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janeiro 21, 2005
A PÁFOBIA
Um fantasma de intolerância começa a atravessar as elites portuguesas e esse fantasma é o da páfobia.
Intolerância essa que se manifesta, por exemplo, na entrevista que José Gil deu à Pública:
O português não é um adulto autónomo por si. Uma comunidade de crianças não é o mesmo que uma comunidade de adultos. Nós ainda não chegámos à comunidade de adultos. Há pormenores... o tratamento por "pá", por exemplo...
Esta intolerância, aqui manifesta, mas mais frequente entre os reaccionários, como é normal com todas as intolerâncias, é no entanto totalmente descabida, muitíssimo injusta e deve ser intensamente combatida.
O "pá" (interjeição abreviada de "rapaz", usada independentemente do sexo, diz-nos o dicionário) é o que a língua portuguesa tem de mais belo.
É totalmente assexuada, podendo ser usada para qualquer um dos sexos (e legitimável etimologicamente como provindo de "rapaz" ou de "rapariga"), e por isso obedece aos trâmites da igualdade sexual.
É rápida, prática e económica, podendo ser usada em qualquer situação como muleta de qualquer discurso e criadora de todas as cumplicidades. Prefeririam que nos tratássemos por "excelências", "altezas", "soutôres" e outros resquícios bolorentos da velha senhora?
Transmite informalidade, característica das culturas mais desenvolvidas como a anglo-saxónica e a espanhola, justamente aquelas que mais queremos emular, e aumenta a irmandande entre os seres humanos.
Por fim, numa língua cada vez mais fechada como o Português, a força do "p" e a claridade do "a" aberto são uma verdadeira nesga de sol por entre esta língua cada vez mais cinzenta e triste.
Por isso, se acreditam no "pá", se o querem defender e ver florir em todas as frases, assinem aqui em baixo na caixa de comentários, pás!
MDUP,P! (Movimento de Defesa do Uso do Pá, Pás!)
Publicado por Jorge Palinhos às janeiro 21, 2005 05:19 PM
Comentários
Ó pá, eu cá acho muito bem. O patrono até devia ser o Otelo, pá.
Publicado por: toix em janeiro 21, 2005 04:15 PM
Pá... Não sei pá...
Publicado por: zangalamanga em janeiro 21, 2005 04:41 PM
assinado
Publicado por: bárbara pá em janeiro 21, 2005 04:44 PM
Aprovo totalmente, pá. Só um pequeno reparo: a referida fobia teria de ser "pá-fobia" (ou, não tão bem, "pafobia"). "Páfobia" é que nunca, pá.
Publicado por: Filipe Moura em janeiro 21, 2005 04:54 PM
"numa língua cada vez mais fechada como o Português, a força do "p" e a claridade do "a" aberto são uma verdadeira nesga de sol por entre esta língua cada vez mais cinzenta e triste."
É mesmo isto pá!
Publicado por: bin_tex em janeiro 21, 2005 05:02 PM
de pá em pá até à cavadela final. Isto tem algo de messianismo anti-santanista, pá. Força Pá-linhos!
Publicado por: Pedro Vieira em janeiro 21, 2005 06:01 PM
Quase 100% de acordo. Pá, no entanto, permite-me observar que mal vai o Movimento se logo no começo atropela sem qualquer pejo uma das sacrossantas regras pázicas: o 'pá', além de não ter género, também não tem número. O 'pá' vai de zero a infinito sem necessidade de plural. O 'pá' derruba as barreiras, pulveriza o número: na frase "Vocês estão a ver esta merda, pá?" é o maralhal todo que nos ouve quem aparece designado pela sagrada sílaba, não o interlocutor de momento.
Já "Gosto de ti à brava,pá" dirige-se a uma entidade precisa e - no momento - única, pessoal e intransmissível.
Reparem agora na subtileza, na versatilidade, e até na sublime cacofonia final da frase "Eh pá... ou você atina ou... para dizer a verdade, pá, fartei-me, vou correr contigo e com a tua tropa, pá!" ... que todos supomos proferida em Novembro último por aquele que proponho desde já para Presidente honorário do Movimento.
