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janeiro 25, 2005

A "NATUREZA" QUE NOS PERSEGUE

É isto a esquerda. Um espelho da falência dos modelos de "auto-organização" aplicados aos humanos.
Um grupo de esquerdistas não são um grupo de esquerdistas, são um conjunto de tendências prestes a explodir à mais pequena centelha.
Hoje foi a "transfobia", amanhã seria outra coisa não é verdade?
Divergências na leitura d'O Capital, outra coisa qualquer. Inevitável.
No nosso caso sempre equacionei cenários de implosões por algum motivo político de fundo, nunca saídas assim por causa de uma coisa deste... "género".
Quanto ao caso concreto, chamem-me cobarde mas confesso que me agoniam chatices entre camaradas, são sempre, enfim, quase sempre, questões menores, é tudo sempre menor do que o que nos pode aproximar, e neste caso pareceu-me um assunto tão "marginal"... que todos os envolvidos, homenzinhos, com ideias definidas e que dispensam qualquer hipotética pretensão minha em “arbitrar” este tipo de questões, acabariam por entrar numa de bom senso e a questão se resolveria por si.
Enganei-me, esta é uma questão que tem sempre a ver com egos, merdas, razões, toda a gente tem sempre imensas razões, dignidades, susceptibilidades, enfim... confesso que nestes momentos me convenço que de facto a direita é capaz de ter alguma razão nas suas análises subjectivas da “natureza humana”... somos pura e simplesmente incapazes de sair disto.
Neste período, e parece que não fui o único a ter instintivamente esta reacção limitei-me a uns comentários esparsos para não atiçar fogueiras.
Agora tenho de dizê-lo.
Pareceu-me completamente despropositado o comentário do Francisco e bastante infeliz a intervenção do Filipe.
(Não ponho links, agoniam-me estes links agora, a discussão está até demasiado linkada por todo o lado)
Quanto à tentativa do ZéMário e do Manel teria passado bem sem expressar uma demarcação tão formal relativamente a um parágrafo ( de entre um conjunto de reflexões muito diverso e complexo onde não existem certezas absolutas e acerca do qual ninguém pode pretender ter a verdade ) do Luís que estava sob fogo cruzado de forma completamente injustificada, mas no essencial tentou o impossível para equilibrar o barco e subscrevo a opinião expressa pelo Jorge num comentário ao post do Luís abaixo e de que apenas discordo do toda a gente, leio e releio a puta da frase e de todo, sinceramente, poderá ser discutível mas não entendo como pode ter gerado toda esta situação.
Quanto ao Luís, acho apenas uma medida radical que me parece injustificada.
Digo isto não apenas por ter pena de que te vás embora.
Também pelo que tem sido a "vida" neste blog ao longo de muitos meses.
O post da crise, que é quanto a mim o que efectivamente te mói, deixou-te a porta aberta para optares como quiseres, mas que outra coisa poderia ser dita relativamente ao teu anúncio peremptório de saída?
Se qualquer um de nós quiser sair, o que se espera que faça o blog?
Se anunciaste a saída “a quente”, parece-me que te caberia apenas a ti arrefeceres o suficiente e passares à frente, tanto mais que percebeste que a maioria dos comentadores do blog está do teu lado nesta discussão.
O Filipe despistou-se, é razão para crucificá-lo?
Seguindo critérios idênticos, que consequências haveria de ter a recente bacorada do Louçã? O Bloco deveria crucificá-lo? Olha que jeito que dava a tanta gente.
Seguindo critérios idênticos, que blog ou estrutura colectiva pode algum dia durar mais do que uma semana? Já não digo de um governo é claro...
Seguindo critérios idênticos alguma vez se teria formado um sindicato, uma comissão de trabalhadores, que durasse mais do que um fósforo?
Claro que um blog é um blog, para dramatismos já basta.
Tenho imensa pena que deixes de escrever aqui, é supérfluo dizer que fazes imensa falta.
Espero que continuemos a ser amigos e que sentindo-te impossibilitado de repensar esta tua decisão te vejamos em breve noutro local da blogosfera.

Publicado por tchernignobyl às janeiro 25, 2005 08:50 PM

Comentários

"...confesso que nestes momentos me convenço que de facto a direita é capaz de ter alguma razão nas suas análises subjectivas da “natureza humana”... somos pura e simplesmente incapazes de sair disto."

Só para repor alguma 'veracidade histórica da blogsfera', nessa (falsa) questão esquerda/direita: o primeiro blog colectivo a estoirar por questões internas foi a Coluna Infame.

Publicado por: catarina em janeiro 25, 2005 09:10 PM

Tcher, bem aparecido! Satisfeita por verificar que alguem mais repudia aquele horrivel texto do Filipe.

...falai no mau...tinha invocado o teu santo pseudonimo ha escassos momentos, em comentario ao post do adeus do Luis.

Publicado por: Ibidem em janeiro 25, 2005 09:21 PM

Pois, vao mostrando aos poucos-post a post- os preconceitos que tem os membros deste blog e se o Sr. Silva se "revelou" menos foi porque tambem escreveu menos e porque e mais matreiro que os restantes membros e menos distraido. Cruzei-me com o Sr. Silva ha varios anos (quando calhou termos textos publicados no mesmo livro) e percebi a sua esperteza saloia e ambiciosa, a sua natureza sub-repticia de lagartixazinha vaidosa.

Publicado por: Jorge em janeiro 25, 2005 09:40 PM

Este foi sinceramente o texto mais sensato que li no meio deste sarrabulho todo. Tcher, tu que és o mais novinho, vê lá se instilas juízo a estes camaradas!

abraço

Publicado por: gibel em janeiro 25, 2005 09:43 PM

gibel, tem toda razao: o premio sensatez & bom-senso vai para o tcher.

