Andava eu pacatamente a circular pelo dossier do Público sobre o “compromisso histórico” proposto pelos empresários quando me deparo com esta passagem:
“Um estudo publicado no final de 2003 pelo National Bureau of Economic Research (NBER), da autoria de Gary Becker, Nobel de Economia em 1992, concluiu que Portugal foi no conjunto dos países desenvolvidos o que mais cresceu entre 1965 e 1995, apresentando um aumento do seu rendimento de 298,3 por cento.”
Ainda estou à espera de um desmentido formal deste estudo e daqui apelo ao zelo vigilante dos bloggers liberais para reporem a verdade o mais rápido possível.
Mas enquanto o João Miranda se informa e não chega uma explicação plausível, deixem-me dizer que acho extraordinário que a imprensa tenha deixado passar em claro esta novidade assombrosa.
Que Portugal sofreu uma transformação extraordinária nesse período, é visível à vista desarmada e possível de quantificar em diversos estudos como os que foram conduzidos por António Barreto. O que é surpreendente é ter essa transformação sido tão marcante entre os países desenvolvidos, sobretudo porque esse progresso é quantificado com base nos critérios estabelecidos pelo o autor do estudo, Gary Becker, um economista da Escola de Chicago, que é como quem diz um neo-liberal.
Vendo bem, entre 1965 e 1995, Portugal passou por um regime ditatorial envolvido numa guerra colonial, por uma situação pré-revolucionária, por uma situação de democracia tutelada pelos militares, por governos socialistas e social-democratas e, cereja no topo do bolo, a integração na comunidade europeia com a injecção maciça de capitais que se conhece.
O curriculum é diversificado e quase confuso mas onde brilha a surpreendente ausência de um governo capaz de impor o conjunto de “medidas estruturais” que é costume associar ao neo-liberalismo duro.
No período de trinta anos que decorreu entre 65 e 95, verificou-se que ao contrário do que a presciência da generalidade dos economistas-de-todos-os-bordos, empresários e comentadores-económicos-da-imprensa-de-referência assegura ser a tragédia maior do nosso país, o “peso” do Estado, o paralisante controlo público de sectores importantes da economia durante grande parte desse período, a implantação da Segurança Social, as Leis do Trabalho não foram o tal impecilho determinante que bloqueou o progresso.
Talvez que as conclusões do estudo não permitam concluir taxativamente por um “antes pelo contrário”. Mas de certeza que nos permite repetir com António de Sousa e o seu brilhante discípulo maradona: a questão não está de todo aí!
Como novato na blogosfera venho aqui saudar este blogue veterano: o meu desconhecido blogue chama-se "Fascismo em Rede", e pode dizer-se pelo menos que é um blogue original. Venham visitar!
Afixado por: camisanegra em fevereiro 17, 2004 12:07 AMEsse intervalo tão largo só permite conclusões largas: estamos no bom caminho... e o caminho traçado a traço grosso é, claramente, digamos, neo-liberal (?); será esse, portanto, o caminho avisado para a criação de riqueza (as nacionalizações foram meros meses, as privatizações decorrem há anos e anos).
Depois faltam as analises parciais: crescemos mais entre 63 e Abril de 74, ou entre Maio de 74 e 79? (não estou a dizer que prefiro o primeiro periodo ao segundo; tenho sempre que esclarecer estas merdas)E qual foi o diferencial entre os crescimentos de 80-86 e os de 86-2000, por exemplo?
Onde queres chegar, eu sei, todos sabemos. Eu cá, por mim, dispenso servir de cobaia a modelos de crescimento alternativos. Quero é mais elasticidade do mercado de trabalho, menos burocracias, um Estado menos atreito a ser polvo, que as empresas pouco competitivas morram de uma vez, que deixem crescer as imaginativas, que caminhem para a abolição das barreiras alfandegárias, que acabem com os monopólios.
Afixado por: maradona em fevereiro 17, 2004 01:22 AMa coisa pública é sempre culpada de tudo e nada, sobre ela cai o peso do hijab, da vergonha de mostrar a cara. Privatize-se tudo, dos hospitais ao ar que respiramos. Grupos dos 40 virão pedir que se privatize mas que não se entregue a Espanha, que são gente de má índole e piores casamentos. Na semana seguinte, se depender deles, o nosso oxigénio terá patrocínio Miura ou Telepizza. O crocodilos da economia free style cohram sempre as mesmas lágrimas, é o que vale...
Afixado por: Pedro Vieira em fevereiro 17, 2004 01:45 AMhoje, aí estão os jornais todos a falar do "descalabro do sector empresarial do estado".
numa coisa têm os "empresários" razão.
numa empresa privada à americana pelo menos os primeiros a saltarem são logo os CEO se bem que noblesse oblige e burocracias à parte com as devidas indemnizações. os gestores neo liberais das empresas públicas que em muitos casos ou serão incompetentes ou pelo menos culpados de "reserva mental" relativamente ao trabalho que deveriam fazer começam por despedir os subalternos lamentando o acertos de contas que têm de fazer só por causa das "burocracias".
maradona, é evidente que o período é longo e diferenciado , foi o que eu disse e foi também ao que parece o âmbito do estudo.
Eu bem gostaria que eles detalhassem mais e demonstrassem mesmo a inevitável correspondência entre o "salto" dado no Governo do Cavaco ( e a intolerável intervenção artificial dos dinheiros da europa neste quintal ) e os recuos no resto do tempo para te deixar mais contente. O gary esqueceu esse pormenor desta vez mas confio que vai emendar a mão. O que não percebo é como se podes traçar um quadro tão optimista relativamente ao roadmap para o desenvolvimento depois de 95. Não começámos por ter primeiro o "descalabro socialista"? Ah claro, nos dois ou três últimos anos o crescimento tem sido em flecha, está à vista, a esta hora já devemos ter ultrapassado a fasquia dos quinhentos por cento.
O meu quadro não é optimista! Eu não vejo é outro quadro melhor, que é coisa distinta.
O Pedro Vieira parece que me estava a responder a mim quando diz que querem privatizar até o ar que respiramos.... por acaso, nunca tinha pensado no ar que respiramos... boa ideia.
Afixado por: maradona em fevereiro 17, 2004 12:29 PMOh camisa-negra! vai dar banho ao cão!Ouviste oh vira-lata?
Afixado por: amuado em fevereiro 17, 2004 07:32 PM