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janeiro 27, 2005
O ÓDIO À MÚSICA
Ao escrever sobre a fotografia do post anterior, não pude deixar de pensar neste texto do Pascal Quignard.
Ouvir e obedecer.
A primeira vez que Primo Levi ouviu a fanfarra à entrada do campo tocando Rosamunda, teve dificuldade em reprimir o riso nervoso que se apoderou dele. Então viu aparecer os batalhões que regressavam ao campo com um andamento estranho: avançavam em filas de cinco, quase rígidos, o pescoço tenso, os braços colados ao corpo, como homens feitos de madeira, a música levantando pernas e dezenas de milhares de tamancos de madeira, contraindo os corpos como autómatos.
Os homens estavam tão desprovidos de força que os músculos das pernas obedeciam contra a sua vontade à força própria dos ritmos que a música do campo impunha e que Simon Laks dirigia.
Primo Levi qualificou a música de “infernal”.
Apesar de as imagens serem nele pouco habituais, Primo Levi escreveu: «As suas almas estão mortas e é a música que os empurra para a frente como o vento leva as folhas secas, e que substitui a vontade».
Depois sublinha o prazer estético dos alemães diante destas matinais e vespertinas coreografias de infelicidade.
Não foi para apaziguar a sua dor, nem mesmo para conciliar as suas vítimas, que os soldados alemães organizaram a música nos campos da morte.
1. Foi para aumentar a obediência e os unir a todos na fusão não pessoal, não privada, que toda a música engendra.
2. Foi por prazer, prazer estético e deleite sádico, apreciados ao ouvir as melodias de que gostavam e na visão dum ballet de humilhação dançado pela troupe daqueles que envergavam os pecados daqueles que os humilhavam.
Foi uma música ritual.
Primo Levi pôs a nu a mais antiga função da música. A música, escreveu ele, era sentida como um «malefício». Era uma «hipnose do ritmo contínuo que aniquila o pensamento e adormece a dor».
*
A música já está toda no apito do SS. Ela é uma potência eficaz, ela provoca uma atitude imediata. Como o sino do campo de concentração desencadeia o acordar, no qual o pesadelo onírico se interrompe para se abrir ao pesadelo real. De cada vez, o som obriga a «levantar».
A função secreta da música é convocativa.
É o canto do galo que faz, de repente, virem lágrimas ao olhos de S. Pedro.
Pascal Quignard, La Haine de la Musique (1996)
Publicado por Manuel Deniz às janeiro 27, 2005 11:50 PM
Comentários
Perturbador texto.
Publicado por: Valupi em janeiro 28, 2005 03:45 PM