Nao sei quem eh este Jorge, mas estah a irritar-me com os seus comentarios a destilar veneno. Andarah a ver se apanha o lugar ao Luis? Com tamanha rasteirice, nao se safa.

Publicado por: Ibidem em janeiro 25, 2005 09:48 PM

Outro Jorge a maltratar-me o nome! Ó sina!

Publicado por: Jorge Candeias em janeiro 25, 2005 10:25 PM

Penso que qualquer "blogger sério", quando colocado na posição em que Luís Rainha foi colocado, teri tomado exactamente a mesma atitude de Luís Rainha.

É uma pena que tal tenha acontecido, mas Rainha não tinha outra hipótese. Apenas espero poder vê-lo noutro qualquer blogue.

Publicado por: Luís Aguiar-Conraria em janeiro 25, 2005 10:32 PM

O texto do Filipe cheira a traição, no minimo um sermão sem encomenda muito pouco leal. O reconhecimento disto teria e teriamos outro final.

Publicado por: MT em janeiro 25, 2005 10:35 PM

Ganda Tcher! Porque raio não foste tua a escrever o tal comunicado oficial da gerência? Talvez se tivesse evitado esta merda toda.

Publicado por: Monty em janeiro 25, 2005 11:21 PM

Prezado Tchernignobyl, acredita que é bom ver alguém do núcleo residente do BdE a tentar apagar as chamas sem ser com gasolina...

De facto bem que podias fazer uma conferência de paz entre essa malta toda. Desde que haja um mínimo de respeito pela opinião dos parceiros, todas as divergências devem ter solução.

Publicado por: Leonardo Ralha em janeiro 25, 2005 11:28 PM

Cito-te: «Seguindo critérios idênticos, que consequências haveria de ter a recente bacorada do Louçã? O Bloco deveria crucificá-lo?» e sublinho «crucificá-lo». Não percebo... Desde quando o assumir de um disparate - eventualmente até compreensível num momento de menor reflexão - e o correspondente pedido de desculpas, pode ser entendido como «crucificar» alguém? É pena que estejam sempre a fugir-vos ao controlo estes lapsus que só denunciam incapacidade democrática. É pá, eu quero votar em vocês, tou farto do PSSD, mas terão que concordar que não me estão a ajudar nada.
Choque

Publicado por: Choque em janeiro 26, 2005 12:37 AM

Bom texto, Tchern. Eu não sei se o Luís Rainha é um dos mais brilhantes bloguers da lusa praça, como o coroou o Zé Mário – pois não tenho interesse, tempo ou pachorra para percorrer a blogsfera à procura do meu Top Ten – mas sei que este episódio é da exclusiva responsabilidade do Luís.

Sendo ele o autor de uma peça que se prestava às mais desvairadas reacções, era ele que devia acartar com a gestão da crise no que ela envolvesse a imagem pretendida para o BdE. Como o Luís, com acinte, escreve, a "gerência" do BdE não é dele, não foi ele que fundou este projecto, sendo ele um convidado. Ora, desconhecendo eu os termos desse convite e o que ele implica de acordos explícitos ou tácitos, parece óbvio que, numa questão tão melindrosa como a que o Luís abordou, é dever do articulista, o bloguer, esclarecer a eventual má imagem para o colectivo. O Luís, no seu estilo bélico, foi pelo caminho da confrontação taco-a-taco. Isto, em si mesmo, ainda não é o problema.

O problema só acontece com o texto do Filipe. A intervenção do Filipe, provavelmente, é uma consequência da intervenção do Francisco. E eis que o Luís anuncia que se vai embora numa caixa de comentários. Este, sim, o problema. A saída do Luís, atente-se, já em nada se relaciona com a polémica da pseudo-homofobia e quejandos, antes com relações pessoais no seio do grupo de redactores do BdE. Estamos perante uma fuga para a frente, um braço-de-ferro que remete para instâncias psicológicas e não intelectuais.

O que teria acontecido se o Luís não tivesse anunciado a saída no texto do Filipe, mantendo a sua versão dos acontecimentos (ou seja, continuando a desmontar, no estilo que escolhesse, a argumentação que lhe parecia injusta)? Provavelmente, o assunto da pretensa transfobia já estaria esquecido, cada um teria guardado a sua opinião no saco, e os postes da polémica estariam deitadinhos no armazém.

Depois veio um texto lúcido, honesto, solene e comprometido com um opinião pessoal, do Zé Mário e do Manuel Deniz. A este texto o Luís respondeu com a sua última (??) participação neste blogue, num escrito que transpira agressividade por todas as letras. Outra vez a mesma resposta, um padrão. Esta atitude marca um ponto de não retorno, é um trágico-cómico grito de dor lancinante, uma encenação melodramática para consumo na blogosfera. Ao convite para a conciliação, a resposta é a da agudização: agora é o Luís que não aguenta pertencer a um blogue que acolhe o Filipe e o Francisco. Cegueira disfarçada de justiça, violência erigida como defesa, eis o retrato de um desnorte, a perversão do actor que se confunde com a personagem, o cardápio das emoções egocêntricas a condicionar o raciocínio.

Porque os factos são aqueles que todos podem constatar: ninguém intelectualmente honesto pode acusar o Luís de fobias a merecer castigo, só sendo legítimo criticar o seu texto mas na condição de ter a lhaneza de ponderar as suas respostas (e caso ninguém convença ninguém, qual será a novidade?...); o seu texto é uma obra aberta à interpretação, por boas e más razões (a complexidade do tema e o seu tratamento confuso); o Francisco reconheceu que se excedeu; o Filipe contextualizou a sua intervenção e estava bem intencionado, não queria mandar ninguém embora, bem pelo contrário; o Zé e o Manuel fizeram o melhor que puderam e souberam para estabelecer a concórdia. Mas isto não chegou para o Luís, que na despedida prefere falar do que acha que lhe continua a ser devido, desprezando o que lhe foi oferecido.

