« A PÁFOBIA | Entrada | NÃO TE ESQUEÇAS DO MELHOR »

janeiro 21, 2005

PARA ACABAR DE VEZ COM A CRISE INTERNA

[Ponto prévio: uma vez que não nos foi possível agir de imediato (isto é, quando a controvérsia estalou), tentámos aproveitar o "atraso" na tomada de posição dos fundadores, há muito exigida por quem nos visita, para trocar impressões com os vários intervenientes neste psicodrama interno do BdE. Infelizmente, o processo de consulta das bases (digamos assim) não pôde ser concluído em tempo útil, sendo que o tempo útil era o final desta sexta-feira. Tendo em conta a gravidade da crise, e a promessa que fiz ontem de uma "clarificação" rápida, qualquer novo adiamento seria pouco menos do que ridículo. Avançamos por isso agora com o nosso ponto de vista, até porque a vida do blogue já esteve tempo demais em suspenso]

1. No dia 23 de Março de 2004, um post do Filipe Moura desencadeou uma polémica violentíssima, durante a qual se fizeram graves acusações ao FM, mas também ao BdE no seu todo, nomeadamente a de que este blogue acolhia posições anti-semitas. Independentemente da solidariedade que o Filipe merecia, pelos ataques à sua pessoa e ao seu bom nome (quase todos injustos ou exagerados), quisemos esclarecer a posição oficial deste blogue. Ou seja, sublinhámos uma evidência: «Independentemente das justificações e respostas que o Filipe venha a escrever, no seguimento desta polémica, queremos deixar bem claro que o Blogue de Esquerda, enquanto colectivo, não se revê nas posições por ele defendidas sobre esta matéria. O BdE não acredita em teorias da conspiração nem em cabalas judaicas para dominar o mundo, os media ou o que for. Se o Filipe lhes dá crédito, explicará o como e o porquê, quando quiser. A sua posição, porém, não vincula os restantes membros do blogue.» Mais tarde, o Filipe viria a explicar melhor as suas ideias e a rectificar a posição defendida naquele post profundamente infeliz. Não duvidamos que os efeitos deste episódio foram bastante nefastos e que muitas pessoas ficaram com uma imagem negativa do BdE (sobretudo as que acompanharam a polémica de forma superficial, sem esperar pelo seu desenlace e sem fazer as necessárias distinções entre as opiniões pessoais de cada um e a posição colectiva do blogue). Quem continuou a acompanhar o que aqui se escreve, terá compreendido que o BdE é formado por várias cabeças, sendo que umas não têm que responder pelo que as outras pensam e, mais importante ainda, nenhuma voz individual implica o alinhamento automático das restantes vozes.

2. O principal corolário do que acabamos de dizer é que qualquer post menos consensual é passível de crítica interna e até, quando se justifique, dissensão interna. Como é óbvio, nenhum dos membros do blogue concorda a 100% com o que os outros escrevem. Nós não concordámos com o post do Luis Rainha sobre Deus (a propósito do tsunami asiático), como ele não concorda certamente com algumas das opiniões que aqui temos defendido. Há, no entanto, textos que exigem, pelo teor das críticas que levantam, uma tomada de posição dos outros elementos do blogue, sob pena de uma ideia pessoal ser confundida com uma posição do BdE. E é aqui que está o cerne da crise actual. Mal ou bem, alguns comentadores consideraram que um post do Luis Rainha podia ser interpretado como «homofóbico». O Francisco Frazão expressou o seu desconforto num comentário. O Filipe Moura demarcou-se num post que foi visto como um ataque pessoal. Estavam reunidas as condições para o que se passou depois: caos, desembainhar de espadas, ameaças de abandono, suspensões intempestivas, muito som e muita fúria. Urge, por isso, e talvez já tarde demais, clarificar a situação.

3. A primeira questão que importa esclarecer prende-se com o post que incendiou os ânimos. Para que não subsistam dúvidas, é preciso dizer que nenhum dos fundadores deste blogue se revê num parágrafo como este: «A comunidade transgender tem crescido e prosperado muito graças aos bons ofícios da Net. O Distúrbio da Identidade de Género, ainda considerado doença pelo DSM – aliás, como o travestismo –, é apresentado, em sites como este ou em infindos quiosques de pornografia, como algo de perfeitamente "normal" e "saudável". Assim, indivíduos com as mesmas patologias podem agrupar-se e reforçar mutuamente as suas inclinações, que de outra forma talvez nunca assumissem grande importância.» A questão não está no que o Luis quis dizer com isto, a questão está no que a esmagadora maioria dos leitores (e não apenas os apressados) leram. E o que eles leram foi uma declaração confusa que mete no mesmo saco coisas muito diferentes e que deixa transparecer um preconceito homofóbico. Mesmo sabendo que o Luis não é homofóbico (tal como sabíamos que o Filipe não é anti-semita), cabe-nos sublinhar que essa associação à homofobia, por muito estapafúrdia que seja, não pode vincular os restantes elementos do blogue e o BdE como um todo. Que isto fique bem claro. As frases assinadas pelo Luis são do Luis e é ele que responde por elas, como aliás já fez repetidamente. Fazer da «homofobia» do Luis (seja ela verdadeira, falsa ou empolada) a «homofobia» do BdE é um disparate, um abuso e uma injustiça.

4. Feito o esclarecimento, é preciso dizer que as reacções ao texto do Luis foram de um exagero atroz e por vezes cruel. Mesmo admitindo que a forma como o referido post está escrito pode dar azo a todo o tipo de indignações (umas mais legítimas do que outras), nada justifica a violência com que o Luis foi atacado. Quem lesse alguns dos comentários poderia pensar que albergamos entre nós um reaccionário ultra-montano saído do lado mais negro da Idade Média. Todos os visitantes regulares deste blogue sabem que assim não é, muito pelo contrário. O Luis, além de ser um dos mais brilhantes bloggers da blogosfera portuguesa, é um corajoso explorador de temas obscuros e incómodos. Que o queiram destruir só porque pisa territórios complexos, condenando-o antes mesmo de lhe permitir uma defesa articulada dos seus pontos de vista, diz muito sobre o fundamentalismo politicamente correcto que se esconde atrás de alguns apressados autos-de-fé.

5. Ainda a quente, no meio das disputas verbais que encheram os últimos dias, o Luis Rainha decidiu suspender a sua participação neste blogue. Compreendemos as suas razões, mas não concordamos com elas. Era isso que lhe queríamos dizer por telefone. Uma vez ultrapassada a polémica (e provavelmente daqui a uma semana tudo isto parecerá excessivo e distante), achamos que o Luis devia continuar a escrever neste blogue, com o ritmo e a qualidade a que nos habituou. Contudo, se preferir abandonar o projecto, também entenderemos a sua decisão. Eis um ponto que fica em aberto.

