março 25, 2004

O MUNDO EM QUE VIVI (TÍTULO EM HOMENAGEM A ILSE LOSA)

Vivi seis anos em Long Island, nos EUA. Trabalhei num Instituto onde mais de metade do pessoal docente era judeu. Todos grandes cientistas, como só os judeus sabem ser. O calendário docente era judeu. Os feriados eram judeus (numa Universidade pública americana – não foi na Universidade Yeshivah). A comunidade judia era sem dúvida numerosa, mas não era maioritária. Habituei-me a ter feriados no Rosh Hashanah e no Yom Kippur, mas tive que dar aulas numa sexta feira de Páscoa.
Os melhores alunos que eu tive eram judeus. Os mais trabalhadores. Os mais motivados. Alguns, sempre com o seu kippah. Sempre tive uma relação espectacular com todos. Melhor do que com os hispânicos, que eram uns preguiçosos que só queriam boas notas. Os chineses, por sua vez, não se percebia nada do que diziam, como era óbvio. Os indianos dão uns guinchos a falar que me fazem dores de cabeça. Ainda hoje, assistir a um seminário por um deles é uma dor de cabeça certa.
(Algum dos democratas que me chamaram nazi anti-semita dirá que estou a ser preconceituoso agora?)
Tive um que me pediu uma carta de recomendação, que passei com todo o gosto. Voltando aos judeus. Um dos meus alunos favoritos tinha uma t-shirt com uma inscrição “não é kosher”.
A comida kosher. Presente em todos os supermercados. Receitas intragáveis. Que mal aquela gente cozinha. O Francisco José Viegas, que tanto se gaba, bem podia escrever um manual de cozinha para eles, a ver se aprendiam alguma coisa.
Minto. Há uma excepção. (Sempre excepções para tudo, que raiva.) A melhor cozinheira que eu conheci em toda a América era judia. É claro que não era minimamente ortodoxa e não cozinhava comida kosher. Era a mulher do director do Instituto. Tanto ela como ele, duas jóias de pessoas. Na estante da sala de estar, exibiam orgulhosamente uma cópia de O Capital. Devia ser por isso que ela cozinhava tão bem.

Numa das vezes que lá fui a casa, e sabendo que eu era português, perguntou-me se conhecia o Richard Zimler e se já tinha lido os seus livros. Sendo eu uma besta ignorante anti-semita, é evidente que nunca tinha ouvido falar em tal autor.
(Quantos dos democratas que me chamaram racista, nazi e anti-semita já terão sequer ouvido falar no Richard Zimler?)
Mas disse-lhe para ler o Saramago que era muito bom. (Saramago, que escreveu o Memorial do Convento, mas que confunde o Sharon com Israel. Mais uma besta anti-semita.) Ela já conhecia e perguntou que livros recomendava. Sendo ela uma judia, recomendei especialmente o Memorial. Quando a voltei a ver, disse-me que tinha procurado na livraria local o Baltazar and Blimunda, mas que não tinha encontrado. Disse-lhe para se deixar de tretas e encomendar na Amazon, que vinha num instante.
Havia também o Fred, que trabalhava em solitões e era, para além de uma excelente pessoa, o judeu mais orgulhosamente judeu que eu conheci. O Fred pertence a um clã de físicos famosíssimos, o mais conhecido dos quais é o patriarca Maurice, que nasceu na Alemanha e veio refugiar-se dos nazis nos EUA tal como a mulher Gertrude. Maurice desenvolveu um importantíssimo trabalho pioneiro nos neutrinos.
Almoçava às vezes com o Fred, que me dava lições de judaísmo enquanto comíamos (ele kosher, eu não). Fez-me deduzir quais os dois produtos alimentares de origem animal não kosher autorizados, isto é, que podem ser consumidos sem a aprovação de um rabi. Uma das respostas, pelo menos, é muito lógica. A outra, não cheguei lá, mas ele disse-ma.
(Quantos dos democratas que me chamaram racista, nazi e anti-semita saberão quais são estes dois produtos?)
A minha Universidade tinha uns directores independentes, em grande parte judeus. Havia umas conferências, chamadas “Provost Lecture Series”, abertas a toda a gente e em que uns convidados famosos, quase todos judeus, iam lá falar do que faziam.
Uma vez foi lá o Shimon Peres, esse ubíquo homem, Prémio Nobel da Paz e já na altura ministro de Sharon. Foi lá e defendeu essa coisa extraordinária: o caminho para o entendimento entre palestinianos e israelitas passava por esquecer a história. Para chegarem a acordo, tinham de esquecer completamente o passado. Perguntei ao Fred o que achara da conferência. O Fred disse-me que tinha gostado, mas que discordava completamente.
Para comprar comida, eu preferia ir a um supermercado hispânico com produtos portugueses. Mas sem comida kosher. Havia mais espaço para estacionar o carro, pois não havia clientes judeus. Os carros deles, meu Deus... Umas banheiras. Com finalizações de madeira. Já os vi aqui em Paris, também. No bairro judeu (estes filhos da mãe estão por todo o lado). Em Nova Iorque não se pode andar cinco metros sem se ver um. Em Manhattan ou Brooklyn, claro (o Harlem é para os pretos).
A maior loja de fotografia do mundo fica ao pé do rio Hudson, na 9ª Avenida, perto de Chelsea. Esta loja viola despudoradamente as leis de igualdade de oportunidades no acesso a emprego. Todos, acreditem, todos os empregados, e são mesmo muitos (não vi nenhuma empregada), usam kippah. Não faz mal, são judeus, afinal são uma minoria e um povo perseguido. Foi lá que eu comprei a minha máquina fotográfica. Foi lá que eu experimentei o que é fazer um negócio com um judeu. Foi lá que se recusavam a abrir os modelos das máquinas para eu as ver, pois senão tinham de vender as máquinas abertas mais baratas. (Nas outras lojas há produtos abertos.) Foi lá que eu fui enganado.
Também há os museus. Os vigias dos principais museus são todos negros, sem uma única excepção. Trabalham para terem comida, casa, roupa e para pagarem a escola dos filhos. Depois há os directores. Quase todos judeus. Que financiam palestras e congressos para discutirem como os judeus são um povo perseguido.