É no temperamento do Luís que parece estar a chave de todo este imbróglio caricato. É desse temperamento e da sua patente valia polemista que nasce também o dinamismo da sua participação, escolhendo temas difíceis, envolvendo-se com os comentários, dando boa luta. Só que ninguém lhe estará a fazer um favor ao pedir para ficar ou será sensato ao tomar partido contra os "outros". O Luís é o único responsável, não o diminuam alimentando a vitimização.

O que mais me surpreende, sem me surpreender, é a promiscuidade entre as relações pessoais (e, se mais não fosse, as relações pessoais para com os fundadores do BdE, aqueles que convidaram o Luís, os quais até deixaram – o Zé – pedidos públicos para chegar à fala com o Luís!!) e a função de colaborador num projecto aberto à sociedade. Estará em causa uma futura deontologia bloguista, para quando o meio amadurecer, talvez, mas também uma obscenidade ética, uma escolha deliberada pela desvalorização da intimidade em favor da pulsão política, como se a suposta ofensa à imagem pública valesse mais do que as solidariedades pessoais e não se permitisse a recuperação da confiança. Gosto pérfido pelo machado de guerra, alergia ao cachimbo da paz.

Tudo isto é orgulho, uma das tais doenças que se apanham na Internet.

Publicado por: Valupi em janeiro 26, 2005 02:08 AM

Excelente Valupi.
Perspicaz Valupi.
Mui lúcido Valupi.
Mesmo à distância, através de todos os filtros, conseguiste ver e compreender a essência do problema, com uma nitidez e precisão impressionantes.

Publicado por: José Mário Silva em janeiro 26, 2005 02:51 AM

(nota íntima)

Dois ou três Valupis, e a nossa vida pública ia lá.

Publicado por: fernando venâncio em janeiro 26, 2005 08:25 AM

O texto do luís é equilibrado e inteligente, como aliás costumam ser as suas intervenções.
Reli-o novamente e não encontrei nele qualquer indício de discurso homofóbico.
Mas as reacções extremadas que provocou são uma manifestação evidente do preconceito estreito existente nalguns elemesntos da comunidade gay. São afinal tão fundamentalistas e inquisitoriais como os que criticam.

Publicado por: nando em janeiro 26, 2005 11:10 AM

Nos weblogs individuais não há lugares para estes circos todos.
Nos weblogs da direita (alguns) o que acontece é que as divergências individuais são "abafadas" para melhor atacar o "inimigo", depois desse objectivo atingido, eles lá se entendem.
Talvez à esquerda os egos sejam mais inchados e estas questões venham à tona mais fácilmente.

Publicado por: Mário em janeiro 26, 2005 11:12 AM

nando... poupe-me o discurso de vítima...

Em todos os meus comentários respondi ao LR letra por letra, conceito por conceito.

Se sou "fundamentalista e inquisitorial" por isso nem sequer peço desculpa.

Em momento algum quis pôr o LR na fogueira ou torturá-lo (condição essencial para ser inquisitorial, de acordo com a mui nobre tradição católica).

Quanto ao fundamentalista... parece-me, na minha inocência, que apontar um erro de interpretação de um documento científico, será na melhor das interpretações um fundamentalismo científico... mas quem sou eu?

Publicado por: João Paulo (PortugalGay.PT) em janeiro 26, 2005 12:24 PM

Valupi: se bem li as coisas, o Rainha só anunciou sair depois de ler um comentário de outro membro do BdE que ameaçava exactamente tirar o seu nome do cabeçalho do blog. Antes, escreveu que "suspendia" a participação.
Quer você dizer que, mesmo respondendo a quem ameaçava sair, a "culpa" cabe ao Rainha em exclusivo?

Publicado por: HML em janeiro 26, 2005 04:47 PM

O Luis que vá apanhar no cu! A propósito, sabiam que o Louçã também é Gay, mesmo com uma filha feita pelo Álvaro. É só rotos na Esquerda. Já nem sei em quem vou votar.

Publicado por: sergio em janeiro 26, 2005 06:06 PM

O Luis sempre mostrou o seu radicalismo. Lembram-se do caso dos Judeus com a Ana? São atitudes destas que me fazem ter medo desta esquerda. Está muito radical. Vejam o Louçã que tem a mania que é o Modelo e que sabe tudo. Ontem vi o debate entre o Paulo Portas e o Jerónimo e por um momento quem era da Esquerda era o Paulo portas. As ideias que defendia tinham muito mais lógica. E ele na prática já demonstrou que faz o que diz, enquanto o PCP já o vimos em acção em 1975.
O Luis é igual. Não aceita críticas. Que maus exemplos.

Publicado por: sergio em janeiro 26, 2005 06:22 PM

HML, a culpa não sei, pois remete para uma justiça divina. Mas a responsabilidade, seguramente. A frase do Francisco só ao próprio diz respeito, era uma opinião de outro colaborador que se fechava sobre si mesma. Enfim, liberdade de expressão.

Publicado por: Valupi em janeiro 26, 2005 07:01 PM

Quer dizer,o outro ameaça primeiro bater com a porta, o Rainha responde na mesma moeda mas a tal "responsabilidade" é só deste?
A frase do primeiro diz respeito só "ao próprio"; já a do 2º até a nós diz respeito?
Esquisito.

Publicado por: HML em janeiro 26, 2005 07:22 PM

Esquisito, de facto, HML, pois não compreendo esse raciocínio que não distribui as responsabilidades pelas respectivas aldeias. A frase do Francisco responsabiliza-o a ele, Francisco. Tal como as posteriores frases do Francisco continuam a ser da sua responsabilidade, incluindo aquela em que ele reconhece que se excedeu, em que se arrepende da ameaça de saída.

Agora, HML, é aplicar esta lógica a todo e qualquer falante.