6. Quanto ao Francisco Frazão, que sugeriu igualmente o abandono, esperamos que reconsidere. Também ele foi maltratado por alguns comentadores, a quem aproveitamos para esclarecer o seguinte: o Francisco foi e é um dos elementos mais válidos deste blogue. O facto de ter escrito pouco nos últimos meses terá a ver exclusivamente com a sua gestão do tempo, ou com outras razões que não nos dizem respeito. Isso não lhe retira, contudo, o direito a intervir na vida do blogue, como e quando lhe apeteça. Basta recordar que um dos fundadores do BdE também tem escrito pouquíssimo, por motivos profissionais, o que não lhe impede um acompanhamento directo de tudo o que se passa no blogue. Além do mais, qualquer pessoa minimamente atenta à vida cultural do nosso país dispensaria perguntas maldosas como: «quem é o Francisco Frazão»? Entre muitas outras coisas, o Francisco Frazão é um membro de pleno direito deste blogue. E continuará a ser enquanto ele quiser, por muito que isso incomode certas almas sensíveis.

7. Uma última palavra de apreço para o Jorge Palinhos. Nestes dias conturbados, ele teve o sangue-frio e a gentileza de fazer a única coisa sensata: continuar a escrever no BdE, no seu estilo inconfundível, como se nada estivesse a acontecer. Fez muitíssimo bem. Porque estes momentos de crise passam; o blogue fica.

8. Agora, arrumemos a questão. Quem quiser falar, fale. Quem tiver decisões a tomar, que as tome. E depois voltemos à normalidade. Já vai sendo tempo.

José Mário Silva e Manuel Deniz Silva

Publicado por José Mário Silva às janeiro 21, 2005 11:40 PM

Comentários

Vejo que o problema da esquerda de portugal é o mesmo da esquerda aqui do Brasil: texto muito longos!

Publicado por: ARI em janeiro 22, 2005 03:20 AM

Vejo que o problema da esquerda de portugal é o mesmo da esquerda aqui do Brasil: textos compridos demais...

Publicado por: ARI em janeiro 22, 2005 03:21 AM

Ora aí está: o problema são os textos longos... A gente, depois de dois ou três parágrafos já não atinge. Isto é complicado... Porque é preciso ler, relacionar - uma chatice... E depois, sei lá, um texto com mais de duas linhas exige concentração, exige leitura, exige um bocadinho de esforço - bolas... Ora aí está, explicadinho num resumo como deve de ser, qual é o problema da esquerda: «textos compridos»... Aqui como no Brasil... Ó ARI, obrigado, pá...

Publicado por: josé carlos em janeiro 22, 2005 03:30 AM

Malta do BdE,

Como leitor a minha análise é objectivamente esta:

1-"BdE é formado por várias cabeças, sendo que umas não têm que responder pelo que as outras pensam e, mais importante ainda, nenhuma voz individual implica o alinhamento automático das restantes vozes."

2-"Há, no entanto, textos que exigem, pelo teor das críticas que levantam, uma tomada de posição dos outros elementos do blogue, sob pena de uma ideia pessoal ser confundida com uma posição do BdE."

3-"As frases assinadas pelo Luis são do Luis e é ele que responde por elas, como aliás já fez repetidamente. Fazer da «homofobia» do Luis (seja ela verdadeira, falsa ou empolada) a «homofobia» do BdE é um disparate, um abuso e uma injustiça."

4-"O Luis, além de ser um dos mais brilhantes bloggers da blogosfera portuguesa, é um corajoso explorador de temas obscuros e incómodos. Que o queiram destruir só porque pisa territórios complexos, condenando-o antes mesmo de lhe permitir uma defesa articulada dos seus pontos de vista, diz muito sobre o fundamentalismo politicamente correcto que se esconde atrás de alguns apressados autos-de-fé."

5-"Uma vez ultrapassada a polémica (e provavelmente daqui a uma semana tudo isto parecerá excessivo e distante), achamos que o Luis devia continuar a escrever neste blogue, com o ritmo e a qualidade a que nos habituou."

6-"Entre muitas outras coisas, o Francisco Frazão é um membro de pleno direito deste blogue"

7-"Uma última palavra de apreço para o Jorge Palinhos...ele teve o sangue-frio e a gentileza de fazer a única coisa sensata: continuar a escrever no BdE...Fez muitíssimo bem. Porque estes momentos de crise passam; o blogue fica."

8-"Quem quiser falar, fale."

Devo dizer que acho este comunicado sensato e honesto, para mim também exemplo da liberdade de expressão que deveria pautar toda a blogosfera.

Bin Tex

Publicado por: bin_tex em janeiro 22, 2005 03:53 AM

Nota: Ainda não são horas "satânicas"...

Publicado por: bin_tex em janeiro 22, 2005 03:56 AM

Descobri o BdE no final do ano passado e tive a sorte de receber um acolhimento fidalgo pela mão do Fernando Venâncio. Aos poucos fui conhecendo os cantos à casa. Surpreendeu-me a qualidade e vitalidade da edição diária, a excelência de alguns comentadores. Acima de tudo, gostei do tom culto e ecléctico conseguido pela diversidade dos colaboradores. Para lá das motivações psicológicas próprias a cada um de vocês, as quais são do foro privado e não se discutem, é notório que são movidos por um idealismo cativante.

Estou-me a marimbar para a questão política, tal como ela é entendida dentro do actual quadro partidário e ideológico. Os modelos vigentes são resquícios de um passado que já não faz sentido, ainda subsistindo por demora na aceitação dos factos: não é à esquerda ou à direita que está o bom governo, é acima.

Este episódio com o Luís Rainha, pois que começou com ele e com ele cresceu, tem algo de sério e algo de risível. É sério quando afecta a estabilidade psíquica, emocional, afectiva dos próprios e de terceiros. E é risível pelas mesmíssimas razões. Pessoalmente, acho o Luís demasiado envolvido com as interacções dos comentadores – os quais são anónimos para todos os efeitos, logo irresponsáveis – o que não favorece a ecologia das relações. A sua força merece alvos mais profícuos onde se testar, adversários que o assustem e não lhe permitam a simulação de um poder intimidatório (o que ele faz pelo constante recurso a uma retórica "habilidosa", no pior sentido do termo; e, por isso, configurando uma caso de erística).

Amigos, que nunca vi mais magros, têm a minha incondicional admiração. Sei que não vale de nada, mas é destes encontros que talvez um dia nasça um movimento que inaugure o século XXI.

Até lá, se lá chegarmos, viva a inteligência e a vontade. Livres.

Publicado por: Valupi em janeiro 22, 2005 06:03 AM

"(...)interacções dos comentadores - os quais são anónimos para todos os efeitos, logo irresponsáveis..."
que irresponsabilidade é essa? deves estar a referir somente a tua pessoa.

Publicado por: fernando esteves pinto em janeiro 22, 2005 07:54 AM

Sublinhe-se, logo de entrada, a ponderação, a firmeza, o tacto, enfim a ‘qualidade’, de que os fundadores deste blog deram provas. Não agiram tarde, nem cedo. Quando se fazem coisas acertadas, elas vêm sempre, também, no momento certo (nada de misterioso: são elas próprias a criarem-no).

Essa acção ponderada acompanhou-se, ainda assim, de uma frenética gestão, de que fomos testemunhas, em tempo real, claro. Os SMSs mandados pelo Zé Mário ao Luís Rainha a partir deste humilde espaço público terão de ser recordados para a história da bloguística portuguesa.

