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janeiro 31, 2005

O TRIUNFO DA DEMOCRACIA

Por muitos problemas e inconsistências que se possam apontar ao processo eleitoral iraquiano, por muito que as votações no triângulo sunita tenham sido baixas (mas não tão baixas como se previa), uma coisa é certa: contra todas as ameaças, contra todos os riscos, houve milhões de eleitores que foram às urnas para decidir o futuro de um país mergulhado no caos. E isso é extraordinário.
Mais: é um exemplo de coragem e grandeza por parte de um dos povos mais martirizados do mundo. Um exemplo de civismo que envergonha todos os abstencionistas das democracias ocidentais, que a maior parte das vezes não saem de casa por indiferença ou comodismo (como quase de certeza constataremos, mais uma vez, no próximo dia 20 de Fevereiro).


Fila de eleitores à espera, em Falluja

Publicado por José Mário Silva às janeiro 31, 2005 12:22 PM

Comentários

É bem verdade. Um verdadeiro exemplo.

Publicado por: bin_tex em janeiro 31, 2005 12:57 PM

É a Confirmação da Superioridade Moral da América!

Contra tudo e contra quase todos, o Povo Iraquiano teve direito ao seu Voto. Não lhe foi dado pela Velha Europa que preferia o Saddam, e tudo fez para a America perder a Guerra, não lhe foi dado por estes socialistas e comunistas portugueses que tudo fizeram para que Portugal não os ajudasse. Foi a América, novamente a América!

Publicado por: Abdula Milhas em janeiro 31, 2005 02:11 PM

"(...)contra todas as ameaças(...)"

Atenção que nem todas as ameaças eram contra quem fosse votar. Houve várias ameaças contra quem **não fosse votar**, desde os "boatos" (espero que o sejam mesmo...) sobre o corte das rações a quem não fosse votar (o recenseamento eleitoral foi feito com base nas listas de racionamento), a ameaças do clérigo xiita de uma ida para o inferno para quem não fosse votar (Sistani até publicou uma "fatwa" exigindo aos xiitas que fossem votar).

"(...)é um exemplo de coragem e grandeza(...)"

Um exemplo de coragem é, mas não me parece que muitos dos iraquianos que votaram (talvez a grande maioria) tivessem qualquer tipo de sentimento de estarem a contribuir para o bem comum quando votaram, a grandeza não estava lá. A grande maioria dos iraquianos votaram com fins bem mais mesquinhos em mente: assegurar poder para a sua etnia. Estas eleições, como Juan Cole as tem caracterizado, foram um referendo para colocar os xiitas no poder. E estes, há decadas dominados pelos sunitas, agarraram a oportunidade com as duas mãos, indo votar em massa apenas com uma mensagem: agora mandamos nós. Revolta e vingança, legítimas, mas não grandeza. Os curdos também votaram em massa para assegurar que durante a elaboração da futura constituição conseguem impedir um poder centralizado no Iraque.

Infelizmente estas eleições poderão resultar numa guerra civil tripartida, que ainda não se materializou porque os xiitas têm estado contidos na sua resposta aos ataques sunitas devido à expectativa de alcançarem o poder, e os curdos estão na expectativa duma ampla autonomia (com controlo sobre Kirkuk) sob a nova constituição (à qual sunitas e xiitas se opõem). As cidades de Mosul e Kirkuk poderão a breve prazo tornar-se enormes focos de instabilidade à medida que os curdos tentarem criar "factos" no terreno durante as negociações para a nova constituição. Estas exigências curdas irão inflamar ainda mais a minoria sunita, que não se irá rever nas negociações para a constituição, mantendo o apoio para a insurreição, que continuará enquanto as tropas americanas ficarem no país. A sua presença, a breve prazo, poderá também levar a fracturas e instabilidade no seio dos xiitas, divididos entre aqueles (no governo) que temem não conseguir dominar as forças insurrectas sunitas sem os americanos e aqueles (como Sadr) que exigem a sua retirada já.

