Escrever sobre Cuba é algo que sempre me foi um pouco difícil. (Para começar, porque a minha namorada é uma feroz activista da solidariedade internacionalista e está sempre de olho no que me sai do teclado...) Vai daí, esta espécie de resposta aos muitos comentários que o meu outro post suscitou vai ser longa, torturada e muito pouco tocada pelas certezas inabaláveis de quem se sabe sempre ao lado da razão.
É que ser de esquerda não implica, ao contrário do que muitos parecem pensar, que se seja cego ou tonto. Portanto, nem precisava de ter estado em Cuba para saber que aquilo não é o Paraíso na Terra. E não preciso que me falem no Fidel para ter a noção de que é sempre triste ver a generosidade de um revolucionário decair em apego cego ao poder.
Feito este preâmbulo, vamos lá ao que importa:
O meu post, como terão reparado, não era um panegírico; era apenas uma resposta à visão de Aznar, que atribui a Cuba o estatuto de "anomalia histórica" condenada à extinção.
É que, apesar de tudo, ainda não me conformei à ideia de termos para todo o sempre um mundo rendido à grandiosa e inevitável superioridade do Capitalismo liberal; daí a menção ao "Fim da História" que povoava os sonhos dourados de muitos ainda há pouco tempo.
Por outro lado, eu não tive problemas em falar de "desmandos" e de "condenações sumárias". Não adoptei o esquema dos "nossos sacanas" vs. "os sacanas deles"; julgo eu aliás que nem passa pela cabeça de ninguém com um bocadinho de isenção comparar Fidel aos Somozas, Duvaliers e Pinochets dessa pobre América Latina. Então compará-lo a Hitler ou a Estaline, com o argumento que "a pretexto de haver esquerda e direita se cometem as mesmas atrocidades de sempre", é mesmo algo alucinado.
Em 2002, a Comisión Cubana de Derechos Humanos y Reconciliación Nacional já elaborara um relatório onde se documentavam 230 casos de presos políticos, incluindo condenados por delitos de direito comum com motivações políticas.
Em 2003, na véspera da invasão do Iraque, terminou um período que a Human Rights Watch qualificara como "de melhoria". Isto passou-se assim, segundo a Amnistia Internacional: "In June 2003 Amnesty International declared 75 new prisoners of conscience after they were detained in a massive government crackdown on dissent which began on 18 March 2003. Most of the detainees were subjected to hasty and unfair trials, and, just weeks after their arrest, were given long prison terms of up to 28 years."
A onda de repressão do ano passado saldou-se em 75 novos presos de consciência; mas trata-se de gente com nome e local de encarceramento conhecidos, não de milhares de "desaparecidos", como aconteceu no Chile, na Argentina, etc. Isto é uma diferença de peso, pelo menos para quem lá vive, "à mercê de um poder discricionário"...
Sei bem que, mesmo que fosse um só prisioneiro político, seria um a mais. Só é pena é que muitos pareçam oferecer aos Estados Unidos o beneplácito de uma isenção das regras do humanismo, a coberto da tal "guerra ao terror", ignorando as muitas centenas de pessoas que eles mantêm detidas, em condições inumanas e cruéis, nesta mesmíssima ilha de Cuba! Poderia assim escrever: "os cubanos também estão em guerra contra o terror do imperialismo, logo podem bem prender uns quantos desordeiros e cúmplices de atentados bombistas..."; poderia, mas não o vou fazer, que o Zé Mário não me paga para insultar a vossa inteligência. E sei bem que os tais 75 condenados, mais que provavelmente, nada tiveram a ver com atentados.
Deploro a minorada liberdade de que os cubanos desfrutam; mas não parto daí para estabelecer paridades entre o castrismo e ditaduras que elevaram a tortura, a aniquilação dos direitos e a repressão sangrenta a formas de arte. Colocar todos os regimes não-democráticos no mesmo saco nunca nos ajudará a compreender melhor coisa alguma; por certo que a Síria actual não é igual à Alemanha Nazi. Nem a Coreia do Norte é similar ao Portugal do Estado Novo.
Muitos outros casos de despotismo podem e devem ser analisados um a um, não colocados automaticamente numa só categoria, o que só empobreceria a nossa compreensão do Mundo. Não há ditaduras boas; mas há certamente as más, as muito más e as menos más.