Essa descida de emergência do ZM a esta caverna de sombras honra-nos particularmente. Mas obriga, igualmente, a saudar a bela promiscuidade que no BdE se estabeleceu. Explico.

Por um lado, somos, nós os do porão, frequentemente aliciados a escrever também no espaço nobre, onde passamos a «itálicos». Temos feito insuficiente uso dessa chance. Por outro, os próprios do cabeçalho intervêm na conversa aqui em baixo (além do ZM, têm-no feito o Luís e o Filipe), o que é óptimo, quer como animação, quer como pura gestão.

Resta, para mim, um problema: o do exacto estatuto de quem habita estes confins. Segundo o sábio Valupi, não somos «identidades», mas «simulacros». A distinção é bem achada, mas porosa, imensamente porosa, já que, até na vida real, ali fora, os nossos melhores amigos podem andar-se escondendo, mesmo na maior intimidade.

Ora, não é que me incomode que alguém se apresente aqui com uma sigla, uma fórmula química, um patente pseudónimo. Não só eles podem, em alguns casos, ir adquirindo um rosto, como são, noutros casos, ou nos mesmos, velhos conhecidos de algum ou outro interveniente (nunca meu, mas já aceitei esse destino). O que me incomoda é a falta de seriedade, de simples brio, de quem passa e atira uma pedra aos vidros, dessas almas penadas que atravessam a blogosfera, esvoaçantes e com agudos ais. Não haverá meios de os filtrar, a esses, os verdadeiros simulacros?

Digo-o, e sinto um baque de consciência. É que mesmo esses chiares doridos são humanos. E alguns até inteligentes.

Publicado por: fernando venâncio em janeiro 22, 2005 10:14 AM

Em tempo: também o Tcher se aventurou aqui à caverna. E a propósito: que é dele?

Publicado por: fernando venâncio em janeiro 22, 2005 10:20 AM

Eu nâo conhêço o Luis,nem ele me conhéce.Ele é um erudito e eu sou um trabalhador na reforma,ele esta na Europa e eu estou no Canada.Muita coisa nos separa,eu li o seu poste varias vêzes e ,em algum momento vi uma acusaçâo,mas sim uma pergunta obgetiva que têve como reposta na maioria das vêzes a .INTOLERANCIA,e da-me lembranças terreveis do regime salasarista,eu procuro sabêr nos decionarios,antes de me deixar levar por sentimentos irracionais.Espéro continuar a lêr os seus interesantes e instruidos postes. Manuel Martins

Publicado por: calhordus em janeiro 22, 2005 10:22 AM

Já eu, acho que vocês são todos uns gandas bacanos, subscrevo (à vírgula) as palavras do (da?) valupi e sugiro que se deixem de merdas por dois motivos concretos:
1 - A nenhum postador pode ser exigida a perfeição e deve ser perdoada alguma posta menos consensual. Porra, pá, somos alguns autómatos?
2 - A nenhum comentador pode ser exigida contençao verbal quando dá de trombas com uma merda que o insulta.
Aguentemo-nos à bronca com estas fragilidades humanas e vamos ao trabalho (dos dois lados da barricada blogueira) pois temos muito que trabalhar nesta nossa magnífica realização colectiva. Há dúvidas?

Publicado por: sharkinho em janeiro 22, 2005 11:39 AM


Eu estou a ler isto e não sei o que dizer... Sei apenas que gosto muito deste blogue e de todos que nele escrevem, com todos os defeitos e virtudes, aliás inerentes à nossa condição humana. Tenho me divertido, na maior parte das vezes que aqui entro - rio imenso, há aqui bom humor -, aprendo sempre, por vezes discordo (raras vezes!), e este lugar já se tornou imprescindível. Tenho alguma dificuldade em digerir estas situações de drama, não sei que pensar. Está na altura de abrir a janela, deixar entrar o vento, respirar fundo e seguir em frente. Os leitores exigem! ;)

Publicado por: Ana Miranda em janeiro 22, 2005 01:18 PM

O Fernando Esteves Pinto deu uma dentada dolorosa e o Fernando Venâncio foi direito ao coração. Mas o Valupi, humano como nós apesar do embuço, terá compreendido - não se vem a este blogue só para ensinar, também se vem para aprender. Umas vezes somos o pombo, outras a estátua...

Publicado por: Germano Filipe em janeiro 22, 2005 01:40 PM

Este foi dos primeiros blogues que comecei a acompanhar e, a par com a Janela Indiscreta, um dos que me incentivou a criar o meu próprio blogue.

A passagem de BdE I para o BdE II e o alargamento dos autores trouxe uma maior diversidade de opiniões e um maior ritmo que é de louvar. No entanto tem tornado maior o número de vezes em que leio posts com os quais não concordo. E daí ?

Penso que o verdadeiro problema que surgiu, não é o facto de algumas opiniões não serem coincidentes com as minhas ou com a maioria dos leitores deste blogue, mas sim com algum desconhecimento nas matérias tratadas o que faz com que sejam feitas afirmações aparentemente mal pensadas e com profundo desconhecimento de causa.

Este tipo de problemas acontece em milhares de outros blogues e em nada me irrita. Da mesma forma, não me irrito com artigos parvos no Correio da Manhã, no Crime ou no Tal & Qual.

A questão é que o BdE é um blogue de referência e tal como na imprensa escrita sinto-me defraudado quando o Público ou o DN caiem em artigos mal sustentados, também aqui a exigência é outra. Esse é o preço do trabalho que desenvolveram até agora.

Publicado por: Pedro Farinha em janeiro 22, 2005 02:44 PM

Muito bem colocado, Pedro. Contigo não fazem farinha... :)

Publicado por: sharkinho em janeiro 22, 2005 04:04 PM

"Que o queiram destruir só porque pisa territórios complexos, condenando-o antes mesmo de lhe permitir uma defesa articulada dos seus pontos de vista, diz muito sobre o fundamentalismo politicamente correcto que se esconde atrás de alguns apressados autos-de-fé."

O quê!? Que absoluto exagero! Liberdade de expressão implica falar e ouvir. Vir falar em autos-de-fé é não só um absoluto exagero, como até um desrespeito para com quem ardeu nos ditos. Liberdade é debate, e não unanimidade. Depois fala-se em "fundamentalismo do politicamente correcto" por se exigir o respeito que o Luís não teve por várias pessoas. Não teve, não se corrigiu, e agora voilá, surge no papel de vítima! Francamente..

E não foi homofobia o problema, mas transfobia!! Assim se vê que as críticas não foram lidas ou entendidas..

Publicado por: Boss em janeiro 22, 2005 04:09 PM

[provocação: vou ceder por uma vez à teoria da conspiração e lamentar que esta crise esteja a evitar a conversa relativa aos seráficos sorrisos das crianças e destinos a dar ao viscoso elixir testicular, no que vejo um apagamento histórico ao serviço de forças ocultas]

Assinaria por baixo as palavras do Fernando Venâncio. E faço dessa expressão um trocadilho ao quadrado, tentativa de circunscrever a ambiguidade que tenho alimentado.

