abril 03, 2004

UM MUNDO MEÃO!

Começo da única forma possível num blogue com este nome: sou de direita!
Esta, claro, é uma convicção que funciona à laia da presunção, que é como a água benta: cada um toma a que quer. Tem a ver com questões por demais debatidas que nem sequer quero aflorar, ainda para mais nestes tempos de guerra em que, como sói dizer-se, não se limpam armas.
De resto, quando iniciei os meus comentários neste blogue foi, para além do mais, porque o Blogue do Caldas (a que eu carinhosamente chamo das Caldas) não se abre, nem se agacha (foi sem maldade, esta) a comentários. A segunda razão foi mesmo apenas para ver se vos chateava. Não consegui. Vocês venceram. E aquele post do Luís censurado a lápis azul foi demolidor. Era para aí a segunda ou terceira vez que comentava num blogue.
Saiu este na rifa e agora é um amor que só visto.
Sem entender que está na hora de este blogue mudar de nome, mesmo porque a tradição, nalgumas coisas, ainda é o que era, chego à conclusão que hoje a discussão não se centra em esquerda e direita, cavaqueira que se não é despida de conteúdo, é completamente vazia de sentido prático.
Neste mundo de hoje o que mais interessa é distinguir os Medíocres (M) dos Não-Mediocres (NM).
E se o afixe (ora cá estou eu, qual jogador de futebol, a falar na terceira pessoa) mudou de estilo (em bom rigor não mudei, apenas me limitei a tirar a máscara de provocador barato e brejeiro) foi porque reconheci na generalidade dos escrevinhadores e escritores deste blogue (os de cima, os de baixo e os do meio) uma maior proximidade com os NM.
Fui gostando de ler o que era deixado e acima de tudo de não reconhecer nos mais frequentes idiotas ou "deixadores e deixa-dores de ideias" essa entupida inqualidade em que se consubstancia a mediocridade.
Não se trata de adorar o conteúdo deste blogue, o que nem sempre é um facto, trata-se, tão-só, de não identificar aqueles tiques que facilmente e ao primeiro olhar vejo no vulgo medíocre.
Mediocridade que tanto vejo em todos os partidos em que votei nas últimas eleições (o plural não é um lapso, eu votei mesmo em todos e acho, sem ter matéria para escrever um romance, que todos deviam ter feito o mesmo – pelo menos daquela vez).
Desabafo, pois, sobre algo que sempre me atormentou, que me vem atormentando de forma mais aguda ultimamente, algo que me enraivece até às lágrimas, que me tolda o espírito, que me altera o humor até ao Prozac: a Mediocridade!
(Afixe)