Publicado por: Valupi em janeiro 26, 2005 07:33 PM

Olha que desenvolto sofismo. Julgava que falávamos da frase "este episódio é da exclusiva responsabilidade do Luís", não do óbvio que é que cada um se responsabiliza pelo que diz/escreve.
Parece-me que quando o Francisco se "arrependeu", o mal já estava feito. E eu é que não distribuo responsabilidades pelas aldeias?

Publicado por: HML em janeiro 26, 2005 07:42 PM

This is looking good. Who is going to win - HML or HTML?

Publicado por: Germano Filipe em janeiro 26, 2005 08:01 PM

este Valupi deve ser de plástico coberto de lantejoulas.
Não consegue entender que o mau gosto começa quando se passam rasteiras em público em nome da roupa limpa.
E ainda menos, que o que devia ter sido escondido não foi o orgulho e o carácter mas antes a falta deles.

Publicado por: miguel m. em janeiro 26, 2005 08:09 PM

Como também não entende que, se é verdade que os problemas internos entre colegas devem ser resolvidos em privado com as "gerências", uma vez tornados públicos, as "gerências" o que devem fazer é abafar os casos até estarem resolvidos em privado.
E só depois é que são dão contas públicas.
Aqui esteve tudo a falar para a plateia. Salvo os sensatos que se colocaram à margem.

Publicado por: miguel m. em janeiro 26, 2005 08:26 PM

Precisamente, HML, é óbvio que o episódio não se resume à frase do Francisco, nem sequer ela é um momento decisivo, nem ela ficou sem remissão ou contextualização. E explicar o óbvio seria insultar a nossa inteligência. Porém, colhe dizer que a responsabilidade não acaba no domínio do escrito. O que está em causa é a decisão de abandono do Luís, a qual é da responsabilidade de quem a toma, em particular quando se lhe pede para ficar e nos modos sóbrios – que salvavam a face a todos os envolvidos – em que foi feito o pedido.

Mas, ó HML, que mal tem atribuir responsabilidades? Esta é uma questão em que a escolha do vocábulo compromete fatalmente o discurso. Atribuir "culpa" leva por contágio às associações com o "mal", e assim caímos no maniqueísmo, em que há "bons" do nosso lado e "maus" na trincheira em frente. Esse é um terreno infeccioso, causador de febres altas.

Já atribuir responsabilidade é colocar a questão no seu campo próprio, o das decisões livres. O Luís Rainha em nenhum momento foi irresponsável. Nem quando aceitou o convite para integrar o BdE, nem quando decidiu escrever sobre assuntos polémicos, nem quando interpretou os acontecimentos à sua maneira, nem quando decidiu sair. E é esta mesma responsabilidade que o dignifica, desde que assumida.

___

Miguel, aceito as lantejoulas (até porque sou a favor da tourada), mas recuso o plástico (matéria biodesagradável).

Quanto ao binómio privado/público, e perante as dezenas ou centenas de intervenções que se fizeram neste e noutros blogues sobre o assunto, só tenho a dizer que eu não conheço os meandros da história. Em especial, não faço ideia de quais tenham sido, ou como tenham sido, as comunicações em canais privados entre os diferentes responsáveis.

No entanto, o modo como o Zé e o Manuel tentaram resolver o assunto, também em registo aberto por necessidade de tomada de posição pública face à dimensão do caso, pareceu-me exemplar – e prometia um "happy end".

Publicado por: Valupi em janeiro 26, 2005 11:36 PM

Quanto mais se escreve mais se percebe que existem dois lados da barricada. Valupi, que tal esconder um bocadinho esse desejo de ocupar um lugarzinho aí no bde?! Ou esse lamber de botas à gerência é genuíno?

Publicado por: zangalamanga em janeiro 27, 2005 10:12 AM

Este último comentário é tipicamente português. Ó, santa mesquinhez lusitana!

Publicado por: Jorge em janeiro 27, 2005 11:33 AM

Caro zangalamanga, obrigado pelo elogio. Mas eu nunca pertenceria a um blogue que aceitasse pessoas como eu (para fazer aqui uma citação marxista).

Publicado por: Valupi em janeiro 27, 2005 12:23 PM

Mas será que as lantejoulas tiram a visão também por contágio? Será que não se entende que “trabalhar” num blog é tirar parte ao tempo de cada um para escrever coisas à borla na internet? É claro que pode haver sempre a natural vaidade nisto tudo, mas é à borla. E como é à borla, a tal hierarquia de gerências e fundadores também deveria ser menos exibicionista. Afinal, quem escreve e colabora é que permite que ele exista. Quem funda e tem o nome num cabeçalho é claro que tem os mesmos direitos (o que quer que isto signifique) mas devia ter mais cuidado quando se intromete sem participar. Mas é claro que tudo isto são palavras, o que existe sempre são relações pessoais muito diversas. E estas não deviam ser expostas nem tratadas virtualmente mas olhos nos olhos, nos bastidores.
E os leitores que fossem dar uma curva.

Publicado por: miguel m. em janeiro 27, 2005 01:29 PM

Totalmente de acordo na questão dos bastidores, Miguel. Foram essas, aliás, as mensagens que vários comentadores deixaram. E basta a leitura do que o Zé escreveu - tanto a título pessoal como em nome dos fundadores, responsabilidade que está na origem dos convites e, com certeza, de outros encargos materiais e morais que ultrapassam o estatuto dos outros colaboradores - para constatarmos que a decisão pela exibição pública da dissidência apareceu como recurso a contra-gosto e doloroso. Acima de tudo, a intervenção dos fundadores (e depois a de todos os envolvidos, à excepção do Luís) foi sempre no sentido da conciliação. Isto é indiscutível.

