O candidato Howard Dean, depois de ter perdido a eleição primária no Iowa, ao dirigir-se aos seus apoiantes terá gritado supostamente de uma forma histérica. O som do microfone onde Dean teria gritado correu mundo, via rádio, televisão e internet. Dean foi então apontado como um candidato instável e pouco sóbrio, a juntar à imagem de radical que já tinha.
Só que a verdadeira história não é bem esta. Basta ir ao google e colocar as palavras dean microphone e descobre-se logo a história toda. Na verdade, o microfone que Dean usara tinha uma tecnologia avançada que recolhia somente o som emitido pelo candidato, eliminando qualquer ruído de fundo. Embora não parecessem assim quando eram ouvidos, os "gritos" de Dean eram na verdade bem tímidos, e foram proferidos numa altura em que a sala cheia dos seus apoiantes o ovacionava em peso. Quem estava na sala nem terá ouvido Dean gritar. Mas o som captado pelo microfone, ao ser emitido fora deste contexto, dava uma impressão totalmente errada ao ouvinte. Emitir esse som só se justificaria por lapso ou por má fé. As cinco principais estações de televisão americanas reconheceram que foi por lapso e pediram desculpas ao candidato. Só que a primeira impressão conta muito, o mal já estava feito e a emissão já tinha ido para o ar. Assim se destruiu a candidatura do único político que poderia trazer alguma coisa nova à política americana, para além de ser o único dos principais candidatos que se opusera, incondicionalmente, desde o início, à guerra com o Iraque.
Em Portugal, não li esta história em nenhum jornal e nem em nenhum blogue. A versão do "Dean histérico" ainda prevalece. Colunistas de jornais de referência como Eduardo Cintra Torres ainda a semana passada faltavam à verdade, relatando o episódio da seguinte maneira: "Dois ou três minutos do discurso de Howard Dean após as eleições primárias no Estado do Iowa deitaram por terra o seu esforço de anos para ganhar a nomeação dos democratas às eleições presidenciais. No discurso, o homem mostrou um verdadeiro "self": irascível, insuportável, sanguíneo. Bastaram minutinhos reais para os americanos ficcionarem o que seria se ele ocupasse a Casa Branca. Foi a televisão que lhes mostrou isso."
A mim não me preocupa nada que a comunicação social mostre. A mim preocupa-me é o que ela não mostra.
De muito longe o meu candidato favorito, o Dean tinha tudo para mudar radicalmente o relacionamento dos EUA com o Mundo, e para melhor a qualidade de vida no seu país.. uma tristeza.. que ganho o Kerry, mas ele é apenas um Bush-soft...
Afixado por: Boss em março 7, 2004 10:53 PMPois, e o Cintra Torres não se retractou ainda... boa Filipe, é preciso refutar esta tendência de seguirem a primeira onda e nem pensarem ou consultarem o que vem a seguir... assim se destroem campanhas políticas!
Afixado por: pagan em março 7, 2004 11:00 PMHistórias dessas há por aí às pazadas; algumas das do Bush, por exemplo, são puras mistificações, e nunca sofreram cuidados de reparação como o Filipe Moura aqui teve, muito menos queixas. Tem toda a razão quando se preocupa com o que a comunicação social não mostra, embora também conviesse que se preocupasse com outras formas de selectividade.
Agora sugerir, como fica mais que implicito neste post, que o Dean não ganhou por causa desse evento, é estar a sonhar e a dormir. Por todas as razões possiveis e imaginárias, mais o simples exercicio de pensar em quantos petardos desses e maiores, para além de verdadeiros, sofreu o Bush até chegar à Casa Branca.
O Dean beneficiou de uma extraoridnária campanha por Internet enquanto as candidaturas ainda aqueciam, mais nada que isso. Era um fogacho fatuo, desde o principio pouco consequente.
A sua capacidade de dizer uma coisa e o seu contrário teria animado a campanha presidencial. Rir-nos-emos menos, assim.
Afixado por: maradona em março 8, 2004 02:26 AMFilipe,
Dean assustou o eleitorado porque as suas propostas eram "demasiado" à esquerda para esta gente. Dean também não era "simpático" e discutia sempre razoavelmente irritado. O episódio de Iowa foi um erro estratégico de Dean e os problemas acústicos que descreves são irrelevantes e não o desculpam. O homem estava mesmo a gritar e a gesticular. Concluir a partir daquelas imagens que Dean é um homem demasiado perigoso para ter junto do botão que lança os mísseis é um abuso. Mas Dean e os seus conselheiros foram precipitados e/ou ingénuos. Vir agora tentar justificar o erro de Dean não leva a lado nenhum. É uma perda de tempo.
Afixado por: Tulius Detritus em março 8, 2004 03:09 PMBem interessante. Obrigado, Filipe; estava "a leste"...
Afixado por: Luis Rainha em março 8, 2004 06:12 PMPode ter acontecido isso, mas é indesmentível que o que passou foi uma imagem histérica e absurda. Eu por acaso estava a ver em directo e quando estava à espera de um discurso esperançoso e optimista, natural de quem tinha perdido mas estava confiante para o futuro, aparece um gajo com ar de louco aos berros durante alguns minutos (não foi só o tal grito, o homem esteve mais tempo assim). De resto, em termos de ideias ele era preferível ao Kerry, mas mesmo assim não acho que ele fosse assim muito coerente, as diferenças práticas não haviam de ser nada por aí além...
Afixado por: luzes em março 9, 2004 12:25 AMA questão que o Filipe coloca, parece-me, não se limita apenas ao «faux pas» de Dean e ao peso que terá tido no ruir da sua campanha. O problema é outro e bem mais grave: o de saber até que ponto a cobertura mediática dos grandes acontecimentos políticos condiciona a leitura que deles fazemos e a "imagem" que fica, indelével, na memória colectiva.
Talvez se possa voltar, mais tarde, a este assunto. Infelizmente, estou certo que não faltarão pretextos.
100% de acordo, JMS. Mas, como sugeres, o fenómeno não é novo. Qualquer candidato tem de saber jogar com isso. E, francamente, qualquer dia ainda vão dizer que por ter sussurrado "1, 2, som, som..." para o microfone, Dean não chegou a presidente dos EUA.
Afixado por: Tulius Detritus em março 9, 2004 02:53 PMTulius, acredito em ti quando dizes que foi um erro estratégico do Dean. Já sobre os problemas acústicos terem sido irrelevantes, não foi isso que as minhas fontes me disseram. Mas eram fontes "deanistas"...
Entretanto, fui ao Le Baribal com um grupo e toda a gente gostou muito. Obrigado pela recomendação. E se conheceres mais como aquele diz...
Afixado por: Filipe Moura em março 9, 2004 09:32 PMA propósito do meu comentário sobre o Howard Dean: quem se retractou foi o próprio Dean logo a seguir à eleição no Iowa...
Se ele foi ou não foi «histérico» competiu aos eleitores americanos decidirem.
Eduardo Cintra Torres