Num post de há três dias, lembrei-me de pisar os terrenos movediços da ironia: "Para o ano, se calhar, a comparação já será feita com o ano de 1973. Ou de 1975. O que interessa é ver as bonitas setas dos gráficos a descolar, voando rumo aos promissores céus do progresso e da qualidade de vida. A ninguém interessa que tenha havido uma revolução pelo meio."
"Se calhar"? "Para o ano"?
Era fatal como o destino. E já aconteceu. No "Expresso" desta semana, anda um anúncio de página inteira que nos maravilha com a evolução do número de lares com electricidade, desde 1970. Na TV, já vi hoje um cartaz que fala em "31 anos", a propósito, julgo eu, da quantidade de licenciados portugueses.
Precisamente o que eu só por brincadeira previra: a "Evolução", afinal, não precisou do 25 de Abril de 1974 para nada. Já começara alegremente quatro anos antes, pelo menos. Sem agitações. Sem "R" na bendita palavra.
Eis a História refeita para se conformar à visão conservadora. Comemora-se Abril - porque daria demais nas vistas ignorar a data - mas apenas como mais um passo numa marcha lenta e contínua. Afinal, o progresso que o governo agora celebra já vinha de trás; se calhar, a Revolução até veio atrapalhar esta lenta marcha rumo a mais electrodomésticos, mais auto-estradas.
Aios os patam.
E cuidadinho, que se alguém se lembra de comparar com 1909 temos ainda muito mais licenciados, água canalizada, e nem se fala da luz eléctrica. Andando, andando, ainda se chega à Monarquia. Já viram bem a grande evolução?
Afixado por: L.G. em abril 18, 2004 07:11 PMMas é que aios os patam MESMO!...
Afixado por: Jorge em abril 19, 2004 03:18 AM