Há diferentes estratégias para as interacções na Rede. Uns prolongam os referentes biográficos, outros acrescentam-nos (mascaram-se, experimentam outras "personas"). Nem num caso, nem no outro (por maioria de razão), há evidência suficiente, no acto, para garantir identidades. Sim, eu posso assinar Fernando Venâncio [uso este nome só para dar um exemplo dentro do trocadilho, nada mais], incluir o seu email e de imediato o leitor ingénuo (que somos todos em potência) irá assumir que acabou de ler um texto do Fernando Venâncio. Pode-se estender este exemplo até ao seu limite, levando a análise para os posteriores critérios de validação, mas aí já o mal estará feito e não se garante a recuperação do dano. Imaginemos este cenário caricatural: por causa de uma droga na canalização pública, ou um raio de uma nave extraterrestre, todos passaríamos a assinar "Fernando Venâncio". Possível? Sim, pois o meio permite, o meio apenas reclama sinais gráficos, não corpos físicos e irrepetíveis.

A identidade é da ordem do irrepetível; eis o que a define, precisamente e com precisão. Em contrabalanço com esta perspectiva, temos a outra já mencionada pelo Fernando Venâncio, a de que se vão dando rostos aos sinais gráficos que aprendemos a reconhecer. É verdade, e bem verdade. Por isso se estabelecem fortíssimas ligações afectivas, para o bem e para o mal, matéria sobre a qual já há vasta bibliografia científica.

Importa também pensar o aspecto mediológico deste tipo de comunicação, onde a escrita é uma técnica que impõe modos psicológicos específicos, assíncronos e racionalizadores, diferentes dos da oralidade ou dos da comunicação presencial no que abafam de sinais complementares. Basta só referir o que acontece numa conversa telefónica, onde as inflexões de voz e os silêncios são elementos de construção dos significados. Tudo isto a contribuir para o fenómeno da exponenciação do erro interpretativo.

Esse erro não é de natureza intelectual mas afectiva. Por inexperiência, esquecemos o meio, as mediações, e confundimos a criação com o criador. Assumimos que ao referente gráfico que assinala uma autoria corresponde um referente unívoco que identifica uma pessoa. Tal é a causa dos desvarios sentimentalóides que recorrentemente acontecem nos conflitos e no "pathos" das despedidas (como quando se fecha um blogue, por exemplo, e se pode até - se calhar... - saborear a luxúria de assistir ao próprio funeral...).

Somos animais comunitários, e o princípio da organização cósmica concedeu-nos inteligência verbal. Em nós convivem as instâncias cegas da biologia com a desmesura da contemplação do infinito. Algures pelo meio, há uma indescritível alegria com a brutal e suavíssima consciência de estar vivo.

O BdE - quem o faz na geografia vertical que o Fernando referiu (e vou nomear para efeitos desta exposição: o Zé Mário, o Luís Rainha, o Filipe Moura, o Francisco Frazão, o Manuel Deniz, o Fernando Venâncio, o fernando esteves pinto, o Germano, o sharkinho, o calhordus, a Ana Miranda, o bin tex, o Pedro Farinha, o josé carlos, o ARI e o Boss) - é parte dessa alegria.

Publicado por: Valupi em janeiro 22, 2005 04:17 PM

Raios te partam, Valupi, obrigaste-me a ir ao dicionário outra vez. Não te disse que aqui também se aprende? Gostei da tua dissecação filosófica de cadáveres e gostei do tom de andar para trás que permeia o teu escrito, especialmento do fecho, que adorei. Ainda bem. Descansa que não perdes os louros que mereces por teres virado este blogo de pernas para o ar. No bom sentido, claro. Gostei da metafísica. O que não gostei, ou, melhor, o que temia era que viesses confirmar o teu asco a teorias da conspiração. E vieste. Logo à entrada. De uma penada, rebentaste com a minha esperança de te convidar para presidente honorário do meu partido. Paciência. Talvez um dia mudes, quando eu te mostrar a foto duma donzela a ser devorada por um caranguejo com feições socialistas. Gostei, especialmente, disto:"Em nós convivem as instâncias cegas da biologia com a desmesura da contemplação do infinito". Pure bliss. You really are somebody and I like you.

Publicado por: Germano Filipe em janeiro 22, 2005 06:45 PM

Eu, que sou novo nisto, abstenho-me de comentar a dita "crise" dos fundadores do blog.Gostar, gostar é de ideias, e aqui que as há, há. Ponto.
Já agora, alguem me poderia informar onde posso encontrar o debate do louçã com o portas, aqui na net? Agradecia.

Publicado por: josé vieira em janeiro 22, 2005 09:44 PM

O camarada brasileiro Ari comenta aqui que isto é como no Brasil: muito palavreado da esquerda, etc. O palavreado é muito, mas não se trata aqui de esquerda ou direita, mas de uma questão de esclarecimento ou clarificação de uma situação de crise (o termo é vosso). Ora, este comunicado dos fundadores do blogue não esclarece nada do caso Rainha, é apenas um manifesto sobre a tolerância do blogue, mas..., sobre o porreirismo de todos, mas..., sobre a esperança cristã de que toda a gente se dê bem, mas... que há limites para tudo. Ora, o Rainha, ao abordar «temas obscuros e incómodos» torna-se naturalmente incómodo e ultrapassa os limites. É isto que eu entendo nas entrelinhas. O post de reacção aos do LR que despoletou a polémica - um post que eu não quero comentar nem qualificar - foi «mal interpretado», diz este comunicado, mas parece que assim o não entendeu LR. Quanto à «clarificação», ela já tinha sido feita pelo Zé Mário no seu pequeno post da noite da crise quando prometia para mais tarde uma clarificação, onde eu vejo um apoio ao «post de dmarcação» que «tentou pôr água na fervura (atitude louvável mas infelizmente mal compreendida)». Agora, neste longo comunicado, o método de críticar LR é o mesmo dos seus detractores mais fundamentalistas, nos comentários: pegar num pedacinho solto, desinserido do contexto, para criticar o longo e complexo trabalho de LR: «A comunidade transgender tem crescido e prosperado muito graças aos bons ofícios da Net. O Distúrbio da Identidade de Género, ainda considerado doença pelo DSM – aliás, como o travestismo –, é apresentado, em sites como este ou em infindos quiosques de pornografia, como algo de perfeitamente "normal" e "saudável". Assim, indivíduos com as mesmas patologias podem agrupar-se e reforçar mutuamente as suas inclinações, que de outra forma talvez nunca assumissem grande importância.» Pois, parece que isto já chega para pôr na fogueira um longo trabalho de 4 posts... O blogue e os fundadores do blogue têm todo o direito de crítica aos seus bloggers mas acho que, como responsáveis do blogue, deveriam fazer críticas mais consistentes. Isso sim, seria clarificador. Assim, caem-me mal e cheiram-me a hipocrisia, pessoalmente, os louvores que o longo comunicado também tece ao autor dos temas «incómodos e obscuros». Prefiro os métodos directos e corajosos do LR, embora não esteja de acordo com ele neste e em muitos outros assuntos. Prefiro o Rainha.

