Um evento fantástico juntou num antigo convento da capital, sugestivamente conhecido por “beato”, 500-empresários-500, gordos e luzidios, rigorosamente uniformizados de azul escuro e animados dos melhores propósitos para encontrar ao país em deriva uma “estratégia” .
O assunto teve o destaque devido nos noticiários televisivos do início desta semana.
E com razão. Não é todos os dias que se assiste a uma manifestação de unidade de classe tão vigorosa, até no aspecto cromático. Não se via nada assim desde que os operários da Lisnave fizeram a sua célebre marcha de cacilheiro até ao Terreiro do Paço e daí ao Ministério do Trabalho, nos idos de setenta e cinco.
Quase que se podia ouvir a palavra de ordem no Beato:
Poder aos empresários!
Grande manifestação de consciência de classe, quando se sabe que os organizadores são, de acordo com o dossier do Público, de tendência neo-liberal e se conhece a defesa apaixonada que esta corrente política e económica faz do individualismo e o desprezo a que vota o associativismo.
Dos assalariados.
Poder-se-á especular sobre quais os temas que se discutiram no abrilhantinado brainstorming mas foi evidente que, nos intervalos das idas ao Rosa e Teixeira, os empresários têm meditado longa e seriamente dentro dos seus fatos iguais, arejado e amadurecido tantas ideias idênticas que, salvo pequenos pormenores distintivos, como um nariz um pouco mais ou menos adunco, uma careca mais ou menos luzidia, as listas de uma gravata um pouco mais ou menos largas, se diria falavam todos a uma só voz.
Uma convergência tão impressionante que os empresários podiam ser todos clones de um deles, o único aliás que reuniu e juntou os outros para fazer número.
O mesmo crâneo enfim que descobriu há anos a solução para o problema da falta de competividade da indústria portuguesa. É que faça chuva ou faça sol, cheire a crise ou sopre a retoma, a resposta do empresário é um verdadeiro milagre em construção, um prodígio de imaginação pujante e pertinaz...
Quando soube da magna reunião, fiquei intrigado. Queres ver que os empresários descobriram a pólvora?
Teriam proposto medidas para melhorar a produtividade num país como Portugal, soluções inovadoras para diminuir a falta de formação dos trabalhadores que tanto os aflige?
Preparava-me para ler umas reportagens quando um título lido de passagem num quiosque me poupou o tempo e me devolveu, não sei bem porquê, aquela sensação de tranquilidade e segurança que apenas o déjà vu pode proporcionar:
Segundo o credo do beato empresário, parece que continua, mesmo depois da vigência piedosa do senhor Bagão e das lágrimas amargas de Ferreira Leite, a ser necessário flexibilizar (mais; e mais) as leis do trabalho. É isso. Os empresários que têm a sorte de se defrontar com a massa assalariada mais amorfa, acarneirada e desarticulada da Europa, acham pouco e exigem mais regalias. Mais ajudas para eles e menos “desperdícios” na ajuda aos mais tesos. Mais “flexibilização” nos despedimentos.
Um corpo de medidas já bastamente comprovado pelos sucessos obtidos no desenvolvimento fulgurante das economias de países como a Bolívia, a Argentina ou a Nigéria, a que justamente ansiamos aceder, inspirados pelo exemplo de tão brilhantes e aparatosas “elites”.
Na noite anterior, no rescaldo de um desses programitas em que um “painel” de personalidades discute “temas da actualidade”, um desnorteado “comentador de economia” (ou seria política? ou seria desporto?) tentava extrair um significado, “fazer a síntese” da discussão que imagino tenha sido outra vez sobre a “retoma” ou afins e “deixava uma nota positiva” para a operária da Brax recentemente despedida e presente na reunião. Para os empresários e comentadores, nem sei se a "nota" é assim tão positiva. O atraso na entrega dos subsídios de desemprego cifra-se neste momento apenas nos seis meses e o governo continua a não dar garantias de que esses subsídios não venham a ser pagos.
Presumo que o evento esteja a ser regado com um tinto do melhor, já se fala abertamente em pedir ao governo para liberalizar por completo os despedimentos, a coisa é de tal monta que o Bagão teve que vir a terreiro dizer que isto não é os States. Com patronato destes a coisa só lá vai mesmo com um milagre...
Afixado por: Rui Pereira em fevereiro 16, 2004 11:30 PMUm dos pontos mais focados pela comunicação social era, precisamente, o da mais flexibilidade nos despedimentos. De facto é completamente injusto para as empresas, pobrezinhas, não poderem dispor da vida de uma pessoa ainda mais do que já fazem.
Afixado por: Gato Gaspar em fevereiro 17, 2004 11:18 AM