Em má hora li o post do tchernignobyl sobre uma tripartida teoria, exposta n’O Observador, de seu patusco nome "A Nova Esquerda e a sua Tentativa em Destruir a Civilização Ocidental Liberal".
Em má hora, porque comecei a ler aquilo e deu-me vontade de responder. Fui lendo e escrevendo. A primeira parte da teoria ainda me pareceu fazer alguma espécie de sentido. Quando cheguei à segunda, já duvidava da bondade da ideia de gastar assim a minha preciosa hora de almoço. Ao finalizar a terceira parte, só pensava no belo bitoque que podia ter estado a comer.
Bem, por vossa conta e risco, e desde já avisados que o esforço não vale muito a pena, podem seguir para a minha "resposta" propriamente dita....
Primeira Parte
Depois de mencionar a guerra do Iraque e a questão Israelo-Palestiniana, o autor (AAA) explica-nos que a Nova Esquerda (NE) não "quer que os EUA se defendam". Fico sem perceber se esta defesa seria contra os Palestinianos, os Israelitas ou contra as famosas armas capazes de, em 45 minutos, reduzirem o Ocidente a cinzas pejadas de micróbios. Se bem me lembro, não reparei em muita gente a protestar contra a intervenção no Afeganistão (e é até curioso que os Franceses foram os primeiros, depois dos EUA, a participar em bombardeamentos naquele país; isto diz muito quanto ao que pode e não pode ser aceite como autodefesa), pelo menos no seu início.
Queixa-se de seguida que "apontam o dedo para os erros que os norte-americanos cometeram no passado". Julgaria, na minha inocência, que tal atitude teria mais a ver com bom-senso do que com inclinações políticas. Basta recordar o treino dado por operacionais da CIA aos valentes "combatentes da liberdade" do Afeganistão: incluía, por exemplo, técnicas bombistas para ataques em larga escala; os "consultores" ingleses presentes nos mesmos campos de treino recusaram-se a ministrar tais ensinamentos...
Adiante.
Segue-se a fulgurante revelação: a tal NE terá deixado de pensar "em termos económicos". Isto porque a "Velha" esquerda defendia "a centralização planificada da economia" e terá perdido definitivamente o combate com o liberalismo de Hayek e Friedman (Curioso é ver um blog tão conservador a louvar um teórico que defendeu a liberalização das drogas e da prostituição. Por outro lado, não convém esquecer que este Friedman foi obreiro, com os seus Chicago Boys, de um suposto "milagre do Chile de Pinochet", aqui desmontado pelo colunista do "Observer", Greg Palast ).
Ora isto é, por exemplo, ignorar que Marx continua dar-nos excelentes pistas para compreender o capitalismo. A sua famosa admissão de não ser marxista foi muito mais que uma blague; enquanto que muitos dos seus seguidores viam o capitalismo como um monstro moribundo, Marx sabia que se tratava de um organismo muito bem equipado para crescer e sobreviver. A Globalização, assim como a criação de campos de investimento radicalmente novos como a Internet e a biotecnologia, só nos vêm demonstrar que o Capitalismo ainda é capaz de progresso, ainda está longe dos seu limites, como definidos pela análise do bom Karl. Ademais, há analistas do pensamento de Marx que o vêem mais próximo do Mercado do que da planificação centralista!
Nos dias que correm, académicos como Paul M. Sweezy, Duncan K. Foley, Samir Amin e muitos neo-marxistas continuam a criar aquilo que AAA nos diz que não existe: teorias económicas de esquerda. (Pode ser que ele se refira não à Esquerda em si, mas sim aos indivíduos que escrevem nos blogs que cita; eu, por mim, admito desde já, e sem problemas, que nunca tive uma ideia inovadora sobre Economia na minha vida!)
Depois, AAA refere um post do Zé Mário -que, afinal, nem era dele- em que se lamentava o fecho de duas livrarias em Lisboa, "culpando a capitalismo global do facto". Quem lê o post em apreço fica elucidado: AAA divaga, como divaga ao partir daqui para uma condenação global do "discurso de Louçã e as suas preocupações com a liberalização da droga e a questão do aborto (!!)" ou do "governo de Guterres". Enfim... salva-se desta Primeira Parte a frase "O que a Nova Esquerda pretende é alterar a nossa sociedade como um todo." Que a Esquerda queira mudar o mundo, continua a parecer-me muito bem.
Segunda Parte
Hmmm. Chegado a este ponto, que hei-de eu dizer sem ser grosseiro?
