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janeiro 09, 2005

TUDO É VAIDADE (2)

Não me vou pôr a contar as crianças que consigo distinguir naquela foto que continua a parecer-me tremida e desfocada, apesar de impecavelmente nítida. Nem quero discutir se Deus será mesmo um Pai extremoso, um ente incompreensível e extra-dimensional ou a criatura vingativa que fustigou Job.
Não. Ao rever este vídeo gravado em Banda Aceh, vejo apenas uma epifania carregada de vazio: a revelação do verdadeiro tamanho, da real importância do ser humano. Como poderá resistir à força desta torrente a certeza inabalável de que somos especiais, únicos ao ponto de sermos feitos "à imagem" de outra coisa que não um feliz acaso da biologia? Entre os corpos agora reduzidos a entulho inchado e irreconhecível, onde estará o magnífico animal que até mereceria honras de uma outra vida?
"O destino dos filhos dos homens e o destino dos animais é o mesmo, um mesmo fim os espera. A ambos foi dado o mesmo sopro; o homem não tem nenhuma vantagem sobre o animal." Isto proclamou o nosso Deus, bem antes de lhe passar pela ideia enviar o Seu Filho para uma morte atroz, às mãos de mal-agradecidos sanguinários.
Talvez monstruosidades como esta onda absurda sejam mesmo "o hediondo cair do véu" de que falou Poe; janelas para o vazio sem remissão que nos rodeia.
Ou talvez não passem mesmo de mais uma reviravolta nos "insondáveis desígnios" de Alguém que, apesar de tudo, até nos reserva um desenlace feliz. Mas, assim à primeira vista, não parece mesmo nada.

Publicado por Luis Rainha às janeiro 9, 2005 01:34 PM

Comentários

Mais uma vez. Um vídeo - ou uma «epifania do vazio» para explicar que Deus não existe.

Publicado por: Marujo em janeiro 9, 2005 02:47 PM

Gostei muito deste post.

Publicado por: sara monteiro em janeiro 9, 2005 03:34 PM

Marujo,

Como "explicar que Deus não existe"? Falei apenas da importância minúscula que a nossa tão transcendente dignidade assume nestes dias. Se julgas que uma questão é inseparável da outra, tens um problema nas mãos.

Publicado por: Luis Rainha em janeiro 9, 2005 05:40 PM

Percebo o ponto central da tua argumentação. Mas quando dizes «Como poderá resistir à força desta torrente a certeza inabalável de que somos especiais, únicos ao ponto de sermos feitos "à imagem" de outra coisa que não um feliz acaso da biologia» não estás a negá-lO?

Publicado por: Marujo em janeiro 10, 2005 12:49 AM

Não. Negar que sejamos os filhos favoritos de Deus, ao ponto de Ele nos guardar um cantinho lá perto Dele, não implica negar a existência da Divindade.
Podemos acreditar em Deus e continuar a crer que não passamos de um acaso, sem qualquer papel especial na ordem das coisas.

Publicado por: Luis Rainha em janeiro 10, 2005 11:20 AM

Deus existe e somos um acaso? "Essa" custa mais a engolir.

Publicado por: sara monteiro em janeiro 10, 2005 11:45 AM

Sara,
Lá por os dois conceitos terem o hábito de andar de braço dado, não tem sempre de ser assim.
Quem nos garante que Deus, a existir, alguma vez foi ou será sequer vagamente entendível por nós? Quem nos pode garantir que ele nos tem em especial apreço, bem acima de qualquer outro bicho?

Publicado por: Luis Rainha em janeiro 10, 2005 12:30 PM

Deus existe mas não nos liga nenhuma. Ligaria a quê? Às estrelas, às galáxias, a quê? E a Terra seria apenas, por exemplo, apenas um canal de televisão que Ele ligaria de vez em quando? Olha! está a dar isto no canal Terra. Um maremoto!

Publicado por: sara monteiro em janeiro 10, 2005 01:01 PM

Essa é bem vista, Sara!
Faz-me lembrar a canção de Momus:

"God is a tender pervert and the angels are voyeurs
Watching us forever, their vision never blurs
They make us then forget us for a hundred million years
And then by chance they glance at us and something in them stirs
They find us so provocative, so weak, so full of pride
Our cleverness, our nakedness, fills them with delight
The way we hold our coffee cups, the way we pick our words
God is a tender pervert
And the angels, and the angels are voyeurs"

Publicado por: Luis Rainha em janeiro 10, 2005 01:20 PM

Estamos tramados!

Publicado por: sara monteiro em janeiro 10, 2005 03:24 PM

"Quem nos pode garantir que ele nos tem em especial apreço, bem acima de qualquer outro bicho?"
A resposta é Jesus Cristo.
E, já que entro na conversa, quero lembrar que para o tempo em que vivemos o Novo Testamento, desde as palavras de Jesus até a Apocalipse de João, prevê coisas como tsunamis, fomes, guerras, etc. Ou seja, o Paraíso não é aqui. Definitivamente.

Publicado por: Hilário em janeiro 11, 2005 02:57 PM