Publicado por: viana em janeiro 31, 2005 03:50 PM

Viana,
A expressão "Velha(a) do Restelo" para si seria um doce, comparado com o que merecia depois de se ler o que escreveu. Então o povo foi votar apenas para dar o poder a quem bem entender?! Uh! Aaaah! And the crowd goes wild! Realmente já mesquecia que as eleições são uma fantochada pequeno-burguesa.

Deixe lá os iraquianos,(xiitas, sunitas, curdos, bla,bla,bla) decidirem sobre os seu futuro em vez de sobranceiramente julgar à partida as suas escolhas. Problemas todas as eleições têm. Mas ninguém esperava um sucesso tão grande dos Americanos e isso até os radicais do blogue perceberam. Deixe o mau perder de lado e reze ou peça à bruxa para que a situação do Iraque fique pelo menos um pedacinho melhor.

Publicado por: Zangalamanga em janeiro 31, 2005 04:08 PM

Calma, zangalamanga, eu não acho que isto seja um grande «sucesso» dos americanos.
Calma, viana, eu sei que é tudo mais complicado e menos cor-de-rosa do que parece.
A única coisa que pretendi sublinhar foi o facto dos iraquianos terem ido às urnas, apesar de tudo. E que isso é extraordinário, é.

Publicado por: José Mário Silva em janeiro 31, 2005 04:39 PM

Sem dúvida, comoventes as imagens daquela gente a votar. Afinal, os rituais da democracia continuam a poder ser românticos, tal como os sonharam aqueles que deram a vida pelo voto livre.

É um consolo isto de ninguém conseguir prever o futuro.

Publicado por: Valupi em janeiro 31, 2005 04:40 PM

Quando eu tinha mesmo acabado de ler o George Bush a dizer que as eleições no Iraque tinham sido um triunfo, chequei aqui para me enxugarem as lágrimas e deparei com isto! Chiça que esta malta é demais. Tenho que começat mas é a ler o blogue da Casa Branca!

Publicado por: Germano Filipe em janeiro 31, 2005 05:11 PM

estão para vir eleições em cuba, no portugal 25 de abril, na russia, no iraque e por aí fora, ou seja em todo o lado onde elas são tuteladas por um qualquer poder ditatorial ou militar que não sejam sempre "imensamente participadas", um "hino à democracia", condição básica para a sua "legitimação" perante a opinião pública democrática ou parte dela para quem o que interessa são umas fotos de pessoal na bicha para votar, e depois pronto, já aí está a justificação para a asneira que foi a intervenção militar.
na realidade, desde o dia do início da invasão que temos vindo a assistir ao deteriorar da situação, mas sempre "de vitória em vitória", e assim vai continuar, massacres, situação insustentável, e "vitórias" pois quem faz a história é sempre o vencedor pelas armas. Esta eleições, são um marco psicológico para legitimar a intervenção militar e a barbaridade que se tem seguido, CÁ, porque LÁ, a situação vai continuar a degradar-se. Alguns optimistas já decidiram que estas eleições são o que salva dos iraquianos da guerra civil. Fiquem felizes, mas parece por demais evidente que a ausência maciça dos sunitas prova precisamente o contrário.

Publicado por: tchernignobyl em janeiro 31, 2005 05:23 PM

refiro-me acima ao portugal ANTES DO 25 de abril, como é evidente.

Publicado por: tchernignobyl em janeiro 31, 2005 05:24 PM

«Esta eleições, são um marco psicológico para legitimar a intervenção militar e a barbaridade que se tem seguido, CÁ, porque LÁ, a situação vai continuar a degradar-se.»
Também não tenho ilusões quanto a isso, tchern.

Publicado por: José Mário Silva em janeiro 31, 2005 05:27 PM

Ainda não tinha lido o Público de Domingo, o que fiz há pouco, mas está lá tudo o que descrevi:

"(...)para evitar a diluição de votos e assegurar um domínio na nova Assembleia Nacional, o próprio Sistani promoveu negociações para uma ampla coligação que deverá ser a grande vencedora das eleições de hoje. E emitiu uma "fatwa" (édito religioso) ordenando aos seus milhões de seguidores que votassem. A mensagem passou nas mesquitas e para muitos iraquianos xiitas votar passou a ser um dever religioso.(...)"

