março 31, 2004

OS COMENTÁRIOS NÃO SÃO OFF THE RECORD (A OUTRA LIÇÃO QUE EU APRENDI)

Quando se deixa comentários num blogue, na maior parte dos casos está-se "na boa". Pelo menos aqui no BdE. Não creio que quem deixe um comentário com o objectivo de insultar alguém esteja "na boa", mas felizmente, e se excluirmos a crispação da última semana, esses comentários aqui são uma minoria. Pelo que de um modo geral os comentários são muito menos cuidados do que um texto no blogue, por exemplo. Os comentários são mais pessoais; eu, pelo menos, ao escrever um tenho em geral a sensação de que quem os vai ler é somente o autor do texto original, e eventualmente quem já lá tiver deixado comentários antes.
Infelizmente, isso não é assim. Obviamente, tudo o que fica escrito num comentário é para qualquer pessoa ler. Qualquer informação que se deixe num comentário é passível de mais tarde ser utilizada. Por isso, tem de se pensar muito bem o que e como escrever nos comentários.
Outra questão é a da identidade dos comentadores. Qualquer pessoa pode assinar um comentário com o nome e o email de outra. Mesmo os serviços de comentários que requerem que o comentador deixe o seu email podem ser facilmente iludidos e não provam nada. Os comentários especialmente sórdidos vêm geralmente assinados com um nome falso e sem email.
Comentadores mais conhecidos e com um estilo próprio, como o Afixe e a Zazie (esta mais do que uma vez), já foram vítimas desta torpeza que é a falsificação da sua identidade. E estes são comentadores que ninguém sabe quem são. Apesar de eu condenar esta prática com os nomes deles, ainda a condeno mais com cidadãos que se identificam com nome e email, e que vêem esses dados serem utilizados abusivamente por comentadores mal intencionados. Foi o caso do Pedro Mexia. Desde que isso sucedeu, o Pedro nunca mais deixou nenhum comentário num blogue. Meus caros, isto é assim e não podemos fazer nada. Não esperem que tenhamos um ficheiro com o nome e o email de cada comentador e depois vamos confirmar o IP do computador onde o comentário foi escrito. Quem escreve comentários tem de saber no que se vai meter.
Seguindo o mesmo raciocínio, nunca se pode confiar num comentário como tendo sido realmente escrito pela "pessoa X". Só um texto num blogue permitirá uma identificação inequívoca.
Eu não quero com isto reabrir de novo um processo que já dei várias vezes por encerrado, mas preciso de dar este exemplo. Na semana passada, um dos factos que despoletaram a "crise do Médio Oriente" na blogosfera foram comentários meus escritos num outro blogue, onde contava que viessem a ser lidos por um número mínimo de pessoas. Foi com certeza ingenuidade da minha parte, mas escrevi-os como se de uma conversa de café se tratasse. Nunca escreveria um texto meu, aqui no BdE, de uma forma tão simplista. (Já agora, devo esta satisfação ao tchernignobyl e ao J - aquilo não era um texto do blogue, está bom, camaradas? Ao menos entre nós, peço-vos que não o leiam assim.) Mas quando fui confrontado por tal facto, é evidente que assumi o que escrevi. Agora, para aguçar a crise, vários blogues reproduziram somente um dos tais comentários, precisamente o mais panfletário, e nem se dignaram a confirmar comigo se tinha sido eu o autor de tais palavras, numa atitude que eu considero, no mínimo, de uma extrema leviandade. Um desses blogues (que não reproduziu, mas fez uma ligação comentada a quem tivesse reproduzido, o que vai dar ao mesmo) foi o de um conhecido jornalista e escritor da nossa praça, um facto que, confesso, me surpreendeu. É evidente que, se me perguntassem, eu confirmaria a autoria (como confirmei aqui), mas não julgava ser essa a função dos comentários. Mas é, também, pelos vistos.
A lição que eu aprendi, e que espero que todos os leitores do BdE e da blogosfera aprendam, é que, principalmente depois das duas "crises" por que o BdE passou nos últimos dias, a idade da inocência dos comentários acabou. Por isso eu espero continuar a ver muitos comentários dos leitores no BdE, mas lanço daqui este apelo: tenham calma, por favor não insultem ninguém... e pensem bem no que escreverem.
Dito isto, espero que a crise tenha acabado. E agora, venham os comentários!

