbio palestiniano de Jerusalém; um lado da rua permamentemente divorciado do outro."
«Eu pensava que o muro servia para separar os israelitas dos palestinianos», disse o padre ao meu lado, surpreendido.
O nosso guia israelita explicou a natureza política do muro, apontando através do vale para dois colonatos novos.
«Não se trata de segurança», explicou, «trata-se da apropriação por Israel de terra palestiniana, incluindo a totalidade de Jerusalém».
«Mas como é que as familias daquele lado vão a um hospital, como se abastecem de alimentos, combustíveis? Como fazem para ver os seus parentes? Isto é», disse o padre, «uma obscenidade».
Um israelita que ia também no passeio disse:
«Vocês não compreendem o terror, a não ser que vivam aqui. Os palestinianos querem matar-nos. São terroristas, é tão simples quanto isto».
«O quê? Todos os três milhões de palestinianos?», disse o padre.
O israelita ficou ofendido. «Como eu disse, vocês não compreendem. Nada parará o terror porque ESTÁ NA NATUREZA DELES, mas a esquerda israelita recusa-se a admiti-lo. Se fosse eu a mandar não haveriam passagens no muro»...
Os admiradores mais ou menos constrangidos do Sharon vão responder que este é mais um dos famosos "casos isolados" de racistas (pró-semitas?) compreensíveis "por causa do medo", ao contrário do anti-semitismo generalizado que descortinam nos críticos de Israel.
Isso explicará também porventura a utilização do argumento "vocês não compreendem", notoriamente igual ao dos defensores do terrorismo suicida palestiniano.
Neste caso, porém, ai de quem sugira alguma causa como o desespero, a humilhação continuada que roça o sadismo através de décadas, a total ausência de segurança e a cleptocracia institucionalizada, ai de quem sugira alguma causa "social" ou "política" minimamente objectiva. Será fulminado como "cúmplice".
Neste caso, já se lembram dos valores humanos absolutos e invioláveis cujos atropelos se devem a causas que têm meramente a ver com taras culturais, aderência a mórbidas confissões religiosas, ou mesmo deficiências genéticas, quando não pura e simples falta de educação... como se costuma dizer "a culpa é dos pais" e mesmo, para fazer o pleno e juntar tudo no mesmo saco, anacrónicas suspeitas de estalinismo.
Já o major-general Amos Gilad, do bureau político-militar do ministério da defesa israelita, tem também a sua opinião sobre o muro e mostra ser um homem sensato e de paz:
«O que posso dizer é que o muro contribui para salvar vidas de israelitas e de palestinianos. Quando palestinianos matam israelitas, temos de retaliar, eles são mortos. Deste modo estamos a salvar as suas vidas».
Bela preocupação, não é?
Já aprendemos com os "realistas" que a política não tem de ser "moral".
Mas porque teremos de gramar o cinismo dos torcionários?
Nota:
As minhas traduções são feitas por mim, de forma livre, com o propósito de adaptar os excertos dos textos ao formato do blogue, já que uma vez vi aqui uma crítica, salvo erro do Pedro Vieira, acusando de pretenciosismo a transcrição pura e simples de textos noutras línguas para os posts.
Aconselho vivamente a que se registem no site da «The Spectator» e confiram se desvirtuei o sentido. (E leiam o resto do artigo porque tem mais, muito mais...)
Provavelmente vou arrepender-me, mas não resisti a deixar aqui um comentário. Sou judia e defendo o direito à vida de todos, em paz, em Israel, onde já estive, já sofri, i.e., não vi só na televisão. Imaginando que isso que transcreveu tem toda a lógica ( e terá alguma ) com humildade pergunto-lhe: o que fazer? Vá, faça de conta que você tem nas suas mãos a solução; diga-me o que fazer? Pergunto com humildade e boa fé, até porque apesar de não concordar com a maioria das suas ideias, gosto de o ler. Diga-me! Não será tempo de também começar a apontar o dedo ao outro lado? Não lhe parece que passa por aí a solução? É que enquanto os dedos estiverem sempre -e apenas!- só apontados a Sharon ( que eu desprezo ) os terroristas palestinianos vão continuar a matar e a provocar a morte entre o seu próprio povo. Diga-me: o que fazer? Será que só Israel tem de mudar?
Pergunto, recordo, com boa fé e sem querer provocar polémicas bacocas.