"(...)O xiismo começa hoje a chegar ao poder no Iraque. É uma oportunidade histórica e a comunidade maioritária está decidida a não a deixar fugir.(...)"

"(...)Como se espera fraca participação dos árabes sunitas, os curdos contam emergir como segunda força e tirar dividendos. Entre os desejos de autonomia, de que já gozam, e as ambições de independência, com Kirkuk (que não integra o Curdistão) como capital de um estado, vão bater-se com os xiitas na elaboração da lei fundamental. Os principais líderes xiitas estão dispostos a dar-lhes um país federal, mas a questão explosiva será Kirkuk. Na cidade, de onde os curdos foram expulsos por Saddam, vivem ainda turcomanos e cristãos caldeus e assírios. Nos últimos meses milhares de curdos mudaram-se para ali poderem votar.(...)"

E quanto às eleições terem tido uma participação inesperada.... "(...)a grande incógnita é a da participação. A Comissão Eleitoral avançou ontem com uma estimativa de 57 por cento. Já o presidente do governo interino, Ghazi al-Yawar, disse temer que muitos iraquianos não apareçam para votar "por causa da deterioração das condições de segurança e não por vontade de boicotar o escrutínio". Ainda assim, espera uma "taxa de participação de 50 a 75 por cento dos eleitores". (...) De acordo com uma sondagem do Instituto Zogby divulgada ontem, 76 por cento dos sunitas indicam "claramente que não irão votar", enquanto 80 por cento dos xiitas e 57 por cento dos curdos irão "provavelmente às urnas". Apenas 9 por cento dos árabes sunitas dizem que irão votar.(...)" Ou seja 0.8*60% de xiitas + 0.5*20% de curdos dá 58% de votantes, os tais 60% que efectivamente terão votado. Inesperado?... Claro que não para quem segue o que se passa no Iraque.... a época do romantismo já passou, e quem se deixa por ele iludir relativamente a algo tão sério como o que se passa no Iraque precisa de umas semanas no Iraque para ter uma cura de realidade.

Publicado por: viana em janeiro 31, 2005 05:35 PM

Continuamos sujeitos a matrizes de pensamento regidas pela lógica binária, lógica caquéctica.

Pode-se reconhecer a imoralidade da ocupação americana, a degradação subsequente da segurança local e internacional, as sempre pragmaticamente interesseiras motivações da política externa de (quase) todos os países (ocorrem-me os países nórdicos e o Canadá como excepções, mas deve ser a minha ingenuidade a falar), E, em simultâneo, reconhecer a bondade do acto, a novidade histórica do acto, a coragem dos que participaram no acto.

O cinismo não é bom conselheiro.

Publicado por: Valupi em janeiro 31, 2005 05:45 PM

viana:
essas contas com as percentagens ("0.8*60% de xiitas + 0.5*20% de curdos dá 58% de votantes") são tão brilhantes que corri a pôr os óculos escuros... tal "matemática ofuscante" é até digna dum certo colaborador deste blog!

Publicado por: JotaVê em janeiro 31, 2005 05:59 PM

Valupi:
quanta sabedoria na tua última frase...

mas olha que os nórdicos (europeus e americanos) são tão pouco interesseiros como todos os outros.

Publicado por: JotaVê em janeiro 31, 2005 06:40 PM

Pois sim, JotaVê, aceito o aviso. As políticas externas requerem vestimentas retóricas saturadas de clichés (até por necessidade da técnica diplomática, ainda antes da gestão das opiniões públicas), sabendo nós que, afinal, o móbil está na prosaica criação de negócios.

Apesar de tudo, há diferenças culturais. Por exemplo, a propriedade gera o direito, o capitalismo produz a democracia, o consumismo expande a liberdade. São as práticas que levam aos ideais, e não o contrário. Nesse sentido, a axiologia quotidiana, bebida desde o berço, de um sueco ou canadiano pode implicar um acrescento de humanidade na condução dos negócios do Estado, por exemplo. Pelo menos, a história acolhe um sentido de realização intelectual que promove a singularidade humana, apesar da inevitável loucura que transportamos.

