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janeiro 18, 2005

DESABAFOS DE PRÉ-CAMPANHA ELEITORAL

Um excelente comentário do nosso leitor Valupi que, sem dúvida, merece ser "promovido" ao corpo principal do blogue.

Todos os partidos políticos apresentam peças de comunicação confrangedoras. A última vez que me lembro de ver uma peça eficaz foi na altura do Barroso, estava ele a começar e contratou um português para lhe fazer a campanha, o Pedro Bidarra. Nasceu "A rosa murchou".

Ressalva para uma peça do Bloco de Esquerda, numa aposta falhada mas meritória: "Eles mentem, eles perdem", ou algo parecido. Honra seja feita ao Bloco, consegue ter a melhor comunicação. Mas não chega...

Há duas instituições que me desesperam pela falta de inteligência no que comunicam – o Partido Comunista e a Igreja Católica. O PC apresenta mensagens que estão no grau zero do conteúdo intelectual e a Igreja ignora que as audiências têm dimensão psicológica e não espiritual.

O tema daria para teses de doutoramento em qualquer uma das variadas ciências humanas, mas vou fazer aqui um breviário do que me importa.

Lamento que a herança histórica do PC, no período pré-25 de Abril, seja matéria estéril, apenas presente nas memórias dos que viveram essas lutas e de alguns poucos que lhes são próximos. Uma das características mais notáveis desse período é precisamente o que diz respeito à coragem social e física que era requerida para levar avante [pois...] a resistência. Esse é um capital de exemplo que faz falta a Portugal, nação sem memória e sem heróis. Em vez de símbolos internacionalistas, em vez das carantonhas de alemães, russos, chineses, cubanos e argentinos, gostava era de ver as lusas faces dos que foram para o Tarrafal, os que foram assassinados em nome da Liberdade, os que foram torturados e devassados. Essa gente foi do melhor que apareceu no século XX em Portugal, reunindo o simples homem do campo, o complexo artista urbano, o mediano quadro de escritório. Mas o ópio da ideologia deu cabo do povo comunista português, e agora é vê-los sem passado e sem futuro.

Lamento que a Igreja seja uma organização autista, mesmo quando no seu seio há vozes esclarecidas e esclarecedoras. E sem tocar nas magnas questões – aborto, eutanásia, preservativos, homossexualidade, ordenação das mulheres, etc. – é ao nível da simples, básica catequese que não se consegue levar a carta a Garcia. A herança antropológica que está presente nos Evangelhos é um tesouro permanentemente mal compreendido. Tão rica é a sua tessitura que dá para tudo e para todos. Mas os católicos desperdiçam oportunidades de crescimento alheio (e próprio...) quando fecham os olhos às evidências: para se falar com alguém, começa-se por conhecer aquele com quem se fala.

Assim vamos. Só que tudo poderia ser diferente; Portugal ser mais português e mais universal. (Valupi)

Publicado por Filipe Moura às janeiro 18, 2005 05:58 PM

Comentários

a propósito do bloco,
aqueles cartazes são de um populismo constrangedor ...
abraço.

Publicado por: jorge em janeiro 18, 2005 06:50 PM

Inteiramente de acordo, Valupi, com uma pequena ressalva no que se refere ao PC (excepção que só confirma a regra). Muito recentemente, quando se falou na hipótese de o Bloco viabilizar um governo minoritário do PS, Jerónimo de Sousa saiu-se com uma «peça de comunicação» deliciosa: que o Bloco estava a «pôr-se a jeito» para o PS. Tentei comentar isto num post do Barnabé mas o meu comentário, graças à recém-censura selectiva instalada naquele blogue, perdeu-se nos arquivos mortos e nunca foi publicado.

Publicado por: jm em janeiro 18, 2005 07:05 PM

I am just wondering if this Mr Valupi is the same who wrote the words quoted below. If not, my apologies to both. Hoewever, if it happens to be the same gentleman, should we bother anymore with his political views? It is all about chance and synchronicity, is it not? Ot maybe about getting some money on the lottery. Who knows.

