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janeiro 27, 2005

O SOM DA BARBÁRIE

Comemorações como a de hoje remetem-nos ao silêncio.
Haveria no entanto coisas para dizer, antes que este dia de recolhimento se feche e que se volte de vez a página comemorativa. Mas normalmente não se diz, ou quase nada. Ficamos inevitavelmente aquém.
O silêncio, sempre. Porque o silêncio nos lembra a morte. Porque as imagens do holocausto que nos povoam o imaginário, as imagens insuportáveis que nos fazem estremecer, virar a cara, não olhar, nunca têm banda sonora. E não dizemos nada porque esse horror é, como se diz, “indescritível”, “sem nome”. Porque é impronunciável.
E, no entanto, era de som que eu gostava ainda assim de tentar falar. Por causa desta fotografia - encontrada aqui e que publico quase a medo - que me recordou uma outra dimensão, também ela à sua maneira impensável, do que foi a barbárie que hoje se evoca.
Um olhar distraído talvez não veja violência nesta imagem. Aperceber-se-á que se trata de uma orquestra, que se entrevê ali um arco de violino, acolá um instrumento de sopro, várias estantes e partituras. Verá um maestro em uniforme de tipo militar a tentar dar alguma ordem ao que parece ser um ensaio, e mesmo que um dos músicos esboça um sorriso indeciso em direcção à máquina fotográfica. Talvez só depois veja que uma vedação de arame farpado envolve o espaço em volta. E que também os músicos vestem um uniforme. E que não é um uniforme qualquer.
Em Auschwitz, no centro da industria de destruição nazi, não reinava o silêncio. Esta fotografia foi tirada em 1941, num concerto dominical para os oficiais SS. Ouvia-se música, quase a todas as horas. E ouvia-se boa música. Mesmo muito boa música. Em Auschwitz, no centro da indústria de destruição nazi, a morte ouvia Bach e Schubert.

Publicado por Manuel Deniz às janeiro 27, 2005 11:37 PM

Comentários

ontem, num documentário que passou na rtp1, um judeu sobrevivente a Auschwitz dizia algo como isto:

"nós, quando chegamos a auschithwitz, não acreditavamos o que os prisioneiros que lá estavam nos diziam [acerca dos crematórios e câmaras de gás]...não era possível, obviamente não era possível, os alemães não faziam isso, o povo alemão era muito evoluido, era um povo de musicos e escritores..."

e no entanto...

Publicado por: Domingos em janeiro 28, 2005 09:49 AM

ontem, num documentário que passou na rtp1, um judeu sobrevivente a Auschwitz dizia algo como isto:

"nós, quando chegamos a auschwitz, não acreditavamos o que os prisioneiros que lá estavam nos diziam [acerca dos crematórios e câmaras de gás]...não era possível, obviamente não era possível, os alemães não faziam isso, o povo alemão era muito evoluido, era um povo de musicos e escritores..."

e no entanto...

Publicado por: Domingos em janeiro 28, 2005 09:49 AM

Excelente partitura, Manuel Deniz. Quando acabares de tocar esse violino, espero que tenhas a honestidade musical de pegares num rabecão e tocá-lo bem à memória dos outros 49 milhões, na maior parte cristãos, que morreram nessa guerra criminosa que ainda está à espera que a escrevam numa linguagem mais clara. E já que estou com as mãos na massa e não quero andar a mudar de post porque tenho mais que fazer, diz ao Zé Mario e ao chupacabras do hetero doxo que a teoria da repetição basbaqueante não ajuda nem o judeu honesto nem o cristão com alma e coração.

Publicado por: Germano Filipe em janeiro 28, 2005 10:58 AM

O que é a «teoria da repetição basbaqueante», Germano? Podes ser mais explícito?

Publicado por: José Mário Silva em janeiro 28, 2005 11:50 AM

Na verdade, Auschwit pede palavras, não silêncio. Palavras que expliquem, que nos acrescentem humanidade.

Na estética da destruição nazi impressiona-nos o método, a tecnologia, o contexto histórico, a proximidade cultural. Mas é por etnocentrismo que não reconhecemos ser o nazismo exterminador apenas mais uma variante das pulsões ancestrais que nos milénios afora levaram até a efectivos genocídios.

Com a morte não há contabilidade. A morte de dois não é o dobro da morte de um.

Publicado por: Valupi em janeiro 28, 2005 02:04 PM

TDRB é a teoria que cheira e sua a velhice por ser tão repetida. Teoria que tem a "virtude" de fazer abrir as bocas de pessoas ainda não inteiramente patetas que porventura te lêm, particularmente nestes tempos de salmos politicos mascarados de funestação sincera. Se pensas que esta teoria não faz sentido e disso me quizeres convencer, então por favor caldeia com a matéria que ofereces para comentário-consumo opiniões diversas,incluindo,ou só incluindo,se quizeres, as de judeus honestos que não faltam por esse mund fora. Israel Shamir, por exemplo, cidadão israelita, judeu, jornalista, escritor, que tem, ou pelo menos tinha, mais liberdade para discutir publicamente estas coisas no seu próprio país que nós temos na Europa. O crime foi enorme, sem dúvida. Mais não posso fazer que lamentar. No entretanto,diz-nos,se souberes, a mim e aos cristãos que não tiveram nada a ver com esse crime, quando é que podemos desanojar, perder este complexo, ou redimir este pecado. E, agora, desculpa-me que tenho que ir lá fora comprar o pasquim da tarde.

Publicado por: Germano Filipe em janeiro 28, 2005 02:50 PM

A perplexidade que os comentários de gente como esta me deixa não tem limite. Como é que se atrevem a falar de culpa cristã num acontecimento que, antes de mais, evidenciou o pior, o cúmulo mesmo, que o ser humano pode mostrar. Independentemente da religião, raça ou preferência política. Comparar números é o método mais básico de branqueamento da História.
Aqueles que tentam retirar importância ao que aconteceu, para mim ainda são piores que os alemães que apoiaram Hitler. Porque esses não conheciam um centésimo daquilo que se passava. Agora sabemos tudo, por isso não há desculpa.

Publicado por: Sérgio em janeiro 28, 2005 05:11 PM

Tens razão Sérgio.Nesta discussão que começou com música, alguém tinha que tocar o pifaro das acusações extremamente infundadas. Calhou-te a ti. Mas apresso-me a confessar a minha ignorância noutra área:não sabia que os franco-atiradores da esquerda atarantada já tinham descoberto alvos ainda mais à direita que o homem que só tinha um testículo.Obrigado pela lição e manda sempre porque eu sou pelo amor entre os homens - amor não carnal, bem entendido.

Publicado por: Germano Filipe em janeiro 28, 2005 06:48 PM