« O ÓDIO À MÚSICA | Entrada | JÁ DO SÓCRATES NÃO SE PODE DIZER O MESMO »

janeiro 28, 2005

NOITE LONGA

Eis uma excelente notícia. A SIC regressa esta madrugada às suas saudosas «Noites Longas», durante as quais o pequeno ecrã se ilumina com algumas das mais interessantes e vanguardistas obras do audiovisual contemporâneo.
A partir das 2h30 (um horário estapafúrdio que só satisfaz quem confunde a cultura com a insónia), serão apresentados dois filmes:

1) «Uma Visita ao Louvre», de Jean-Marie Straub e Danièlle Huillet, em que os dois cineastas levam ao limite os seus princípios estéticos e a sua filosofia do cinema, filmando em apenas 25 planos (com 47 minutos de duração) a visão de Cézanne sobre algumas das obras expostas no museu mais famoso do mundo. Vemos os quadros (Véronèse, Ingres, Giorgione, David, Murillo, Delacroix ou Tintoretto), ouvimos as palavras de Cézanne em voz off (ditas por Julie Koltaï) e é tudo. No fim há uma tela de Courbet que representa um riacho. Um riacho de tinta que se transforma num riacho verdadeiro, fixado pelo olhar dos Straub num bosque da Sabóia. E nesta passagem está implícito muito do realismo brutal com que os autores de «Dalla Nube alla Resistenza» ergueram uma das mais exigentes (e intransigentes) obras da arte contemporânea.


2) Em complemento do último filme dos Straub, poderemos ver ainda o documentário que Pedro Costa lhes dedicou: «Où Gît Votre Sourire Enfoui?» («Onde Jaz o Teu Sorriso?»). Uma obra-prima absoluta. E dizer obra-prima neste caso, acreditem, não é um elogio fácil e lisonjeiro. É um understatement.


A propósito de «Onde Jaz o Teu Sorriso?», tive oportunidade de escrever no suplemento DNA, em Janeiro de 2003, o seguinte texto:

No quarto dos Straub

1. No princípio, há um homem de costas que fala de laranjas. O plano é muito belo, vê-se água, a linha do cais, navios na distância, tudo a preto e branco, num enquadramento tão perfeito que podíamos olhá-lo durante mil anos. Esse homem – melhor seria dizer essa voz – acaba de chegar e dialoga com um camponês que está encostado a uma parede, muito vertical e revoltado («Ninguém as quer!», diz ele, referindo-se às laranjas). Estas são as primeiras imagens de «Sicília!», de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet. Mas também são, percebemos agora, as primeiras imagens de «Où Gît Votre Sourire Enfoui?», de Pedro Costa, retrato em movimento (não tenho coragem de lhe chamar outra coisa) do casal Straub-Huillet. Existe contudo, entre os dois, uma diferença importante. No filme de Pedro Costa as imagens de «Sicilia!» andam para a frente e para trás, os gestos suspendem-se, as palavras saem e voltam a entrar na boca do camponês. O ecrã que vemos, já não há dúvidas quanto a isso, é o visor de uma moviola durante o processo de montagem. Ouve-se Danièle, depois Jean-Marie, frases tensas de quem procura o sítio certo para cortar um plano. Aqui, diz ela; ali, diz ele. A diferença: um fotograma. Um fotograma é a diferença entre os seus olhares. Há, a separá-los, um vinte e quatro avos de segundo. Dito de outro modo: eles vêem exactamente a mesma coisa, embora não coincidam ponto por ponto. «Se a realização é um olhar, a montagem é um batimento de coração», escreveu Jean-Luc Godard, num texto publicado nos Cahiers do Cinéma, em 1956. Foi o fotograma fugidio que separa os Straub (esse quase inaudível batimento de coração) que Pedro Costa filmou, como quem testemunha um assombro.

