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janeiro 18, 2005

O CONHECIMENTO E A ARTE

Volto brevemente aos meus textos (aqui e aqui) sobre a entrevista de Edgar Pêra ao DNa. Este novo texto é motivado em parte pelos comentários do ZeroAesquerda e do João André, que aproveito para agradecer.
Sendo eu um firme defensor da democratização do conhecimento e da cultura, fiz um reparo sobre o "conhecimento só partilhável por especialistas", uma ideia que sempre me pareceu elitista. É claro que tecnicamente tal será verdade, mas tem sempre de haver maneira de exprimir esse conhecimento (as ideias principais) de maneira a um leigo interessado poder entendê-las. Cientistas, investigadores, professores e artistas devem ter essa preocupação, até por uma questão básica de consideração para quem lhes paga - cientistas e artistas usam frequentemente apoios e subsídios. (E aqui afirmo que são principalmente os cientistas a ter esta preocupação. Nos artistas e nas "elites culturais", em geral nem vê-la. Daí estes meus textos.)
E todo o meu reparo, neste texto, tem mesmo a ver com isso: Edgar Pêra, ou qualquer outro nas mesmas circunstâncias, TEM de ser capaz de exprimir o resultado dessa sua pesquisa numa forma acessível para todos, e não somente com os seus filmes, muitas vezes demasiadamente específicos. Os cineastas (e os críticos de cinema) não podem estar à espera que o público, mesmo interessado, compreenda a "linguagem cinematográfica". Seria o mesmo que eu esperar que um leigo compreendesse as fórmulas dos artigos de física teórica. Eu sei que um leigo nem os conceitos compreenderá, pelo que sempre que falo de ciência tenho o cuidado de os explicar todos, ou remeter para sítios onde sejam explicados. Faz-me lembrar o meu professor de Filosofia, que se queixava de que putos com quinze anos da área de ciências não tinham "linguagem filosófica".
Resumindo: quando falava num "relatório de pesquisa" falava em ser-se capaz de transmitir o conhecimento resultante da elaboração de uma obra. Se é de conhecimento que se trata, não é indispensável experimentar a obra para o obter.
A grande questão que se põe aqui é: será a arte uma forma de conhecimento? Eu creio que não ou, pelo menos, que são duas coisas diferentes (e não há absolutamente nada de depreciativo neste meu julgamento); trabalhando eu directamente com um ramo do conhecimento, uma das razões por que procuro a arte (em geral) é justamente para fugir um pouco dele... Justamente por isso, impressiona-me falar-se em "pesquisa" no acto de executar uma obra de arte.

N.B.: Tal não implica evidentemente que não possa haver conhecimento da arte, não só técnico mas também histórico. Tal como também não implica que não haja educação pela arte - a educação não é só transmitir conhecimentos. Não creio, porém, que por exemplo um historiador da arte seja considerado um artista. O Manuel Deniz anda muito ocupado por estes dias mas, quando tiver mais tempo, espero eu, dar-nos-á a sua opinião sobre estes assuntos.

Publicado por Filipe Moura às janeiro 18, 2005 11:51 PM

Comentários

A democratização da arte, a sua aparente acessibilidade ao "leigo" é um dos maiores equívocos históricos da esquerda: a incapacidade de entender a fronteira entre o individual e o colectivo e, principalmente, de definir as categorias da inteligência e da consciência. Aliás, a tendência científica da esquerda, não coloca estes problemas (curiosamente) relativamente à engenharia, medicina, etc. A arte, no entanto, é um fenómeno mal entendido (históricamente) pela esquerda. Responder-lhe-ei oportunamente, de forma mais explícita, no Antes de Tempo. Saudações.

Publicado por: pr em janeiro 19, 2005 01:20 AM

A minha opinião é outra, como já deves ter percebido. É claro que a arte é uma forma de conhecimento. A arte explora precisamente os espaços deixados em branco pela ciência, para explicar o mundo, o homem, etc. É conhecimento que se busca. Busca-se de outra maneira. A pesquisa e experimentação é feita de uma maneira não científica, claro. Tu fazes bem em intervalar estes diferentes discursos de busca de conhecimento. Eu acho saudável.

Publicado por: ZeroAesquerda em janeiro 19, 2005 03:09 AM

Ainda: Há artistas que são bastante claros e objectivos com aquilo que querem dizer ou fazer e outros que são mais encriptados. É como nas Ciências exactas. Acho que esta diferença tem mais a ver com o caracter de cada um do que com qualquer outra coisa. Voltando ao cinema: o Fernando Lopes tem um discurso claríssimo quando fala de cinema, dos seus filmes ou de outros. Mesmo o Godard, que tem filmes que exigem bastante do espectador, fez aquela série (bastante didática, diria eu) sobre história do cinema...

Publicado por: ZeroAesquerda em janeiro 19, 2005 03:20 AM

Filipe, estás a tropeçar na semântica. Pode-se usar os termos "conhecimento" e "pesquisa" no contexto científico (onde há um método e critérios de validação objectivos), na arte (onde há uma criação e critérios de valorização subjectivos) e no quotidiano (como nos exemplos "tomei conhecimento do seu telefonema, vou pesquisar na Internet", onde há o mero reconhecimento linguístico e critérios de significação do senso comum).