Obrigada!
boa ana
é um pouco isso que eu penso
na net existem dezenas de sites de grupos de judeu pacifistas, não zionistas, anti guerra, militares que se recusam a combater nos territórios ocupados
o que o tignobiçl pretende passar é a ideia de que todos os israelitas são a favor de sharon e isso não é verdade
é de esperar que algum dia um lider vcom moir visão (com Rabin) tenha a capacidade de dialogar com os palestinianos e apresentar uma solução que permita a criação de um estado palestiniano
agora pergunto-te que fazer ao hamas e outros grupos palestinianos, incluindo parte da OLP que nem o estado de israel reconhecem?
è que caso náo te lembres tem de haver concessões de ambos os lados
PS - fico à espera dos comentários alaves do euroliberal mas ve la se te esforças um pouco mais e prima por insultos no minimo originais
a Judio-nazi da ana albergaria merece
Bravo Ana, acho que de facto o Sharon é uma besta, e em relação ao conflito entre o estado de Israel e os Palestinianos não tenho uma opinião clara, e espanta-me tantas certezas de tanta gente,até porque só os tolos tem certezas.
Sei que apesar de tudo se os Israelitas quizerem correm com Sharon do poder, já em relação a Arafat isso não é tão certo.
Julgo que só com a substituição dos dois e uma longa construção de confiança mutua tornara possivel dar alguns passos no caminho da Paz.
antisectario: se lesses todos os posts que se têm escrito aqui no blog sobre o anti-semitismo e sobre a situação na palestina escusavas de dizeres disparates ofensivos como esse de que pretendo passar a ideia que todos os israelitas são a favor do sharon.
Ana Albergaria:
O meu problema não é bem evitar atacar o "outro lado", muita gente criticou por exemplo - a começar pelo Edward Said tão vilipendiado pelos sharonistas e até membros do próprio governo - a corrupção na Autoridade Palestiniana, e não é conforto para ninguém o facto de grande parte do esforço de resistência dos palestinianos ter por uma perversidade histórica ter de passar pelo fanatismo religioso e pelo terrorismo suicida e indiscriminado, quando durante muito tempo foi de cariz laico.
No entanto é na minha perspectiva inegável que apesar das críticas e oposição a tudo o que se passa "do outro lado", o factor determinante de perturbação não é "o terrorismo" é a ocupação e asfixia de um povo.
Os israelitas deparam-se hoje com terroristas suicidas mas esta é a escalada inevitável quando a intifada que se fazia com pedras merecia a mesma resposta em mortos feridos estropiados e desalojados.
o que me interessa mostrar é que o que mantém essa ocupação são sentimentos racistas, é o fanatismo religioso (também "desse lado") e também a corrupção e a ladroeira, o que destrói o mito de uma pretensa "superioridade moral" dos ocupantes em nome de valores civilizacionais que se vendem para americano e europeu ver.
o que me interessa constatar também é que a sociedade civil israelita (ou a parte mais "moderna" dela - que até tenta por vezes reagir a este status quo embora sem força para impedir a chantagem militarista sobretudo quando esse militarismo é impune e impudentemente alimentado cegamente por uma grande potência, "A" grande potência com armas dinheiro e apoio ideológico) não tem nada a ganhar em manter-se refém de celerados e que a única saída para esta situação é a retirada unilateral e total dos territórios ocupados, sem truques para pilhar os meios básicos de subsistência e independência económica do estado palestiniano.
será lirismo? esteve prestes a ser conseguido por rabin COM arafat, e quem abateu o rabin não foi um palestiniano que eu saiba.
De resto, agradeço o comentário apesar da discordância manifestada com a generalidade das minhas ideias.
A concordância é irrelevante desde que haja respeito mútuo.
Obrigada, Tchernignobyl, pela resposta.
Eu concordo com a ideia do "provocador". Sei que a questão não é fácil, nunca foi, de resto, e é cada vez mais difícil. Sei isso tudo; sei que tudo começou com a posição enganadora da Inglaterra que deu aos dois a mesma esperança, mentindo aos dois lados; sei que Israel tem cometido demasiados erros, nomeadamente com os colonatos; sei que há segregação em Israel, que os palestinianos são, muitos deles, explorados e pouco ou nada respeitados; sei isso tudo e muito mais. Aliás, qualquer judeu, ou simpatizante de Israel com boa fé,o sabe. Só que a questão é esta: desde o dia 1 da criação de Israel que os ataques dos países vizinhos começaram; os judeus instalaram-se num território que lhes pertencia -foi, recordo, muito bem negociado, e , depois do nazismo assassino, chegaram à sua terra , tendo na altura de "combater" os ingleses;e logo depois da independência , de combater os vizinhos, todos. Todos. Quer dizer, a partir daí o único objectivo é sobreviver, percebe? Sobreviver. Lógico que Israel tem dinheiro, armas e poder. Mas olhe bem para o mapa, veja os gigantes árabes que o rodeiam, acha que se não fosse assim...Israel ainda existia?