Não fazemos a menor ideia aonde conduzirá o progresso [conceito que a pós-modernidade se deleitou a tratar como anátema]. Mas, se não dermos cabo uns dos outros no entretanto ou formos varridos por uma alergia ecológico ou coice cósmico, há boas e belas razões para sermos optimistas. Ao universo não falta espaço, nem paciência.

Publicado por: Valupi em fevereiro 1, 2005 02:54 AM

Pois eu apelo a que ninguém saia de casa no proximo dia 20, ou então vão visitar a avó que está sózinha.

Publicado por: pataphisico_azul em fevereiro 1, 2005 09:48 AM

a questão nunca se pode colocar em "equilibrar" pontos de vista, tentarmos ser "imparciais".
Meus amigos, se acreditamos que aquilo é genuíno, ah se é genuíno, então viva a estratégia de nation building dos neo-conservadores, e nesse caso, é absolutamente supérfluo criticar-se a invasão, as mentiras que a justificaram, etc, etc etc.
Infelizmente sabemos o que está por detrás disto tudo.
Uma potência militar gerida neste momento por uma cáfila expansionista e corrupta.
Esta potência militar organiza um "programa de legitimação" alicerçada no poderio militar, na intimidação, nos massacres indiscriminados, na destruição sistemática, na prática da tortura e apoiada numa superioridade mediática de que não há memória exceptuando a coreia do norte e alguns períodos da russia de estaline e do III Reich.
As eleições, por muito que genuinamente contentes apareçam alguns iraquianos nalgumas filmagens ( há sempre uns gajos contentes e sorridentes prontos para o filme - já assim foi no início da invasão) são um passo nessa estratégia de legitimação num processo de "vale tudo" para "torcer a realidade" à medida dos desejos de quem tem as armas e nada têm a ver com um "processo democrático".
No iraque já houve épocas com uma certa vida democrática sim, mas antes da chegada do sr. saddam aliado dos actuais "nation builders" mas não agora.
O problema de se analisar a realidade política no planeta tem neste momento este aspecto perverso. Há uma potência militar que exerce o seu poder alicerçada numa tecnologia e em meios de controlo militar politico e ideológico sem paralelo na história, e pode dar-se ao luxo de "fazer experiências" que todos sabem estão erradas mas acabam, vários tsunamis artificiais depois, a acabar "legitimadas" pela liquidação física de todos os opositores e de quem se meta de permeio. O cenário alternativo a esta arrogância irresponsável é o da radicalização dos que se lhe opõem até à animalidade mais sórdida, vemos isso na palestina, vemos isso na chechénia, vemos isso no iraque e corremos o risco de vê-lo na Europa e nos Estados Unidos mais tarde ou mais cedo.

Publicado por: tchernignobyl em fevereiro 1, 2005 08:35 PM

em síntese, e tentando ver as coisas na melhor e hipotética perspectiva possível trata-se do regresso em força da velha máxima "os fins justificam os meios". Sabemos todos onde leva esta lógica...

Publicado por: tchernignobyl em fevereiro 1, 2005 08:37 PM

Essa lógica, tchern, não tem um único destino. Um exemplo: para derrotar Hitler ou o Império do Japão, a finalidade, bombardearam-se indiscriminadamente civis, o meio. Fugindo deste tópico patológico em discussões, o nazismo, tu sabes que te é legítimo matar um ser humano (meio) para salvares a tua vida ou a de terceiros (o fim). E desta evidência, que se justifica à luz de um direito que nem a ti ocorre contestar, vem a sabedoria de obedecer ao concreto (a vida sempre nova e sempre em risco) e não ao abstracto (a fórmula "os fins não justificam os meios").