Publicado por: jm em janeiro 22, 2005 11:48 PM

este valupi é cada tiro, cada melro: sai sempre estupidez pomposa!

Publicado por: Zé em janeiro 23, 2005 01:30 AM

O que eu leio neste comunicado risível:

- liberdade de expressão 0

- fascismo gay 1

parabéns aos senhores do costume.

Quando a esquerda se lembrar outra vez das suas verdadeiras causas - a defesa dos economicamente oprimidos e outras coisas bem mais radicais e decisivas para o progresso humano que a histeria gay ou transgender ou a puta que os pariu (parecem saber mais disto do que dos dramas sociais menos chiques ou exóticos) - penso que já será demasiado tarde. Como mulher de esquerda ando farta desta palhaçada.

Publicado por: ana cristina em janeiro 23, 2005 03:32 AM

Ana Cristina,

Há, no seu comentário, muita generosidade (sim, a defesa dos oprimidos deveria mobilizar-nos um tanto mais), mas há também alguma confusão.

Para começar, as formulações «fascismo gay» e «histeria gay» não levam longe. O que você provavelmente visa é a correcção política que se apodera de nós, de nós todos (e só por desafiá-la o Luís Rainha merece uma pequena salva de palmas), quando os oprimidos o são por uma orientação sexual. É um terreno em que todos (todos, héteros incluídos) se sentem frágeis, e o refugiar-se na segurança da correcção política é a solução mais à mão.

Que os activistas gay se aproveitem dessa geral insegurança, e dessa geral generosidade, e as explorem - é lamentável, e nunca suficientemente se o denunciará. Dum modo geral, eles são gente sem grande bagagem, razoavelmente primária, e com quem é difícil dialogar. Depois, têm sempre pronto o apodo de «homofóbico», e isso, nos tempos que correm, é uma vergonha pública.

Simplesmente, chamar a esse abuso «fascismo gay», ou mesmo «histeria gay», é exagerado, não lhe parece? Baste rir-se-lhes na cara. Esta é, de resto, a única reacção minimamente efectiva à correcção política. Eles não sabem de que a gente se ri. Mas também já não tem importância.

Publicado por: fernando venâncio em janeiro 23, 2005 09:42 AM

Cá para mim vocês preocupam-se é demais... a vida já tem demasiado disso para nós estarmos a dar ajudas.

Publicado por: JR Ewing em janeiro 23, 2005 11:46 AM

F.Venâncio, muito bem, só não concordo com este seu exagero e generalização: «Dum modo geral, eles são gente sem grande bagagem, razoavelmente primária, e com quem é difícil dialogar». Tenho homossexuais na minha família e entre os meus amigos e, felizmente, estas pessoas são julgadas, entre nós, por serem estúpidas ou serem inteligentes, por serem boas ou serem más, e não por serem gays. Mas cuidado, Fernando, porque ainda pode ser acusado de homofobia.

Publicado por: jm em janeiro 23, 2005 11:47 AM

jm,

Você, desculpe, não leu bem. Eu falei dos ACTIVISTAS GAY (e ainda «em geral»), nunca dos gays, que são - como você sabe - gente normal, onde há do pior, do médio e do melhor.

Publicado por: fernando venâncio em janeiro 23, 2005 12:46 PM

A bestialidade da inteligência da Ana Cristina é comovente. O Luís Raínha, por cobardia e desonestidade intelectual amua e retira-se do debate, e depois foram os fascistas gay que o arrumaram.. E vem falar a Ana Cristina de liberdade de expressão, mas quem a retirou a quem? Ou para si a "liberdade de expressão" deve ser um exclusivo hetero?

Ana Cristina evite insultar-se nos comentários que faz.

Publicado por: Miguel Cabo em janeiro 23, 2005 04:30 PM

ZM: como sei que és um gajo inteligente, volto a perguntar, e, por favor, desta vez não me descontextualizes: quem é o Francisco Frazão no BdE?

Quem ele é fora do BdE é, obviamente, despiciendo e não era a isso que me referia.

Publicado por: Monty em janeiro 23, 2005 06:05 PM

Obviamente, não é para responder.

Publicado por: Monty em janeiro 23, 2005 06:06 PM

Vocês já viram isto , isto , isto e isto?

Publicado por: bin_tex em janeiro 23, 2005 07:13 PM

Como leitor deste blog, queria dizer duas coisas:
1) desdramatizar é preciso; todos nós temos apetência pela polémica e isso não é necessariamente mau, mas às vezes a coisa dispara e o melhor é simplesmente continuar a vida normal e deixar a poeira pousar;
2) e referindo-me agora especificamente ao incidente: estes problemas surgem quando se pensa que se atingiu um determinado estatuto que nos dispensa de pensar duas vezes antes de escrever o que quer que seja sobre assuntos sensíveis. Esta espécie de leviandade é a mesma, a outro nível, que faz com vos pareça normal a deselegância de chamar sistematicamente a um adversário político "calhau com gel". Não é isto o ser de esquerda.

Publicado por: pikkolo em janeiro 23, 2005 07:20 PM

Fernando,
"Que os activistas gay se aproveitem dessa geral insegurança, e dessa geral generosidade, e as explorem - é lamentável". Seria lamentável sim. Mas acha que essa generosidade é geral? Acho que devemos viver em mundos muitos distantes.

Publicado por: ZeroAesquerda em janeiro 23, 2005 09:30 PM

Caro J.M.S.,

na altura participei nessa discussão no antigo Renas e Veados, tentando conciliar as duas posições.

Mais tarde aqui, como se sabe, entrei em discussão com o Luís Raínha por uma coisa que se diga que é comum, e ninharia entre blogs, e que a César o que é de César, e que em minha opinião NINGUÉM se deve meter nas opiniões escritas pelos bloggers, excepto quando estas visarem directamente de forma ofensiva, pessoal e directamente outros bloggers ou pessoas, o que não era o caso. Já pedi desculpas.

O vosso blog é uma referência e um de melhores.

JMS, vcê é um dos melhores bloggers da blogosfera.

Têm o dto. de exprimir as vossas opiniões mesmo que depois sejam deturpadas, e nesse caso, o "problema" é de quem o faz!

como costuma dizer uma pessoa que gosto muito, "preocupa-te mais com a tua consciência...", e de certeza que a vossa está de boa saúde, em especial a do LR e a do FM.

Um abraço!

Publicado por: golfinho em janeiro 23, 2005 09:34 PM

Um breve comentário para uma vontade imenso: eu que já tantas vezes me peguei com o Luís não dispenso a sua escrita e a sua atenção. E deste ponto da situação só se pode dizer que é um autêntico "livro de estilo" para os blogues (colectivos e não só).