Discordo é dos direitos da borla. Que eu saiba, mas posso estar enganado, tudo o que pertence ao domínio do ético é à borla. Eis aí um critério de aferição, a gratuitidade dos compromissos, do respeito, da solidariedade, da responsabilidade, da amizade. Ora, o episódio mostra estes valores a serem esmagados no desenlace pela fúria putativamente justiceira. E ultrapassar esta evidência é já entrar no domínio das ciências psicológicas.

Publicado por: Valupi em janeiro 27, 2005 02:29 PM

Estranho. Eu, por mim, continuo sem encontrar grandes vestígios dessa "conciliação" a não ser no citado texto dos "fundadores". De resto, onde parará ela, a não ser no seu wishful thinking?
Porque se compraz em alardear equidistância quando é óbvia a escolha de lado?

Publicado por: HML em janeiro 27, 2005 03:12 PM

Caro Jorge:
Sou português e por azar, um dos meus defeitos é ser por vezes mesquinho.Por exemplo, não consigo comer sem lavar primeiro as mãos! Ou almoçar sem que mesquinhamente tenha que lavar os dente logo a seguir. Não consigo deixar de me preocupar com coisas que para si serão pequenas mas para mim, que sou mesquinho, são como uma comichão no nariz enquanto se transporta um piano de cauda ás costas.

Publicado por: Zangalamanga em janeiro 27, 2005 04:46 PM

HML, se me comprazo no alarde da equidistância será, forçosamente, porque a equidistância me dará prazer. Onde não pode haver dúvidas é na escolha do lado: estou do lado dos que lamentam a saída do Luís.

Se o amigo tiver apetite necrófilo, poderá passear-se pelos comentários à disposição e somar 2+2, juntar A mais B. Concluirá, com a equidistância que lhe for possível, haver alterações notáveis nos discursos do Filipe e do Francisco, ao mesmo tempo que no Luís se repete um padrão monótono de conflito irreparável.

Não lhe farei o serviço de indicar onde deve procurar, apenas menciono que, mesmo após o seu texto final da despedida, o Luís Rainha tem continuado a repetir os argumentos nas caixas de comentários. Da última vez que vi, era com o Filipe. Bem elucidativo do sentido de todo este caso...

Mas se o amigo HML encontra a conciliação no texto do Zé e do Manuel, como avalia a resposta que o Luís deu a esse texto? Por exemplo, será que foi uma resposta "estranha?

Publicado por: Valupi em janeiro 27, 2005 05:09 PM

Até me inspirou para ir procurar.
Já no dia seguinte ao da deflagração do confronto, escrevia o Filipe "Já te comparei ao Kramer e ao Bastos (e esqueci-me do Peninha, ainda mais adequado) mas a melhor analogia para a tua situação é mesmo a do "Aprendiz de Feiticeiro".".
(http://bde.weblog.com.pt/arquivo/061123.html)
Engraçada maneira de "conciliar". E, lendo o que por ali abaixo vem, não detecto qualquer mudança que seja no tom do Filipe ou do Luís. Mas, francamente, guardo a ideia de que o primeiro argumentava sem grande convicção, dando quase a ideia de o fazer apenas por inércia. Começava por usar como argumento autoritativo noções aprendidas "no secundário", passando no fim a exigir este mundo e o outro para aceitar citações que o outro lhe apresentava.
Quanto à resposta do Luís, leio-a irritada e um pouco belicosa. De humano talvez essa reação tenha algo; de estranho, se isso o deixa feliz, porque não?

Publicado por: HML em janeiro 27, 2005 05:55 PM

E, já agora, também não encontroo nessa discussão nenhum comentário do Luís posterior ao seu anúncio de saída. Pode indicar-me onde estão eles?

Publicado por: HML em janeiro 27, 2005 06:03 PM

Referia-me ao post do Filipe - "O texto que tem dado que falar" - e também lá fui confirmar os factos, os quais levam a uma correcção do que atrás disse: se o último comentário do Filipe é do dia 26, os do Luís são do dia 25 (o dia do adeus) mas ainda na parte da manhã, tendo o seu poste final aparecido durante a tarde. Mea culpa, fui displicente na afirmação.

Quanto ao resto, pois. São as interpretações que se dão à subjectividade. As intervenções de todos os protagonistas estão espalhadas por vários locais, constroem uma filigrana de sentidos que, para mim, remetem sempre para o diálogo com o Zé e o Manuel. Nesse epílogo, o Luís preferiu a cisão.

Não vejo estranheza aí. Vejo estranheza é no interrogatório que o amigo HML resolveu fazer-me. Eu não passo de mais um comentador anónimo, igual em estatuto a todos os outros, e assim vou ficar. Reclamações é com a "gerência".

Publicado por: Valupi em janeiro 27, 2005 06:29 PM

Tu não lês com atenção, pois não, Valupi?
Não são os direitos da borla, são as horizontalidades da borla (passe a expressão e a ocasião).

Eu considerei que, excluindo os colaboradores que não se meteram, todos os outros, todos, falaram para a plateia.

Tão desnecessário seria o post da despedida como o último da “gerência” ou a resposta que se seguiu. Porque a saída também devia ser privada se tudo tivesse sido resolvido em privado. Não terá sido.

Com uma agravante: alguém reagiu a um ataque, outros reagiram a um espectáculo a que assistiram sem nele entrarem.

E o motivo foi determinante até para se acreditar que também há verdade nos que reagem a frio. O motivo já foi bem resumido por outro comentador:

“Não o conheço e você também não me conhece. Mas a eles conheço-os de ginjeira: há uns séculos entretinham-se com heresias, há trinta anos catavam desvios burgueses e hoje sintetizam homofobias, transfobias e anti-semitismos nas consciências dos outros.
O que o distingue a si é que você já sabe que é "culpado" e os outros ainda pensam que são inocentes, mas lá lhes chegará o tempo de ficarem a saber o que são, e não lhes será permitido antecipar que frase, palavra ou vírgula os poderá denunciar.
E não haverá versos que os salvem.
(Os polícias e os vermos serão absolvidos.)
Um abraço, Luís.
Publicado por: a.m. em janeiro 26, 2005 01:48 AM”

Aqui está tudo dito. E isto é que é verdadeiramente a questão de fundo.