Quando estive em Cuba há 3 anos, conheci muita gente. Conheci, por exemplo, um escritor que se "gabava" de ter visto o seu último livro "esgotar-se" num só dia – adquirido em massa pelo governo para que não causasse danos às moleirinhas mais frágeis... Ele garantiu-me que sabia de um homem que fora preso por contar uma anedota em público; e eu acreditei.
Mas até este contestatário admitia sem rebuço que a vida dele teria sido muito mais complicada noutros países daquelas latitudes; e anunciava com um sorriso que vivia da "FE", leia-se "Família no Exterior"...
O que nos leva a novo ponto de interesse: a questão dos cubanos que preferem "tentar atravessar o Atlântico cheio de tubarões a ficarem no paraíso de Fidel Castro". A mim, parece-me natural que gente que vive com dificuldades e permanentemente seduzida por promessas de dinheiro fácil a poucos quilómetros de distância se deixe tentar e cair em desespero. Isto recorda-me conversas que tive há largos anos no Egipto, com jovens candidatos a emigrantes que me garantiam que nos EUA toda a gente vivia como no "Dallas"; os meus desmentidos só serviram para destruir a minha credibilidade...
Nem convém esquecer a hipocrisia por detrás da política de imigração americana: criam muros para conter mexicanos e choram por não ver dilúvios de pobres cubanos a cair sobre Miami.
A pergunta "Fidel continua porque há embargo ou o embargo continua porque há Fidel?" já me serviu para irritar a namorada; mas, francamente, não lhe conheço resposta... Sei é que este embargo absurdo - e ditado apenas por considerandos da política interna americana - não é a única agressão vinda do exterior. Por exemplo, a famigerada Operação Mongoose não foi inventada por um Fidel paranóico; aconteceu mesmo. Hoje, os americanos podem ter desistido de tentar envenenar os charutos de Fidel, mas não desistiram, nem por sombras, de Cuba.
Nos dias que correm, qualquer auto-proclamado "grupo dissidente" recebe logo generosas enxurradas de dólares para fotocopiadoras, equipamento de comunicações, etc. E não é preciso dar muita corda à imaginação para ver os resultados destas injecções de cash num país como Cuba, pois não?
Mas não esqueçamos o essencial: a pena de morte é algo que me repugna em absoluto, pelo que sou o primeiro a lamentar que tenha chegado ao fim a moratória oficiosa que vigorou em Cuba durante uns anos. Não sei se isto faz alguma diferença, mas é um facto que os 3 homens executados em 2003 foram condenados por desvios de barcos, não por crimes de opinião.
E mais uma coisita respigada dos comentários anteriores: não me parece que Fidel seja equivalente a Salazar. Quando chegámos ao 25 de Abril, éramos uma nação maltrapilha, inculta e doente. Se o citado Índice de Desenvolvimento Humano então existisse, não duvido que nos deixaria bem atrás de Cuba. Isto para nem falar do modo como a riqueza estava distribuída por estas bandas: se há algo de que ninguém descortina em Cuba são grandes palácios ao lado de bairros de lata. Ali, nem a miséria nem a riqueza assumem rostos abjectos. E esta é mais uma das diferenças entre estes "nossos sacanas" e os "vossos sacanas", se quiserem mesmo ver a coisa assim.
Em Cuba "falta liberdade"? Licenciados têm "de carregar as minhas malas pelo dólar de gorjeta"? O "bordel continua"?
É certo. É péssimo. Mas não é isto que faz de Cuba uma "anomalia histórica" aos olhos de Aznar; se assim fosse, ele teria muitas outras paragens para onde olhar. Se calhar, irrita-o mais o pressentimento que talvez ainda seja possível salvar muitos dos sonhos da Revolução, mesmo apesar de Fidel, mesmo após Fidel. Tomara.
PS. Aos autores dos comentários que citei, desculpem lá não vos nomear individualmente, mas isto ia ficar ainda mais comprido e confuso. Vocês sabem quem são, eu sei quem vocês são, vocês sabem que eu sei que você sabem...