Porém, a tua reflexão levou-me para um tema literalmente fascinante, mesmo que não seja nenhuma novidade. É a questão da dimensão objectiva no labor artístico, onde a técnica é A FONTE do conhecimento (ou, se preferires, da expressão), e, a questão da dimensão subjectiva no labor científico, onde a "intuição artística" é instrumental na síntese e verdadeira criação de entidades matriciais (ou seja, de conhecimento teórico).

Repara que estamos sempre condenados à metáfora da época sobre o que seja a inteligência humana. Mas agora que já tanto sabemos, é fácil dar razão ao Sócrates [o que era casado com uma parteira]: sabemos que não sabemos. Apesar de tudo, sabemos hoje melhor que não sabemos o que seja o intelecto, o sentído último dos seus modos e a relação epistemológica com a realidade.

Enfim, continuamos na dúvida (e cada vez mais graças, precisamente, ao desenvolvimento da física especulativa) – "tabula rasa" ou anamnese? o real é descoberto ou inventado?

Publicado por: Valupi em janeiro 19, 2005 03:58 AM

A democratização da Arte é uma bela ideia, mas exige grandes melhorias em todo o sistema educativo. Não é possível mostrar a Arte dá-la a compreender a "leigos" que nunca tiveram qualquer contacto. Se uma criança ouve boa música desde pequena, normalmente procura-a em adulto, e o mesmo sucede com os livros, os filmes, o teatro...

Felizmente há muitas famílias que se encarregam desta educação, mas nem todas têm essa possibilidade, por não terem uma educaçnao prévia neste sentido.


Quanto à questão Arte e Conhecimento, acho que os dois estnao muito ligados, pelo menos. Um pintor tem que saber como funciona a visão, em relaçnao ao espaço, às côres, às dimensões, à luz... Um músico tem que saber como ouvimos...

A Arte tem um papel interventivo na sociedade, de esclarecimento, ensinamento, crítica, etc. Quando se trata de um mero passatempo, julgo eu, é entretenimento e não Arte. Nesse sentido, a Arte exige um conhecimento da sociedade, dos seus problemas, ou da história, ou das gentes, e de como transmitir a mensagem desejada e com o objectivo desejado... Um artista faz a sua pesquisa técnica, mas também a pesquisa do que já foi feito na sua Arte.

Quanto a mim é uma outra forma de transmitir conhecimento, complementar à ciência.

Estou a olhar para uma reprodução do "Guernica". Já estudei a Guerra Civil espanhola, já li sobre o assunto. Os livros de História podem trazer-me o conhecimento da localizaçnao temporal e espacial precisa, da sucessão de acontecimentos, das razões e contextualizações várias que a causaram e que dela resultaram. Mas nenhum me projecta para o meio de um bombardeamento, nenhum me faz sentir como se lá tivesse estado, nenhum livro de História me diz como se sentiram aquelas pessoas, como viveram aquele momento. O Picasso sim, e isso é uma outra forma de conhecimento.

Publicado por: Helena Romão em janeiro 19, 2005 04:16 AM

se a arte não trouxesse conhecimento era pastilha elástica

prazer estético e conhecimento não são conceitos opostos

ler terry eagleton, the ideology of the aesthetic...

Publicado por: Joca em janeiro 19, 2005 04:34 AM

Se me perguntassem para definir arte, com todas as complicações resultantes de a embrulharem aos conceitos de conhecimento e educação, e tivessem a paciência para esperar cinco ou dez minutos por uma resposta, era capaz de me sair com esta: arte é propaganda, vaidade, queixume, alegria ou birra ou uma maneira de ganhar a vida umas vezes mal e outras vezes bem - especialmente depois de morrer. Mas como não percebo nada disto, passo a palavra a alguém com mais cabedal esclarecedor: “Todos sabemos que a Arte não é verdade. Arte é uma mentira que nos faz compreender a verdade, pelo menos a verdade que nos oferecem para compreender. O artista tem de saber como convencer os outros da verdade que existe nas suas mentiras”. Picasso disse isto. E quem sou eu, pateta das luminárias, para duvidar das palavras sentenciosas desse grande artista.

Publicado por: Germano Filipe em janeiro 19, 2005 11:26 AM

Como desmascarar uma fraude artística?
(Não me refiro a falsificações mas sim a obras feitas à toa por pessoas sem qualquer veia artística que se refugiam em ambiguidades verbais e na alegada falta de sensibilidade dos outros para justificar a índole da obra e a incompreensão de quem a contempla.)

