O começo da história é já de todos conhecido: uma vez que a moral do povo americano parece ser algo débil, a sua Administração decidiu protegê-la do impacto nocivo que a visão de caixões cobertos pela star spangled banner poderia causar. (O efeito já provocara estragos durante a guerra do Vietname...)
Vai daí, ficou proibida a divulgação de fotografias da chegada dos esquifes à land of the free. O boicote durou até que o Seattle Times publicou a imagem que encima este texto. Essa fotografia, feita à socapa por uma civil no aeroporto do Kuwait, valeu inúmeras críticas ao jornal e o despedimento à sua autora.
Agora, a CNN conta-nos como o activista da Primeira Emenda Russ Kick conseguiu que o Exército lhe cedesse centenas de imagens similares, que podem ser vistas aqui. Pouco depois, o todo-poderoso Pentágono veio interditar o prosseguimento desta capitulação desprestigiante.
O único comentário que uma tão triste história me sugere já foi há muito escrito, por mãos bem mais capazes que as minhas:
Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.
Na improvável eventualidade de que alguém não o conheça bem, aqui fica o belíssimo e arrepiante poema de Pessoa:
O Menino da sua Mãe
Fernando Pessoa
No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
– Duas, de lado a lado –,
Jaz morto, e arrefece.
Raia-lhe a farda o sangue
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.
Tão jovem! Que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».
Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
É boa a cigarreira,
Ele é que já não serve.
De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.
1926
O poema é lindo. O comentário maldoso. A norma "censuratória" é de 1991 e atravessou duas administrações (republicana e democrata), e ainda mais conflitos (Somália, Afeganistão, Bósnia, Jugoslávia...). É óbvio que a norma é de uma utilidade política sem comparação, mas o argumento do "respeito pelas famílias" ou evitar que as imagens de soldados mortos sirvam de manifesto político está acima de destas considerações. Qual de nós gostaria de ver um filho morto como capa de uma revista?
Afixado por: RMD em abril 23, 2004 04:21 PMA norma é antiga e eu não escrevi outra coisa. Mas o facto é que agora foi reafirmada com veemência redobrada.
Quanto ao "respeito pelas famílias", é elucidativo comparar as declarações que surgem na peça da CNN - que não é bem o "Avante"...
Um subsecretário de estado afirma que "we don't want the remains of our service members who have made the ultimate sacrifice to be the subject of any kind of attention that is unwarranted or undignified".
A mãe de um combatente falecido é de opinião que "we need to stop hiding the deaths of our young; we need to be open about their deaths".
Portanto, a coisa não é assim tão clara, sobretudo porque não se trata de mostrar corpos mas sim caixões inidentificáveis e cobertos por bandeiras.
Mais: o que me parece desrespeito é esconder estes cadáveres como se fossem lixo embaraçoso que urge varrer para debaixo do tapete mais próximo.
Além da autora da fotografia foi despedido o marido dela, que nada teve, aparentemente, a ver com o caso.
Quem quiser ler mais pormenores sobre a história em português pode ir ao Sítio do Sindicato dos Jornalistas.
Obrigado, Luís Humberto. E lá estava eu na CNN quando a história até já por aqui andava... Sorry.
Afixado por: Luis Rainha em abril 23, 2004 05:02 PMÉ exactamente pelo facto de não ter escrito que a norma é antiga, de não ter explicado qual é realmente o argumento utilizado, que disse que o seu comentário é "maldoso". Posso, se quiser, chamar-lhe "insinuante"...o que confesso agora, seria bastante mais justo. E de tudo o que escreveu as únicas palavras com que discordei, foram mesmo estas últimas "do lixo embaraçoso". Convenhamos que a dignidade com que os meninos tratam os seus, mesmo "debaixo do tapete", é digna de registo.
Afixado por: RMD em abril 23, 2004 05:13 PMQue carregamento!Realmente, colocando-me na pele de um comum cidadão norte-americano, é caso para dizer - o que os olhos não viam o coração não sentia. Veremos as sondagens nos próximos dias.
NB: A foto[enquadramento] no Barnabé é um pouco mais forte.
Afixado por: thirdbacus em abril 23, 2004 06:11 PMLR: "O começo da história é já de todos conhecido: uma vez que a moral do povo americano parece ser algo débil"
Debilidade moral do povo americano:
100.000 cruzes brancas nas costas francesas do desembarque, que livrou a Europa da Besta nazi.
Intervenção no Vietnam, durante três administrações das duas cores políticas, durante mais de 10 anos. A moral, caramba, aí resistiu muito. E só foi abaixo, por ironia, quando já a vitória militar estava garantida.
Intervenção no Kwait libertando-o da sanguinária pata de Saddam
Intervenção nos balcãs - que a Europa não avançava sozinha, assistindo aos massacres em massa sem poder nem vontade política una.
Intervenção no Kosovo
....... a lista segue, como se sabe.
E em nenhum destes casos, repito, NENHUM, se tratou de guerras imperialistas de conquista de território, como as que os europeus fizeram tantas vezes.
Debilidade da moral do povo americano. Até enternece... como dizia o Eça...
Afixado por: Diabolus in Musica em abril 24, 2004 03:21 AMDiabolus, não costumo fazer intervenções deste género mas, por favor, leia um pouco da história balcãnica recente antes de falar das intervenções na ex-Jugoslávia. Já passaram mais de dez anos desde o início do conflito. Não estará na hora de procurar mais informação do que aquela que se reteve dos títulos dos jornais da época? Sentenças destas, de ouvir dizer, de ler na diagonal, tiram-me do sério. Peço desculpa.
Afixado por: CMF em abril 24, 2004 04:25 AMCMF, você não me conhece, não faça juízos sobre o que eu leio ou como leio, só porque se irritou com o meu post. Bom dia.
Afixado por: Diabolus in Musica em abril 24, 2004 12:31 PMmas para que interessam os factos se estamos a falar de ideologia? estamos num blogue de esquerda logo, por obrigação, anti-americano. Depois virá o resto mas a primeira premissa é esta.
Afixado por: pedro em abril 24, 2004 01:04 PMCaro Diabolus, tem razão, eu não sei o que lê, nem como lê. Apenas posso falar daquilo que eu li, que foi o seu comentário. E este revelou desconhecimento dos factos ou preguiça em aprofundar a questão. Fala na intervenção nos balcãs (suponho que se refira aos ataques contra as posições sérvias na Bósnia em 1995) e na intervenção no Kosovo. Se for verdade que o pretexto para o primeiro ataque era falso (o ataque ao mercado de Sarajevo) e que a razão principal para o segundo nunca foi provada, poder-se-ão referir os ataques com tal leviandade, incluíndo-os numa lista da qual muita coisa, também, poderia ser dita? Nestes sistemas de comentários cada um é livre de dizer o que lhe apetecer. Mas não devemos todos preservar a seriedade do debate? Não me parece que seja com o arremesso cego, pelos dois lados, dos lugares-comuns ideológicos(!?) que se conseguirá o nível de discussão desejado.
Afixado por: CMF em abril 24, 2004 01:39 PM