Publicado por: miguel m. em janeiro 27, 2005 07:59 PM

Não leio com atenção, confirmo, Miguel. E por mais atenção que aplique na leitura da frase "horizontalidades da borla" não lhe consigo discernir o significado. Não que a situação me incomode.

Quanto a falar para a plateia, o melhor é te ires habituando à inamovível realidade: um blogue é uma plateia. Ao não conteres a gana de intervir, mesmo que "a posteriori", estás a cumprir o desiderato deste medium: também tu estás na plateia.

E é por isso ser assim, e não poder ser diferente, que se instaura uma lógica de comunidade. Os que editam precisam dos que comentam. Os que comentam dependem dos que editam. Destas forças em acção nascem outras, movimentos centrípetos e centrífugos. Quão mais intensas, mais dinâmico, mais vivo, será um blogue.

O que me parece interessante no teu último comentário não é a profecia que citaste, deslumbramento de quem talvez saiba coisas a mais, mas a questão da privacidade versus liberdade de expressão num espaço com estas características tão indefinidas, tão pouco reguláveis.

O Luís saiu por razões que remetem para relações pessoais com o corpo redactorial do BdE. Se excluirmos a parte em que ele é soberano nas decisões, logo não se podendo sequer questionar o acto, podemos reflectir sobre a etiqueta que melhor favorece o projecto (no caso, este do BdE). Para mim, um blogue que admite conflitos entre os seus colaboradores, permitindo a manifestação pública das discussões, é um espaço credível de liberdade de expressão. Ficando os critérios do que deva ser considerado privado para as decisões individuais.

Enfim, o Luís tinha outros recursos para responder ao texto do Filipe para além da demissão. Eis o que (te) faz falta pensar.

Publicado por: Valupi em janeiro 27, 2005 08:35 PM

Horizontalidades à borla = acentuar da colaboração em detrimento das prioridades hierárquicas.

Não deve ser plateia na exposição do que é triste, um corte pessoal.

Não comento nem tomo partido pelo que não me diz respeito.

Apenas questionei a sua análise.

O assunto sim. No que toca ao assunto assino por baixo o texto do outro comentador que transcrevi.
E o resto é retórica que não tem interesse prolongar.

Publicado por: miguel m em janeiro 27, 2005 09:01 PM

quanto a demissões fazem parte da verdade (responsabilidade de cada um). Vejo-a inevitável por uma questão de ética. E evitável se ética tivesse havido no outro colaborador quem nem polemizou.
A forma de sair, o modo como se saiu é que pode ser questionado. Por isso considerei que o caso não foi resolvido em privado. Por nehuma das partes.

Publicado por: miguel m. em janeiro 27, 2005 09:07 PM

A única questão que se poderia debater é transversal. Prende-se com a tendência que o meio virtual propicia ao “desencarnar” as relações pessoais.

Telefona-se e não atende e, em vez de se falar pessoalmente, escreve-se publicamente que se está a tentar telefonar.

Não se responde por telefone, escreve-se publicamente que não se pode atender.

E por aí fora.

Não se corta relações em privado, dizendo tudo o que há a dizer, faz-se um directo. E responde-se de igual modo em directo. Diante da plateia ou para a plateia? O que importa mais: as satisfações virtuais ou os amigos? O palco ou o pudor dos sentimentos e das tristezas?

Publicado por: miguel m. em janeiro 27, 2005 09:21 PM

A única questão que se poderia debater é transversal.

Prende-se com a tendência que o meio virtual propicia ao “desencarnar” as relações pessoais.

Telefona-se e não atende e, em vez de se falar pessoalmente escreve-se publicamente que se está a tentar telefonar.

Não se responde por telefone, escreve-se publicamente que não se pode atender.

E por aí fora.

Não se corta relações em privado, dizendo tudo o que há a dizer, faz-se um directo. E responde-se de igual modo em directo. Diante da plateia ou para a plateia? O que importa mais: as satisfações virtuais ou o pudor do que é triste entre amigos?

Publicado por: miguel m. em janeiro 27, 2005 09:24 PM

Muito bem, Miguel. Vou usar uma imagem que é também uma "private joke" entre mim e o Luís Rainha: estamos no planalto em que nos conseguimos ouvir.

Sinto, na distância que o uso exclusivo de palavras escritas instaura, que te dói a dor alheia. Sinto que estás a empatizar, já mais do que simpatizar, com o gesto dramático do Luís. E que o lado melodramático (ou trágico) do episódio te afecta a sensibilidade. Se isto for verdade, compreendo-te na perfeição (possível). Se for apenas um disparate meu, o que segue será a oportunidade de me compreenderes a mim.

Seríamos dois lunáticos se agora para aqui estivéssemos a dissecar a anatomia do desastre, quando o período é de luto, nojo (realmente, pode mesmo "enojar" o prolongamento da temática, principalmente se for para chover no molhado). Para valer a pena o tempo que aqui gastamos, há que escolher um assunto benéfico para a audiência (nem que a audiência tenha só dois indivíduos, nós).

Para mim esse assunto é aquele que introduziste na conversa, o dos possíveis efeitos perversos do meio virtual nas relações pessoais. Pegando no exemplo próximo, temos de admitir que desconhecemos em que circunstâncias o Zé escreve no blogue que não está a conseguir chegar à fala com o Luís. O que sabemos é que ele tinha escrito antes que, para a situação ficar resolvida, teria de se falar pessoalmente, em privado. Nesta sequência de acontecimentos, vejo a bondade da mensagem como sendo a manifestação desesperada para se conseguir falar com alguém, não um qualquer acto de exibicionismo (que, de resto, apareceria como absurdo face ao perfil público do Zé). Só uma situação extraordinária dentro de uma crise extraordinária parece justificar tamanha porosidade. E justifica.