Publicado por: Nuno Morais em janeiro 19, 2005 11:36 AM

"trabalhando eu directamente com um ramo do conhecimento, uma das razões por que procuro a arte (em geral) é justamente para fugir um pouco dele..." Filipinho, estas bem da cabecinha?! Eu pensei que tu curtias a Fisica! Andas a fugir da Fisica?! So procuras a arte para fugir da Fisica?! A arte e uma coisa que supostamente nos da gozo, e nao: "nao me apetecia lavar a louca e fui ali a uma galeria"
Quanto ao cinema experimentalista: claro que os nossos realizadores sao muito fraquinhos, nao tem sucesso, e entao, tentam armar-se aos cagados, dizendo coisas do tipo, que fazem cinema experimental, quantico e outras. As vezes, para desculpar os insucessos e frustracoes. Para perceberes que no cinema ha experimentalismo, ve um filme de 1920 e outro de 2005. Houve montes de mudancas tecnicas, de angulos, tecnicas dos actores, etc.
Quanto a arte nao ser conhecimento: Sabes ler uma pauta de musica? Sabes onde e que e o Do? Sabes tocar guitarra? Sabes como fazer as centenas de acordes que se podem fazer numa guitarra? Parece-me que isto e conhecimento.
Se nao houvesse conhecimento, informacao, na arte, porque e que precisas de 700 megabites para gravar um cd? Nao e com os bites, que voces os fisicos, definem informacao?
Claro que a melhor parte da arte, e quando um gajo com o conhecimento todo, como o B.B.King, consegue emocinar-nos, sem nos termos que ter conhecimento nenhum de acordes, afinacoes, etc.
Nao te zangues com essses aldraboes que andam por ai. Todos filmes sao quanticos, sem fotoes, como havia cinema? Sem mesoes, pioes, quarks, bosoes, e outros oes, como havia pelicula? Deixa la os aldraboes engatarem umas chavalas a custa dos seus filmes quanticos. Nao te zangues, afinal, ninguem te paga para escrever aqui! Tu andas a baldar-te a Fisica, vou chegar ao fim de 2005 sem saber o que e uma matrix hermitica. Ja estamos no fim de Janeiro, eu quero ver quando comecas!

Publicado por: luis em janeiro 19, 2005 12:07 PM

O CÉU VAI-NOS CAIR NA CABEÇA ?

O atentado foi no dia 11; a 11 do mês 9, o que somado dá 11 (1+1+9); as torres vistas de longe lembravam um 11; Nova Iorque é o 11º Estado dos EUA; as torres tinham 110 pisos (1+1+0); o primeiro dos voos que se despenhou era o nº 11; o voo nº11 levava 92 pessoas, o que soma 11; o voo 77 (múltiplo de 11)que também se despenhou, levava 65 pessoas, o que soma 11; o número de emergência dos EUA é o 911, que coincide com a data (nos EUA escreve-se primeiro o mês) e também soma 11; o 11 de Setembro é o dia 254 do ano, que soma 11, e 254 foi também o número das vítimas dos dois voos; a partir de 11 de Setembro contam-se 111 dias para terminar o ano; Nostradamus (11 letras) profetizou o ataque a Nova Iorque na centúria XI(de que existem apenas fragmentos); New York City tem 11 letras; The Pentagon tem 11 letras; Ramsin Yuseb, o terrorista que atacou o WTC em 1993, tem 11 letras; George W. Bush tem 11 letras; 4 de Julho (4/7), dia da independência dos EUA, soma 11.

Há mais!

Publicado por: Brigada Balatuca em janeiro 19, 2005 01:35 PM

O artista não tem de ser pedagógico, essa é a função do critico. O artista (bom ou mau) faz o que tem que fazer, criar e por isso será "julgado".

Os cientistas têm outras responsabilidades, já que as duas pesquisas fazem geralmente parte de algum projecto com interesses comerciais/humanos, pelo que a relevância do que fazem é mais fácilmente verificável.

Publicado por: Mário em janeiro 19, 2005 03:09 PM

Só para dizer mais uma coisa: algumas pessoas que comentaram este post acharam que o cinema Português era muito fraquinho e que, neste caso, nem chegava a haver pesquisa. A minha opinião é diametralmente oposta. Eu acho que o problema com o Cinema Português é que é um cinema demasiado teórico. Muito carregado de reflexão prévia e pesquisa. Por isso não chega ao público geral. O Cinema Português é, sobretudo, um cinema de autor e isso dita em parte o seu autismo.

Publicado por: ZeroAesquerda em janeiro 19, 2005 04:31 PM

Este, e para o zeroaesquerda. Eu nunca vou ao cinema ver um filme portugues, porque ja sei o que me espera: desperdicar tempo e dinheiro. Vejo (tento ver...) depois na tv, para tirar a duvida. Nos, nem um Rambo conseguimos fazer! Somos mesmo maus! Aquelas comedias dos anos 50, ainda tinham piada, desde que comecamos a fazer pesquisas e, a carregar muito nas reflexoes previas: acabou-se. Ja agora, aconselha-me la um dos tais filmes de autor pesquisante.

Publicado por: luis em janeiro 19, 2005 05:32 PM

Mário, gostei de saber que o artista tem de criar e só por isso será julgado. Acho que vou passar a dizer que sou artista.
E à pergunta do Nuno, ninguém responde?

Publicado por: Filipe Moura em janeiro 19, 2005 06:14 PM

Começo por transmitir uma ideia diferente da do Filipe. Ainda que não ache que a Arte é conhecimento, entendo que a Arte é uma ferramenta do conhecimento. Da mesma forma que as ciências o são. A intenção de qualquer ciência é descraver uma determinada parte da Natureza - se forem ciências humanas trata-se da Natureza Humana, obviamente. A função da Arte entra pelo mesmo caminho.