O mundo parece, cada vez mais, estar cheio desses pequenos répteis, repelentes e asquerosos que vêem o mundo por entre duas palas de orientação, como burros de carga que na realidade são. E eu, estupidamente, deixo-me incomodar com eles, com os seus olhares entupidos, com os seus sorrisos vazios, com as suas gargalhadas sonoras, com a seborreia com que me engraxam os sapatos.
A mediocridade da TVI.
A mediocridade do Zé-povinho.
A mediocridade do Paulo Coelho.
A Mediocridade de 80% dos meus colegas de profissão.
A mediocridade dos estudantes que não pagam, não pagam, nem eles sabem bem o quê.
A mediocridade das generalizações por falta de tempo e de interesse.
A mediocridade das descontextualizações.
A mediocridade a que a mediocridade nos conduz.
A mediocridade do terror.
A mediocridade da casa que um dia foi pintada de branco e, havendo falta de melhor nome, casa branca ficou – imaginem a confusão, se a moda pega cá pelo nosso mui português e desaguado Alentejo e começam os seus indígenas a dizerem-se moradores na casa branca. Pois se de cal foram as suas casas pintadas e se o outro, num país bem maior e provavelmente com maior número de casas brancas, se arrisca a que o carteiro não lhe conheça o paradeiro, porque não eles, que antes da tinta havia a cal e antes das Américas já o Alentejo deitava cal nas suas casas, findas as últimas chuvas, lá para os idos de Junho, não fosse a pintura ficar borrada – de um fôlego, este).
Dizia (mente tortuosa, esta minha, que não me deixa escrever sem a propósitos):
E o problema começa a ser sério e grave, pelo menos para mim que não consigo passar por cima da merda, acabando sempre por pisá-la. Fico ali, a fazer pontaria e lá vai.
Não consigo ignorar, não consigo olhar adiante, fico a remoer naquilo, horas a fio. Fico a imaginar como me saberia bem ter dito isto, feito aquilo.
Eu estudo o fenómeno.
A coisa vai ao extremo de ver o Jornal Nacional na semana da MMG (até o éme é repetido).
Para melhor combater a coisa, é necessário entendê-la.
Vejo!
Até se me arrepiar a espinha e depois vocifero. Impreco!
Aqueles olhos…
E não faço isto só com a TVI. Eu sou daqueles que, nos restaurantes, fixa os olhos e os ouvidos na mesa do lado quando revejo ali partidários do M.
Faço isso constantemente, até à náusea. Não fosse eu ter uma réstia de razão e coração e ter-me-ia casado por puro interesse científico. Seria um mártir da investigação. Teria escolhido uma MM (mulher medíocre que não manuela moura).
E estudá-la-ia. De forma afincada!
E descobriria a cura para o mal. Pelo menos para este mal em que todos os outros se condensam, a que todos se resumem.
A qualidade do assim-assim, do não-é-carne-nem-é-peixe, do cá-se-vai-andando.
Raios me partam se não!
Oportunidade perdida, reduzo-me a imaginar o mundo sem mediocridade.
Onde estaríamos, quem seríamos, onde teríamos chegado ou não.
Imagino isso tudo – vou ao dicionário e vejo: Medíocre: mediano; meão; que está entre o bom e o mau; ordinário; insignificante.
E penso em Adão e na maçã.
E sem concluir, antevejo: não podia ser de outra forma, tinha de ser assim.
Um mundo meão!

Publicado por José Mário Silva em abril 3, 2004 12:26 AM | TrackBack
Comentários

Sendo de direita, confessa que já votou em todos os partidos. Nas urnas varreu o espectro político de uma ponta a outra, e agora desiludido acaba como itálico do Bde, de que chegou a motejar. Finalmente tudo faz sentido. Isto é uma tragicomédia fabulosa. LOOOL!!!(tanta gargalhada...)

nb: e ainda não cheguei ao fim do texto.

Afixado por: thirdbacus em abril 3, 2004 12:41 AM

Um texto contundente. Mais profundo do que aparenta, não sei se intencional. Rimo-nos do cancro que nos dilacera os músculos do rosto. Esta questão tem-me dado que pensar. Bastante mesmo. Há tempos, cogitando na sintomatologia portuguesa da doença, defini-a desta forma : merdocridade.

Afixado por: thirdbacus em abril 3, 2004 01:06 AM

E a mediocridade do futebol que se pratica em Portugal, não o preocupa? Acha prudente assinalar a medicridade do Paulo Coelho e exquecer a do Boavista? Não o aflige a qualidade dos centros do Miguel Garcia? A (in)capacidade do Custódio, acha normal? Estamos bem de prioridades, estamos.

A mediocridade na ordenação das prioridades também deve ser obejecto de analise. Não me parece que esta lhe sobre, deixe-me que lhe diga.

Afixado por: maradona em abril 3, 2004 01:17 AM

Meão? Antes fosse... É anão!
Boa, Afixe!

NB: Direita e Esquerda existem como atitudes, não como "pré-conceitos"...

Afixado por: zás!pás! em abril 3, 2004 01:37 AM

Pois é, Afixe, parabéns e bem vindo.
Eu fui das que desconfiei que "aquilo" era uma máscara. Porque os que falam como falaste ao princípio ( e continuam a falar) são os tais "poucochinho" e contentinhos consigo. Este teu texto é sério e bom. Devo dizer que o meu ódio de estimação não é tanto essa mediocridade mas a intolerância. Sou "intolerante com a intolerância". E já agora deixa dizer que tenho amigos de quase todos os quadrantes políticos desde que inteligentes, sensíveis, e sem ideias-feitas. E é certo que conheço alguns de esquerda que não são nada disso - O.K. não sou amiga deles nem os respeito lá muito. Isto não é uma etiqueta que defina uma pessoa para sempre. Vai escrevendo que tenho a certeza que o Zé Mario publica!