A violência da ameaça do Francisco, juntamente com o desafio do Filipe, com certeza que também justificam uma comoção nervosa no Luís de muito difícil contenção. Mas é nesse preciso ponto da questão que se abre a dimensão ética, a ocasião da responsabilidade. Por muito desgosto que o Luís tenha sentido com o texto do Filipe e a ameaça do Francisco, a sua comunicação pública de abandono é de uma outra ordem – embora nascida da mesma lógica que ele queria castigar, a lógica da reacção emocional.

Quando o Luís escreve numa caixa de comentários, em discurso directo para o Filipe e o Francisco, que se vai embora, ele está a cumprir a ameaça do Francisco. Entretanto, o Francisco ainda não se tinha ido embora... Ou seja, foi mais franciscano do que o Francisco. Porque a ameaça do Francisco, se lhe tivesse sido dado tempo, viria a ser diluída pelos acontecimentos; e levaria muito provavelmente a um pedido de desculpas. Isto é, o Francisco seria obrigado a reconhecer que o Luís não poderia ser etiquetado com nenhuma fobia digna de crédito. Porque o homem não é homófobo ou transfobo (!!) – mesmo quando um texto seu, por razões que poderão acabar por se circunscrever à técnica de escrita, o possa permitir suspeitar. Muito mal estariam os bloguers se fizessem dos seus textos peças de comunicação com o rigor de um tratado científico ou édito estatal. Deixariam de escrever, isto não seria a selva estimulante que é precisamente por existirem perigos a cada parágrafo.

[enquanto vou escrevendo, sinto a mexicanização a tomar conta de mim... talvez isto não passe de um treino para uma fotonovela que ainda tenho de dar à luz...]

Em resumo: ninguém pediu ao Luís para sair, pediram-se foi censuras (Francisco) e explicações (Filipe). A dimensão ética, se tivesse sido habitada, teria levado o Luís a reconhecer o direito ao erro no seu semelhante (que, eventualmente, se enganava na interpretação) em concomitância com a possibilidade de erro na sua pessoa (que, eventualmente, se enganava na expressão que originava as interpretações). Para todos os efeitos, ele era o responsável por um texto que tinha suscitado reacções adversas. Descontadas aquelas que não contam por serem imbecis e as que contam por serem legítimas, o problema estava nas que vinham dos seus colegas de blogue.

Ser-se ético, aqui, implicava salvaguardar essa relação – fosse lá de que maneira fosse – mas, com a imediata demissão pública (sem sequer conferenciar com o Zé e o Manuel, ou só com um deles), o Luís manifestava o pendor para um despotismo opinativo, uma soberba conflituosa, um acabado orgulho. Não há possibilidade de lhe aceitar o arbítrio por causa de terceiros sem com isso lhe anular a liberdade. Pura e simplesmente, o que ele fez transcende o efeito do que lhe foi dito ou anunciado; pois um ser ético não é uma marioneta, um animal, um nervo. Um ser ético é um ser livre; por isso pode ser responsabilizado, ser sujeito de Direito.

Em que é que isto tudo se liga com o nosso assunto? Pois, e obviamente, está em causa reconhecer que a comunicação dentro de um blogue é feita para uma audiência. Até aqueles que são amigos, ou conhecidos próximos e estimáveis, não escapam (ou escaparão raros) ao condicionalismo do meio, do canal, fonte de ilusões de grandeza (potencialmente exponenciadas por um quadro mental e afectivo de carência, o qual passa a ser alimentado pelos estímulos das interacções com terceiros nestas condições). Isto já é psicologia de café, mas é num "café", numa desvairada tertúlia, que estamos.

Moral: há uma natureza que nos persegue. [sick]

Publicado por: Valupi em janeiro 28, 2005 01:41 AM

Bom Valupi, eu não tenho muito tempo para continuar aqui a esmiuçar esta questão até à exaustão.

Não sintas por mim, sente lá por quem bem entenderes. Pela minha parte guardo-as para outros convívios.

Continuas a levar a teoria para o lado pessoal que eu já expliquei que não ia comentar.

Continuas em cenários de ficção baseados numa única ideia: se não fosse assim estava tudo bem.

A mim não me interessa que esteja tudo bem ou tudo mal. O único juízo de valor que emiti foi considerar o que é óbvio: o gesto com falta de ética toda a gente sabe onde apareceu (e não apareceu em debate mas debitado do alto da cátedra em nome da antiguidade do cabeçalho). A reacção foi perfeitamente natural e totalmente legítima e apenas demonstrou o óbvio: “Se queres dizer diz não mandes recados”.

O que te tentei explicar no outro texto não foi nada disto. Mas tu estás mais interessado em te ouvir a ti próprio. O que tentei dizer é que há uma enorme diferença em falar diante da plateia e falar para a plateia. E os directos é que estiveram mal.

Tudo isto, no entanto, me parece “natural”, a partir do momento em que se confundem noções como a natural embirração por algo, com o uso dessa embirração para perseguir alguém ou retirar-lhe qualquer direito social.

Como me parece consequência natural da ideia que se pode estar a salvo da dita natureza se acreditarmos que as palavras a iludem.

Quando essas crenças são elevadas a bandeiras, os desfechos costumam ser estes. Umas vezes com “purgas” outras apenas com “demarcações oficiais”.

Moral: há uma natureza que nos persegue e nega-a em palavras quem quer desde que não espere o mesmo de todos os outros.

Publicado por: miguel m. em janeiro 28, 2005 02:38 AM

uma demissão pode ter um motivo ético. Assim como uma não demissão também o pode. Um acto é que o é ou não é.