Se eu vir uma paisagem, posso guardá-la na minha mente. Vê-la-ei tal como é, ou não? Bom, se a decidir ver com mais luz vê-la-ei de uma forma, com menos de outra. Se me der ao trabalho de aplicar filtros poderei vê-la ainda de outra forma. O mesmo se pode dizer do pintor que decide pintá-la num estilo impressionista: basicamente está a decompor a imagem em pedaços dominantes, está, digamos, a "discretizar" a paisagem. Uma coisa semenlhante é feita pelos programas de computador para "ziparem" um ficheiro.

O mesmo se pode dizer da música. Actualmente recomeça o hábito de integrar os sons do quotidiano numa música. Será que isso não descreve simultâneamente a música e o quotidiano? Será que na música de abertura do albúm "Bodily Functions" de Herbert, chamada "You're unknown to me", com o som do riso de um bebé, no caso o filho do músico, não se está a descrever um sentimento. E a descrição de um sentimento não será um dos objectivos das ciências? E ao invés de uma linguagem algo criptográfica, o riso desse bebé é compreendido por qualquer pessoa.

A questão não é se a Arte é uma forma de conhecimento ou não. Acho que é, o problema está noutro lado: ainda não se criaram convenções suficientes para tornar a Arte domada a ponto de ser considerada ciência. Há matemáticos que acham que a matemática é uma arte, o mesmo dizem alguns colegas meus que são químicos (e eu concordo). Não eram os alquimistas também artistas, em certa medida? O que é que aconteceria se cada corrente matemática decidisse fazer os seus cálculos com uma base diferente? Se nós quiséssemos a matemática na base 10, os espanhóis na base natural, os franceses na base dois (binária) e os americanos numa base pi? A matemática assemelhar-se-ia a uma arte, na qual cada um escolheria a corrente que preferisse.

O facto de eu não perceber muita da arte não significa que ela não transmita conhecimento. Além disso Filipe, nos teus argumentos sobre o Pêra, pareces ter cometido uma pequena contradição. Disseste que o resultado da pesquisa dele deveria ser colocado para que toda a gente a compreenda. O mesmo poderia ser dito dos resultados da tua pesquisa (ou da minha, já agora). Quando publicamos, apenas pessoas que tenham estudado a área a vã compreender. E mesmo assim temos de explicar muita coisa a muita gente. O mesmo poderia alegar o Edgar Pêra: "Se querem compreender o meu filme, que apresenta o resultado da minha pesquisa, aprendam mais sobre cinema".

Arte e Ciência são o mesmo pau, o tal que tem dois bicos.

Publicado por: João André em janeiro 19, 2005 06:23 PM

Helena, não estou de acordo consigo...
E leia bem o meu texto, quando falo de conhecimentos técnicos. Acústica, óptica, os artistas têm de saber, mas não são arte.

Luisinho, uma matriz hermítica satisfaz A_{ij}=(A_{ji})^*. Devido a esta propriedade, tem valores próprios (que são as observáveis físicas) que são números reais, como têm de ser. Tem paciência, pá. Mas obrigado pelo teu interesse.

Publicado por: Filipe Moura em janeiro 19, 2005 06:25 PM

"Como desmascarar uma fraude artística?"

Vou arriscar uma resposta...

A fraude artística não acontece só no caso que o Nuno Morais referiu. Pode assumir muitas outras vertentes.
Desmascará-la é muito difícil, muitas vezes impossível. Os colegas de profissão que conhecem melhor as técnicas usadas e a contextualização daquela forma de Arte poderão ser os primeiros a perceber. Obviamente, se disserem alguma coisa serão acusados de inveja pelo sucesso do outro, mau companheirismo, traição à classe e outras coisas mais... E como saber se o colega que critica tem razão ou está´mesmo só com inveja do outro? Como saber que razões têm ambos e qual deles está a ser honesto?

A maior parte das vezes, o que acontece é que a triagem do bom e do mau vem depois, quando é possível uma avaliação independente. Ou seja, quantos pintores do séc. XVIII são hoje conhecidos? E quantos pintores existiam na altura? Muitos mais do que os que são conhecidos, concerteza. Só que em relação ao séc. XVIII a triagem está feita, o que é mau foi escondido e o espaço nos museus é ocupado por obras relevantes. A triagem do séc. XX talvez se comece a fazer daqui a 50 ou 100 anos...

A história da Arte sempre foi assim. Muitos dos melhores compositores de todos os tempos morreram na miséria, sem reconhecimento.

Entretanto, vamos fazendo as nossas opiniões pessoais, segundo o nosso gosto pessoal. Avaliamos a honestidade das pessoas pelo que conhecemos delas, como em todas as profissões. Quando entramos numa fábrica não sabemos se o empresário sorridente é honesto ou se arranja subterfúgios para fugir ao fisco ou usa a fábrica para lavagem de dinheiros, por exemplo. Confiamos no nosso instinto, no que nos parece...

Normalmente não se consegue ser desonesto eternamente, há sempre algo que nos chama a atençnao, alguma coisa que não bate certo. Se estivermos atentos, acabamos por perceber ou pelo menos desconfiar.

Publicado por: Helena Romão em janeiro 19, 2005 06:51 PM

Sim, Filipe Moura, isso eu sei. A Acústica é uma ciência. Mas no fim do meu comentário dou outro exemplo em que a Arte me trouxe mais conhecimento do que todas as análises científicas que li.