Caro Luís,
Acho este teu “post” muito interessante. Muitíssimo mais interessante, na minha modesta opinião, que o post que escreveste ontem e que – acredites ou não – me entristeceu bastante. Porque – voltes a acreditar ou não – aos meus olhos não existe, pelo menos naquilo que é realmente fundamental – o respeito pela liberdade – grande diferença entre Fidel e Pinochet.
Já concordo contigo quando vês diferenças entre “el comandante”, Hitler e Estaline. Mas palpita-me que tudo poderia ser diferente se Fidel não fosse o ditador de uma ilha das Caraíbas e sim o líder de alemães ou de russos.
Reparo agora que, a crer no que escreveste no “post”, eu serei um alucinado por não ver diferenças entre Fidel e Pinochet. Não me importo minimamente que assim suceda pois estamos num país onde nada me acontece por tu me achares alucinado. Ou vice-versa. Caso sucedesse algo parecido numa anomalia como Cuba era capaz de ser ligeiramente diferente...
Afixado por: Leonardo Ralha em fevereiro 10, 2004 08:31 PMLeonardo,
Não te quero desapontar, mas não te chamei alucinado. Por acaso, quem por aqui escreveu "Hitler é um estupor. Estaline, bem..., hum... hum..., coisas que acontecem. Fidel, esse..., coitadinho, o homem está refém dos EUA... etc." foi um tal de "Céptico".
E só disse que a ideia de comparar o Fidel ao Hitler ou ao Estaline me parecia alucinada; nunca o diria do autor, que nem conheço, aliás.
Este post ainda é pior que o de ontem. Se eu fosse ao Luis faria de Cuba um assunto tabu.
Afixado por: Pedro em fevereiro 10, 2004 08:54 PMA Nova Esquerda não leu Marx... E Marx é muito recomendável a quem pensa que a Liberdade é um anjo etéreo...
Afixado por: zás!pás! em fevereiro 10, 2004 09:40 PMSalve:
É minha primeira visita a este blog e já lá vai o primeiro comentário ... Sobre as coisas de Cuba e da liberdade como um direito inalienável, é preciso não se perder de vista que o que nos parece hoje um conceito óbvio, justamente o da liberdade, é algo muito novo no cenário histórico e é em torno de suas dimensões e perspectivas que as ideologias vêm se debruçando e debatendo há pelo menos dois séculos ... É ainda mas que pertinente a ponderação de que a liberdade de ir e vir, por exemplo, não tem somente aspectos políticos, esta liberdade está impregnada de condicionantes sociais e econômicos e é para responder a isso que Cuba tem se esforçado em se manter numa trilha própria, alternativa ... Julgar Fidel sob a perspectiva histórica e/ou jurídica da burguesia seria desfazer da própria história e da própria justiça ...
Parabéns pelo blog, um abraço a todos
Alexandre Lemos
Afixado por: Alexandre em fevereiro 10, 2004 10:43 PMParabéns pelo equilibro.
Afixado por: Major Alvega em fevereiro 10, 2004 11:50 PMPor acaso fui eu que "estreei" os comentários do 1º post e volto a escrever para reafirmar o que então lhe disse, acrescentando que agora ainda ficou mais claro, e se possível, ainda estou mais de acordo. Foi das poucas vezes em que não concordei com o Barnabé ( que até acho que disparou ao lado ) e meter TODAS as ditaduras no mesmo saco parece-me de um radicalismo que não me serve. Aliás quem lesse bem o seu 1ºpost estava lá tudo. E houve muita gente que estava a criticar coisas que o Luis não disse, portanto estavam a discutir sozinhos.
Afixado por: mllg em fevereiro 11, 2004 05:00 PMMuito obrigado pelo e-mail de esclarecimento.
A presunção que fiz sobre a "arrumação" das ditaduras é, efectivamente, da minha responsabilidade - mas fico satisfeito por reconhecer que o regime norte-coreano é, igualmente, "muito mau".
Não utilizei a sua frase totalmente, apenas para enfatizar a minha discórdia - para mim uma condenação à morte é sempre inaceitável, ainda que se trate de um crime "vulgar".
Muito embora o seu texto não seja, manifestamente, uma ode ao regime castrista também não é, infelizmente, um anátema àquela "anomalia histórica".
E isso, também me parece deplorável!
Afixado por: blog-notas em fevereiro 12, 2004 12:54 AM