A forma da demissão é que podia ter sido outra. Assim como os comunicados da gerência, assim como tudo isto.

Se não se falasse tanto para a plateia e mais para os amigos.
Em privado.

Todos.

Publicado por: miguel m. em janeiro 28, 2005 02:44 AM

mas estou de acordo contigo num ponto:" um ser ético não é uma marioneta, um animal, um nervo. Um ser ético é um ser livre; por isso pode ser responsabilizado"

E o que nós ficamos a conhecer é que também há inimputáveis.
Mas com status. Mas com status. E que toda a gente devia conhecer.
O dito status.
E espalmou-se ao comprido. Com status e tudo.

Publicado por: miguel m. em janeiro 28, 2005 02:50 AM

Estamos de acordo, Miguel: deviam ter TODOS comunicado primeiro em privado. Vejo aí uma imaturidade previsível dada a novidade destas experiências comunitárias.

Não concordo é com a existência de inimputáveis, nada na situação mo dá a ver, e muito menos vejo como legítima a extrapolação para teorias da conspiração em que se diz que "eles" são isto e aquilo, "purgas" e outras azias. Essa conversa não é séria, de boa-fé.

A triste ironia deste episódio é o facto de que NINGUÉM queria que o Luís abandonasse o BdE. E isso é uma evidência que ficou escrita para quem a quiser ler.

Publicado por: Valupi em janeiro 28, 2005 02:38 PM

Não são teorias da conspiração: são naturais e usuais produtos das ditas ortodoxias colectivas.
E foram estas que falaram mais alto. E isto não é nenhuma novidade.

E as inimputabilidades éticas podem ser depreendidas facilmente. Quando se anda à cata de links de histórias passadas e se faz queixa à socapa numa outra janela de comentários manifestando um certo nojo por se pertencer a um colectivo onde estas coisas acontecem e se aceitam com tanta displicência, só se pode levar com um pano encharcado na cara.

E mais uma vez não se entende a diferença entre reacções de nervo a tudo isto com comportamentos com ética ou falta dela. Não se trata do que foi acusado ou não foi acusado e do arrependimento ou não arrependimento em volta dos chavões. Mas do acto. Do modo como se fez. E aí o dito tropeçou, de facto, no dito satus e espalhou-se ao comprido. Diante da plateia.

Caso que não seria de apontar para a plateia, nem de repreender em público diante da plateia mas de resolver e bem e totalmente em privado.

Sem necessidade de mais comunicados para a plateia. Nem naturais respostas contando a história como de facto foi, para a plateia ver, caso ainda não tivesse visto.

Mas isto não tem grande interesse. Como é notório as palavras valem mais e estão ao serviço de bandeiras e não de coisas tão prosaicas como gente amiga de carne e osso.

Publicado por: miguel m. em janeiro 28, 2005 02:55 PM

Quanto ao não querer que saísse também não entendo. Não querer que saísse do blog ou da amizade? Que se engulam todos os sapos em nome do blog ou das demarcações oficiais da ortodoxia vigente?

Publicado por: miguel m. em janeiro 28, 2005 02:58 PM

Que não saísse do blogue, Miguel, pois como escreveu o Jorge, salvo erro, os redactores não têm todos o mesmo tipo de relações pessoais entre si. Alguns até mal se viram e não convivem.

É aí que me parece que falhas, pois assumes que assistimos ao desmoronar de uma ou várias amizades pessoais em directo, na obscenidade da plateia. Ora, um blogue não é um exercício de amizade, mesmo que ela favoreça e explique os acontecimentos bloguísticos, as inúmeras opções diárias.

Um blogue é uma entidade política, aberta à sociedade, onde se comunica para uma audiência. É assim que leio a indignação do Francisco e a intervenção intencionalmente apaziguadora do Filipe. Que tal tenha sido a razão invocada pelo Luís para sair, eis o que eles com certeza não esperavam que acontecesse.

Tu insistes em falar de ortodoxias e status. Não compreendo e talvez não me venha a ser nunca possível compreender. O que eu vejo é uma sucessão de equívocos, normais por diversas razões, e diferentes responsabilidades no desenrolar dos acontecimentos.

Publicado por: Valupi em janeiro 28, 2005 04:26 PM

nesse caso o ingénuo fui eu que acreditou na importância na crença dos ditos chavões no comunicado da gerència.

Se isto tudo apenas foi gestão de diferentes envolvimentos pessoais então ainda mais privado devia ter sido.

E com mais respeito por quem não tem de se solidarizar com escolhas em nome de ortodoxias anti-fóbicas.

E cada vez entendo melhor o teor deste post bem como a correcta posição dos que não quiserem entrar em tamanha salganhada.

E mais não digo. Prazer na conversa.

Publicado por: miguel m. em janeiro 28, 2005 04:48 PM

só uma coisa: como é deste com a indignação do F?
Seguindo o debate? em resposta ao L no dito debate?
E indignou-se com as ideias ou com as pessoas?
A ponto de achar que ainda se sujava por ter o nome no cabeçalho.

Isto é claro de se ver para quem não está a fazer frete a ninguém.

Publicado por: miguel m. em janeiro 28, 2005 04:51 PM

Como sabes (ou não...) não sou procurador de ninguém nesta história. Exponho o que penso, pelo prazer lúdico de aqui comentar. Assim, não tenho certezas outras para além daquelas que a minha (limitada) inteligência me permite obter pela leitura. E, nesse sentido, não concluas pelo que deixei escrito seja o que for a respeito de terceiros. As minhas palavras só me comprometem a mim.

Se recordo bem, o Francisco anunciou o seu desagrado num comentário a um texto do Filipe. E depois entrou em diálogo com o Luís, após ele ter anunciado a demissão. Foi só isto. À medida que o tempo passa, vê-se melhor que não foi mais do que isto.

Publicado por: Valupi em janeiro 28, 2005 07:29 PM