A Arte, porque mexe com sentimentos e emoções, pode trazer-nos conhecimentos que não são possíveis de adquirir através da ciência, mais fria. É o conhecimento do não mesurável, do ñao palpável, daquilo que todos sentimos e ninguém consegue explicar. Não é o mesmo conhecimento que a ciência nos pode transmitir, mas é conhecimento.

Publicado por: Helena Romão em janeiro 19, 2005 06:58 PM

Filipe,
Este era um tema que me apetecia discutir. Lembro-me de algumas intervenções do Manuel Gusmão sobre este problema da arte e do conhecimento, cuja separação viria do Kant e das suas três "Críticas". Apetecia-me também folhar os "Modos de Fazer Mundos" do Nelson Goodman.
Mas ao ver o Luis reincidir ali em baixo em afirmações homofóbicas (depois de as ter feito em http://bde.weblog.com.pt/arquivo/025063.html e nos comentários ao post do Jorge que está em http://bde.weblog.com.pt/arquivo/035530.html#comments) perco toda a vontade. Ainda para mais quando todos os outros colaboradores do blogue continuam alegremente como se nada fosse (da outra vez ainda fizeram umas graças ou falaram - falaste - da união da esquerda). Resultado? O BdE transforma-se num espaço de acolhimento do preconceito mais rasteiro (é ver alguns comentários ao post do Luis). Não sei o que é que o meu nome está a fazer no cabeçalho.

Publicado por: Francisco Frazão em janeiro 19, 2005 07:16 PM

Luís,
Dou-te um exemplo de um filme que eu não gostei, precisamente por ter esse peso excessivo de reflexão teórica, e depois um conselho. O filme que eu não gostei foi A Carta do Manoel de Oliveira. No entanto, já publiquei um artigo sobre ele, porque esse filme questiona verdadeiramente as adaptações fílmicas de livros. O filme é um extremo, entendes? Sendo um extremo, torna evidente uma série de coisas. uma adaptação fílmica põe em confronto o contexto de dois autores separados no tempo e o texto, reescrito, é re-historicizado . Uma adaptação fílmica é uma forma de reescrita, onde um autor, em aparente co-autoria transtemporal, enfrenta um outro autor e (con)funde-o no seu próprio discurso. Duas vozes acabam por falar num mesmo registo, porque a língua é bífida. A Carta mantém visível o tempo e contexto dos dois autores em diálogo (Manoel de Oliveira, Séc XX; Madame de Lafayette, séc. XVII). O tempo é esfumado e o filme arrisca a sua verosimilhança para manter na narrativa elementos anacrónicos (fora de tempo). Ou seja: o filme é uma teoria sobre a adaptação de livros para cinema. É terrivelmente pesado, mas levanta questões muito interessantes sobre o género. E nada é fortuito, estou mais do que convencido.
Agora o conselho: apesar de haver este peso de reflexão teórica a pairar sobre o cinema Português e que pode pôr em risco a harmonia do todo (é o que acontece com A Carta), há filmes muito bons e portugueses. Experimenta ir ver o Noite Escura do Canijo. Ou o Milagre segundo Salomé, só para falar nos mais recentes. Depois voltamos a falar, ok?

Publicado por: ZeroAesquerda em janeiro 19, 2005 07:55 PM

É verdade, Francisco. Pois é uma vergonha. Eu acho que era importante que os outros colaboradores do bloque dissessem claramente o que pensam sobre este assunto. E que não ficassem sem dizer nada, por amor a uma camisola virtual. Eu quero (exijo, enquanto leitor) saber se este blogue é tolerante ou intolerante.

Publicado por: ZeroAesquerda em janeiro 19, 2005 08:31 PM

Quanto às fraudes artistícas, eu tenho a opinião que, fora do engano, elas não existem. Para mim, uma fraude artistíca é um plágio, uma cópia ou algo de semelhante. Poder-se-à impingir uma obra a alguém dizendo que é uma obra prima, mas para isso terá de haver um interesse da pessoa que a adquire: ou estético, e nesse caso há interesse artistíco, mesmo que de um leigo com um gosto pessoal simples e talvez duvidoso, ou então há um interesse financeiro, e a fraude assume a mesma vertente, a do negócio.

Até aqui se pode fazer uma comparação entre a Ciência e a Arte. Da mesma forma que, se eu chegar a um lado qualquer, e disser: "2+2=4", estou a fazer Ciência - básica, simples, conhecidíssima e nada original, também se eu decidir pintar um quadro de uma natureza morta, com cores banais, tal como qualquer pessoa pode ver o objecto e dê num daqueles quadros que os hotéis têm, também estou a fazer Arte.

A Arte apenas precisa de ser honesta e de reflectir a visão do seu autor. A partir desse momento já não pode ser chamada de fraude. Poderá receber o epíteto de má. Poderá ser considerada ridícula, mas não pode ser considerada fraude. Nem todos têm mente para vir a receber o Nobel, mas quase toda a gente pode fazer Ciência. Aliás, quase toda a gente a faz.

