maio 17, 2004

EU SIMPATIZO MUITO...

É verdade: simpatizo muito com Lúcia Guimarães. Gosto do que escreve, gosto do programa que faz, e já tive ocasião de trocar uns emails com ela sobre a imagem dos brasileiros em Nova Iorque, a que respondeu, sempre simpatiquíssima.
Isto fará de mim machista?
Vem isto a propósito da entrevista de ontem ao DN da deputada Isabel Castro.
Durante a entrevista, a deputada contorna completamente a questão (para ela incómoda, mas a meu ver válida) da legitimidade política do partido que representa (o Partido Ecologista). E a determinada altura tem esta afirmação: “E há uma nota, na observação do primeiro-ministro, absolutamente fantástica, que é dizer que até «simpatiza com a senhora». (...) Há [aqui] uma enorme dose de machismo. Porque o primeiro-ministro nunca diria de um deputado, homem, «eu até simpatizo com o senhor».
Não sei se é este o caso de Durão Barroso, mas eu quando simpatizo com alguém tanto digo “simpatizo com a senhora” como “simpatizo com o senhor”. Como queria Isabel de Castro que Durão Barroso dissesse que simpatiza com ela?
Também eu escrevi aqui um texto em que contava as minhas boas experiências com judeus norte-americanos e o que tinha aprendido com eles. Pois não faltou quem dissesse que só um "anti-semita" teria necessidade de estar a afirmar o que afirmei...
Não teremos todos nós uma tendência para nos ofendermos muito facilmente? Fala-se muito na hipocrisia de certa correcção política nos EUA. Mas e que dizer da paranóia a que se chega aqui em Portugal?
É possível que, a lidar com estas e outras minorias e os seus problemas específicos, eu pareça algo insensível. Preocupo-me com as minorias e sou contra todo o tipo de discriminação (negativa e positiva). Agora, penso muito mais no conjunto do que em cada indivíduo em si, e procuro analisar as coisas racionalmente.
Para os casos menos graves de hipersensibilidade e hipercorrecção política, sugiro uma cura de audição e leitura intensivas de Caetano Veloso. Ver o Seinfeld também ajuda.
Mas a minha impressão é que isto anda mesmo tudo maluco.

Publicado por Filipe Moura em maio 17, 2004 12:34 AM | TrackBack
Comentários

E o mais engraçado, Filipe, é que tenho quase a certeza que o Durão já tinha dito ao Francisco Louçã – com sinceridade ou hipocrisia, isso fica ao critério de cada um –, naquele mesmo edifício, que simpatizava com ele. Será que o homem também estava a ser machista com o Louçã?

Abraço,

Leonardo

Afixado por: Leonardo Ralha em maio 17, 2004 02:47 AM

Filipe- Cada vez simpatizo mais contigo.
Falando a sério, e isto também pode parecer "paternalista" ou coisa do género, mas acho que os teus posts tem melhorado a olhos vistos. Tinha de o dizer.

Afixado por: Emiéle em maio 17, 2004 09:31 AM

enquanto houver pessoas que sentem exactamente esses sinais de superioridade, a simples utilização racional dos termos é mal-entendida. para mim, isabel de castro deve dizer "pobrezinhos" e os "negros coitadinhos" e "gordinhos" sem ver aí qualquer discriminação. Bahh. Tá tudo maluco mesmo, filipe.

Afixado por: filinto em maio 17, 2004 09:51 AM

Viva o "Berloque de Esquerda"!!!!
Ah grandes machos....

Afixado por: jc em maio 17, 2004 11:59 AM

Filipe, como o teu post me remeteu para uma série de referências, comentei em versão post no Renas. Um abraço

Afixado por: Pagan em maio 17, 2004 05:40 PM

os trackbacks são automáticos, que cool! Boa, Movable Type and Paulo Querido, of course!

Afixado por: Pagan em maio 17, 2004 06:11 PM

O Durão podia usar uma expressão mais fracturante, embora pouco verdadeira, do genero "apesar de seres uma brasa".
Assim tentou ser educado, passou por machista.

Afixado por: provocador em maio 17, 2004 06:18 PM

Na questão do machismo penso que nada mais há a acrescentar. Quanto a uma outra questão colocada pelo Filipe - a legitimidade do PEV - também a considero válida.

Não critico os Verdes por terem sempre concorrido no seio de coligações. Afinal, estas são mecanismos permitidos aos partidos para evitar dispersão de votos. Veja-se o caso paradigmático da união pré-eleitoral de UDP, PSR e PXXI. O Bloco de Esquerda resultante alcançou resultados que nunca os três partidos alcançaram em separado. Foi uma vitória da inteligência, pois uniram-se esforços depois de descobertos pontos em comum.

Voltando aos Verdes, o que é que os levou a coligarem-se com o PCP nas eleições para a autarquia de Barrancos em 2001? O candidato apresentado pela CDU (PCP-PEV) foi António Pica Tereno, grande defensor dos touros de morte. Ora, nenhum partido ecologista que queira ser levado a sério entra numa coligação encabeçada por alguém que tem esta noção de direitos dos animais!

Mas se discordo desta actuação do PEV, também não concordo mais com a atitude de Durão Barroso na AR. Se ele não reconhece validade política ao PEV por este ter concorrido numa coligação pré-eleitoral, qual será a validade política do governo, que resulta de uma coligação pós-eleitoral e, como tal, nunca colocada à consideração dos eleitores?

Afixado por: Luís Humberto Teixeira em maio 17, 2004 06:47 PM

Senhores, convém ler a coisa nas entrelinhas. É óbvio que a Isabel Castro optou por desfazer-se de toda e qualquer simpatia endereçada por Durão Barroso. Não quis dar margem política para que sobrevivesse no ar qualquer indício de «simpatismo» entre ela e o PM. Caso agradecesse o «cavalheirismo», o «beijo na mão», cederia por pouco que fosse ao «charme» político de Barroso. Isabel Castro fez o jogo contrário - anulou em dose dupla o cumprimento de Barroso. Fê-lo em cinzas. Voltou tudo à estaca 00-00.Ou seja, o veneno habitual.

Afixado por: thirdbacus em maio 17, 2004 07:15 PM

É claro que Isabel Castro poderia ter sido mais sofisticada no «rechaço», mas Isabel Castro não é propriamente uma Natália Correia.

Afixado por: thirdbacus em maio 17, 2004 07:25 PM
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