abril 15, 2004

A NOVA RESISTÊNCIA E A DEMOCRACIA DOS HIPÓCRITAS

Tariq Ali é um intelectual e artista paquistanês que vê o conflito do Iraque de forma ousada e libertária, dentro da linha de uma certa esquerda. Ensaísta político, editor, historiador, marxista crítico da experiência soviética, é também autor de romances, argumentos para cinema, textos para teatro e óperas – uma delas sobre Khomeini. Apoia e participa nos Fóruns Sociais Mundiais. Este seu texto foi originalmente publicado no jornal italiano Il Manifesto e eu tirei-o do boletim on-line Porto Alegre.

Logo após a ocupação, os Estados Unidos e seus aliados – os militares e os ideológicos – apresentavam a resistência iraquiana como “elementos estrangeiros”, “terroristas”, ou “ex-seguidores do regime de Saddam”. Esta fraseologia, porém, tornou-se inócua, e agora os porta-vozes militares norte-americanos referem-se à guerrilha definindo-a simplesmente como “forças anti-iraquianas”, como para sugerir que as tropas estadunidenses, inglesas, espanholas, búlgaras, ucranianas, italianas, japonesas, sul-coreanas e polonesas representam o Iraque, enquanto os iraquianos que resistem à ocupação são o anti-Iraque. Estranho mundo...

Quando as mentiras utilizadas por Bush, Blair, Aznar e Berlusconi perderam crédito junto da opinião pública, porque não se encontraram as armas de destruição em massa, os escritórios de propaganda de todos estes governos, e seus jornalistas favoritos mudaram de linha. Começaram a dizer: “Bem, talvez não haja armas, mas livramos o mundo de um tirano e levamos a democracia ao Iraque”. A sério? Democracia? Ainda que ponhamos de lado os muitos milhares de civis iraquianos mortos, e os que têm vindo a cair nos últimos dias, esvaiu-se agora qualquer discurso de democracia que tenha um mínimo de significado.

O velho ideólogo imperial Samuel Huntington fala de um “paradoxo democrático”. Sabem o que isso significa? Quando a democracia não exprime o que o Ocidente gostaria que exprimisse, surge um “paradoxo”. E para a democracia capitalista de hoje, qualquer desafio à ordem económica neoliberal é um paradoxo. Os iraquianos, a quem não agrada que seu sistema de saúde e educação seja privatizado, vivem, “no passado”. Os profissionais iraquianos, que desprezam as corporations introduzidas com a invasão, são “elementos atrasados”. Quando os homens de negócios estrangeiros são atacados, os iraquianos de todas as classes (excepto os colaboracionistas) comemoram. As companhias estrangeiras são vistas como um enxame de gafanhotos que vêm devorar o país ocupado.

Novas alianças contra a ocupação

É óbvio que se no Iraque a democracia fosse finalmente consentida, os representantes eleitos exigiriam a remoção de todas as tropas não-iraquianas, o controle iraquiano sobre o petróleo do Iraque e talvez um acordo de paz de longo prazo com o Irã. Nada disso serve aos interesses imperiais. Henry Kissinger e outras aves de rapina sugerem, em contrapartida, a balcanização do Iraque. Daí os discursos sobre uma guerra civil iminente. Daí a provocação de bombardear os peregrinos em Kerbala (um crime não assumido por ninguém, no Iraque). Nem o discurso dos religiosos sunitas e xiitas, nem o das forças laicas de origem sunita e xiita, destoa hoje da ideia de um Iraque unido contra a ocupação colonial. O aiatolá xiita Sistani encontrou-se com os líderes sunitas para enfatizar a unidade do país. Em privado, frisou que um modelo clerical à iraniana seria um desastre para o Iraque. Moqtada al-Sadr fala de libertar o país, não de um Iraque xiita.

Nas últimas duas semanas, tornou-se claro que, com excepção dos líderes curdos, o resto do país é contra a ocupação e quer o seu fim imediato. No interior dos grupos religiosos xiitas, está agora em curso uma luta aberta para conquistar o apoio das massas no Sul. A decisão das forças de ocupação de provocar os habitantes de Falluja (apenas dois dias antes que os quatro mercenários norte-americanos fossem atacados e brutalmente mortos, um ataque de marines resultara na morte de dez civis) é claríssima. Por que o jornal de Al-Sadr foi fechado pelos ocupantes? Quando as palavras são proibidas, as bombas tomam seu lugar. Ouçam os sinos que dobram em Falluja e Bassora.