Publicado por Filipe Moura em março 25, 2004 07:11 AM | TrackBack
Comentários

Pois é, FM. Também tive um vizinho que dizia ter vivido em Angola e que os criados pretos eram muito asseadinhos, coitados, apesar de pretos, e muito boas pessoas, apesar de pretos, coitados. Não era racista, claro, longe disso, até tinha tido amigos pretos. Eram todos um bocado preguiçosos, era o que era, mais nada, mas não era daí que viria mal ao mundo, e não lhes queria mal. Das guerras na Somália e no Sudão, também dizia "who cares? coisas de pretos, são todos uns selvagens. Mandar para lá moços nossos? Nem pensar."

Um exercício académico: o FM conhece a navalha de Occam? Para quem não sabe, consiste em, face a duas hipóteses de solução explicativa de um problema, reter a mais simples. Racismo, preconceito, ou preconceito racista? Note-se que, para fixar ideias, todo o racismo é preconceituoso, mas nem todos os preconceitos são racistas.

Tente ler o seu post com distanciamento e, olhe FM, mostre-o aos seus amigos judeus, se conhecer algum que fale português, ou traduza-o para inglês e pergunte-lhes a opinião deles. While you're at it, os hispânicos também haviam de gostar de ler.

A parte da loja de fotografia, vão achá-la particularmente elucidativa. "Foi lá que eu comprei a minha máquina fotográfica. Foi lá que eu fui enganado". How ghastly, how could they??

Ao contrário do que disseram outros comentadores, não achei o seu post anti-semita. Mas encontrei nele uma semente perigosa, uma influência talvez inconsciente (um preconceito?). Como diz mais à frente, os preconceitos curam-se com informação. Sugiro uma cura urgente de documentários (europeus, porque os americanos são biased) sobre a shoah, e a leitura de artigos de jornais (europeus) do período 1939-1950.

A sua comparação entre os vigias e os directores de museus, também é muito interessante. Apesar de todas as outras explicações sócio-culturais possíveis e da provável insignificância estatística da sua asserção. É o preconceito.

Afixado por: dave em março 25, 2004 09:11 AM

filipe, se me perdoas a opinião parece-me que estás demasiado preocupado a defender-te de uma coisa quando já se percebeu que o problema de algumas pessoas é outro.
Já se percebeu à saciedade que o team dos daves está preocupado em atacar-te pessoalmente sob os pretextos mais idiotas.
Digas o que disseres, terás o team dos daves atrás, já se percebeu a ideia, digas o que disseres tens uns sujeitos a "decompôr" o que disseste estabelecendo as analogias mais despropositadas e convencendo-se de que te "enterram" "cada vez mais" a partir da "postura" "independente" de onde acham que te podem fragilizar.
Já esclareceste cabalmente a tua perspectiva.
O filipe já fez alguns posts brilhantes sobre esta metéria.
Se este blog não tivesse comentários, já tinhas saído por cima há muito vale sem aturar os comentários tipo Monty Python, tendo comentários já se percebeu de que NADA do que venhas a dizer servirá para "aplacar" o delírio de alguns comediantes.
Vale a pena continuar-se agora nisto?
Como sabes é IMPOSSÍVEL convencer de alguma coisa alguém que não pretende nem por um instantes ser convencido.
Sugiro que se passe à frente.

Afixado por: tchernignobyl em março 25, 2004 09:54 AM

quando disse "o filipe fez alguns posts brilhantes" estava a referir-me aos posts do luis rainha sobreA "cabala" informativa e o "terrorismo"

Afixado por: tchernignobyl em março 25, 2004 09:56 AM

como unidade,devem ser tidos em conta,talvez por isso,divididinhos seremos os atrasadinhos de uma europa que nos pisa,nos desvaloriza e nos mantém sobre os seus pezinhos de bailarinas,fora com os lobbies.

Afixado por: triciclo em março 25, 2004 01:37 PM

Rose era menina fragil e loira.O seu familiar favorito era o seu avo Markus, que era alto,magro e levantava sempre as sobrancelhas quando dizia algo importante.E avo Ester era muito pequena e tinha o cabelo branco.Ela certa vez quando foi para a casa dos pais de Rose ela foi tratada como "Kleine Oma" e nessa altura tinha vendido a sua casa.O pai chamavasse Leo e a mae Selma.

Afixado por: cabrao em abril 21, 2004 09:18 PM

quantos livros é que já pubicou?

Afixado por: Paulino em junho 11, 2004 10:26 AM
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