Publicado por: LP em janeiro 21, 2005 06:04 PM
Ena, pá! Um movimento para defender o pá, pá!...
Olha, pá, não sei. Parece-me que o pá não precisa de quem o defenda. Ele próprio se encarrega de arregimentar seguidores. É das palavras mais úteis da língua portuguesa (variante europeia, que os brasileiros desdenham o pá), por mérito próprio.
Portanto, pá, parece-me gesto pouco útil.
Publicado por: Jorge em janeiro 21, 2005 06:04 PM
Talvez fosse conveniente, transcrever o todo da entrevista em que José Gil fala da questão do «pá»:
P. - É um medo da responsabilidade, um medo infantil?
R. - Sim, a nossa sociedade tem algo de infantil, mas sem a vivacidade das crianças. É a outro nível que temos de ter vida. O português não é um adulto autónomo por si. Uma comunidade de crianças não é o mesmo que uma comunidade de adultos. Nós ainda não chegámos à comunidade de adultos. Há pormenores... o tratamento por "pá", por exemplo...
P. - Traduz uma grande familiaridade, ou é outra coisa?
R. - É o reconhecimento de que o homem é nu, para usar uma terminologia de Hanna Arendt.
P. - Serve para colocar o outro ao mesmo nível, como que a dizer-lhe: a mim não me enganas?
R. - Sim, e somos iguais. Vou contar-lhe uma cena que me espantou: quando o Jorge Sampaio era presidente da câmara, apareceu na televisão a passear pelo Casal Ventoso com uma série de delegados de Bruxelas. Quando foi abordado por um drogado, disse-lhe: "É pá, afasta-te, que estou aqui a ver se sacamos algum dinheiro a estes tipos." Isto é extraordinário.
P. - Não resistiu a estabelecer uma cumplicidade com o drogado.
R. - Sim, como se ele fosse da mesma...
P. - Laia.
R. - Exactamente, laia. Nós, que somos iguais, inferiores, estamos a ver se sacamos... O Sampaio é muito expressivo de certas coisas portuguesas.
P. é Paulo Moura, jornalista conhecido pela sua grande capacidade em ser parcial e grande adepto de George Bush, (actualíssimo também no que toca à sua linguagem, repare-se na utilização de “drogado”) como de resto o seu chefe José Manuel Fernandes que hoje no Editorial do Público faz o elogio à personagem.
É hilariante que possa ser aferido a partir daqui que José Gil esteja contra a utilização da palavra «pá»; que eu saiba o filósofo em questão utilizou-a num contexto específico, em que a palavra foi utilizada para descrever um aspecto da nossa cultura: o «nacional-porreirismo» (que afecta inclusivamente o mais alto magistrado da nação).
Quanto a mim, este «post» é um ataque cerrado (e seguidista do Barnabé) a uma personalidade, desprovido de um real sentido crítico (há pouco, neste «blog», alguém ameaçou sair por este mesmo motivo); por muito que se louve a palavra «pá», ela, neste momento, simboliza mais um atraso cultural que outra coisa qualquer.
Publicado por: hetero_doxo em janeiro 21, 2005 06:15 PM
Jorge, este teu poste, escrito num registo de nacional-porreirismo (nada contra, é estilo do meio), consegue a dupla proeza de trazer à liça uma das mais importantes reflexões, de sempre, sobre o "mal português", ao mesmo tempo que a ignora por completo. Vais-me desculpar que não entre na brincadeira e ilumine antes o que me importa.
Ainda não li o livro do José Gil, mas bastou-me a recensão que a entrevista configura. Talvez aqui a malta do "pá" (padeiros?...), por razões tão legítimas e evidentes que nem merecem ser evocadas, desconheça o que tem andado o José Gil a fazer com os seus neurónios. Talvez ainda desconheçam melhor as relações entre o seu pensamento e o Fernando Pessoa do "Livro do Desassossego", este com as "Parva Naturalia" de Aristóteles (tudo matérias, desiludam-se, que não se servem à mesa do Google) . Provável e provavelmente, por aqui os bacanos aPÁticos não têm preparação, tempo, pachorra para se aventurarem nesses caminhos florestais. Portanto, falemos do aparentemente fácil, a inveja.