Publicado por: João André em janeiro 19, 2005 08:49 PM

Zeroaesquerda, voces, os intelectuais de lisboa, sao lixados, muito dificeis de perceber! Eu sou um rapaz simples de tras do Marao, escreve mais simples, se faz favor. Tu dizes "o filme e um extremo". Um extremo de que? Nao percebo! "Sendo um extremo, torna evidente uma série de coisas"??? Nao percebo nada. Posso dizer-te que ha livros que terao uma adaptacao ao cinema, muito facil, como um conto da Aghata Christie, ou, o laranja Mecanica. Ha outros que sao impossiveis de adaptar, como, A procura do tempo perdido. Ha outros que foram adaptados (O nome da rosa), que perdem 80 por cento do conteudo. Um livro nao e um script!
Obrigado pelos conselhos, vou ver o Canijo. O problema e que os nossos actores tambem sao todos piores que o Stalone!
Filipe, a matriz /0 1/ e hermitica, mas a /0 i/ nao, nao e? O conjugado de i e -i, nao? Ensina-me a sacar os eigenvalues.

Publicado por: luis em janeiro 19, 2005 09:50 PM

Resumir torna as coisas simples complicadas. Uma adaptação de um livro para cinema levanta o problema da autoria. O argumentista adapta uma coisa que não é sua, que é de outra pessoa. Tem de ser fiel a ideias e visões do mundo que não são suas. Por isso dizia que no argumento não fala só um autor, mas dois. A língua é bífida. A Carta adapta um romance histórico do séc. XVII que se chama La Princesse de Clèves. O Oliveira agarrou numa intriga de Corte e foi transpô-la para os dias de hoje. Fez uma espécie de colagem, mas longe de harmonizar as coisas, ele acentuou a des-harmonia de tudo. Entendes? o filme relata, nos dias de hoje, a história de uma senhora que casa sem amor com um homem e que depois se apaixona por outro; a mãe dela antes morrer revela a essa sra que se apercebera da inclinação dela pelo outro e pede que a filha zele por se manter virtuosa; a mulher resolve então contar ao marido do seu combate interior; o marido reconhece o valor da mulher por uma confissão tão arrojada, mas não suporta o peso da confissão e morre de desamor; a viúva então parte para África em missão, de onde escreve uma carta a uma freira amiga. Estás a entender de que forma é que a história parece inadequada para a moldura temporal que tem, do séc. XX? O papel da mulher na sociedade e na família, os conceitos de virtude, de paixão e de amor dizem respeito a uma sociedade que já não existe. Ainda que a história pareça passar-se no séc XX, as personagens e a intriga parecem muito antigas. São dois tempos diferentes que se encontram ali, naquele tempo fora de tempo. O tempo e contexto dos dois autores, do romance e do argumento, aparecem assim os dois nesta adaptação. Não se fala do séc. XVII, nem do séc. XX, antes se cria uma plataforma intermédia de compromisso para se poder falar do que é adaptar um livro para cinema e dos problemas que levanta. Bom, se quiseres eu posso enviar-te o meu artigo por email. Talvez seja mais fácil.

Publicado por: ZeroAesquerda em janeiro 20, 2005 01:37 AM

Filipe, nao tive tempo de ler o teu texto por completo, e muito menos os comentários, por isso o meu comentário pode ser algo precipitado ou repetitivo.

Creio que o ponto essencial nesta discussão está quando alguem pergunta como se desmacara uma fraude artistica. A resposta é que não se desmascara.

A ciência é o que é falsificavel: se uma hipótese falsa for proposta, ela pode ser testada, para se verificar se ela é verdadeira ou falsa, num sentido absoluto.

Ora em arte o maximo que se pode dizer é se uma obra é original ou uma cópia, e uma cópia pode ser muito boa na sua execuçao, ou um plagio pode trazer coisas novas que o tornam artisticamente superior ao original!

Noutro sentido, podemos dizer que uma obra é resultado de uma expressão genuína, ou uma farsa artistica. Mas muitas provocações puras podem passar a ser consideradas arte. Podemos ainda dizer se estamos perante um objecto naif, ou uma obra académica. Podemos finalente achar a obra boa ou má. Mas nada nos pode dizer se a obra é verdadeira ou falsa como perante uma hipotese científica.

Por mais que não te agrade não podes aplicar à arte os mesmos critérios que aplicas à ciência.
A ciência pode tentar explicar porque gostamos mais de certos sons ou cores, e certemente evoluirá neste caminho. Mas para já os critérios científicos não podem ser usados para avaliar a arte. Talvez quando conseguirmos a inteligencia artificial. Mas suspeito que as condicões iniciais são tão complexas que até dois computadores não conseguirão concordar na qualidade de uma obra de arte!

Finalmente acho que é legítimo utilizar os termos experimentação ou pesquisa em relação à arte. Por exemplo, o artista experimenta a reacção do público às suas criações. E pesquisa como obter reacções diferentes. Ou como exprimir as suas visões. E é possível fazer um "relatório" e avaliação do trabalho realizado. A crítica artística fá-lo constantemente. Os artistas têm a sorte de ter outros que se encarregam de explicar o seu trabalho. O problema é que não controlam esa explicações, cujo fundamento é geralmente sujectivo.

Os cientistas, por outro lado, são eles mesmos obrigados a explicar o seu trabalho. Aparentemente não há ninguem interessado em dá-lo a conhecer, ou só os cientistas o conseguem descodificar. Mas pelo menos conseguem controlar melhor o que dizem deles... ou talvez não?

