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janeiro 08, 2005

ENGRAÇADINHOS SEM GRAÇA

Ontem, pela primeira vez, ouvi uma anedota sobre a tragédia no sudeste asiático.
O humor é, por definição, uma subversão da normalidade e, quando observado por esse prisma, sempre me pareceu um fenómeno interessante. No entanto, fazer humor e contar piadas sobre aquilo que aconteceu e que ainda está a acontecer a milhões de pessoas nos países afectados por esta catástrofe parece-me desumano. É o luxo daqueles que imaginam que o seu pequeno mundo nunca será destruído. É a ignorância daqueles que nunca perderam ninguém, que acreditam que nunca irão perder ninguém e que vêem o mundo como uma brincadeirinha, um jogo de playstation, uma elaboração teórica que nunca os afectará. É a total falta de empatia em relação ao sofrimento dos outros – uma das principais marcas psicológicas dos psicopatas.
Aos poucos, tornámo-nos num país de engraçadinhos. Em tudo se promove a gracinha. Ter graça, aos poucos, tornou-se mais relevante do que ter razão. Como chegámos a isto? Mais cedo ou mais tarde, tornar-se-á claro que o máximo que os engraçadinhos poderão alcançar será serem engraçadinhos. Quando se tornarem um pouco mais adultos e a vida lhes mostrar o quanto é triste perseguir um objectivo tão vazio, chegará a hora de lamentar o tempo perdido. Para o bem dos próprios e para o bem de todos, espero que não seja demasiado tarde.
Isto foi o que disse à pessoa que me contou uma anedota sobre a tragédia no sudeste asiático.

Publicado por José Luís Peixoto às janeiro 8, 2005 06:34 PM

Comentários

Ainda que indirectamente (ver penultimo post lá do meu tasco) enfio um bocadinho do barrete caro José Luís.
Por mais cruel que possa parecer, há outra forma de ver o humor com a desgraça - esta ou qualquer outra. "Comprei" a teoria de alguns especialistas da cuca - muito em voga aquando do acidente de Entre-os-Rios - que defendem que a anedota é uma forma de superar a dor, de fazer o luto (colectivo), de reiniciar o caminho.
Não sei, contudo, se quem passa por uma tal dor será alguma vez capaz de fazer este tipo de luto quando assistir à dor dos outros. E sinceramente espero nunca vir a saber, mas por cá ando, até um dia.
COnsigo chocar-me muito mais com algo do calibre destas afirmações:

«We know that at these resorts, which unfortunately exist in Islamic and other countries in South Asia, and especially at Christmas, fornication and sexual perversion of all kinds are rampant. The fact that it happened at this particular time is a sign from Allah. It happened at Christmas, when fornicators and corrupt people from all over the world come to commit fornication and sexual perversion. That's when this tragedy took place, striking them all and destroyed everything. It turned the land into wasteland, where only the cries of the ravens are heard. I say this is a great sign and punishment on which Muslims should reflect.»

Via Aviz. Original aqui: http://www.memritv.org/Transcript.asp?P1=459

Infelizmente esta não é uma tentativa de humor com a dor alheia.
Não me queira mal.

Publicado por: Rui MCB em janeiro 8, 2005 07:05 PM

Caro José Luís, como estou de acordo consigo! As mais das vezes trata-se de um humor rasteiro e que nos ofende no seu vazio. fez bem em tecer esse comentário a quem lha contou. Talvez assim, consiga compreender.

Publicado por: Luís Sequeira em janeiro 8, 2005 11:42 PM

Não podia discordar mais.

Publicado por: Monty em janeiro 8, 2005 11:57 PM

Inteiramente de acordo com o Zé Luis.

Publicado por: Francisco Curate em janeiro 9, 2005 12:55 AM

José Luís, acho que teria de ouvir a piada. O humor é uma coisa muita séria, e só quem não ri de si mesmo é que poderá ignorá-lo. Dito isto, claro que há piadas que vinculam ideologias bacocas e más consciências. Por outro lado, acho que cada vez nos falta mais humor, ao mesmo tempo que o país é ele mesmo cada ve mais uma piada. O humor é suposto ser uma actividade inteligente, profunda e saudável.

Assim, caro José Luis, concordo e discordo, ou dito de forma, compreendo mas reservo a minha opinião.

Publicado por: Luis Ene em janeiro 9, 2005 09:00 AM

O que o Luis Ene escreveu era o que eu queria ter escrito quando por aqui passei ontem.
Bom restinho de fim-de-semana.

Publicado por: Rui MCB em janeiro 9, 2005 12:04 PM

Leia artigo "O Irresponsável Sapaio"
http://nonioblog.blogspot.com

Publicado por: Nonio em janeiro 9, 2005 01:44 PM

Uma interessante abordagem ao assunto, caro José Luís. Ainda anteontem, em jantar de amigos, notávamos a ausência de piadas sobre o assunto. E a violência dos acontecimentos tolheu qualquer possibilidade de também nós ali fazermos qualquer "gracinha".

Mas há um aspecto sobre o qual, porventura, o seu texto pode levar-nos ao engano. A de que somos um «país de engraçadinhos» e que, apenas nós portugueses, faremos "graçolas" sobre estas coisas.

Recordo um exemplo, de um acontecimento igualmente brutal: o 11 de Setembro. O então "mayor" Rudolph Giulliani pediu - pouco mais de um mês depois dos atentados - aos nova-iorquinos para voltarem a rir, terminado o período de luto pelas vítimas.