A inveja sente-se todos os dias. É insidiosa. É letal. A sua tragédia está em atingir com maior poder destrutivo precisamente aqueles que têm maior poder criador. E como ela começa o mais cedo possível, quase todos nós a tomamos como a ordem natural das coisas. O resultado é um país onde nada acontece, tudo se lamenta.
Mas não vos maço mais, podeis continuar brincando com as pás e a areia.
Publicado por: Valupi em janeiro 21, 2005 06:38 PM
Bem visto pá!
Publicado por: domingos em janeiro 21, 2005 07:23 PM
Tem calma, Valupi. O Jorge está apenas a espairecer e a aligeirar a atmosfera pesada que por aqui tem pairado. Não lhe dês assim com a picareta, pá. O rapaz não merece.
Publicado por: José Mário Silva em janeiro 21, 2005 07:32 PM
Sem drama, Zé. Eu também estou solidário com vocês todos e à espera do fumo branco. E precisamente por isso achei uma lufada de ar fresco o texto do Jorge, para além de considerar absolutamente legítima a brincadeira (e a opinião). De resto, tenho é a agradecer ao Jorge a oportunidade de ter trazido o assunto para discussão.
No entretanto, o que o José Gil tem para nos dizer a todos é mesmo importante, decisivo. Encara o meu tom como um contributo para a normalidade destes viris ambientes. E daqui mando um abraço ao Jorge Palinhos, caso esteja a precisar de um.
Publicado por: Valupi em janeiro 21, 2005 07:45 PM
Eh pá, por aqui todos estamos de acordo! Nada como um forte pá nas amenas cavaqueiras. Aqui por Almada é pá por todo o lado. Em pá zemo-nos pois então!
Publicado por: Yochanan Hayash D'Affonseca em janeiro 21, 2005 08:53 PM
Alguma da melhor filosofia é uma decepção. Não explica o Universo, nem a exacta concertação das quatro (ou serão cinco?) forças. Mas ilumina-nos o mundo, conferindo sentido ao trivial. Essa filosofia é indistinguível de uma inspirada conversa de café, embora muito mais bem paga.
Duvido que - afora o bom pagamento - seja o caso do «pá» de José Gil. Creio mesmo que o «pá» é uma das poucas mostras de descontracção na nossa habitual convivência, reconhecidamente macambúzia, metida consigo.
Que José Gil procure melhor, e há-de encontrar alguns verdadeiros, porque deprimentes, pontos de interesse. Ele viu bem, não somos o melhor exemplo de uma comunidade de adultos. Mas o «pá» é, não se duvide, algo do melhor que temos.
Publicado por: fernando venâncio em janeiro 21, 2005 09:15 PM
Apoiadíssimo, pázinhos!
Publicado por: Pedro em janeiro 21, 2005 10:39 PM
E com esta do pázinhos acabei por criar a jota do movimento.
Publicado por: Pedro em janeiro 21, 2005 10:42 PM
A futilidade e infantilidade portuguesa fica-vos muito bem. É altura de lerem mesmo José Gil, pázitos...
A vossa pusinamidade para com o Luis Rainha enoja e está à altura da vossa tagarelice inconsequente.
Publicado por: A. em janeiro 21, 2005 10:51 PM
O que é "pusinamidade", A.?
Publicado por: José Mário Silva em janeiro 21, 2005 11:09 PM
pá, um grande divulgador do pá é o Anarca ConstiPAdo.
é mesmo um gajo "pusinamico" pá!
:-)
Publicado por: Animal em janeiro 21, 2005 11:34 PM
Portugal é uma nação de líricos, não de filósofos. Sobra-nos em sensibilidade o que nos falta em rigor analítico. Por isso a comunicação sai-nos mais fácil pelos lodosos canais emocionais, onde medo e desejo são leito e corrente.