Publicado por: Marujo em janeiro 23, 2005 09:48 PM

(errata: vontade imensa)

Publicado por: Marujo em janeiro 23, 2005 09:50 PM

O Luis, o Filipe, o ZM, o Palinhos, agora o Peixoto - o BdE, portanto - fazem parte de uma certa geografia sentimental que calcorreio sempre que me ligo à WWW. DEpois deste perspícuo esclarecimento do ZM e do Manuel Deniz oenso que já não há espaço para as acusações ao Luís, algumas com claro vigor jesuítico, que por estes dias têm escrito por aqui. O texto continha passagens infelizes. É verdade. Eu não gostei. Mas quem, de entre os bloggers, nunca escreveu alguma coisa de que se arrependa?

Publicado por: Francisco Curate em janeiro 23, 2005 10:20 PM

ZeroAesquerda,

Sim, tem alguma razão. Sendo a insegurança sexual bastante generalizada, já a generosidade com os oprimidos sexuais o é um tanto menos. Mas eu coloquei-me no plano da «correcção política», e essa - é sabido - fica bem a todos. Assim se entenderá melhor o que tentei dizer.

Publicado por: fernando venâncio em janeiro 23, 2005 10:53 PM

Caros José Mário Silva e Manuel Deniz Silva (e Luís Rainha),

1. Li atentamente o vosso «post» e não pude deixar de pensar que se tratava de um texto politicamente bem engendrado. Se, por um lado, condenam os mais violentos «apressados», os fundamentalistas do «politicamente correcto que se esconde[m] atrás de alguns apressados autos-de-fé», exaltando as qualidades de Luís Rainha («um dos mais brilhantes “bloggers” da blogosfera portuguesa, [...] um corajoso explorador de temas obscuros e incómodos»), por outro, deixam implícita a discordância em relação a um determinado parágrafo de Luís Rainha (implícita, porque não explicam o porquê do desacordo) e a possibilidade, não totalmente descabida, de uma leitura transfóbica dos textos em causa.

2. Entendo que queiram segurar os fiéis «contribuintes» do vosso «blog», nada a opor, de resto. Mas, em teoria, não teriam que o fazer, pois é um absurdo pensar-se que o BdE (ou qualquer outro «blog» colectivo, e arriscar-me-ia mesmo a dizer individual) funciona como uma única cabeça sem contradições e/ou opiniões divergentes.

3. A acusação de transfobia (direi mesmo homofobia, porque a nossa sociedade, até nesse aspecto estupidificada, não distingue transexualidade de homossexualidade, muito menos na hora do insulto) em relação às afirmações de Luís Rainha foi e continua a ser válida no meu entender; mas mais à frente voltarei à carga sobre isto. Por agora queria ressalvar um aspecto: a minha acusação em nada pretendia vincular Luís Rainha ou qualquer outro elemento do «blog» à dita transfobia e/ou homofobia. Todos nós cometemos erros, e nalgum momento podemos ser confrontados com uma contradição entre aquilo que pensamos ser e aquilo que pensamos afirmar. Não conheço nenhum dos membros do «blog» (só pela visibilidade pública de alguns) e muito menos os restantes comentadores que fizeram questão de participar, em que incluo, naturalmente, quem partilhava da minha opinião.

4. Aqui impõe-se outra reflexão: a identidade dos «blogadores» e dos comentadores.
Segundo percebo, a filosofia do BdE (ao contrário de muitos «blogs» de direita) é fazer coincidir, num mesmo espaço «internético», «blogadores» e comentadores que assumem ou não, a sua identidade pública, conferindo aos últimos a possibilidade de exprimirem a sua opinião de forma directa ou indirecta (via «e-mail»). Ora, parece-me uma total contradição a esse espírito aberto e democrático do «blog» (apanágio, aliás, da esquerda «correcta») o seguinte trecho do vosso «post»: «as reacções ao texto do Luís foram de um exagero atroz e por vezes cruel. Mesmo admitindo que a forma como o referido «post» está escrito pode dar azo a todo o tipo de indignações (umas mais legítimas que outras), nada justifica a violência com que o Luís foi atacado.». Vêm, portanto, os mentores deste projecto «bloguístico» explicitar «uma» ética admissível, que em lado nenhum está especificada. Pergunto directamente aos senhores quem foi que fez esse «ataque atroz e por vezes cruel», porque consideram, então, que são um ataque atroz e cruel e quem são as pessoas que têm mais legitimidade para poder ou não indignar-se com as afirmações de Luís Rainha? É que, se é necessário apresentar B.I, cartão de eleitor, cartão de militante e identidade sexual, expressem-no claramente para que o lápis azul de quem se arroga defensor da destruição do sono de «vacas sagradas» e do «não-politicamente-correcto» (quando isso lhes é útil) funcione correctamente. Se é certo que a responsabilidade de quem escreve em nome próprio é significativamente maior (do qual só posso dizer que foi lamentável a exibição pública das tentativas de comunicação com o «amuado» Luís Rainha) do que a de quem escreve sob um pseudónimo, já a utilização desse mesmo argumento para menosprezar os comentários de quem expressa uma opinião contrária é também um «disparate, um abuso e uma injustiça». Mais, a presunção de que quem escreve esporadicamente e sob a forma de pseudónimo o faz de má-fé não pode ser verdadeira: a Internet ainda é um meio restrito de comunicação (portanto, não inteiramente democrático, porque não acessível à maioria da população) e nem todos querem ser figuras públicas (há, imagine, quem não sonhe sê-lo, muito menos, por esta via). Quanto aos meus comentários, porque, que eu saiba, ainda não existem «vírus» que façam ataques nefastos aos «blogadores, posso afirmar que os fiz porque me pareceram correctos, com a linguagem que achava apropriada. Confesso que me excedi uma única vez, em resposta a um «nick» «Jorge», pelo que peço desculpa ao visado, mas a estupidez do seu comentário merecia uma resposta à moda de Francisco Louçã. Não sou um incendiário de direita, encontro-me muito próximo da área política do «blog» e não faço parte de nenhuma tribo de «porta-vozes» (como escrevia Luís Rainha, nas conclusões do seu 4º «post») de qualquer índole, pelo que a minha participação só pode ser encarada como um elogio ao vosso trabalho, até, por muito que me custe afirmar agora, a Luís Rainha.

5. Passando agora à «vaca fria»: a discussão em torno dos «posts» de Luís Rainha. De facto, passado algum tempo as coisas tornam-se mais claras do que quando se está no calor da discussão. Já fiz questão de fazer vários comentários ao conteúdo dos «posts», bem como à forma como Luís Rainha geriu todo este imbróglio.

6. Em nenhuma das análises às «patologias» referidas nos dois primeiros textos da saga «Apanham-se doenças na Internet?», foi sugerida, da parte de Luís Rainha, qualquer ideia moralizante, com leves excepções nas modernas “maluquices” (é assim que primeiramente Rainha se refere ao DSM-IV: “quem é quem” das maluquices, como se quem padecesse de uma doença do foro psiquiátrico fosse necessariamente maluco) como a «demência por HIV», o «síndroma de fadiga crónica» (coitada da maluca da Maria Elisa), ou o «síndroma de Tourette» e dos sinistros eventos que têm ocorrido no Japão e na Coreia, em que a Internet proporciona um meio de excelência para encontros entre potenciais suicidas e marcação de pactos de autodestruição colectiva. Não levantou qualquer celeuma nada do que foi dito, porque devem ser pouquíssimos os visados directamente pelas palavras do autor dos textos e porque o seu interesse, no contexto português, não pode ser visto de outra forma que não zoológica (que eu saiba, claro).