A ideia de AAA aqui apresentada resume-se assim: a NE, quando muito, só reconhece ao mercado importância em questões económicas. Depois, "acontece que, existem outras necessidades. Necessidades sociais, culturais, ecológicas e outras que mais. Estas necessidades, defende a Nova Esquerda (representada na política pelo Bloco de Esquerda e parte do Partido Socialista e na blogoesfera pelo Barnabé e o Blogue de Esquerda) não se manifestam por meio das escolhas que o indivíduo faz no mercado livre.
Para a Nova Esquerda, estas necessidades são perceptíveis apenas por alguns que se arrogam em conhecer o que precisa a sociedade.
Isto explica porque a Nova Esquerda está constantemente a lançar, para o debate político, questões e soluções, como a liberalização do uso de drogas, que não representam a vontade da maioria. Isto explica a certa arrogância que se nota e sente quando se ouve Francisco Louçã e se lêem os escritos do Barnabé.
A Nova Esquerda considera-se aprioristicamente sabedora das nossas necessidades. Ela representa, pois, um retrocesso ao passado."
Pois. Lançar discussões sobre temas novos e que "não representam a vontade da maioria" é arrogante e denuncia uma mentalidade totalitária, que assume saber tudo sobre as necessidades dos demais.
Seguindo por esta prometedora vereda, logo descobrimos que nunca deveríamos ter tido democracia parlamentar, repúblicas, vacinas, internet, arte moderna, aviões, livros, Cristianismo, etc, etc, etc. É que todas estas "coisas" nunca interessaram, por certo, às vontades das maiorias dos tempos em que foram "lançadas". Talvez até tenham sido idealizadas por facínoras irresponsavelmente convencidos de poderem antecipar "as nossas necessidades".
Desculpem lá, mas este arremedo de ideia é que é "um retrocesso ao passado". Ao passado das cavernas, em que novas ideias não eram discutidas... porque ainda ninguém sabia falar.
Terceira Parte
Lamento: a coisa não melhora. Mas prometo finalizar depressa. Vamos ver: a NE detesta os EUA, abomina o Bush mas está pronta para excomungar amanhã o Kerry, Israel vai pró mesmo saco, pois é uma "imposição liberal e capitalista" (honra seja feita a AAA: não sacou do famoso "anti-semitismo"). Pronto; disto já sabemos, a estas acusações já muita gente respondeu há muito tempo. Sigamos.
Ah. As vítimas que se seguem são os movimentos ecologistas. Diz AAA que "a grande maioria dos movimentos ‘Verdes’ são de esquerda". (Eu tenho como pessoalíssima convicção que isto não é verdade; mas trata-se de assunto para outras conversas.) E que defendem apenas "um ambiente à sua maneira, com as prioridades pré-definidas e não determinadas pelo indivíduo".
Então, não sabemos nós, ó ignaras criaturas da tonta NE, que "qualquer pessoa consegue provar que um meio ambiente saudável é essencial ao bem estar e desenvolvimento económico."?
Por certo que sabemos. Então, quando vemos o amor da Nova Direita a "ecologistas" do calibre de um Lomborg ou de um George Bush – grande defensor do Protocolo de Quioto e inimigo declarado da exploração petrolífera no Alasca, como é público e notório – a elucidação torna-se quase deslumbrante, de tão clara.
Só falta a AAA recordar-se da famosa filosofia anywhere, but not in my backyard; assim talvez compreendesse porque é que empresas mui amigas dos ambientes americanos e europeus se dedicam a transformar porções apreciáveis do Terceiro Mundo em lixeiras, quando não em armadilhas mortais como a de Bhopal.
Gostaria de terminar este arrazoado com um ponto em que estou de acordo com AAA: "Não é preciso ser de esquerda para defender a floresta e acreditar na limpeza dos rios e dos mares." Pois não.
Deixo para outrem a tarefa de comentar o pequeno segmento final, relativo à globalização, também porque quero ir almoçar e também porque aqui não se aprende nada.
Li até à parte do Chile e depois deu-me vontade de rir. Certamente que os chilenos não se preocupam por serem hoje serem hoje os mais ricos da America Latina.
Nota; Quando Fidel chegou ao poder, Cuba e Chile estavam ao mesmo nível. Hoje, pior que Cuba restará o Haiti. Melhor que o Chile, já não há.
Ainda segui o link, mas quando cheguei a esta frase...
