fevereiro 17, 2004

HIGH EXPECTATIONS

O comissário Vitorino, todos o dizem, é brilhante e tem feito um “óptimo lugar” em Bruxelas.
Tanto quanto baste para que uma série de notáveis de vários quadrantes políticos se comprimam a pedir ao governo para apoiar a candidatura de Vitorino a Presidente da Comissão Europeia.
O primeiro-ministro, acossado pela imprensa e para não deixar passar para o mau goto do povo a imagem de não apoiar “um português” para presidente da Europa, vai-se entaramelando em espúrios salamaleques à estatura política gigantesca do comissário socialista, entre outras vagas manifestações de “apreço”.
Isto parece um bocado absurdo.
Desde quando é que o PS de Alcabideche vai pedir à secção local do PSD que insista com a Direcção Nacional do seu partido para manter o lugar de deputado (ou até elevá-lo a Presidente da Assembleia) de um “filho de Alcabideche” membro do PS? Eu sei que o exemplo é simplista, mas no fundo no fundo no fundo, a ideia é mesmo esta, não é?
Ora António Vitorino, como quase todos os políticos profissionais, procede na sua vida e no seu trabalho a uma gestão cuidada da sua carreira política pessoal, equilibrando as suas ambições carreiristas e uma sábia dosagem dos sinais exteriores de “fidelidade aos ideais” que dão coesão à familia política a que pertence.
Isto levou-o por exemplo a borrifar-se para a crise interna grave do seu partido, o PS português, onde chegou a ser falado para suceder a Guterres, em detrimento do seu lugar na Europa.
Dirigir o PS tornou-se uma tarefa de macho a exigir sangue, suor e lágrimas.
Bruxelas pareceu a opção lógica de qualquer pessoa de bom senso.
Como o mundo gira, eis Vitorino face à opção de ser Califa da Comissão ou perder o lugar de Grão-Vizir Europeu num momento em que a correlação de forças é negativa para os socialistas, ainda que reste saber se seria eleito, caso fosse outra a tal correlação de forças.
Tudo isto é absolutamente natural. É política, é democracia. É o fado.

Se Vitorino tiver de voltar aqui para a parvónia, a vida e a política não acabaram. O que resta é trabalhar para varrer a vaga direitista. Eu aposto que ele não volta de todo, arranjará um outro lugar qualquer noutra comissão mais discreta, ou aproveitará para doutorar-se numa universidade de prestígio num qualquer assunto bizarro, enquanto não se arranja um novo tacho à sua altura. E fará muito bem, já que ninguém espera que ele se meta de novo nesta chatice depois de voos tão altos.
O intolerável ridículo, porém, é assistir-se a esta humilhação de se andar a chatear o governo de direita para engolir um socialista na Presidência de um órgão de soberania europeia, só porque é português.
Os que promovem essa pressão esquecem que o governo não engole o sapinho, quando muito finge e arranja mais um pretexto para cavalgar a onda patrioteira e no futuro exigir compensações. Depois admirem-se se, daqui a meia dúzia de anos, vier a direita invocar o precedente, quando pretender idêntico tratamento preferencial para um qualquer dos seus “barões”.

Publicado por tchernignobyl em fevereiro 17, 2004 10:00 AM | TrackBack
Comentários

Ou ainda transformar esta situação no segundo Queijo Limiano para exigir ao PS uma qualquer aprovação do orçamento de estado. Fazendo-o assim tomar um pouco do próprio remédio.

Afixado por: Gato Gaspar em fevereiro 17, 2004 11:14 AM

Discordo em absoluto.
1º O facto de Vitorino ser talentoso gerou logo em ti o sentimento nacional - a inveja.
2º Logo tu Cherne que em tempos foste o melhor comentador da blogosfera; no melhor pano cai a nódoa
3º Vitorino não tem hipóteses de ser presidente da comissão porque Blair, Chirac e Schroder nunca o disseram;
4º Por isso a estratégia do PS é errada;
5º O PSD diz que o anda a apoiar para melhor o poder substituir como comissário;
6º Irão dizer, cinicamente no fim, apoiá-lo-iamos para presidente mas para comissário vai um dos nossos.