Publicado por Filipe Moura em março 31, 2004 02:26 AM | TrackBack
Comentários

Então deixa-me ser a mim o primeiro a comentar. Quando te critiquei, aqui e no Cruzes, fi-lo especialmente em relação ao que escrevias nos posts e não nos comentários.
Sei perfeitamente que os comentários são escritos a quente e, na altura, tive até dúvidas que fosses mesmo o seu autor.
Apesar disso, mesmo aceitando sem problemas que não pensas mesmo aquilo que escreveste, continuo a achar que te excedeste com as palavras. Tal como não se deve confundir o Manuel Germano com o género humano, também não se pode confundir Sharon, e restante extrema-direita israelita, com "os judeus".

Afixado por: J em março 31, 2004 10:27 AM

Com "os judeus" não, concordo.

Afixado por: Kaiser em março 31, 2004 11:52 AM

Sr. Professor Doutor Filipe Moura

Excelência

A questão, a meu ver, é simples.
Os comentários (que, aliás, são expressamente solicitados) aos vossos textos não podem ser um simples e patético exercício de elogio ao autor ou ao conteúdo.
O facto é (por muito que custe) que "quem anda à chuva, molha-se"

Afixado por: não digo em março 31, 2004 04:16 PM

Não me diga, não digo!
É que é isso mesmo que eu digo, veja lá!
Obrigado por tamanha deferência, mas para além de ser exagerada (e falsa, no caso do Prof. Dr.), não há necessidade. Insisto para os meus alunos me tratarem por "tu". No seu caso não insistirei, mas trate-me pelo nome ao menos, sim?

Afixado por: Filipe Moura em março 31, 2004 04:26 PM

Sim Sr. Não Digo, não pode ser um patético exercício de elogio ao autor como não pode ser um patético e simplista exercício de provocação e insinuação.
Compre um guarda-chuva, talvez não se molhe.

Afixado por: random em março 31, 2004 09:13 PM

Voto branco e democracia
O novo livro de José Saramago, Ensaio sobre a Lucidez, veio colocar em discussão a questão da “crise” da democracia representativa e do voto branco como instrumento de rejeição e protesto. Na verdade, o voto branco é uma maneira perfeitamente democrática de exprimir descontentamento político. Em geral, ele é uma alternativa à abstenção por parte de cidadãos civicamente empenhados; em certas circunstâncias ele pode ser também uma alternativa ao voto em partidos extremistas, anti-sistema.
Ao contrário da abstenção, que é geralmente produto de uma atitude de desinteresse ou falta de informação, ou de hostilidade de baixa intensidade, o voto branco supõe uma atitude deliberada e uma rejeição de mais forte intensidade, pois implica o esforço de ir votar. Por isso em eleições ele dá expressão em regra a uma das seguintes atitudes: recusa de escolha entre os concorrentes, rejeição de todos os concorrentes, rejeição do sistema democrático ele-mesmo, hostilidade em relação à política. Ora numa democracia pluripartidária, onde exista liberdade de organização e de actividade de partidos, essas situações não são muito numerosas em condições de regular funcionamento do sistema. Salvo quando atingem maior intensidade, o descontentamento e a desafeição em relação aos partidos ou ao sistema ele mesmo exprimem-se mais pela abstenção do que pelo voto branco, que representa um voto activo.
Em geral os votos brancos são legalmente irrelevantes, não contando para o apuramento de maiorias eleitorais, que são calculadas somente com base nos “votos expressos”. Existem mesmo países onde nem sequer se procede à sua contagem separada dos votos nulos (França, por exemplo). Mas é evidente que politicamente seria tudo menos irrelevante uma forte percentagem de votos brancos. Por isso, em certo sentido, sob o ponto de vista democrático, o voto branco pode ser preferível à abstenção, desde logo porque ele reclama maior atenção em relação à qualidade da democracia, dado traduzir a desaprovação de cidadãos interessados, que querem exprimir a sua opinião e participar nas escolhas da colectividade.
Há quem condene em geral o voto branco. Mas uma coisa é cativar os cidadãos para exprimirem uma opção partidária e outra coisa é enterrar a cabeça na areia face aos votos de protesto, fazendo de conta que nada se passa. O voto branco pode ser um excelente sismógrafo da democracia.


Inserido por VM 31.3.04

Afixado por: j.silva em março 31, 2004 09:43 PM
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