abril 15, 2004

O 25 DE ABRIL DOS CONSERVADORES

A ideia de substituir a Revolução de Abril por uma mais civilizada e anódina "Evolução" já tem dado muito que falar.
Houve quem se espantasse com a audácia descarada da ideia. Não percebo bem porquê. Para um conservador, a própria ideia de revolução é um embaraço. Ele prefere imaginar a História como um fluxo tranquilo, sem rápidos traiçoeiros e livre de turbulências perigosas. Para que o progresso faça mesmo sentido, deve obedecer apenas a um lento moldar da nossa realidade social à "verdadeira" essência do ser humano; processos mais urgentes ou abruptos são de relegar para a prateleira das aberrações sem significado especial…
Para este conservador bem-pensante, devemos até evitar que as massas ignaras sequer sonhem que pode haver melhor forma de cuidar dos seus destinos do que confiar na "gestão" e nos "aperfeiçoamentos" "implementados" pelas elites - sempre com máxima temperança, claro.
Há uns tempos, a moda era proclamar o fim da História; agora, suspira-se pela atenuação da História, pelo nivelamento dos seus cumes e vales numa planície isenta de acidentes topográficos. Um espelho sereno que se estende ininterrupto em direcção ao futuro, mas que também engole o passado. Assim, o estadista conservador poderá gabar os "combatentes do ultramar" enquanto bajula, sem sobressaltos morais, os ladrões que mandam em Angola. Não há contradições em territórios onde a memória histórica é coisa fluida e "subjectiva".

À laia de caução, o ministro Sarmento sempre foi dizendo que quer falar "à geração para quem o 25 de Abril é uma data da História, como o 05 de Outubro, e para quem a liberdade e a democracia são valores adquiridos". Solução? Comparar indicadores de nível de vida do "Antes" e do "Agora". Ignorar como minudência irrelevante o dia que ficou a separar aqueles dois tempos: o 25 de Abril. Esquecer que no "Antes" havia gente presa, torturada e morta por ousar imaginar Portugal num "Agora" onde se pudesse viver sem mordaças nem algemas quotidianas.
Como "liberdade" e "democracia" correm o risco de decair em "valores adquiridos", o melhor é nem falar neles. Toca a esconder que, há apenas 30 anos, se podia ir dentro só por enumerar esses substantivos em voz alta. Óbvio, não é?

Morais Sarmento começou logo por nos assegurar que as comemorações "não podem ter nenhuma carga subjectiva ou política", mas devem focar a evolução do país, pois "é de evolução que se trata quando comparamos o país em 1974 com o de 2004".
Para o ano, se calhar, a comparação já será feita com o ano de 1973. Ou de 1975. O que interessa é ver as bonitas setas dos gráficos a descolar, voando rumo aos promissores céus do progresso e da qualidade de vida. A ninguém interessa que tenha havido uma revolução pelo meio. Pensar nisso representaria apenas mais uma "carga subjectiva ou política" a esforçar as meninges, que se desejam tranquilas, do bom povo português.


PS: As próximas ideias do ministro-boxeur passam, ao que consta, por falar aos jovens da Internet, de DVDs e de telemóveis. Isto a propósito da (R)Evolução de Abril. Porquê? Sei lá; talvez porque, nas palavras do fulano, importa mais "olhar para a frente do que olhar para trás". Amanhã, os nossos filhos talvez acreditem que o e-mail foi a grande conquista de Abril...

Publicado por Luis Rainha em abril 15, 2004 03:50 PM | TrackBack
Comentários

Não tenho acompanhado esta 'polémica', no entanto, acho que a ideia de evolução prende-se mais ao que se quer no presente: Uma constante 'evolução' para a democracia.

Cumprimentos.

Afixado por: André em abril 15, 2004 04:01 PM

Desculpa lá, Luís, mas essa distinção entre o “antes” dos presos políticos e o “agora” da democracia – pelo menos para aqueles que acreditam nessa tãããããão tenebrosa democracia formal – esquece o “logo a seguir” que pouco ou nada teve de democrático e que, sinceramente, acho tão comemorável quanto um surto de ebola.

Afixado por: Leonardo Ralha em abril 15, 2004 05:06 PM

Leonardo,
Desculpa lá, mas quem quer esquecer tudo o que aconteceu antes, durante e "logo depois" do 25 de Abril são os ideólogos desta campanha. Para eles, apenas indicadores sócio-económicos parecem dignos de registo, olvidando todas as realidades políticas. E estas também integram os episódios que referes.

