Batendo com as bengalas no chão, os dois cegos aproximaram-se. Muito devagar. A medo. Depois, quando a distância que os separava ficou reduzida a um metro, pararam. O silêncio era agora uma coisa física, palpável, concreta. Imóveis, os dois cegos exibiam a sua fragilidade. Cada um sentia a presença do outro, ali à frente, dentro da escuridão dos olhos.
Eu estava perto. Eu via tudo. A rigidez dos membros, os rostos abertos ao mínimo som, a energia da espera. Os dois cegos pareciam dois samurais, idealizando o combate final. Após uma última hesitação, porém, o impasse desfez-se. E as bengalas foram abrindo caminhos opostos.
Eu continuava perto. Eu vira tudo. Mas recusei o que era mais fácil: a parábola.
para quando a edição em papel (de preferência livro) de mais das tuas short-stories, José Mário??
Afixado por: Rui Almeida em janeiro 22, 2004 08:43 PM