7. Rainha acaba então o segundo «post» da série da seguinte forma: «E hoje, com um manancial inesgotável de taras, comportamentos autodestrutivos e novas modalidades de loucura ao alcance de um click, que inauditas epidemias estão a incubar nos meandros da Web?». Preparava, portanto, a «cama» para o terceiro «post» da saga, não já distanciado dos fenómenos dos quais iria abordar, mas com uma visão claramente moralista das «patologias» que analisaria posteriormente. Eis senão quando sabemos quais são: «barbacking», transexualidade e apotemnofilia.

8. Todo o terceiro «post» é de uma profunda infelicidade, como já fiz questão de referir em comentários anteriores e não só o parágrafo que explicitaram José Mário Silva e Manuel Deniz Silva. Publicamente Luís Rainha já rectificou que «barebacking» é uma prática que não é exclusiva da comunidade homossexual, pelo que por aqui já estamos esclarecidos. Mas eis senão quando o DSM-IV passou de um «“quem é quem” da maluquice» para «uma importante ferramenta para o diagnóstico de doenças mentais em todo o mundo» (como vem rectificado no quarto «post»): sobretudo transexualidade e apotemnofilia são agora doenças e não maluqueiras. Como tal e dada a renovação do «estatuto» do DSM-IV, ambas são doenças (numa determinada fase) e «perturbadores» «distúrbios dismórficos corporais», mais até o caso da apotemnofilia.

8. Quem é qualquer dos intervenientes na «discussão» (incluído Luís Rainha) para discordar ou concordar de ferramentas de tal valia científica, como é o DSM-IV, e de textos de autores vários que aproximam transexualidade de apotemnofilia? Que eu saiba nenhum dos ditos intervenientes é especializado na área científica em causa – a psiquiatria – e nem creio que as ditas ferramentas e os textos de autores avulsos sejam consensuais dentro da referida área científica.

9. Pela forma como descreveu os fenómenos no terceiro «post» bastaria para deles retirar medos e preconceitos face à transexualidade (a que posso chamar de transfobia), à apotemnofilia (apotemnofobia?) e ao «barebacking» («barebackfobia»?) sendo que, em relação a estes últimos, Luís Rainha fez posteriormente ressalvas retóricas: nem sequer tem a «certeza de ser contra a execução de amputações aos apotemnófilos» e que «se está nas tintas, a bem da verdade, para um bando de malucos que quer apanhar HIV, sejam homo ou heterossexuais». Para arrumar com as questões da apotemnofilia e do «barebacking», permitam-me discordar de Luís Rainha novamente. A primeira, porque do alto da minha ignorância e, apesar de poder entender, em abstracto, o cabimento de qualquer desejo humano, não posso concordar de ânimo leve que uma pessoa retire um membro do seu corpo porque isso lhe traz felicidade; é um absurdo, para mim, que vivo no século XXI e um insulto a quem, de facto, por infelicidade do destino, ficou sem algum dos seus membros, para além de constituir uma tentativa forçada de invalidez, com todos os custos sociais que acarreta (se for o Bill Gates, não me importo claro). A segunda, porque as pessoas que entram dentro de círculos de «barebacking» não estão isoladas do resto do mundo, e ajudam à propagação, quiçá propositada e sem o consentimento de outras pessoas que não querem morrer de HIV, de uma das doenças mais mortíferas da actualidade; é portanto, não só uma demência, como um crime com várias dimensões éticas.

10. Em relação à transexualidade Luís Rainha fez igualmente uma ressalva (no quarto «post» também), referindo a importância da palavra «ainda» no contexto do, já mais que citado, parágrafo em que se refere ao fenómeno (no terceiro «post»). De facto, não dá, de todo, para perceber que está contra a categorização proposta pelo DSM-IV. Afunda-se ainda mais quando se refugia, à posteriori e ad nauseum, nesse mesmo «compêndio de doenças» e noutros estudos (que desconhece a valia), para salvaguardar a sua posição, contrariando o que supostamente disse ser o significado da palavra «ainda» naquele contexto. Revela, portanto, uma atitude passiva perante uma coisa da qual desconhece os meandros (a psiquiatria e as suas discussões internas) e conservadora, já que não propõe uma leitura «politicamente correcta» (e do meu ponto de vista «a» correcta), que é afastar a transexualidade da categoria de doença (e de “maluquice”), essa sim uma postura para o século XXI. Mais, a determinada altura impunha-se uma leitura própria (do Luís Rainha) do fenómeno «transgender», o que nunca veio a acontecer. Continuou, ad nauseum, a falar em transexualidade e apotemnofilia como fenómenos com características similares (o que não se pode contraditar, pelas razões já expostas). Creio, pessoalmente, que não têm a mesma importância, nem na nossa nem em nenhuma sociedade do mundo, as implicações duma mudança de género e tirar um membro. E em Portugal é, no mínimo, um insulto à inteligência de qualquer um (não só aos líderes de determinadas «tribos») que ambos possam ser colocados num mesmo patamar.

11. Nenhum dos três primeiros «posts» de Luís Rainha e os comentários que a eles foram dirigidos implicava um ataque (no que toca à minha pessoa e creio que à generalidade dos comentadores) de tal ordem que significasse pretender a saída do autor do BdE. Foi de facto, numa atitude infantil, que o filósofo José Gil há pouco tempo tão bem clarificou, que Luís Rainha propôs a saída do próprio «blog». É que, embora um «blogador» não seja um cargo político, a atitude de Rainha em tudo se assemelhou às saídas de políticos dos respectivos cargos, ao mínimo sinal de bronca. Parecia que não só se queria desresponsabilizar do que escreveu, como colocar em cheque pessoas com quem parecia ter contas a ajustar, nomeadamente com Filipe Moura, provocando um verdadeiro vendaval interno que não se pode conceber senão como assassinato «bloguístico» (em que se viu também implicado um outro «blogador»).

12. O quarto «post» da famigerada série acaba disparando em todas as direcções. Finaliza da seguinte forma: «No entanto, para a tribo de porta-vozes, só os desejos dos transgenders é que são legítimos. Se perguntar porquê, será que alguém me dará uma resposta com pés e cabeça? Duvido. Quem tem preconceitos raramente os consegue expor com algum senso; e achar que é pecado misturar gente que sofre por querer mudar de género com pessoas que sofrem por quererem ter corpos diferentes só pode mesmo ser preconceito. Os “nossos” tem “legítimas” aspirações à felicidade. Os “outros” são obviamente, uns tarados do piorio. E só um espírito pejado de cegueiras medievais é que se lembraria de os “misturar”. Mas preconceito e “intolerante sou eu. Claro. Pois.» Foi, de facto, uma atitude de virgem ofendida (uma «santanice», como referi na altura), enclausurando quem o contraditava em determinados grupos (quais conspiradores malévolos), menorizando a opinião de quem não estava com a sua teoria. Posteriormente vejo que há um coro de gente que o defende por ele não ser politicamente correcto. Mas que raio de valia há nesta manifestação do, suponho, não-politicamente correcto? Há algum conjunto de pessoas na sociedade portuguesa que defenda a apotemnofilia? Não existem inúmeros transexuais portugueses que reivindicam uma dignidade para a sua condição? Só posso entender, aquele último grito do Ipiranga de Luís Rainha como demagogia.

