Num jantar do Bloco um jornalista pergunta a um dirigente o que acha de serem conhecidos como “esquerda caviar” ao que este responde que o prato é bacalhau, não está ali a ver nenhum caviar. Um professor meu, que é uma figura mediática (como são quase todos os professores da Nova), conta este episódio para dizer que uma esquerda que não sabe reconhecer uma figura de estilo, nem tem capacidade de auto-ironia, nem de superar a ironia com uma resposta irónica, é porque algo de errado se passa em termos ideológicos. Mas desde quando é que os partidos alguma vez tiveram essa capacidade?
A ironia funciona como ferramenta e arma contra uma autoridade dominante, sobretudo contra aqueles que defendem um discurso sem ambiguidade, que é especificamente o discurso da propaganda, o discurso dos partidos, tenham a linha que tiverem. Como nos lembra Linda Hutcheon, estudiosa da ironia, a função subversiva da ironia está ligada à ideia de que é um modo de auto-crítica, auto-conhecimento, auto-reflexão susceptível de desafiar a hierarquia do discurso, baseada nas relações sociais de dominação. Hutcheon alega ainda que é a intimidade que faz da ironia uma estratégia eficaz de oposição, no acto de se apropriar da linguagem do discurso dominante, do seu poder. A ironia tem, no entanto, um carácter transideológico e pode servir para os mais variados fins. A coexistência de elementos dialógicos no seu processo revela a sua potencialidade para ilustrar o mundo de contradições em que o homem vive e é figura de conflito. Por isso, nunca poderá ser uma arma da política que é exercida pelos partidos, onde a linguagem é linear e não sabe lidar com a ambiguidade. Aí não se pode esperar ironia. Um partido que consiga reinventar a linguagem da política ainda está para vir.
Da resposta seca de um dirigente do Bloco de Esquerda a um jornalista à caracterização generalizada de "uma esquerda que não sabe reconhecer uma figura de estilo, nem tem capacidade de auto-ironia (...)" também vai um percurso ideológico (mental) bastante interessante da parte do seu professor. Não me parece uma voz nada imparcial. De resto, retirar grandes conclusões generalistas a partir de casos específicos (com o significado que cada um lhes quiser dar) é um dos principais talentos dos demagogos...
Afixado por: Daniel Carrapa em abril 16, 2004 09:44 AMAdorei este post, mas tenho duas perguntas a fazer: A ironia pode ser também uma espécie de linguagem secreta que funciona de forma, não subversiva, mas elitista? E como explicar que a ironia seja mais utilizada entre as classes altas, com poder, e não entre as classes baixas?
Afixado por: J em abril 16, 2004 09:59 AMJ: onde foste buscar essa brilhante constatação da "origem de classe" da ironia? é uma afirmação sem fundamento algum, só pssível de ouvir a alguém que está muito longe do contacto com as ditas... "classes baixas"! (será tb ironia de classe alta, esta expressão?)
Afixado por: Cristina em abril 16, 2004 11:02 AMA ironia é, acima de tudo, uma manifestação de cariz cultural. Veja-se o caso inglês, o exemplo fácil é o da comédia britânica com a qual estamos bem familiarizados, ou também, se tiverem oportunidade de assistir aos debates da camara alta, nota-se facilmente que o discurso político desenvolve-se muitas vezes em bases irónicas. À primeira vista, a ironia como laço na retórica directa, aquela que suporta propósitos (políticos) que se querem definidos e que, embora complexos e portanto ambíguos, se deveriam afastar, quando discutidos, do discurso ambíguo (a discussão de uma causa ambígua não deve ser discutida ambiguamente, é o que quero dizer) que serve a “desconversação” (uma arte muito desenvolvida no nosso país), serve ela própria (a ironia) a “desconversação”. No entanto, o seu carácter labiríntico pressupõe uma inteligência sobre o propósito defendido que se desenvolve não tanto fundada no conhecimento sobre o propósito defendido como numa matriz de pensamento e de consciência que possibilita o revolvimento das premissas em que o propósito defendido se sustenta. Daí o seu carácter subversivo e auto-reflexivo mas, sobretudo (quando não se trata de ironia fácil porque também a há) um acto de consciência. Daí o cariz cultural que digo ser necessário. Ora bem, na minha opinião (e não sei se vou ser insultado por isto), o nosso país não prima por exemplos de consciência social, sobretudo na política. Da “esquerda caviar” até à “direita dos beijos na feira”, todo o quadrante político abunda de inconscientes. Embora consigamos notar melhorias progressivas, mas coxas, na qualidade da política que se pratica no nosso país, ainda é patente que a filosofia que impera é terceiro mundista, cada participante serve os seus próprios interesses (e isto ocorre em todo o mundo, sim, e em alguns sítios mais do que aqui) muito antes de sequer pensar que a política deve servir os interesses de uma comunidade. Daí que as nossas sessões parlamentares, os congressos partidários, as campanhas eleitorais, sejam todas elas marcadas não pela ironia, mas antes pela indignação (Como é que o sr. X não é capaz de entender isto da mesma forma que eu ?!), pelo desprezo (Oh, por favor, sr. deputado!!!), pelo insulto brejeiro (Devia ter vergonha!), isto é, por formas de anti-discurso que não pressupõem a inteligência, a perspicácia e a clarividência que a ironia exige. E, dói-me a alma, que os mestres da ironia em Portugal, a nível parlamentar, sejam precisamente esses artífices de linguagem da “direita bacalhau” e da “esquerda caviar”, Paulo Portas e Francisco Louçã. Triste sina a nossa.