Em Nova Iorque, as primeiras piadas apareceram ao quinto dia, noticiou na altura o New York Times. Em Portugal, circularam na internet as mais variadas graças sobre as torres (muitas com origem nos EUA) - e as pessoas riam, apesar de tudo. Depois veio Osama bin Laden, um alvo bem mais fácil para americanos e outros, como atestavam as dezenas de "cartoons" que invadiam "sites" humorísticos e as caixas de correio electrónico. Ou jogos em que o "responsável número um" dos ataques era literalmente o alvo a abater.

A 26 de Setembro de 2001, também naquele diário nova-iorquino, contava-se: «O público começa a regressar aos clubes de comédia, e os comediantes já começam a incluir piadas sobre os acontecimentos de 11 de Setembro, levados por um desejo de escape, mas também pelo dever de fazer rir as pessoas».

Outros não pensaram assim. Dino Ignacio, o "webmaster" de um sítio de humor, retirou da net a página em que satirizava o Becas da «Rua Sésamo», comparando-o a Bin Laden. «Bert is Evil!», defendia o humorista. Mas a frase deu lugar a um acto de contrição público, na hora de retirar a imagem: «Não estou a ser mariquinhas! Faço isto porque sinto que isto se aproximou demasiado da realidade e decidi ser responsável o suficiente para parar com isto imediatamente». "Isto" referia-se a cartazes empunhados por manifestantes paquistaneses pró-taliban com Becas ao lado de Bin Laden. [a história pode ser lida aqui: http://www.fractalcow.com/bert/bert.htm]

O humor é um pau de dois bicos. E muitas vezes a fronteira é muito ténue...

Publicado por: Marujo em janeiro 9, 2005 02:40 PM

Interpreta-se o humor d diversas maneiras. Prévert vê-o assim: «O humor é filho dos nossos ódios». Acho porém que os indivíduos a que Luís Peixoto chama engraçadinhos são idiotas insensíveis que fazem tudo menos humor.

Publicado por: jm em janeiro 9, 2005 04:37 PM

não será a comédia tão profundamente humana como a tragédia? o humor não é uma forma de fazer o luto do horror?

Publicado por: fernando esteves pinto em janeiro 9, 2005 05:37 PM

Só mesmo estes dias de pasmo para me trazer este raro e inesperado momento: concordo plenamente contego, fernando.

Publicado por: Luis Rainha em janeiro 9, 2005 06:00 PM

E um erro de concordãncia, claro está. E um "contego" ainda mais bizarro. Irra.

Publicado por: Luis Rainha em janeiro 9, 2005 06:03 PM

tudo certo.
mas afinal (ou, já agora),
qual é qu´ér`à ãdota?

Publicado por: xlxlxleo em janeiro 10, 2005 12:22 AM

Portugal não é infelizmente o país da graçola, mas sim dos desgraçadinhos. Se eu vivesse uma grande desgraça colectiva e lá longe contassem piadas sobre esse fenómeno, o que é que me importava? Em que é que isso diminuía a minha dor? Não sei nenhuma piada sobre o maremoto mas já me ocorreram umas quantas sobre os sisudos do costume que são muito conscientes do sofrimento alheio enquanto a sua barriguinha está cheia. Quem não demonstra publica e pessoalmentoe o seu pesar, fá-lo porque tem a humildade de reconhecer a sua humanidade e impotência face à natureza. Os sisudos estão chateados com a linda natureza que tão má partida pregou ao humanos.

Publicado por: Zangalamanga em janeiro 10, 2005 10:05 AM

Sobre este tema a ver "Melinda e Melinda" de Woody Allen onde a dada altura do argumento se diz exactamente o que Fernando Esteves Pinto diz/cita.
Alias, ainda que à escala mais identificável da vidinha dos seres urbanos, Woody Allen aborda muito bem (mais uma vez) esse dilema que fundou toda a sua carreira...

Publicado por: Luís Delgado em janeiro 10, 2005 10:14 AM

já agora vou ver o filme.e se tiver coragem, vou escrever sobre o assunto.

Publicado por: fernando esteves pinto em janeiro 10, 2005 02:02 PM

Li o teu texto "ENGRAÇADINHOS SEM GRAÇA" e achei bom, pela crítica que fazes às piadinhas sem graça. Sou autor de cartoons e mantenho um site onde falo e divulgo a area de humor em portugal, por isso o teu texto me interessou. Acabei por o colocar no meu blog, respeitando a fonte, com uma pequena introdução minha para definir a ideia que pretendo. Espero que não te importes. Dá lá uma saltada. Bom trabalho, gostei do teu blog.

Publicado por: Sergei em janeiro 10, 2005 02:20 PM

Nas Ruínas Circulares, e a propósito deste assunto, alguém recomenda este velho Gato Fedorento. Muito a propósito. Alguém por aqui o devia ler. Assim, e principalmente (o melhor para o fim), como o post do JP - uma boa lição a quem vê a vida por um canudo - para não se misturar com a gentalha.

Não aceito lições de um ser cinzento como tu, ZLP (pena não leres estas caixas de comentários ou ficarias a saber que no segundo seguinte à morte do Senna, inventámos, entre um grupo de fãs que via a corrida em directo, três ou quatro anedotas sobre a morte que acabáramos de ver. Serviu para chorar menos, depois).

Cambada de inumanos, pois - ainda ontem me fartei de rir com uma anedota que a minha gata me contou.

Publicado por: Monty em janeiro 11, 2005 11:42 AM