abril 17, 2004

VERSOS QUE NOS SALVAM

Manuel Resende é sobretudo conhecido como tradutor (notável, diga-se), mas os leitores mais atentos sabem que a sua prosa insubmissa também andou à solta, para quem a quis apanhar, nesse magnífico blogue chamado Quartzo, Feldspato & Mica. Há umas semanas, no acaso das deambulações pelas livrarias lisboetas, descobri um livrinho que ele editou na & Etc, em 1997. E como sou um tipo generoso, aqui vos deixo dois belos poemas do volume «Em Qualquer Lugar seguido de O Pranto de Bartolomeu de las Casas», com um abraço de gratidão ao seu autor:


PENSAMENTO DE KAVÁFIS VELHO

Num café mesquinho e sujo, os teus olhos me buscaram,
Brasas negras sem morada pairando no ar ralo.
Estou velho e murcho, o corpo vai-me comendo a alma:
Porque me procura a tua beleza escandalosa?

Dinheiro, não tenho, nem o desejo me visita;
E, quando te vejo, vejo os amantes que já tive.
Mas o que buscarás tu nesta vela no pavio?
Eros não pode viver em cidade tão viscosa.

O meu amor não precisa já de nenhum pretexto,
Nem do suporte do corpo, nem de feitos de atleta,
Vive das noites já idas, da memória indiscreta
Onde hei-de enterrar a tua imprevidente proposta.

Vou-te dizer em verdade o que em mim me preocupa:
Beber teus olhos mancebos, o teu corpo sem rugas,
Roubar-te toda a beleza, deixar-te nu na rua.
Só percebemos a vida quando já murcha a rosa.

EU GOSTO DAS PALAVRAS

Eu gosto das palavras e do canto
E dos ecos que trazem à lembrança,
Dessas canções de frança e aragança,
Que são só sons que cobrem, como um manto,

O que têm que cobrir, porque, entretanto,
Já há, profissional, uma ordenança
A recolher em fichas, sem parança,
O tom, o cheiro, o muco, do seu pranto.

Que cante, e dance, e viva, e morra, e vibre,
Que se desdobre em nervos e minutos,
E seja para sempre eterno e livre

O grito que se ergueu irresoluto
Desse sítio onde o corpo se coíbe
E súbito triunfa do seu luto.

Publicado por José Mário Silva em abril 17, 2004 12:22 PM | TrackBack
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