Afixado por: L.G em abril 3, 2004 08:41 AM

Obrigado ao ZM pela prova de confiança.
Obrigado ao pessoal pelos incentivos.
(esta foi a parte da graxa)
Um único reparo para o thirdbacus: eu votei em todos os partidos, é um facto, mas em todos ao mesmo tempo. Gotcha?
Em relação ao maradona: com efeito, preocupo-me muito mais com os "frangos" do Paulo Coelho e a enorme quantidade de pessoas que os aplaudem.

Afixado por: Afixe em abril 3, 2004 08:39 PM

Gostei. Mas não concordo com muita coisa. Sobretudo porque tenho um lindo painel de azulejos a adornar a entrada da minha casa com os dizeres: "Casa Branca".
Que queres? Pareceu-me divertido, na altura...

Afixado por: Luis Rainha em abril 3, 2004 10:36 PM

És um cromo, Luis.
Já agora, estive hoje no Jumbo e a Quinta do Cabriz estava a €15,00. Burguês! Definitivamente, é o que tu és.
Sei que é uma heresia mas hoje comprei um Bordeaux a € 3,00 e não estava mal. Aliás, estou a escrever sob o seu efeito.

Afixado por: Afixe em abril 3, 2004 11:09 PM

Cá por estes lados, é mais Pias... combina de modo perfeito com o excelso caril que confeccionei!

Afixado por: Luis Rainha em abril 3, 2004 11:16 PM

Vai a www.continente.pt, ptocura por "cabriz" e "tinto" que logo verás que deves andar a pagar os custos da interioridade. E da altitude...

Afixado por: Luis Rainha em abril 3, 2004 11:20 PM

o "ptocura" revela o estado em que o pias te colocou.
Falo contigo mais tarde, quando estiveres menos ébrio.
Já agora: "Gostei" não me parece um comentário suficientemente eloquente ao meu texto.
Desenvolve...(assim o pias e o caril te deixem)

Afixado por: Afixe em abril 4, 2004 12:01 AM

Olha lá, pela forma como estás a escrever, imagino que a tua namorada esteja novamente a dormir no sofá. Ganha juízo, homem. Vai-lhe fazer um cafuné (não digo um filho porque, segundo percebi, já tens que chegue).
Um abraço, sempre vens às berças nesta semana?

Afixado por: Afixe em abril 4, 2004 12:28 AM

Isso da interioridade e da altitude não faz sentido para um vinho como o Quinta do Cabriz, que vem de Carregal do Sal, região do Dão! Afixe, isso que viste foi alguma reserva especial. O Quinta do Cabriz costuma andar pelos 3€.

Afixado por: Filipe Moura em abril 4, 2004 12:53 AM

Talvez tenhas razão, Filipe. A garrafa até tinha um ar achampanhado.
Contato que, nos fds, este blog devia mudar de nome para blog_do_tintol.

Afixado por: Afixe em abril 4, 2004 01:07 AM

O Quinta de Cabriz tinto de 99, escolha de Virgílio Loureiro, custa 26€ por garrafa... Quase 35 cêntimos por centilitro!...

Afixado por: zás!pás! em abril 4, 2004 02:22 AM

Afixe,
Só me faltava era pôr-me aqui com encómios desbragados! Já desconfio que o teu ego não deve ser pequeno; não o inchar desmesuradamente é tarefa de interesse público... e vou ter tempo para tal, quando levar a cabo a minha incursão no País Real: devo partir na próxima 4ª feira.
Estás desde já convidado a visitar o reaccionário solar da família....


Filipe,
Os "custos" a que aludi referiam-se mais à situação geográfica do nosso itálico...

Afixado por: Luis Rainha em abril 4, 2004 10:51 AM
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