Os teus argumentos estão cheios de pressupostos que me parecem vir das mesmas fontes que denuncias, a comunicação social. Corrige-me se eu estiver enganado, mas tu não estás em condições de saber o que pensa o iraquiano que apenas quer a paz. Não sabes se abomina o invasor, se o suporta resignado ou se deposita nele uma esperança que te escapa. O que sabes é que há um movimento de guerrilha, mas nem aí poderás ter certezas, pois não conheces a complexidade que o substancia. Podem ser fiéis do antigo regime, fanáticos islâmicos, operacionais étnicos, mercenários a soldo de forças estrangeiras ou meros marginais. Provavelmente, um pouco disto tudo.

No entanto, e por mais que te custe (e custa...) não podes atribuir a responsabilidade da insegurança aos americanos. Os americanos são responsáveis pela ocupação, outros são responsáveis pela violência. Sem ingenuidade, se após a invasão não se tivesse dado o fenómeno da resistência, que mata [intencionalmente] mais iraquianos do que americanos, talvez já não tivéssemos a bandeira da USA a patrulhar Bagdad.

A imparcialidade não é a procura de um equilíbrio, muito menos quando não há equilíbrio algum a alcançar, pois o destino dos americanos é deixar aquela terra logo que possam. A imparcialidade é a procura da justiça, mas a justiça só é absoluta na imaginação. Tu escolhes ver na invasão do Iraque o plano expansionista, mas preferes ignorar que à tal superpotência omnipotente seria fácil, dentro da tua lógica, ter feito aparecer as tais armas de destruição maciça que acabaram por admitir não existir. Preferes ignorar o rombo na credibilidade que tal erro acarreta para a sua política externa. Olimpicamente ignoras a transparência democrática, e subsequentes mecanismos de investigação e correcção, com que tais assuntos são tratados nos Estado Unidos da América; nação que talvez, apesar de tudo, reconheças ser um Estado de Direito.

Enfim, és feroz perante o erro da Administração Bush, e meigo face à responsabilidade dos que promovem o caos no Iraque. Estás cego face aos interesses obscuros dos que atacam os EUA e mudo perante os esforços de legitimação de um governo sufragado pelos iraquianos.

O idealismo é sempre um horizonte.

Publicado por: Valupi em fevereiro 2, 2005 02:38 AM

Caro Valupi, parece-me que o teu comentário é claro.
Muito haveria para dizer sobre isto, e eu até já ia embalado, mas faço-te apenas uma pergunta:
Com um sistema tão equilibrado e justo, com mecanismos correctores ( as eleições americanas caucionaram a equipa que decidiu a guerra , de entre toda a hierarquia militar e civil por ali a cima até ao presidente envolvida no processo das torturas mas de que resultou a condenação de uns idiotas básicos "que cumpriam ordens"), invasor fundamentado em mentiras sim mas sem quaisquer culpas na violência como tu afirmas , empenhado em criar condições que permitam aos iraquianos "sonhar" ( os inevitáveis acordes da “gaivota” percorrem já Bagdad- de preferência para lá da Zona Verde ) , porque "o idealismo é sempre um horizonte" , onde vês tu afinal o "pressuposto" do "o erro da Administração Bush" (my, my, para eufemismos devemos-te sem dúvida um cargo como assessor de imprensa)?.
Espero com interesse a tua resposta, mas por favor, apenas por respeito para com a qualidade dos comentários que tens feito por aqui, poupa-me a da "cegueira", é uma palavra que neste debate em aberto desde há quase dois anos evoca já inevitavelmente um fastidioso sentimento de "deja vu".

Publicado por: tchernignobyl em fevereiro 2, 2005 12:19 PM

Ó Zé Mário! "Triunfo dA Democracia"? "foram às urnas para decidir"? Afinal 'democratizar' à bomba também serve, desde que haja urnas! Onde será o próximo 'triunfo'? Irão?

