Recebemos um convite para assistir a uma conferência de filosofia medieval na Faculdade de Letras do Porto, com este sugestivo título: «Caos e evento: notas sobre as metafísicas de Duns Escoto e de João de Ripa», por um tal Pedro Parcerias. Seguia depois um texto do conferencista, certamente para avivar a curiosidade do desconcertado leitor que, vá-se lá saber porquê, ainda se mantivesse recalcitrante:
«É a heterogeneidade do ente, como entidade do ente enquanto ente, que se move com a sua afirmação na presença virtual do ente ao tempo e ao eterno. É a entidade do ente enquanto ente que sempre atravessa o campo da doação do ente, fundado-a e, simultaneamente, habitando-a pela presença virtual da entidade do ente ao ente na sua doação. É a diferencialidade da diferença como afirmação originária do indiferente que se afirma como pensabilidade do pensável e que, como tal, se instala como poder do pensamento a partir da entidade do ente enquanto ente.
A homogeneidade é do reino da comutabilidade e da reciprocidade. Como a comutabilidade supõe um fim exterior ao comutável, a homogeneidade é desde sempre negação da afirmação originária e absoluta e, enquanto tal, relativização da mesma. Relativizando a afirmação originária, a homogeneidade opera por um prévio esvaziamento dos conceitos, através da sua nivelação nas proporções recíprocas, e por um consequente esvaziamento do pensamento também pelas mesmas proporções recíprocas.
Contudo, essa relativização operada pela alternância entre o que é e o que não é, encontra a sua possibilidade numa afirmação que permanece escondida na afirmação restrita da instabilidade originária, para além da oposição entre o ente e o nada. Para além dos enunciados recíprocos da comutabilidade afirma-se a heterogeneidade do ente enquanto ente que sempre avança com a presencialidade da presença no campo da doação do ente. No domínio da comutabilidade, o pensamento descobre o seu fundamento no exterior de si, numa origem que sempre se esconde. Na afirmação da heterogeneidade do ente, o pensamento encontra-se com a pensabilidade do pensável sem condições pois, todo o possível, tira a sua possibilidade de si mesmo. A heterogeneidade do ente enquanto afirmação originária e absoluta é, então, o que encontra o seu fim em si mesmo na unilateralidade sem contrário do ente enquanto ente. Ao se afirmar como poder da possibildade do possível e como poder da pensabilidade do pensável, a entidade do ente enquanto ente revela-se como refúgio do pensamento: revela-se como afirmação de si do pensamento no interior da heterogeneidade e da afirmação do ente.»
O BdE dá um prémio a quem conseguir provar que assistiu à conferência, apesar de ter lido o convite. Exigimos, no entanto, um relatório detalhado e fotografias comprovativas.
Publicado por Manuel Deniz em fevereiro 11, 2004 12:23 AM | TrackBackCORROSIVO: PUBLICIDADE OFF-THE-RECORD
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Manel, este convite chegou por email, espero. Senão, quem merece um prémio és tu.
Afixado por: Filipe Moura em fevereiro 11, 2004 12:30 AMahahahaha, eu até interrompo a sabática para me vir rir um bocadinho ":O)))
coitado do Escoto que não tem culpa... ":O)))
O comentário enquanto comentário deveria, pressupostamente, ser portador de um pensamento que ultrapassase a penabilidade do pensável. Como o meu entendimento se ficou nos antípodas do entendível, e como filosoficamente não sou capaz de capabilizar o meu ente enquanto ente "marketinguista" não utilizo o comentário para publicitar qualquer conceito previamente esvaziado ou reciprocamente nivelado.
Afixado por: predatado em fevereiro 11, 2004 02:04 AMAjuda-me, Senhor, a procurar este conhecimento do verdadeiro ser, isto é, de Ti mesmo,que a nossa razão natural pode atingir.
Duns Escoto, De Primo Principio
(A este nem Deus lhe vale, velho Duns...)