2. É preciso dizer que esta obra vem no seguimento de outro filme magnífico e inclassificável: «No Quarto da Vanda». Já não estamos, como é óbvio, no surreal universo do Bairro das Fontainhas, com as suas casas em demolição, as figuras humanas destruídas pela droga e pela «vida», o caos de miséria que afinal é um cosmos, a luz que bate na parede como numa tela de Vermeer e essa Vanda, rosto-enigma em grande plano, sempre à procura do «pó» que sobra nas páginas amarelas. É tudo outra coisa menos o olhar de Pedro Costa, a sua disponibilidade para compreender o que está para além da realidade mas ainda aquém da ficção. O quarto dos Straub, melhor seria dizer de Jean-Marie-Danièle (assim mesmo, com os nomes colados), é a sala de montagem. E a câmara está ao fundo, quieta, sem interferir. Eles trabalham como se ela não existisse. Danièle mexe na moviola, corta a película, volta a colar, experimenta. Aquele é o seu território, o seu mister, o tempo de um ofício que exige concentração. Por isso, quando Jean-Marie se distrai (e a distrai) com filosofias e abstracções, zanga-se. Eleva a voz, impõe ordem, exige silêncio. E Straub, resignado, levanta-se, vai dar uma volta no corredor, fuma um cigarro, tosse não sei quantas vezes, encosta-se à ombreira da porta, reflecte em voz alta (sobre o cinema, sobre Hitchcock, sobre a criação ou o génio), improvisa um aforismo e volta a sentar-se junto à moviola, para discutir o que ela entretanto fez. O «punctum» do filme nunca está nos Straub (vemo-los afastados, de costas ou na penumbra). O «punctum» está no ecrã da moviola. O centro é ali, naquele palco imaterial onde eles lutam contra uma matéria que lhes resiste. Aliás, se «Où Gît…» também é, de certa maneira, uma aula de cinema, é-o no sentido em que revela a forma única de produção dos Straub. O seu cinema conjuga um rigor estético absoluto com um método de trabalho «artesanal», em que não se utilizam quaisquer «truques» de estúdio, nem manipulações do som. É um cinema da reflexão e da palavra (tanto poética como política). Pedro Costa mostra-nos isso muito bem. Os Straub a reflectirem sobre os textos de que partem (agora Vittorini; com ecos de Pavese). E a defenderem, sempre, a necessidade de uma nova utopia, de um novo comunismo. Não haja ilusões: quase 40 anos após o primeiro filme, ambos continuam visceralmente «não reconciliados».

3. Recupero velhas entrevistas de Jean-Marie Straub. Frases soltas. Esta: «Não temos vontade de fazer “grandes obras”. Tentamos fazer coisas que tenham muita paciência e muita energia.» Ou esta, a prolongar a citação de JLG, lá atrás: «Os filmes em que não se sente mais bater o coração do autor (…) são como pontes que desabam quando são atravessadas por gente ou cadeiras nas quais não nos podemos sentar sem risco de morte.» Ou ainda: «Os filmes não têm interesse se não tiverem alguma coisa que arda em cada plano.» Estas frases podiam ser de Pedro Costa, agora. Também ele procura, obsessivamente, o sorriso que se perde dentro de um olhar e o fogo que dá sentido a cada imagem.

4. Este é um filme que decorre em dois espaços. A sala de montagem, lugar de criação. E um cinema, lugar de exposição das obras mais antigas. A «narrativa» oscila entre estes dois pólos: a génese e a síntese. Vemos, alternadamente, o casal a montar «Sicilia!» (o presente) e Jean-Marie a apresentar «A Morte de Empédocles» ou «Crónica de Anna Magdalena Bach» (o passado). Lá mais para o fim, os dois pólos unem-se. No mesmo cinema da retrospectiva (um ciclo?), é exibido «Sicilia!». O presente transforma-se em passado e abre caminho para os filmes futuros (como o espantoso «Operai, Contadini»). Enquanto isso, no hall, Jean-Marie Straub espreita para o interior da sala, como o pai ansioso pelo nascimento do filho. Sabemos que o filme está a acabar porque se ouve, vindo lá de dentro, o final do andamento lento do quarteto de cordas op. 132 de Beethoven. Straub senta-se nos degraus e baixa a cabeça, gozando talvez a melancolia que sucede ao júbilo da obra feita. A música desvanece-se e Jean-Marie, generoso, oferece a Pedro Costa, com um gesto (a mão que se deixa cair), o tempo exacto para o último corte.

Publicado por José Mário Silva às janeiro 28, 2005 12:50 AM

Comentários

Pois, tudo bem. Mas às 2.30 da manhãe?

Publicado por: Onan em janeiro 28, 2005 01:43 AM

Pois, tudo mal. Ou então chegamos amanhã ao emprego com olheiras até aos pés.

Publicado por: José Mário Silva em janeiro 28, 2005 01:47 AM

Xiça, a essas horas já não dá para apreciar nada!

Publicado por: Mário em janeiro 28, 2005 09:03 AM

Em relação aos Straub, acho que as opiniões deles, assim como as de outros autores maiores do cinema, são demasido pessoais para se poderem constituir em filtro para apreciação de obras alheias.

Publicado por: Mário em janeiro 28, 2005 09:06 AM

Estes horários são detestáveis!!!...dps dizem k a programação de qualidade não tem audiência - porque será?...

Publicado por: Ana F. em janeiro 28, 2005 04:01 PM