Isto é uma conversa de café, para citar o Fernando, mas é dos estímulos, da excitação, das conversas de café que temos falta. Temos falta de mestres, de exemplos, de histórias, desafios. Temos falta de coragem. Por isso me impressionou a lucidez do José Gil – temos medo de existir.
O interesse da questão não está no transporte de descontracção que o "pá" permite. Seria absurdo ver na reflexão do Gil um anátema vocabular. Pode-se brincar, como o Jorge Palinhos fez; já não se pode ignorar. Embora estejamos a ler uma entrevista, uma elaboração espontânea do locutor, ele de imediato dá a chave da contextualização: "[...] há uma promiscuidade social que se deve à falta de autonomia individual."
É disto que se fala, meus senhores. Falta de autonomia individual. E a honestidade intelectual do José Gil vai ao ponto de reconhecer que não faz ideia de quando, ou porquê, começou. Porém, como estrangeirado, como filósofo, como esteta, está a expressar um pensamento que ilumina a experiência quotidiana de todo um país. Dizê-lo, ajuda a reconhecê-lo. Reconhecê-lo, ajuda a solucioná-lo. Porque pede solução.
Desde os anos 80 que se procura uma textura, um tecido verbal, do ser português, do ser-se português, de Portugal. O tema da nação diminuída e desmoralizada, canto esquecido de incapazes e bisonhos, faz as delícias dos publicistas que têm de preencher colunas de opinião. Não se trata apenas da pulsão psicológica e social de inferiorizar para obter superioridade, é ainda outra a causa. Trata-se de uma ausência de espírito, essa realidade que sustém a matéria.
O espírito português é o resultado da existência de uma comunidade unida por uma identidade. Esse espírito está antes e depois de todas as divisões internas, se somos de direita ou de esquerda, se vendemos farturas ou investigamos moléculas, se preferimos Saramago ou Agustina. E esse espírito sofreu um golpe de morte com o salazarismo, peçonha que persiste e com a qual ainda não fizemos o ajuste de contas.
É isso. Não ter medo de existir. Ressuscitar Portugal.
Publicado por: Valupi em janeiro 22, 2005 12:21 AM
Eu cá, gosto do "pá". O "pá" é portuga e abrilado. Traz cheiro a cabelos grandes e patilhas. Os "pás" são nossos papás, de barrigas grandes, e com sede de paz. Eu, se tivesse pai, chamava-o pá, e dizia-lhe: Pá, posso tratar-te por pai?
Publicado por: jose vieira em janeiro 22, 2005 12:47 AM
eh pá vocês lembram-se de cada uma...mas pronto pá
Publicado por: vitor em janeiro 22, 2005 03:54 AM
Ó pá, ainda me lembro de um estrangeiro dar uma entrevista a uma revista qualquer em que ele dizia que tinha ido para Lisboa por altura do 25 de Abril para escrever sobre o assunto e andou um ano a tentar perceber o que ou quem era o "pá".
Pá, eu cá sou dos que o pá não só deve ser defendido como promovido. Sabendo que não o uso em situações formais, apenas quando tenho à vontade com a pessoa com quem falo, não vejo mal nenhum no tratamento.
É pá, é assim, tás a ver pá, uma transmissão de familiaridade pá.
Publicado por: João André em janeiro 22, 2005 11:26 AM
Falta de autonomia individual, pá?
Fala por ti, pá.
Eu cá, já vou à casa de banho sozinho, pá.
E defenderei o pá até que a voz me doa, pá.
Publicado por: Curioso em janeiro 22, 2005 06:43 PM
Totalmente de acordo com o post. Força nisso´, pá!
Acresce que o "pá" é totalmente inter-classista: não faz distinção entre classes sociais.
Publicado por: João Pedro em janeiro 23, 2005 05:45 PM
ó pá, ó não sei quantas, pá, a pálavra não seria pusilânime, pá?
Publicado por: edite estrela (de bolso) em janeiro 24, 2005 11:52 AM
Ainda pessoas que se zangam com coisas destas! Ide-vos pusinamicar!
Publicado por: zangalamanga em janeiro 24, 2005 03:36 PM