Afixado por: Real em fevereiro 17, 2004 11:59 AM

real:
chateia-me estar a responder a estas coisas mas seja porque tenho uma certa consideração pela tua pertinácia rezingona .
fazes-me lembrar o herman josé quando entrevista a margarida rebelo pinto e lhe pergunta se as críticas que lhe fazem se devem a "invejinhas".E ela não se faz rogada...
Eu até aceitaria que me chamasses ignorante e me demonstrasses como é errada a minha análise, não seria a primeira vez que eu levaria nas ventas de forma justificada mas concordarás que a conversa das "invejinhas" é um bocado básica.
Ninguém nega "talento" ao vitorino mas é um politico profissional e se está em minoria e o tal talento ou poder ou influência não são por si sós evidentes para a maioria do quadrante político adverso o mais natural é que o governo o deixe cair.
O que não é natural é que algumas pessoas pensem que o governo deveria manter um adversário politico num posto politico por um motivo anacrónico como a nacionalidade.
Mas deixa estar pá, o PS vai voltar ao governo e tanto ele como tu têm ainda uma vida política risonha pela frente.

Afixado por: tchernignobyl em fevereiro 17, 2004 03:54 PM

Caro Cherne:
Assim, de forma rude e agressiva, como acho que gostas, digo-te que se te pode aplicar aquela lengalenga do princípio de Peter. Ou seja, dito por outras palavras, não és tão bom bloguer como eras comentador. Aliás era sobre essa invejinha que falava porque também tu aplicaste esse principio ao Vitorino - bom comissário, baixo para presidente da comissão.
Se calhar em vez de inveja devia dizer desdem face ao mérito alheio, tão português que até termina com fado e tudo.
No fundo o teu post reduz-se a um conjunto de insinuações gratuitas na senda da cozinha política lusitana. O Daniel Oliveira diz que ainda não quer ir para o PS por causa do Jorge Coelho, tu dizes, o PS vale por Jorge Coelho. Eu cá gosto é de gente com talento.
A propósito não queres uma ficha de inscrição no PS subscrita por António Vitorino ? ;)

Afixado por: Real em fevereiro 17, 2004 04:20 PM

Gostava de ver um exemplo em que um partido de poder, perdeu a oportunidade de substituir o comissario do partido rival, por outro do seu partido.
E logo este tacho tão apetitoso.

Afixado por: Provocador em fevereiro 17, 2004 05:29 PM

1- gostava de saber onde é que está escrito ou sequer "insinuado" que o vitorino não tem qualificações para ser eventualmente presidente europeu.
2- não percebo a boca do jorge coelho nem a piada da ficha de inscrição

Afixado por: tchernignobyl em fevereiro 17, 2004 09:21 PM

Não é que não sejas bom bloguer também, o problema é deixaste de ter tempo para os comentários. Bem sei que foste promovido. E ser comentador é, dizia o cavaco, como ser ajudante de ministro.
Ó Cherne a pedires para eu te explicar assim, sem uma ponta de ironia, até fico sem jeito.

PS - o comentário anterior: - "comentários, eu ?" Oh, sei lá o que é isso!"

Afixado por: Real em fevereiro 17, 2004 10:58 PM

porra que tu és um gajo complicado. e depois o pessoal é que tem a mania da conspiração e eu "domino" a metalinguagem...
e já agora se tens reparado, eu não deixei de ter tempo para os comentários eu tenho atravessado uma fase em que por motivos vários me tem sido complicado "bloggar" "tout court", não há aqui nenhum desprezo pelos comentários e muito menos pelos comentadores. tens uma imaginação retorcida carago

Afixado por: tchernignobyl em fevereiro 17, 2004 11:16 PM

E Pronto! Com essas tiradas de assassinato de carácter baldas-te a todas as minhas considerações sobre um post menor.
Gosto de catalogações, e por isso estou em duvida para o grande educador da classe operária da nova geração. Tu ou o barnabé Oliveira ?

Afixado por: Real em fevereiro 18, 2004 02:50 PM

eheheh assassinato de carácter!
agora começo a perceber as "armas de destruição maciça"

Afixado por: tchernignobyl em fevereiro 18, 2004 03:25 PM

Não Cherne, nem tu nem uma certa esquerda nunca estiveram preparados para perceber as armas de destruição maciça

Afixado por: Real em fevereiro 18, 2004 03:43 PM
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