Tchernignobyl: digo-lhe com amizade , cibernética é certo, mas amizade: às vezes é preciso fazer "mal" para poder continuar a viver. E, mesmo cheios de erros, os judeus, religiosos ou não, que vivem em Israel, ainda não passaram um único dia sem que a pergunta:« será que morro hoje?» não lhes passasse pela cabeça, percebe?
É que depois do nazismo, e do ódio anti-judeu ( que existe desde sempre ) , chegaram ao Lar, a Israel, e foram guerreados desde a primeira hora. Não perceber isto é, desculpar-me-á, não perceber grande coisa sobre o que se passa Agora!
Sou pelo desmantelamento dos colonatos, e pelo respeito dos direitos humanos e cívicos dos meus irmãos árabes e muçulmanos, e outros, de Israel.
Mas enquanto vir condenar a morte dos líderes do Hamas , e de outros movimentos terroristas, hei--de defender sempre os líderes de Israel, mesmo desprezando-os, como é o caso de Sharon, que é, de facto, um homem de guerra. Mas ele é um judeu que fará qualquer coisa-mesmo que criminosa, é certo, para defender o seu povo. Em Israel vive-se com medo; de manhã, à tarde e à noite. E quando isso acontece é terrível separar ódios. Dos dois lados. Mas, a vida é uma merda e é fodida,de facto, e é feita de escolhas. Os terroristas do Hamas sentem-se legitimados pelo Ocidente, por gente com você, que tendo razão em condenar os colonatos e as razias sangrentas de Sharon, não tem a coragem de dizer: « Mataram um terrorista!». Não, você, com todas as boas intenções, você e milhares de outros, dizem: « Sharon assassinou um velhinho!»
Por cada autocarro que explode em Israel, há uma acção de retaliação sangrenta. É terrível mas já se sabe que é assim. Então, se a comunidade internacional condenar , não só Sharon, mas também os atentados, as coisas podem avançar.
Actualmente os terroristas são mártires, e os judeus de Israel assassinos. É demente. É injusto.
Nada é preto e branco, meu caro. Nada.
E não se pode entender só um dos lados. A questão é só esta: seria o tchernignobyl capaz de matar para poder viver?
É esta a questão. Sempre foi.
Os excessos, os colonatos e as humilhações aos palestinianos também têm de ser condenados. Milhares de judeus condenam. Outros não, os ultra-ortodoxos, por exemplo, que são inimigos internos de Israel. Os que mataram Rabin.
Mas, no fundo, todos querem o mesmo: viver. Só viver.
Se pararem de "compreender" o terrorismo, pode ser que se avance. Até lá pode ser que se matem todos uns aos outros. Este é o problema. Para mim.
Que desapareçam Arafat e Sharon. Que se fodam os dois. Mas os povos que eles representam merecem mais; merecem tudo. E é por achar isso que me doi o relativismo moral das análises sempre de dedinho apontado aos "perigosos colonialistas judeus".
É tão injusto e doentio ...que leva a excessos.
Eles aí estão.
Um beijinho e Shalom que, como sabe, quer dizer Paz.
Palestina como estado único, laico e democrático... a única via para a Paz
Muitos "bem pensantes" não perceberam ainda que esta é a única solução. Que a fonte de todos os problemas está no próprio conceito de sionismo, um roubo de terras acompanhado de massacres e limpezas étnicas. Claro que, com Rabin e sem SSharon, as coisas iriam muito melhor. Mas não se resolveriam definitivamente e novas derrapagens seriam inevitáveis. Acresce qua a solução "dois estados" é claramente inviável. Até porque não se trata de um verdadeiro estado palestiniano, mesmo na proposta Beilin, a mais favorável de todas. Poder-se-á falar de estado quando não há soberania militar e esse estado-bantustão é privado de exército e tem as suas fronteiras exteriores ocupadas por forças que sempre o massacraram e poderão a todo o momento voltar a massacrar ? A segurança dos palestinianos em tal "estado" seria igual a zero, tal como hoje...
