Já alguma vez vos aconteceu comprar um livro tão mau, tão mau, que só vos dá vontade de o devolver ao editor, acompanhado por uma carta insultuosa e ameaçadora? A mim, já.
Este obscuro objecto da minha ira é uma coisa intitulada «Camaleão na Sombra da Noite». E é suposto ser uma recolha de poemas de Peter Hammill. Escrevo "é suposto", porque o que lá está impresso é mais obra do tradutor do que do songwriter inglês. Sim, sei dessas coisas todas do tradutor/traidor; garanto-vos que isto não tem mesmo nada a ver.
No meio de tanto dislate e tão numerosas atrocidades, é difícil escolher amostras. Mas deixo-vos com meia dúzia de pérolas, à laia de pálidos exemplos:
We have looked upon heroes and
They are found wanting
"Olhámos para os heróis e eles querem-no"
(To be found wanting significa falhar, ficar aquém)
"Unreal, unreal", ghost helmsmen scream
"Irreal, irreal, gritam fantasmas com elmos"
(Surpreendentemente, o helmsman nada tem a ver com "elmos"; é o nosso popular "homem do leme")
My pail has sailed into the sea
"O meu balde pôs-se ao largo no mar"
(Pail não faz parte do poema no original; pain é a palavra certa. Para dar sentido à coisa, o "tradutor" acrescenta uma nota explicativa: "Cfr. A capa de ‘The least...' Aberta a dupla sleeve poderemos ver PH ainda criança a brincar com um balde e uma pá numa praia". Ah; assim já se entende tudo...)
No more travelling chess
"Fora com a viagem de xadrez"
(Trata-se, como é óbvio e ululante, de xadrez "de viagem"; em tabuleiro portátil.)
Dropping the torch
"Pingando (!) o archote"
(To drop significa "deixar cair". "Pingar" seria To drip)
Agora, um excerto maiorzinho, não vá alguém acusar-me de roubar o contexto à obra:
SILVER
You lay your plans, I take them as they come
I understand, we dance to different drums
"SILVA
Estendes-te nas tuas planícies de corda,
estendes os teus mapas hispânicos, aceito-os como vêm,
compreendo, dançamos originalmente em dois
ritmos de tambores de vida diferentes em sonho de frente"
(Ahnn? Daqui, nem a tradução do título entendo!)
Isto não é má vontade armada de lupa: limitei-me a abrir o livro ao calhas e escolher alguns disparates mais visíveis. O resto nunca anda longe disto. São erros básicos, invenções, acrescentos espúrios, tudo embalado, ainda por cima, numa falta de ritmo e de graciosidade simplesmente atroz.
Para piorar o caso, esta compra deu-se em circunstâncias que tornaram a burla ainda mais irritante: eu queria à viva força partilhar com a minha namorada as letras das canções do senhor PH. Sabia que o livro existia mas não o conseguia encontrar, por mais que procurasse. (Vejo agora, claro está, que andar à procura deste livro foi o mesmo que desatar a correr atrás de um facínora berrando: "Senhor ladrão! Assalte-me, por favor!") Ao fim e ao cabo de meses de buscas, dei com ele na Ler Devagar; levei-o logo para casa, todo contentinho. Só depois de o oferecer, é que me lembrei de o folhear com atenção; ia tendo uma síncope.
É verdade: não convém que esta aberração fique anónima. Há culpados da coisa: o senhor Alexandre Vargas e a editora Assírio e Alvim.
Publicado por Luis Rainha em fevereiro 17, 2004 01:29 PM | TrackBackBastante francamente eu não vejo o que é que toda esta fuça é sobre.
Actualmente a tradução só impróva o original
Quem anda à chuva molha-se
(He who walks in the rain wets himself)
Acontece-me uma coisa parecida quando compro CDs e filmes (ou os vou ver)...Todos os produtos culturais deveriam vir com garantia. By the way, alguem esta' interessado nas traducoes de uma tal de Telma Costa (edicoes Teorema)? Ofereco qualquer um dos titulos de Douglas Coupland traduzido por ela. So' um cheirinho: "nerd" para "nardo"; "geek" para "geco" (in "Inforescravos").
Afixado por: Maria das Flores em fevereiro 17, 2004 04:46 PMMas também que ideia (!) poesia "traduzida"?? Ou é mesmo por outro poeta, e aí acaba por ser uma criação comum, ou em caso desesperado [ checo, ou turco ou dinamarquês essas línguas impossíveis]. De resto é mesmo procurar o original porque até a música da língua faz parte da poesia.
Afixado por: L.G. em fevereiro 17, 2004 06:11 PMA Leonor tem razão. Se quiserem traduções de poesia bem feitas, estas têm de ser feitas por poetas. Vejam Paul Auster traduzido pelo meu amigo Rui Lage.
A tradução é de qualidade porque ele se preocupa com o resultado, tenta sentir aquilo que o autor pretende transmitir, e anda ali, às voltas, até encontrar as palavras certas, que não traiam o sentido do poema e, se possível, mantenham a fluidez e a beleza das palavras na leitura.
Da questão dos filmes, referida pela Maria das Flores, nem se fala. É raro, muito raro, o DVD cujas legendas em português estão bem feitas...
Já agora, alguém sabe se a legendagem é sequer feitas por portugueses ou em Portugal? É que às vezes não parece.
Sei que o trabalho de tradução não é coisa fácil, pois eu mesmo traduzo artigos para revistas, mas haja profissionalismo!
Afixado por: Luís Humberto Teixeira em fevereiro 17, 2004 09:55 PMCorrecção: "Já agora: alguém sabe se a legendagem é sequer feita por portugueses ou em Portugal? É que às vezes não parece."
Afixado por: Luís Humberto Teixeira em fevereiro 17, 2004 09:57 PMEduardo Saló já tem concorrência, e o seu nome é Alexandre Vargas! Fantástico. É por estas e por outras (mas principalmente por estas), que procuro, sempre que possível, ler no original.
Afixado por: Luís em fevereiro 17, 2004 10:44 PMa tela costa? então não conheço?
é o pseudónio do tiago um rapaz que trabalha aqui na oficina e anda ali em baixo no primeiro nivel da cambridge school.
mas as traduções são apenas uma parte da questão.
senti-me completamente embarretado quando comprei o Tutu do miles davis e e no entanto era mesmo o bom velho miles a tocar
quer dizer... a tocar... ele na época devia levar aí uns 50mil dólares o sopro e devia ser tudo para estoirar em calças brilhantes e o resto em coca
Afixado por: tchernignobyl em fevereiro 17, 2004 11:07 PMÓ Tchern, mais respeitinho com o Miles.A coca dos génios nada tem a ver com a coca dos outros. Devia ser subsidiada.:)
Afixado por: thirdbacus em fevereiro 18, 2004 12:20 PMestou à coca de tudo o que é do miles menos da coca que o levou a enfiar-me um barrete daqueles. e se calhar até foi só cola
Afixado por: tchernignobyl em fevereiro 18, 2004 01:22 PMSchiu, deixem-me ouvir... Como é que isto se chama?... Ah, cá está: The Complete Birth of the Cool...