março 22, 2004

COMO PRODUZIR UM EXTREMISTA; COMO CRIAR UM MÁRTIR


Ainda a propósito do atentado que liquidou o xeque Yassin, sugiro-vos um pequeno passeio pela biografia do falecido. Não o vou fazer com a ajuda de panegíricos encontrados em sites como este. (E não exagerarei na diabolização do homem que, para a SIC Notícias, tinha ficado tetraplégico "ao montar uma bomba"...) Para tal, a insuspeita CNN bastará.
Então, de onde surgiu este "animal que ía aos bairros mais pobres da Palestina excitar adolescentes e crianças para a jihad"? (Palavras de um comentário aqui deixado.)

Nasce (em 29 ou 38, consoante as fontes) no que é hoje a cidade israelita de Ashkelon. Em 1948, a criação do Estado de Israel desaloja a sua família, passando ele a crescer em campos de refugiados de Gaza. Depois - já paralisado por um acidente num jogo de futebol - cria 11 crianças num apartamento nos bairros degradados de Gaza City. Em 87 funda o Hamas, que logo surge como o maior rival da Fatah de Arafat (consta que graças à generosa ajuda financeira de Israel).
Em 89, Yassin é preso e condenado a prisão perpétua; na cadeia, sofre várias doenças, como bronquite crónica e infecções nos olhos e ouvidos. Oito anos depois, é trocado por dois agentes da Mossad, capturados ao tentar assassinar outro dirigente do Hamas.
Setembro de 2003: escapa quase incólume à concretização, através de uma bomba de 200kg, das ameaças do governo israelita. Hoje: é abatido por um helicóptero enquanto saía da sua mesquita.

Pois é: de vidas assim, pouco admira que emirjam criaturas como o xeque Yassin. E ele sempre afirmou desejar a morte do mártir. Hoje, fizeram-lhe a vontade. Amanhã, mil jovens estarão dispostos a morrer para o vingar.
Nasser Badawi, da brigada dos Mártires de al-Aqsa já avisara: "A situação está tão má que muitos estão dispostos a explodir-se. Não temos de os escolher, eles vêm até nós, prontos a morrer". Nem quero imaginar quantos estarão agora mesmo a bater-lhe à porta.

Publicado por Luis Rainha em março 22, 2004 03:20 PM | TrackBack
Comentários

Em tantos anos de vida difícil não houve nenhum jovem timorense a explodir-se na Indonésia. A vida difícil não cria terroristas. Esse é o "salto" que a esquerda facilmente dá em relação ao islão mas que não funciona senão no islão. A ignorância é que cria terroristas. E quem quer manter estas pessoas na ignorância são os seus próprios lideres.

Afixado por: Bruno em março 22, 2004 06:15 PM

Mas o que é válido de um lado do muro é válido do outro, não é, Luis? Violência obviamente gera violência. Qualquer que seja o lado.Vivemos num mundo onde é obviamente proibido dar a outra face. Será necessário outro dilúvio? Só espero que desta vez o Noé não seja o Bush. Nem quero imaginar a arca.

Afixado por: Afixe em março 22, 2004 06:29 PM

Até 93/94, os ataques do Hamas eram levados a cabo com facas. Há quem diga que a novidade dos bombistas-suicidas alastrou como reacção ao ataque de Baruch Goldstein, famoso terrorista israelita...
De qualquer forma, também os judeus destinados ao extermínio só tardiamente começaram a resistir aos nazis; e que provará isto? Que a não-violência não serve para deter monstros? Que há povos ou religiões mais beligerantes que outro?
Julgo eu que não prova nada. Cada caso, cada circunstância histórica, é única.
E claro está que "a vida difícil" cria mesmo "terroristas"; o que achas que os indonésios chamariam aos timorenses que lutaram contra a ocupação? Que chamaram os ingleses a quem bombardeou o hotel Rei David?

Afixado por: Luis Rainha em março 22, 2004 06:36 PM

Ok. A escrever é que nos entendemos. Sou um bocado alérgico a imagenzinhas simplistas. Concordo com o teor do teu texto. Penso que não temos dúvidas em condenar os métodos do governo de Sharon, mas não me comovo com a cadeira de rodas. Porque imagino quantos palestinianos e israelitas não deverão ter ficado de cadeira de rodas, de moletas, proteses, etc. por causa desse nosso amigo. O Hitler, o Enver Hoxa e o Ceausescu também tiveram vidas desgraçadas antes de se tornarem uns assassinos. Isso não justifica as aseniras que fizeram. Como também não podemos ignorar que aquele ambiente de injustiça é propício à produção continua de fanáticos, como bem referes.

Afixado por: Rui Curado Silva em março 22, 2004 06:40 PM

Rui,
Confesso que a cadeira de rodas me deu jeito para criar uma imagem simbólica. Como todas as simplificações, é algo problemática. Mas sublinha - e esta era a ideia - a enorme desproporção entre as forças em confronto e o recurso a métodos que se diriam próprios apenas de terroristas, nunca de governos democráticos.

Afixado por: Luis Rainha em março 22, 2004 06:45 PM

Uma excelente noticia! Menos um animal raivoso a conspurcar pelo ódio este mundo insano.
Alá é Grande! E a Primavera chegou...
Tanta hipocrisia,intelectualoides "esquerdistas" de rabo gordo sentado nas cadeiras do "establishment" arrotam idealismos. Quando esses animais infieis tentarem impor-lhes as suas regras vamos ouvi-los lamuriarem-se.

Afixado por: Jorge L em março 22, 2004 10:24 PM

"Menos um animal raivoso a conspurcar pelo ódio este mundo insano."
[...] "intelectualoides "esquerdistas" de rabo gordo sentado nas cadeiras do "establishment" [...] "arrotam idealismos. Quando esses animais infieis"

Hum... pelos vistos ainda há uns animais raivosos por aí...

Ó, pst, Sharon! Sai um míssil prá mesa do canto!

Afixado por: Jorge em março 23, 2004 02:13 AM

essa dos "infiéis" matou-me....

Afixado por: tchernignobyl em março 23, 2004 09:27 AM

Caro Luis Rainha, obrigado por ter respondido ao meu comentário. A sua resposta excedeu todas as minhas expectativas e dará uma nova perspectiva a tudo o que for escrito por si.

Afixado por: Bruno em março 23, 2004 11:43 AM

Um mártir para a eternidade

Yassin, que já passara longos anos nas masmorras da Gestapo judeo-nazi, era um patriota e um resistente emérito, apesar da sua tetraplagia e cegueira. A sua força era mental e é ainda maior após a sua morte do que em vida. Antes era um herói, hoje é um mártir que inspirará milhões de muçulmanos a libertarem Jerusalém e a Palestina da escumalha judeo-nazi. Os anti-semitas que hoje se regozijam verão o seu sorriso alarve (de "enculés" do bussho-ssharonismo) transformar-se em esgar quando Jerusalém for libertada e na antes profanada Esplanada das Mesquitas forem enforcados SSharon e milhares de oficiais das SS Tsahal que martirizaram o povo palestiniano. Porcos esfomeados poderão comer os restos...

A Grande Europa deverá apoiar uma Palestina democrática, laica, multicultural e limpa do nazi-sionismo ! E porque hoje todos (à excepção da escória colaboracionista) somos palestinianos: ALLAH U AKBAR !

Afixado por: euroliberal em março 24, 2004 10:09 AM
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