Publicado por: Nuno Anjos em janeiro 20, 2005 01:44 AM

Não Nuno Anjos. A desonestidade existe em todo o lado, em todas as profissões. Também há supostos artistas que são fraudes.

E uma reinterpretação, uma adaptação ou uma citação não são plágio, e sim, podem acrescentar algo à obra a que se referem; mas um plágio é uma fraude. Pode não ser fácil de desmascarar como eu o disse anteriormente, mas é uma fraude.

E os artistas podem decidir se querem ou não explicar o seu trabalho. Podem decidir deixá-lo às mais diversas interpretações ou explicá-lo através de um título de obra que abra um véu, um pequeno texto, ou até entrevistas a meios de comunicação. E a função de um crítico não é explicar uma obra de arte, é aconselhar, segundo o seu critério pessoal, o que é que o público deve conhecer. Repito, é um critério pessoal; é informado, ou seja, o crítico conhece bem o domínio artístico sobre o qual trabalha, mas a escolha é pessoal.

Quanto a experimentação e pesquisa artística, ela refere-se à pesquisa de novos materiais de trabalho, estéticas diferentes, novas junções de materiais, modos de difusão junto do público, etc.

Publicado por: Helena Romão em janeiro 20, 2005 05:13 AM

Filipe, então vamos julgá-lo porquê ? Pelas suas opiniões sociais, pelos seus defeitos ?

Publicado por: Mário em janeiro 20, 2005 09:53 AM

Fico furiosa quando leio um livro sobre determinado artista, principalmente sobre pintores, e lá vem a explicação em pormenor sobre determinada obra, que a tinta x e a linha y determinam o pensamento que o (a) pintor (a) estaria a ter no momento em que executou a obra, que era um desgraçado, que a Mãe o tratou mal, que fornicou com aquela ou com a outra, enfim, dão mais importância à sua triste vida do que realmente à sua obra. Se o próprio artista não o explicou, porquê é que um senhor com 3 ou mais nomes tenta nos dar a sua explicação obtusa, tem que ganhar o seu dinheirito (compreendo), às tantas sabe-se muito mais da vida particular do artista do que propriamente da sua obra. Tenho alguns amigos artistas que se esfalfam para meter as suas criações em galerias, normalmente conseguem-no à sua própria custa e ao lado das obras lá vêm as explicações os currículos que às tantas são maiores do que as obras expostas.

Publicado por: sónia em janeiro 20, 2005 12:47 PM

Cara Helena Romão,
A decisão do que é um artista honesto ou desonesto, um plágio ou uma citação, uma fraude artística ou uma provocação está sempre dependente de uma opinião artistica. Como disse, mesmo uma cópia pura e simples de uma pintura pode ter um valor artístico, mesmo que simplesmente no plano artesanal.

Já a decisão do que é uma teoria verdadeira ou falsa está dependente da Natureza, através da experiência. É verdade que a interpretação dos resultados experimentais pode depender do observador, mas essa dúvida é quantificada no erro experimental. Em caso de dúvida há que procurar uma experiência melhor (com erro menor) que decida a questão.

Estamos perante planos diferentes. A ciência é objectiva, mesmo que o processo possa não o ser.
A arte é subjectiva por natureza. As duas são formas de conhecimento igualmente importantes.

Finalmente, quando m artista decide explicar o seu trabalho, no fundo está a ser o seu próprio crítico. Porque, como é da natureza da arte, outros podem ver no seu trabalho algo que não tem nada a ver com as intenções do artista.

Publicado por: Nuno Anjos em janeiro 21, 2005 01:30 AM

Nuno Anjos,

Desde logo, uma citação é referenciada. Uma serigrafia ou cópia de um quadro é referenciada - cópia feita por x, de um quadro de y.
Num texto escrito, a citação é acompanhada de uma nota de rodapé, por exemplo.

Um plágio é pegar em algo que já foi feito, mudar-lhe o nome, e chamar-lhe um original - mentir, portanto. E isso é fraudulento, existe uma coisa chamada Direitos de Autor. E há julgamentos feitos de queixas de plágio.

E esta distinção é muito objectiva. Ou há uma intenção de desonestidade - fazer passar por minha uma obra de outra pessoa, ou há uma intenção de homenagear, bricar, até gozar com o original.

"Finalmente, quando m artista decide explicar o seu trabalho, no fundo está a ser o seu próprio crítico. Porque, como é da natureza da arte, outros podem ver no seu trabalho algo que não tem nada a ver com as intenções do artista."

Não, está a dar o seu ponto de vista, a sua intenção ou modo de trabalho, ou materiais utilizados... as notas que acompanham uma obra são muito variadas e explicam coisas muito variadas.
O crítico virá depois dizer se a intenção expressa se adequa ao resultado.
O facto da Arte ser subjectiva e poder de facto suscitar as mais diversas interpretações, é verdade, mas isso não tem nada a ver com o facto de o próprio artista poder ou não fazer uma nota explicativa.

Lá por a Arte ser subjectiva não dá a ninguém o direito de roubar o trabalho a outrém. Um roubo é uma coisa muito objectiva.