13. Sei que é muito complicado receber publicamente o epíteto de transfóbico e/ou homofóbico, mas talvez agora Luís Rainha, em vez de demagogicamente apregoar aos quatro cantos do mundo o quão avançada é a sua maneira de ser, sinta de facto na pele o que é ser etiquetado de determinada forma preconceituosa: haverá sempre que o olhe de lado e a isso também eu posso catalogar como «luisrainhaofobia». Não acredito que o seja (trans e/ou homofóbico), um pouco criançola talvez, mas isso supera-se também (talvez com umas visitas ao psiquiatra). E quanto a mim, que nunca pus em causa a sua permanência no «blog» senão se uma forma provocatória, para ver até onde era capaz de chegar com a sua atitude, espero que pegue no telemóvel e telefone para os seus amigos (não só os «blogadores-em-chefe») e reconsidere a sua posição, já que todos eles se portaram correctamente consigo, mesmo num tema em que não tinham que se pronunciar nem estar de acordo consigo.

14. Não farei mais comentários a este infeliz episódio, porque «blogar» ou «commnetar» são como pedaços de carne atirados a cães famintos.

Publicado por: hetero_doxo em janeiro 24, 2005 02:41 AM

FF (apontando com o bordão para o nome no cabeçalho do blogue) - Ninguém! (Monty cai prostrado no chão, com os braços estendidos diante da tribuna. O pano desce lentamente.)

Publicado por: Francisco Frazão em janeiro 24, 2005 03:40 AM

diz o heterodoxo acima:
"A acusação de transfobia (direi mesmo homofobia, porque a nossa sociedade, até nesse aspecto estupidificada, não distingue transexualidade de homossexualidade, muito menos na hora do insulto) em relação às afirmações de Luís Rainha foi e continua a ser válida no meu entender; mas mais à frente voltarei à carga sobre isto. Por agora queria ressalvar um aspecto: a minha acusação em nada pretendia vincular Luís Rainha ou qualquer outro elemento do «blog» à dita transfobia e/ou homofobia."
Se bem percebo, a acusação de transfobia (goshhh) e homofobia...( primeiro uma coisa nada teria "forçosamente" a ver com a outra, agora surge correlacionada) justifica-se, mas a "acusação" do heterodoxo não pretendia (afinal?) fazê-la (???). Em resumo...era mas não era. Metafórico?
Estou de acordo que"a nossa sociedade, até nesse aspecto estupidificada, não distingue transexualidade de homossexualidade", e esta é de resto uma observação que se aplica que nem uma luva à tentativa de estabelecer uma conexão entre transexualidade/transfobia e homossexualidade/homofobia feita pelos críticos do Rainha tal como explicitada no comentário do heterodoxo.
Está claro?
Já na ressalva no final da frase "muito menos na hora do insulto", detecto um pouco saudável resquício de discriminação na insinuação de que alguém se sentiria insultado por ser confundido/associado com o outro. A acautelar.
Quanto à questão técnica discutida no resto do comentário, abstenho-me uma vez que se trata de um assunto que me deixa largamente indiferente - o que me colocará automaticamente no campo transfóbico, homófobo por inerência e já agora por extensão (está tudo interligado...) até esquerdófobo (a opinião da generalidade dos homossexuais sobre isto? Por acaso seria interessante sabê-lo ).
Para além da trapalhada de pés que se enfiam pelas mãos (isto na parte não “técnica”, claro), o que é desagradável neste comentário?
o tom paternalista... ou pior, "segurar os fiéis "contribuintes"”, a história da "lamentável a exibição pública das tentativas de comunicação com o «amuado» Luís Rainha", é até um bocado para o insultuoso, mas como diz o heterodoxo, blogar e comentar são pedaços de carne atirados a cães famintos.
Outra concordância: o empolamento a roçar por vezes o melodramático de toda esta questão.

Publicado por: tchernignobyl em janeiro 24, 2005 04:24 AM

mais uma acha:
um valente abraço ao Fernando Venâncio: sabes que descobri outro dia que um amigo meu distribuiu o teu livro "marroquino" ao grupo de motards seus companheiros de raids pelo deserto?

Publicado por: tchernignobyl em janeiro 24, 2005 04:29 AM

Ena pá, FF, tu tens imensa piada. Porra, agora já percebo.

Publicado por: Monty em janeiro 24, 2005 10:58 AM

Doxo: Jorge não é nick, é nome. E a cada posta tua que leio, mais me convenço da verdade dessa minha intervenção. Um tipo que escreve gigantescos textos insultuosos quase a cada linha (este último é-o um pouco menos, mas continua a ser) com base naquilo que imaginou que estava escrito num texto que tresleu não deve de certeza grande coisa à inteligência.

Publicado por: Jorge em janeiro 24, 2005 11:59 AM

Acho que o extenso comentário do hetero_doxo se aplica e resume a posição dos muitos que se indignaram com este assunto (eu incluído, evidentemente).

Publicado por: ZeroAesquerda em janeiro 24, 2005 03:38 PM

Quem é Francisco Frazão? Deve ser alguém porque, da posta anual que cagou, saiu édito, e foi muito difícil fazê-lo explicar melhor o que decretava à plebe.

Publicado por: jm em janeiro 24, 2005 06:35 PM

já é tempo de se acabar com a esta cena do frazão. o francisco frazão para quem não sabe tem assinado excelentes posts aqui no blog e não está no cabeçalho por acaso. agora, a propósito de uma divergência de opiniões já chega de ficar a bater na tecla do "desconhecimento"

Publicado por: tchernignobyl em janeiro 25, 2005 08:31 AM

Em primeiro lugar queria subscrever no essencial o comentário do hetero_doxo...

E para fazer, em meu nome pelo menos, a ressalva que em momento algum pretendi "por o LR na rua".

Mais que não fosse porque não o podia fazer... este blog é que quem o faz e o LR é uma dessas pessoas. E era o que faltava ele deixar de escrever por ter uma opinião diferente da minha ou menos "politicamente correcta".

Agora não estejam à espera que fique calado quando vejo um post discriminatório (que é ligeiramente diferente de uma pesssoa discriminatória). Este foi o ponto de partida de toda esta "aventura".

Agora temos um post discriminatório, meia dúzia de posts e 400 comentários sobre (a favor, contra, etc) o mesmo. Tudo bem... não deveria vir mal ao mundo por isto e deveríamos aprender com a experiência e passar à frente.

Eu pelo menos aprendi que há realmente muita homofobia e transfobia em algumas das pessoas que comentaram estes diversos posts.

Publicado por: João Paulo (PortugalGay.PT) em janeiro 25, 2005 07:11 PM