"Como ao longo das décadas muitas variações ocorrem na vida política, seria de esperar que todas as comunidades tivessem épocas de acerto e de desacerto. Ora, estes locais-tipo estão sempre sintonizados como o todo, desafiando a racionalidade matemática e sociológica. Porquê? O 2º é o sempre presente fenómeno das sincronias. Entre os milhentos sistemas onde habitamos e que nos cercam, estão neste momento a acontecer sincronias. Por exemplo, o número de pessoas dentro de um automóvel pode ser, num dado segundo ou minuto, exactamente o mesmo em Londres e Paris. Duas pessoas podem estar numa festa juntas e ter exactamente o mesmo número de cabelos. Ou o número total de pinguins no mundo pode ser igual a um resultado que obtive num jogo de PlayStation, a quantidade de garfos no Brasil pode coincidir com a quantidade de laranjas na China, e etc."

Publicado por: Germano Filipe em janeiro 18, 2005 10:57 PM

Pois é, jm, dá para nos interrogarmos: estará a campanha da CDU entregue a pessoas que não sabem o que dizer ou é o próprio Partido que não tem nada para dizer?

A actual campanha, mas o problema já é velho, apresenta os seguintes lemas: "Mais votos na CDU" e "Para mudar a sério". Eis-nos reduzidos à expressão mínima, pedir mais votos, e à ambiguidade máxima, mudar por mudar. Estamos no terreno da tautologia elevada a mensagem e da vacuidade erigida como conteúdo. Sem dúvida, o Partido Comunista Português está esclerosado.

Os partidos caíram todos na ratoeira dos formatos nos quais veiculam as mensagens. Como um outdoor tem limites espaciais que constrangem os elementos verbais e visuais, assume-se que a solução é baixar as calças. Desse modo, é o código publicitário que toma conta da actividade política. Ou seja, também aqui o meio é a mensagem.

O que o PC devia fazer era nem sequer ocupar espaço público com outdoors, cartazes, fitinhas e demais lixo urbano. Não precisamos de paisagens visualmente poluídas e intelectualmente irrelevantes ou mesmo inanes. Precisamos é de falar uns com os outros, estarmos presentes de corpo e espírito, acreditarmos naquele que tem a palavra. Mas, para tal, a palavra terá de ser viva. É que – lá está e daqui nunca iremos sair – o meio é a mensagem...


Germano, agradeço o interesse pela pessoa por detrás deste Valupi. Quanto ao outro, que foste buscar ao Google, também gostei de ler. Diria mesmo que há uma relação íntima entre a temática do cálculo probabilístico e a da política em Portugal – será mais provável eu ou tu ficarmos milionários do que Portugal eleger um conjunto de deputados que enriqueça o país. Malhas que o império tece.

Só um conselho: não faças do Google um Big Brother; pois na Internet não há identidades, só simulacros.

Publicado por: Valupi em janeiro 19, 2005 03:04 AM

Valupi, Grato por me teres assegurado que há mais marias na terra. Agora já posso pôr de parte a suspeita de ter estado perante um caso flagrante de dupla personalidade. Espécie de Jekyl e Hyde, se quizeres. Mas, no campo das tuas observações políticas, gostaria de ser um dos primeiros a avisar-te de que “provavelmente” irás encontrar muita gente nas áreas escleróticas dos partidos novos e velhos, da esquerda, direita ou centro, preparada para rebater as tuas acusações sem necessidade de recorrer a instrumentos novos, que aliás não têm, não querem ou não podem utilizar. Se deres uma volta pelo palavreado utilizado em períodos pré-eleitorais, irás, se não tiveres cuidado, afogar-te numa abundância de discurso antigo que talvez não te sentisses desonrado ou diminuido em subscrever. A tautologia é o pão nosso de cada dia do “ataque” e da “defesa” política. Os dogmas de todos os tipos opõem-se a que as coisas se desenrolem de maneira diferente. Agora que já definimos o “socialismo democrático” ou outra qualquer visão de direita, globalista ou globalizante, como metas finais que irão premiar este planeta com a felicidade possível, o espaço para dizer coisas novas tem forçosamente de ser contaminado pela repetição e monotonia. A única maneira de quebrar este arrastar de pés com foguetes e banda de música periódicos é entrar no terrreno da blasfémia-verdade que ofende as diversas igrejas partidárias que beijam os pés à santa democracia da desimaculada mentira. Finalmente, nem tudo é simulacro na Internet, e o campo de acção favorito do Big Brother é, a meu ver, uma sala-de-estar apetrechada com sofás que nos convidam a dormir depois da dose forte de propaganda administrada por um caixote de lixo electrónico. A Google também me permitiu encontrar as tuas (presumo que desta vez acertei) brilhantes intervenções sobre as preciosidades e preciosismos da nossa língua. I wish I may be able to say that about your political intuition in the near future.