E ninguém vê, que a "solução 2 estados" pressupõe o inaceitável (para todos os palestinianos): a renuncia ao direito de retorno de todos os refugiados desde 1948, isto é, implicaria a legalização de um crime intolerável para a nação árabe ? Deixem-se de lirismos. Com essa solução sionista NUNCA HAVERÁ PAZ !
Que fazer então ? É simples. Basta pensar na reconciliação franco-alemã (após 3 grandes guerras em menos de 70 anos que fizeram milhões de mortos)e na reconciliação inter-étnica na Africa do Sul de Mandela. Todos sabemos que se não tivesse havido CEE nos anos 50 e a Alemanha fosse de novo humilhada (como no Tratado de Versalhes), haveria uma III Guerra Mundial... Só unindo os povos se evita a guerra, a exclusão, com a dos estados fundamentalistas puros (como Israel, em que só crentes judeus são cidadãos de pleno direito, sendo os restantes expulsos e guettizados) trazem em si mesmos os germes da destruição e do conflito. Se na Africa do Sul tivesse prevalecido a bantustização dos negros (como Israel pretende com os bantustões de Gaza e Cisjordânia) ainda hoje haveria guerra.
A ÚNICA SOLUÇÃO é pois a "sul-africana": aplicar literalmente o princípio "one man, one vote" a todos os que legalmente têm o direito de viver na Palestina-Israel. Todos os refugiados (desde 48) poderão regressar e votar. Se, como é natural, dado o peso demográfico dos muçulmanos, o novo governo for de maioria muçulmana (embora com judeus e cristãos) isso não será nenhuma tragédia (tal como a maioria negra não o foi na Africa do Sul...). E então, sim, a Palestina será o estado mais democrático de Médio Oriente (hoje Israel é o menos democrático, já que 60% da sua população de jure não pode votar...).
Caso contrário, teremos uma "self-fulfilling profecy": as medidas ssharonescas adoptadas para conjurar a destruição de Israel, causarão elas próprias essa destruição inevitável a prazo, porque o novo Saladino aparecerá mais tarde ou mais cedo. Israel não será sempre o mais forte... Os primeiros cruzados estiveram em Jerusalém 100 anos, os segundos há 56...
E, depois, de nada serve qualificar de "terroristas" os patriotas da resistência palestiniana (Hamas, Fatah, Jihad), que não são grupos de "radicais", mas o braço armado apoiado por TODO o povo palestiniano. Não há "estremistas" e moderados. Há só patriotas e poucos, muito poucos, colaboracionistas. A guerra de libertação do ocupante (que implica matar ocupantes e retaliar sobre os seus civis quando este ataca civis) é legítima à luz do direito internacional. O que é ilegal é a ocupação. Essas confusões semânticas contribuem também para dificultar o correcto diagonóstico e inviabilizam e retardam o único tratamento possível...
Afixado por: EUROLIBERAL em maio 26, 2004 09:40 AMo estado de israel tem o direito de existir" dixit LX...
Depende do COMO ? Roubando terras dos outros, submetendo-os à servidão e humilhação permanente, NÃO, dessa maneira ISSrael não tem o direito de existir e será aniquilado mais tarde ou mais cedo ! O que não significa que os judeus, individualmente não tenham o direito de residir como sempre na Palestina ! Como os muçulmanos (descendentes directos dos antigos residentes da Palestina e que não têm culpa de os seus antepassados se terem convertido ao islamismo a partir do séc. VII...) e os cristãos, residentes, exilados ou refugiados. A Palestina deve ser um estado laico aberto a todas as religiões. Segundo o princípio "one man, one vote" é provável que o governo seja maioritariamente muçulmano, não por ser muçulmano, mas por causa de a maioria ser dessa religião.
Se os judeus querem um estado confessional só para eles (com limpeza étnica e guetização dos não judeus), então também devem aceitar que em todos os outros países os judeus possam ser privados da nacionalidade, confiscados e expulsos (ou encerrados em guettos "à palestiniana"). NÃO HÁ POVOS ELEITOS ! Estamos no séc. XXI...
Afixado por: euroliberal em maio 26, 2004 09:41 AM