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janeiro 22, 2005
NÃO TE ESQUEÇAS DO MELHOR

«Uma pessoa que conheço viveu o período mais ordenado da sua vida quando era mais infeliz. Não se esquecia de nada. Anotava até ao mínimo pormenor tudo o que tinha para resolver, e quando se tratava de um encontro - que nunca esquecia -, era a pontualidade em pessoa. O caminho da sua vida parecia que estava pavimentado, sem a menor fresta onde o tempo tivesse oportunidade de proliferar. E assim viveu durante muito tempo. Até que circunstâncias várias provocaram uma mudança na existência da dita pessoa. Começou por pôr de lado o relógio. Treinava-se para chegar tarde, e quando o outro já se tinha ido embora ele sentava-se e ficava à espera. Se precisava de alguma coisa, raramente a encontrava, e se tinha de arrumar algum lugar, a desordem crescia ainda mais noutro. Quando se sentava à secretária, era como se alguém se tivesse instalado para aí viver. Mas era ele próprio que vivia assim no meio de escombros, e tudo aquilo que trazia era logo integrado nessa construção, como fazem as crianças. E ainda como as crianças, que encontram por toda a parte, nos bolsos, na areia, na gaveta, coisas esquecidas que esconderam aí, assim também as coisas se passavam com ele, não só nas ideias, mas também na vida. Os amigos visitavam-no quando ele menos pensava neles e mais deles precisava, e os presentes que traziam, que não eram valiosos, vinham na hora certa, como se ele tivesse os caminhos do céu na palma da mão. Nessa altura ele gostava de recordar a lenda do rapazinho pastor a quem um dia é permitido entrar na montanha com os seus tesouros, mas que ao mesmo tempo recebe o enigmático aviso: "Não esqueças o melhor." Por essa altura, ele estava razoavelmente bem. Concluía poucas coisas começadas, e não dava nada por concluído.»
Walter Benjamin (in «Imagens de Pensamento», tradução de João Barrento, Assírio & Alvim)
Publicado por José Mário Silva às janeiro 22, 2005 01:55 PM
Comentários
Zé Mário Silva, algo que talvez gerasse mais comentários, e daí mais polémica, à volta da personalidade de Walter Benjamim, teria sido esta sua opinião: "It is precisely the purpose of the public opinion generated by the press to make the public incapable of judging, to insinuate into it the attitude of someone irresponsible, uninformed". Não achas? Vê lá que nessa altura já se sabia da nefasta influência da imprensa que, claro, não inclui o BdE.
Publicado por: Germano Filipe em janeiro 22, 2005 05:17 PM
Como de costume o ZM é exemplar na selecção de textos, estranho que não tenha ainda referido o debate, Portas/Louça (continuo vista alegre), e já agora eu tenho o dobro do direito de opinião do dito Louça, embora haja gente que tenha muitas vezes mais, por exemplo e pelo que consta o Roberto Carneiro tem oito vezes mais, critério inteligente, não há duvida.
Este direito de opinião é sobre o aborto como sabem.
Dizer, Louça lucidez e inteligencia,é de facto a mesma coisa. Ou será um dos famosos soundbytes??
Publicado por: provocador em janeiro 22, 2005 07:19 PM
O Benjamin era um operário especializado em Dons Tons e Sons da comunicação. Ajudou-nos a desmontar a representação da representação. Portanto, as ideias são sempre temperadas com condimentos demasiado comunicativos. Disto, não nos safamos. Digo eu.Mas, na floresta do absudo, só as ideias podem abrir clareiras. O walter abriu.
Foi de bom tom recordá-lo.
Publicado por: josé vieira em janeiro 22, 2005 10:01 PM
Belo texto dos Benjamin/Barrento. Obrigado.
Publicado por: Valupi em janeiro 23, 2005 12:49 AM
Gostam de Benjamim? pois eu tenho de ler obrigatoriamente um texto da reprodutibilidade técnica dele para uma cadeira e não percebo nada daquilo, nem eu nem ninguém dos meus colegas!!!
Publicado por: booklover em janeiro 23, 2005 11:09 PM
referes-te a The work of art in the age of mechanical reproduction ? (não é assim um texto tão difícil) algumas ideias:Walter lamenta a perda da aura provocada pela reprodução técnica;
técnica liberta arte da sua ligação sagrada;novas
técnicas mudam a nossa recepção da arte e a nossa
percepção.(alguns apontamentos que tirei)
Publicado por: manuel andrade em janeiro 24, 2005 01:40 AM
Nem mais. A técnica é que molda a percepção, a recepção e a significação. É por aí, com o Benjamin.
Publicado por: Valupi em janeiro 24, 2005 05:43 AM