Publicado por: Germano Filipe em janeiro 19, 2005 08:52 AM

Oi , tudo bom ? Sacaninhas ..


Então o nosso primeiro vem hoje dizer que HOUVE UM GOLPE !!!!!!!

UM GOLPE !!! POLÍTICO ??

Eu... Já há muito tempo que digo que houve mas é um golpe de estado!

Vamos ver o que mais tem ele a dizer sobre isto.

Vamos ver como reage a puck comunicação social

Publicado por: Afonso Henriques em janeiro 19, 2005 10:14 AM

Germano, esclesorados estão todos os partidos, se avaliarmos a situação pela credibilidade que inspiram. É que nem o Bloco, onde está o melhor da Esquerda, consegue romper com as rotinas partidocráticas, aquelas que afastam o cidadão da discussão política. Foquei a análise no PC apenas para lamentar o esboroamento de um legado intelectual e vivencial que faz falta a Portugal. Tal como fazem falta autênticos espirituais, de resto.

Outras conversas. A explosão dos blogues permitiu a descoberta de portugueses a escrever bem o Português. Alguns deles são cândidos anónimos que se lêem melhor do que muitos dos consagrados na industrial e remunerada comunicação social. Centro da questão: a linguagem é a manifestação do pensamento - ou, a linguagem e o pensamento não são dissociáveis. Assim, uma escrita com erros gramaticais ou confusa não escapa ao carimbo de reflectir um pensamento coxo. Porque te digo isto? Porque deves tentar melhorar a tua expressão linguística, por um lado, e porque podes aproveitar a oportunidade de receberes críticas ao que deixas dito nestas caixas para subires o nível da exigência contigo próprio. Sim, acho o teu último comentário ferido de confusão. E se quiseres, manda-me um email para falarmos com mais rigor sobre o assunto sem estarmos aqui a incomodar os senhores.

Sobre os "Valupis", só tenho a dizer que todos os que aparecem no BdE são meus, não tendo ainda encontrado qualquer réplica. Mas tu sabes como é demasiado fácil lançar a confusão, podendo eu ou qualquer um começar a assinar Germano Filipe, aqui ou em blogues albaneses, incluindo até o teu email. É isso, na Internet não há identidades, apenas sinais gráficos sempre passíveis de multiplicação anónima. Ao limite, nem sequer se pode garantir que é a mesma pessoa que envia dados do mesmo IP (no caso de ser fixo). Com quem falamos, neste meio onde tudo carece de validação e nem nas imagens se pode confiar?

Publicado por: Valupi em janeiro 19, 2005 02:20 PM

Convenhamos, "esclerosados" fica bem melhor do que "esclesorados". Mas isto é só uma opinião disléxica.

Publicado por: Valupi em janeiro 19, 2005 02:25 PM

Valupi, tens razão. A malta tem que ter cuidado com a gramática e o estilo. Segue o email.

Publicado por: Germano Filipe em janeiro 20, 2005 01:11 AM

Qual, alto aí! seu Valupi e seu Germano.

Queremos a conversinha aqui no salão, onde estão os senhores de uísque e habano, e às vezes de abano, quando a coisa (isto!) aquece.

Não incomodam nada, se não perceberam ainda.

Publicado por: fernando venâncio em janeiro 20, 2005 08:55 AM

Muito bem, Fernando! Ainda não li (ou recebi), o email do Germano, mas levantarei as vestes se tal acontecer.

Já agora, aproveito, pois nunca é demais repetir: Germano, o Fernando Venâncio brinda-nos com a sua [a vários títulos] ilustrada presença e seremos tontos se não virmos no que ele escreve a excelência de uma sabedoria servida por um estilo de expressão escrita [que vou ousar qualificar de ático] que é uma lição de contenção, síntese e profundidade.

Sorte a nossa.

Publicado por: Valupi em janeiro 20, 2005 02:51 PM

Mas quem explica aqui ao je a razão deste graxismo sabujo? "ilustrada presença"? será Amor?

Publicado por: Area51 em janeiro 20, 2005 05:56 PM

Boa pergunta, Area51. E, por ser tão boa, na tua pergunta vem já a resposta: amor.

Se quiseres continuar a conversa, estou contigo.

Publicado por: Valupi em janeiro 20, 2005 06:42 PM

Afinal, o Germano também é blogueiro e levou a conversa para os seus terrenos:

portugala.blogspot.com


Vale a pena conhecer. Unusual ideas.

Publicado por: Valupi em janeiro 21, 2005 01:37 PM