O Iraque e seus habitantes continuam a sofrer. O poeta Sinan Anton leu há poucos dias, em Bagdade, um poema que evoca a atmosfera reinante:

O Eufrates
é uma longa procissão
As margens acariciam as cidades,
enquanto as palmeiras choram

A resistência não é um filme de Hollywood

A decisão de Al-Sadr e seus seguidores, de se unir à resistência, levou milhares de pessoas às ruas, e representa um novo desafio aos ocupantes. É inútil que os ocidentais vertam lágrimas hipócritas pelo Iraque, ou lamentem que a resistência não tenha os altos padrões ocidentais. De que resistência falamos? Quando uma ocupação é repugnante, a resistência não pode ser doce, excepto num filme de Hollywood ou numa comédia italiana. E se os partidos religiosos dominam no sul do Iraque, isso deve-se em parte ao apoio que os Estados Unidos e o Reino Unido deram a alguns deles, nos últimos doze anos.

A solução, para muitos de “centro-esquerda”, é transferir o controle do país à ONU. Foi assim já em 1924, quando os britânicos governavam o Iraque por meio de um mandato da Liga das Nações, que eles próprios haviam imposto. Os EUA poderiam facilmente contar com um mandato análogo do Conselho de Segurança, e garantir, assim a permanência de suas bases militares no país por mais vinte anos. Mas o que ocorrerá se não for possível obter esta solução, que visa perpetuar o controle, enquanto se transmite à opinião pública mundial a ideia de que os nativos retomaram o comando sobre seu país? Washington voltará aos bombardeios e aos “danos colaterais”? (as vidas dos civis importam pouco ao Ocidente, como vimos no Iraque e Afeganistão). “Sim”, poderia argumentar um bom liberal, “mas substituir os EUA pela ONU não seria um primeiro passo?” A resposta poderia vir na forma de outra pergunta: isso não depende de quem controla e decide o que as Nações Unidas fazem? E quem decidirá?

Para os cidadãos dos países cujos governos e líderes apoiaram a guerra, a prioridade deve ser o castigo dos que cultivam a violência e a rapina – a exemplo do que fizeram os espanhóis. Se Aznar for seguido no Valhala por Berlusconi, Blair e Bush, esta será uma vitória importante. E então devemos montar uma campanha para que seus sucessores acabem com a ocupação. O uso puro e simples das Nações Unidas poderia revelar-se um pretexto para livrar a cara dos invasores. Nada mais que isso.
Tariq Ali

Publicado por Marta Lança em abril 15, 2004 03:57 PM | TrackBack
Comentários

Bom regresso, Marta. E muitos parabéns por aquilo que ainda não sei se é suposto saber-se (mas eu sei).
;)

Afixado por: José Mário Silva em abril 15, 2004 04:33 PM

Obrigado Zé Mário. Em relação a isso, espero que se confirme absolutamente. Vou tentar ser fiel aqui à casa, anda a precisar de um toque feminino, não é Guida? Também tenho saudades do Francisco, mas agora calculo que seja uma pessoa muito ocupada...

Afixado por: Marta Lança em abril 15, 2004 04:51 PM

no meu entender,era melhor um contraste menos degenerador da intenção de,novas só depois dos trinta,sem levar o valente superior ao fim da sua especulação. Em forma,adoro fazer colagem de sujeitas a tudo sem amor!

Afixado por: triciclo em abril 15, 2004 10:07 PM

Era para perceber?

Afixado por: Marta Lança em abril 16, 2004 01:33 AM

Acho que não, Marta. Nunca é... Beijinhos.

Afixado por: SP em abril 16, 2004 02:27 AM

"Quando as mentiras utilizadas por Bush, Blair, Aznar e Berlusconi(...)" e o Durão? ele até apareceu nas fotografias!!! coitadito, ninguém lhe liga...

mas nós sabemos, nós aqui neste nosso cantinho sabemos, ele também (nos) mentiu.

Afixado por: nuno em abril 16, 2004 03:22 PM
Comente esta entrada









Lembrar-me da sua informação pessoal?