Afixado por: zás!pás! em fevereiro 11, 2004 03:12 AMPedro Parecerias - Tá sim? Alô...quem fala?
Ente querido - Sou eu, pá! Ouve lá, quando é que te deixas dessas merdas, pá?
Pedro Parecerias - Mas...
Ente querido - Mas, o carago pá...paga mas é o que me deves, pá. Vai trabalhar, e paga o que me deves, carago!
Pedro Parcerias - Ente, é só mais duas semanas e já te pago...
Ente querido - O caralho pá!Nem uma puta duma conferência consegues dar, pá! « É a entidade do ente enquanto ente que sempre atravessa o campo da doação do ente, fundado-a e, simultaneamente, habitando-a pela presença virtual da entidade do ente ao ente na sua doação ». Quanto é que te pagaram para isto, pá? E para a próxima não voltes a falar de mim, fdss pá. Paga-me mas é o que deves.
Pedro Parcerias - Mas aí não estou a falar de ti, enquanto meu ente familiar recíproco. Trata-se sim de uma análise metafísica...
Ente querido - Mete aonde...?!
estes intelectuais inventam com cada partida de carnaval.... ainda por cima fora de época.
Afixado por: Rui Almeida em fevereiro 11, 2004 07:42 AMEu até fiquei doente com tanto «do ente».
Afixado por: José Mário Silva em fevereiro 11, 2004 10:02 AMAh, já me esquecia de fazer justiça. Perante este discurso meta-qualquercoisa, impõe-se o grito: volta, Carlos Amaral Dias, estás perdoado.
Afixado por: José Mário Silva em fevereiro 11, 2004 10:04 AMe ele diz ao menos que gerador automático de texto usa?!
Afixado por: doentedodente em fevereiro 11, 2004 11:41 AMSó quem não passou pelas faculdades portuguesas é que não conhece estes disparates à légua. A filosofia, no nosso país, está ainda na fase pré-grega, pré-racional -- ao nível da astrologia e dos X-Files. Evidentemente, é a seriedade académica que fica colocada em causa com este tipo de delírios pseudoprofundos. Felizmente, há cada vez mais estudantes e professores de filosofia a fazer coisas sérias.
Afixado por: Desidério Murcho em fevereiro 11, 2004 09:45 PMO que há de mais profundamente lamentável neste texto nem é a alienação (ou a impostura) que supõe da parte de quem o escreveu. O mais grave é que parece deliberadamente feito para dar razão a todos aqueles, e são muitos, para quem a filosofia não passa de um jogo de verbosidade balofa e ininteligível. Dir-se-ia uma caricatura feita por gente das ciências 'duras' em mais uma das diatribes contra as ciências humanas e contra a filosofia em particular. Ou uma paródia vinda dos economistas neo-liberais em cujos programas o lugar que cabe às ciências humanas é aquele que se encontra mais perto da porta de saída.
Em Portugal como em todos os sítios do mundo, a desonestidade e a intrujice sempre existiram. O problema é de nível e de escala, e exemplos destes apenas põem em evidência que até no mau estamos muito aquém dos níveis europeus. Que textos destes existam, sejam publicitados, sejam objecto de uma conferência numa faculdade, sejam eventualmente objecto de uma publicação, não é só uma vergonha para todos aqueles que trabalham em filosofia. É uma vergonha e uma desclassificação para o ensino superior público e para o meio académico português, para instituições, professores, programas de financiamento que de uma maneira ou de outra dão cobertura a aberrações deste calibre.
pelo menos ele não falou do ente enquanto não-ente
Afixado por: caracterinvalido em fevereiro 12, 2004 01:34 AMfiquei (do)ente!
Lindamente engraçado! LOL=RAC=rir até cair Mas sem esquecer o caracter sério da COISA!
Afixado por: MeninaFormiga em julho 20, 2004 08:57 PM