Publicado por: Helena Romão em janeiro 21, 2005 09:04 PM

Cara Helena Romão,

a distinção entre original e plágio será das mais claras no campo da arte, mas mesmo assim não é tão clara como pensa. Quando não se acrescenta nada de nada ao original estamos concerteza perante um plágio. Mas as coisas geralmente não são tão simples.

Por exemplo, nos ultimos 20 anos generalizou-se na música a técnica do sampling. Um músico usa fragmentos de outras músicas para criar uma nova obra. Pode ser um solo, uma linha de baixo, um ritmo. Ora não foram poucos os casos em que os autores das obras originais foram reclamar em tribunal direitos de autor sobre as peças construidas por sampling. Por vezes com sucesso, outra vezes sem. Roubo ou criação de algo novo, como decidir?

Mais um exemplo. Um tema musical geralmente é constituido por ritmo, harmonia e melodia. Ora imaginemos que alguém pega na harmonia de um tema,
escreve uma nova melodia, e toca o tema resultante
no ritmo que lhe agrada no momento. A harmonia foi roubada? Parece que sim... Mas a verdade é que isso não é considerado plágio. Todos os grandes interpretes do jazz escreveram paráfrases sobre canções populares. A harmonia de "I Got Rhythm", de Gershwin, foi plagiada em dezenas de temas originais!

Um artista deve ser sempre remunerado pelo seu trabalho - mas o seu trabalho é o todo ou também as partes que o compõem? E o artista tem o direito de controlar permanentemente a sua criação, por exemplo, proibir uma música de ser tocada?. E tem sequer o direito de abusar do seu monopólio, por exemplo, exigindo quantias exorbitantes por cópias industriais não assinadas da sua obra? Porque quando falo de quantias exorbitantes não estou a falar de serigrafias - falo de algo mais simples: o roubo a que todos somos sujeitos quando exportulamos 15 a 20 euros por um CD que já a 5 euros daria pingues lucros a todos os envolvidos.

Este é um caso em que uma indústria artística abusa do seu monopólio criado pela protecção excessiva dos direitos de autor, que são vendidos e transmitidos sem critérios, e garantidos por tempo excessivo. Uma industria científica, a farmaceutica, faz o mesmo, ou pior, porque joga com vidas.

E quanto às notas explicativas, quando um artista explica como fez um trabalho, está meramente a descrever o seu método e técnicas. Eu referia-me à situação que sucede quando o artista explica porque fez o trabalho, qual a sua intenção e significado. Nesse caso o seu discurso ou é parte integrante da obra (por exemplo, o título) ou é autocrítica, o que aliás não tem nada de mal.

Publicado por: Nuno Anjos em janeiro 22, 2005 12:53 AM

Nuno Anjos,

Antes do jazz já isso era feito há centenas de anos.....

Bom, como eu já disse, quando se cita uma obra de outra pessoa não é plágio, sendo que se utiliza essa citação com a intenção não de copiar, mas de fazer uma outra obra diferente.
Mudam-se coisas, ou acrescentam-se... é isso que acontece no caso do sampling.

Não conheço bem os casos do sampling, nem qual o argumento de quem põe o processo em tribunal. Em termos gerais, um artista pode controlar a utilização da sua obra durante um período de tempo (não sei ao certo quanto tempo, mas penso que algumas dezenas de anos). É assim que os compositores decidem muitas vezes retirar obras de catálogo, porque não querem que aquela obra seja tocada em público. E podem fazê-lo quando entendem.

Para usar excertos de peças que ainda estão sujeitas ao Direito de Autor é sempre preciso pedir autorização. Eu não posso escrever música para um poema de outra pessoa - ou melhor, posso escrever à vontade o que eu quiser em minha casa, se essa música ficar na gaveta até eu ter a autorização do poeta. E tal como não posso usar um poema, também não posso usar uma peça musical.

Não sei se a utilização de um sample (que não costuma ter mais de 10 segundos) para fazer outra coisa pode ser chamada de plágio, tecnicamente. Mas a utilização de uma obra sujeita ao Direito de Autor, mesmo que seja só uma pequena parte, tem que ser feita mediante aprovação do detentor do direito e por vezes mesmo um pagamento.

Por isso um desses grupos usou o Adagio de Albinoni (por exemplo) como sample para uma música. É já do domínio público, fora dos Direitos de Autor e portanto pode ser utilizado por quem queira, como queira.

A música tradicional é sempre do domínio público, por isso pode ser usada sempre. A música popular, depende. Algumas canções que se popularizaram e que podem ser confundidas com canções tradicionais têm na verdade um autor.

Qualquer artista (ou detentor do Direito de Autor - um herdeiro ou a pessoa/empresa a quem se venderam/cederam os direitos) pode efectivamente controlar o que é feito da sua obra. Sempre e em absoluto, até que passe o prazo findo o qual a obra passa a ser do domínio público.


Quanto ao preço dos CDs, desengane-se. O preço é de facto demasiado alto em relação ao custo de produção, mas o artista (excepto talvez a meia dúzia de fenómenos raríssimos de extraordinária popularidade, que podem controlar a própria editora) recebe habitualmente uns cêntimos em cada 10 ou 20 CDs vendidos. Quem ganha é mesmo só a editora.

Publicado por: Helena Romão em janeiro 22, 2005 05:30 AM