PS: se me disseres quantos cadáveres causou esse "logo depois", talvez até aceite a comparação com um surto de Ébola...

Afixado por: Luis Rainha em abril 15, 2004 05:15 PM

Caro Luís.

Não entro na contabilidade de cadáveres, até porque – graças ao empenho de alguns políticos e militares (incluindo um bom número de representantes da esquerda moderada) – a gloriosa revolução em curso foi rapidamente estancada a tempo de não descambar em ainda maior privação de liberdade do que na gerência anterior.
Quanto à escolha da “evolução”, continuo a achar que me parece uma forma bastante decente de tornar o 25 de Abril comemorável por todos. Apesar de, por cada Otelo ter existido um Salgueiro Maia...

Abraço conservador,

Leonardo

Afixado por: Leonardo Ralha em abril 15, 2004 06:16 PM

Nos últimos dias, muito se tem discutido sobre o teor dos cartazes espalhados um pouco por todo o país, onde se faz referência aos trinta anos que passam sobre o 25 de Abril de 1974, referência essa acompanhada do termo "evolução". Ora, a esquerda não gostou que se retirasse a consoante "r" ao termo revolução, e logo veio dizer que a direita quer menorizar toda a envolvência histórica que deve ser dada à Revolução do 25 de Abril...
A este propósito, o editorial do Público de hoje, escrito por José Manuel Fernandes, dá, como se costuma dizer, "uma no cravo e outra na ferradura", abarcando a ideia de que o 25 de Abril foi, efectivamente, uma revolução que permitiu a evolução e progresso do nosso país, o que torna inócuo qualquer debate que tenha lugar sobre esta questão...
Ora, é esta ideia que a esquerda deveria compreender e assimilar, por forma a entender que, para todos aqueles que não viveram o 25 de Abril (e é sobretudo aos jovens que deve ser dirigido o teor dos ditos cartazes), considerar esta data como a porta de saída da ditadura e da censura, que permitiu o desenvolvimento de Portugal, é, de facto, interligar a revolução à própria evolução. Retornar às velhas ideologias massadoras e nada atractivas para a juventude portuguesa seria comemorar o 25 de Abril, retrocedendo no tempo e fechando os olhos ao futuro...

Afixado por: Peixoto em abril 15, 2004 06:28 PM

Caro Luis,

Penso que o Luis sofre, tal como alguma esquerda portuguesa, de uma certa falta de evolução. O seu martelo de censura bate ritmado e às cegas sem primeiro ver onde. O importante é martelar TUDO o que não surge da sua esquerda. Permita-me que lhe diga que não tenho cor partidária. Permita-me ainda que lhe diga que a campanha está bastante interessante.

Afixado por: João Nazaré em abril 15, 2004 06:31 PM

Peixoto
Justamente. O que falta nesta campanha , é mesmo apresentar "esta data como a porta de saída da ditadura e da censura". Em parte alguma se interliga a revolução à evolução; a questão política ausenta-se para parte incerta...

João Nazaré,
Eu também julgo a campanha interessante; e até reveladora de uma certa frame of mind conservadora. Foi sobre isso que escrevi, no essencial. Eu também estou carente da tal "cor partidária" e não estou aqui para "martelar" sobre o que quer que seja. Limito-me a emitir simples opiniões.

Afixado por: Luis Rainha em abril 15, 2004 08:19 PM

Para ques e evitem debates estereis sobre a direita e a esquerda dê-mos razão ao já longiquamente ido Artur e pensemos em circulo.
Veremos então que os termos Revolução e Evolução fazem parte de um valor maior onde o sentido de propriedade ideológica se torna um absurdo

Afixado por: zacarias em abril 16, 2004 01:03 AM

Não é nada do que vocês pensam: a queda do "r" deve-se à dificuldade que o ministro-boxer tem em pronunciar o dito cujo fonema. Já viram as voltas que ele tem de dar à língua para dizer "a guevolução de abeguil"? O Conselho de Ministros, sempre atento às dificuldades dos cidadãos, ainda que acumulem esta condição com cargos de governação (a Constituição não permite discriminações), resolveu poupá-lo, a ele e a nós, de embaraçosos tatebitates.'Evolução,pois então, seus maldosos!

Afixado por: teresa álvares pires em abril 16, 2004 02:37 PM

Bem visto, Teresa. LOL.

Afixado por: José Mário Silva em abril 17, 2004 11:23 AM
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