
No dia 25 de Abril de 1974, eu não ouvi, vinte minutos depois da meia-noite, a «Grândola» do Zeca na Rádio Renascença, o som das botas a marchar, aqueles versos libertadores («o povo é quem mais ordena/ dentro de ti ó cidade»), o sinal de que algo se iria romper na ordem cinzenta de um país sufocado, a certeza de que o fruto podre de um poder podre haveria finalmente de cair por terra. No dia 25 de Abril de 1974, eu não escutei o primeiro comunicado do MFA, lido pela voz de Joaquim Furtado na antena do Rádio Clube Português: «Aqui posto de comando das Forças Armadas». No dia 25 de Abril de 1974, eu não vi os soldados da Escola Prática de Cavalaria de Santarém a ocuparem o Terreiro do Paço, nem a marcha das chaimites através das ruas da cidade, nem o cerco ao Quartel do Carmo, nem Salgueiro Maia, de megafone em punho, apelando à rendição de Marcello Caetano, nem o Presidente do Conselho a exigir a presença de um oficial de patente «não inferior a coronel», nem a chegada de Spínola (altivo como sempre, de monóculo e pingalim), nem a espera tensa da multidão que ali se havia juntado, nem o silêncio que precede os grandes momentos da História, nem a bandeira branca da rendição hasteada no quartel, nem a alegria irreprimível do povo já certo da vitória, nem a saída de mansinho da chaimite Bula (com Caetano e dois ministros lá dentro) enquanto o Largo se enchia de um grito unânime: «Assassinos». No dia 25 de Abril de 1974, eu não vi os verdadeiros assassinos escondidos atrás das janelas, na sede da PIDE, descarregando as armas sobre os manifestantes que enchiam a Rua António Maria Cardoso, disparando a eito com a raiva da derrota, matando quatro pessoas e fazendo dezenas de feridos. No dia 25 de Abril de 1974, eu não andei pelas avenidas de Lisboa, a saborear letra a letra, sílaba a sílaba, a palavra Liberdade. Não ofereci cigarros aos soldados, não pedi um cravo para pôr na lapela, não fotografei rostos eufóricos, não fiquei rouco de cantar palavras de ordem, não subi às estátuas para contemplar os rios de gente, não guardei na memória, minuciosamente, cada segundo daquele que já era o «dia inicial, inteiro e limpo», cantado mais tarde pela Sophia.
No dia 25 de Abril de 1974, eu não escutei, nem vi, nem fiz nada disto por uma razão muito simples: estava longe, em Paris. E tinha apenas, de idade, dois anos, um mês e 23 dias. A minha memória do 25 de Abril, a memória da mais bela das revoluções, é por isso uma coisa construída pelas palavras dos outros, pelas imagens dos outros, pelos olhos a brilhar de nostalgia dos outros. Eu não fiz, eu não vi, eu não escutei. E tenho pena. É como se me tivessem roubado aquele dia de puro espanto. Aquele dia de que ainda hoje, quando desço a Avenida num ritual melancólico, sinto saudades.
Nota: este texto foi publicado, ontem, no «Jornal de Letras».
Publicado por José Mário Silva em abril 15, 2004 03:45 PM | TrackBackBelissimo! Também eu nada disso fiz/vi/senti porque ainda não era nascida...
Vou "roubar" este texto para colocar no meu blog. Posso?
Agora, podia fazer-te pirraça: "Eu vi, eu estive lá e tu não!"
Um dos poucos privilégios da idade...
:-)
Podes usar à vontade, Sofia. E muito obrigado pelo entusiasmo das tuas palavras.
Afixado por: José Mário Silva em abril 15, 2004 06:01 PMEu vi, eu estive lá e foi uma alegria do tamanho do mundo.
Mas, em contrapartida, também vivi o pesadelo de sentir o tempo a andar cada vez mais depressa e a aproximar-se a perspectiva de ir parar a África, à guerra colonial. E outros pesadelos do fascismo, como sentir a pressão da PIDE.
:) Por acaso acho que é a única coisa que me faz ter pena de não ter nascido mais cedo. Calculo que deva ter sido uma euforia tamanha sentir o peso do fascismo sair de cima de um povo oprimido...
Obrigada pelo emprestimo. Vai ser o meu post do dia 25...
eu tinha dois anos e meio, estava em lisboa, mas não estive LÁ… a minha memória também foi construída com as memórias dos outros e, sobretudo, com o entusiasmo dos meus pais e avós.
obrigada pelo post, zé mário.