"Chile puede pretender algún éxito económico. Pero ése es el trabajo de Salvador Allende - quién salvo a la nación, milagrosamente, una década después de su muerte."
percebi. Já estamos a brincar ao Carnaval! Este Luis Rainha é danado prá brincadeira, eheheheh! Ganda Luis!
JCD,
O artigo que referi, sobre o Chile, parece-me claro, mesmo no inglês de origem: "In 1973, the year the General seized the government, Chile's unemployment rate was 4.3%. In 1983, after ten years of free-market modernisation, unemployment reached 22%. Real wages declined by 40% under military rule.
In 1970, 20% of Chile's population lived in poverty. By 1990, the year "President" Pinochet left office, the number of destitute had doubled to 40%. Quite a miracle."
E não dei com ele nás páginas do "Avante!"
O Luis Rainha passa ao lado da melhor parte dos posts do AAA. As necessidades das pessoas expressam-se muito melhor através de acções num ambiente de mercado livre do que através de opiniões expressas através do processo político. O AAA comete o erro de ilustrar essa ideia com a questão das drogas, questão na qual as posições de direita tendem a ser anti-mercado e as da esquerda tendem a ser pró-mercado.
O Luis Rainha, ao pegar na questão concreta das drogas, e ao dizer que o capitalismo tem os seus méritos, em vez de pegar na questão abstracta acaba por admitir que a ideia abstracta poderá estar certa. O que me leva a pensar que o Luis Rainha, e a esquerda em geral, são mais pró-capitalistas do que aparentam.
Afixado por: Joao Miranda em fevereiro 19, 2004 03:27 PMMas há muito mais informação disponível sobre este aspecto da história recente do Chile. Por exemplo:
"So what was the record for the entire Pinochet regime? Between 1972 and 1987, the GNP per capita fell 6.4 percent. (13) In constant 1993 dollars, Chile's per capita GDP was over $3,600 in 1973. Even as late as 1993, however, this had recovered to only $3,170. (14) Only five Latin American countries did worse in per capita GDP during the Pinochet era (1974-1989). (15) And defenders of the Chicago plan call this an 'economic miracle.'"
(http://www.puertorico.com/forums/showthread.php3?threadid=9625)
Bem que o primeiro autor referia a forma "quase religiosa" com que o dito "milagre" é reverenciado pelos liberais...
Gostei bastante que LR afirma "o Capitalismo ainda é capaz de progresso, ainda está longe dos seu limites".
Gostaria que LR, como bom marxista, me explicasse a sua ideia de progresso "não-capitalista".
Estou expectante...
Afixado por: Miguel em fevereiro 19, 2004 03:47 PMDiz quem que o LR é um "marxista", ainda para mais "bom"? De qualquer forma, não estou a ver quando terá Marx escrito que o progresso não existe...
Afixado por: Luis Rainha em fevereiro 19, 2004 04:03 PMPerante a abundância das referências a Marx diga-mos que era uma suposição fundada.
É cada vez mais difícl descobrir marxistas hoje em dia. Que o declarem abertamente, pelo menos...
Afixado por: Miguel em fevereiro 19, 2004 05:22 PM"digamos" e não "diga-mos" como é óbvio.
Outra vez o problema de escrever à pressa.
Afixado por: Miguel em fevereiro 19, 2004 05:24 PMCaro Luís: Estes foram os países em que o Índice de Desenvolvimento Humano da UN (http://www.undp.org/) mais cresceu entre 1975 e 2000 (excluindo os países do fim da lista cujas variações podem ser enormes, apenas comparando os 40 primeiros da lista actual):
Coreia do Sul +28% (27º lugar)
Singapura +26% (24º)
Malta +20% (30º)
Portugal +19% (28º)
Chile +18% (38º)
Hong Kong +17% (23º)
Israel +13% (22º)
Irlanda +13% (15º)
Espanha +11% (20º)
Luxemburgo +11% (16º)
Tira as tuas próprias conclusões. Já agora tira-as também sobre a relação entre desenvolvimento e liberdade Económica.
Para que não percas demasiado tempo a procurar razões para o sucesso português, aqui fica a nossa evolução desde 1975:
Em 1975 Portugal estava no 30º lugar do ranking.
Em 1980 em 37º.
Em 1985 em 34º.
Em 1990 em 32º.
Em 1995 em 27º.
Em 2000 em 28º.
Um abraço
jcd
A coisa mais estranha que fiz na minha hora de almoço foi comer uma chispalhada na tasca do senhor António que me ficou a trabalhar no estômago a tarde inteira.
Afixado por: brutus em fevereiro 21, 2004 04:24 PMVery useful comments - good to read
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