Afixado por: BMA em abril 16, 2004 11:41 AMMas para quê "reinventar a linguagem da política"? O que é preciso não é reinventar linguagem nenhuma. O que é preciso é falar claro, e é isso que a esquerda não faz. (E tem sido esse o grande contributo da blogosfera, a meu ver.) A esquerda anda a jogar à defesa desde a queda do Muro de Berlim.
Afixado por: Filipe Moura em abril 16, 2004 12:19 PMSó se tivermos definições diferentes de ironia, Cristina. O meu caderninho diz que a ironia é um enunciado cujo verdadeiro sentido não pode ser apreendido sem conhecimento do contexto (no que se distingue do sarcasmo em que pode). Logo a compreensão da ironia implica, à partida, conhecimento e conhecimento, deves concordar, é poder.
Não digo que os mais desfavorecidos não tenham uma sabedoria própria, muito pelo contrário, mas essa sabedoria é marginal ao conhecimento necessário ao poder.
Isso explica a ironia como código secreto e exclusivo (sim, de exclusão). Quando se emprega a ironia está-se a comunicar para aqueles "in the know" e a menosprezar todos os outros.
Ao mesmo tempo, a ironia é uma forma de dominação verbal e esta é mais típica de classes educadas. Entre os mais desfavorecidos a dominação é normalmente exercida de forma física.
Não vou entrar aqui em pormenores sobre o comportamento social de classes altas e classes baixas mas peço-te que analises as séries cómicas mais populares (como os Malucos do Riso) e as sérias cómicas "de culto" (como o Black Adder ou os Monty Python). Em quais consegues identificar o humor apenas pelo texto ou precisas de recorrer aos teus conhecimentos culturais para identificar a piada?
Podes também ler estes dois artigos:
http://www.guardian.co.uk/weekend/story/0,3605,985375,00.html
http://www.guardian.co.uk/g2/story/0,3604,1192025,00.html
Não é ironia nem insulto falar em classes baixas, pobres, miseráveis ou outro, pois é mesmo assim que estes se chamam a si próprios e não "indivíduos com necessidades básicas insuficientes". Isso é o género de designação empregue por quem se acha moral e socialmente superior aqueles.
É engraçado que eu até acho que a resposta é algo irónica. E sarcástica.
Afixado por: Pedro Sales em abril 17, 2004 01:40 AMEsses professores, esses professores...não há palavras.
Afixado por: thirdbacus em abril 17, 2004 05:42 AMparece-me um bocado forçada a opinião do J de que a ironia é mais utilizada pelas classes com poder do que pelas restantes.
claro que é fácil fazer a constatação básica de que todos os grupos a usam mas haverá critérios que permitam avaliar até que ponto uns a usam mais do que outros ?
parece-me um bocado forçada a opinião do J de que a ironia é mais utilizada pelas classes com poder do que pelas restantes.
claro que é fácil fazer a constatação básica de que todos os grupos a usam mas haverá critérios que permitam avaliar até que ponto uns a usam mais do que outros ?
uma das coisas que mais me irritam é fazer comentários repetidos, sorry não sei como aconteceu.
só mais um comentário. vi há um ou dois dias na televisão uma reportagem sobre um "evento" onde estavam figuras de esquerda. o repórter ( se é que aqueles gajos e miudas que aparecem nessas cenas de microfone na mão são repórteres...) fazia uma pergunta estupida aos politicos do género "se mandasse quem é que mandava raptar?" (acho que era raptar). ora se um politico de esquerda por qualquer razão mais ou menos estupida vai a um evento mais ou menos estupido, o minimo que se lhe pede é que tente responder com alguma graça às perguntas estupidas, e o que se via era os gajpos a fazerem um arzinho enjoado... "eu não rapto ninguém " etc.... OK, admitamos que a politica não pode ser só imagem mas as pessoas têm mesmo que passar por parvas e caras de pau? Se não estão para "patetices" porque é que não vão curtir a outro lado?