Publicado por: Jorge em fevereiro 2, 2005 04:31 PM

Ó Jorge! Acho que não percebeste o que eu quis dizer. O triunfo da democracia a que me referi não foi o de Bush, nem o da legitimação a posteriori dos que defenderam uma invasão do Iraque sem suporte no direito internacional e assente em mentiras. Quanto a isso já disse o que pensava, no momento próprio. O triunfo a que eu aludia era o do espírito democrático do povo iraquiano, que foi votar apesar dos imensos riscos. Apenas isso.
Quanto à questão do "foram às urnas para decidir", é óbvio que as coisas não são tão simples. Os curdos e os xiitas foram marcar terreno com vista à defesa dos seus interesses numa futura constituição. E é evidente que há decisões capitais que são tomadas em esferas do poder que as eleições nem sequer beliscam. Mas se partirmos do princípio de que o voto não decide absolutamente nada, mais vale desistirmos da própria ideia de democracia.

Publicado por: José Mário Silva em fevereiro 3, 2005 12:45 AM

Amigo tchern, há sempre muito para dizer, por isso não têm fim as conversas. Aqui vai mais um contributo para a tertúlia.

Confesso que não entendi a tua pergunta. Isto é, nem sequer a percebo - embora seja o primeiro a reconhecer que a falha deve ser minha. Porém, compreendo-a. Ela vem de uma ilusão de óptica [mais um eufemismo, a pedido] que patenteias sempre que mexes os dedos para escrever sobre o Governo Americano.

Aparentemente, estás de mal com o curso ambíguo, imprevisível e até contraditório da História - em que ideais de justiça universal e
comunhão proletária desembocam em experiências de terror político e anulação da individualidade, ou, em que a exploração capitalista desvairada promove uma sociedade de instituições democráticas e liberdades garantidas, por exemplo. Tudo isto é desconcertante, estou contigo.

Mais perplexo deves ficar quando assistes à eleição do Bush e da sua maltinha por milhões suficientemente informados sobre o curso dos acontecimentos. Como tudo seria melhor e mais fácil se o Saddam continuasse no poder (e, já agora, sem sanções), se os Americanos não saíssem das fronteiras, se a política internacional fosse o seráfico palco onde todos transbordassem honestidade, sem segundas intenções, angélicos. E, como não é, nem irá ser no futuro previsível, resolves queixar-te do matulão Sam. Sem dúvida, é o que mais se presta ao exercício.

A tua ilusão de óptica, na minha opinião, está em mandares o bebé fora, junto com a água do banho. Veres nos EUA a reedição do Império Romano em versão high-tech serve uma preguiça intelectual que é confortável e anestesiante, como todas as preguiças. Faz crer que detemos a chave da História, que a nossa análise é um absoluto de sentido. Claro, estás indignado com as mortes e a destruição. Mas, não estamos todos? Onde começam as mortes e a destruição?...

O que me "incomoda" no teu argumentário é o facto de ele não introduzir inteligência na leitura histórica, pois para comoções morais sobre o valor da vida humana e os direitos dos povos à autodeterminação basta a consciência comum de que todos estamos servidos (com certeza, nem tu nem eu, nem nenhum dos nossos amigos e familiares, se decidiria pela invasão do Iraque no caso impossível de se ter esse poder). A pregação que vê nos EUA o Grande Satã parece-me delirante, não atende à dinâmica social e internacional que nos calhou viver, onde as nações Ocidentais combatem por objectivos que são pragmáticos, sim, e idealistas, outrossim.

O erro do Bush foi ter invadido o Iraque. Não estava lá na Casa Branca, pelo que não sei qual era o plano. A tese de que eles foram para o Iraque garantir o domínio sobre o petróleo tem o fascínio canhestro que explica a ida à Lua pela lógica da supremacia militar. Não é que a oportunidade não fosse também para isso utilizada, é só porque a realidade é, felizmente, sempre mais complexa do que os reducionismos ideológicos.

Onde está a verdade, está o tirano.

Publicado por: Valupi em fevereiro 3, 2005 06:11 AM

Ena! quanta moderação, Valupi. Além de saberes escrever, não sofres da cegueira política habitual nestas paragens. Gosto.

Publicado por: JotaVê em fevereiro 3, 2005 10:24 AM