janeiro 21, 2004

VERSOS QUE NOS SALVAM

Ele, o Francisco José Viegas, não escreve apenas textos poéticos sobre a noite e o que ela é. No último dos seus livros de poesia, para mim o melhor dos que assinou até hoje («O Puro e o Impuro», Quasi, 2003), juntou alguns magníficos «Sonetos irregulares sobre as coisas comuns de Janeiro». Agora que o primeiro mês de 2004 está quase a fechar-se, recordo três desses poemas, iluminados pela alegria inexplicável de ter nos braços uma filha recém-nascida.

2

Enquanto chove, miudinha e fria, a chuva de Janeiro,
seguro ao colo a minha filha. Ela olha vagamente a luz
esplêndida, arrebatada. Sente-se essa emoção, tão
pequena. O tempo passa e esquece, não o sente,

adormecida e encostada ao peito, um sopro seria agora
uma ventania inútil enquanto digo versos em silêncio,
grato pelo milagre de a ver perfeita. É outra coisa comum,
esta perfeição – os olhos, as mãos, a boca, um leve

perfume que há-de ficar na camisinha de flanela,
esvoaçando de Janeiro a Janeiro, afastando o medo
do Inverno (esse mal que vem entre as roseiras frias

e mais nuas do mês). Ninfinha que há-de rir, assim a vejo
em sonhos, trémula, a cabeça pousando sobre a mão,
inclinada sobre a tarde, desajeitada e tão agora nascida.

3

Repousa de novo, deitada junto da mãe; não sei como
sabe o que vem a seguir, mas há-de ser assim. Há flores
à volta, no pequeno quarto onde adormece. Sigo esse olhar
que vai da filha às flores, o da mãe – vejo ali um sinal

de orgulho, brevíssima paz antes de a vida no-la devolver.
Choraminga porque tem de ser; faltava-me o seu rosto
onde os versos abundavam para descrever esta geografia,
e esse rosto é todo vivo, se me afasto. Vejo agora como

estava incompleto de mim mesmo. Olho-a outra vez para
contemplar o que há-de vir. Faltar-me-á o tempo para viver
todos os seus dias, verdadeiramente hei-de estar velho

e escandalizado por ela existir para além de mim. Guardo
os seus olhares fulgurantes, o seu choro inocente, o seu rosto
vago de tranquilidade. Ela faltava-me, assim, desta maneira.


4

Só um ou dois dias depois te dás conta de que existe mesmo.
Preparas a casa como podes, acendes a lareira, a manhã
transporta-a consigo, uma e outra te completam. A tua vida
é já diferente mas só dois ou três dias depois começas a ter

saudades a todos os minutos. Gostará de Bach? Há um quarteto
de Mozart que prezas especialmente, mas nenhuma perfeição
é essencial diante do seu corpo tão precário. Sobreviverá
às vacinas, aos trabalhos escolares, a poesia deve falar disto,

precisamente, e mesmo assim seria pouco para descrever
o que acontece lá dentro, no coração. As palavras, claro, não te
faltam. Antes os nomes certos, isso sim – irás aprendê-los

de Janeiro para Janeiro, em passeios pela serra, aventuras
entre os pinhais, rente às cancelas das hortas, sob os pomares,
em alguns livros, se não te faltarem – como agora – as palavras.

Publicado por José Mário Silva em janeiro 21, 2004 12:23 PM | TrackBack
Comentários

poemas da maria prazeres.
os editores devem estar loucos.

Afixado por: fernando esteves pinto em janeiro 21, 2004 01:42 PM

Não estou certo de ter compreendido. Quem é a maria prazeres?

Afixado por: José Mário Silva em janeiro 21, 2004 02:04 PM

uma figura quase típica aqui de olhão que também escreve poemas deste tipo ao filho que tem agora 40 anos.
ora, esse tipo não me cheira a poeta.

Afixado por: fernando esteves pinto em janeiro 21, 2004 07:32 PM

E a que é que cheira um poeta, Fernando? A fumo de cigarros, a sexo, a insónia? A essência de rosas, a Eternity for man (Calvin Klein), a lavanda?

Afixado por: José Mário Silva em janeiro 22, 2004 09:50 AM

Ora aí está um belíssimo título para um poema: a que cheira um poeta?

Afixado por: Rui MCB em janeiro 22, 2004 10:41 AM

só sei a que "cheira" um não-poeta: a enjoo. a náusea. nunca "cheira" a eternidade.
há poemas para todos os poetas.

Afixado por: fernando esteves pinto em janeiro 22, 2004 02:38 PM

Não será apenas um poema, ou uns versos que definem um poeta.
Compreendo o que o Fernando quer dizer - o poeta tem de ser um a pessoa intreventiva.Cheirar a coisas mais profundas.
Mas deixemos ao poeta a liberdade de escrever também coisas simples. será um mau poeta se fizer só isso!

Afixado por: Joao Norte em janeiro 22, 2004 04:13 PM

Continuo a não compreender a animosidade para com os versos (para mim, muito belos) do Francisco José Viegas. Haverá coisa mais profunda do que o amor de um pai pela sua filha?

Afixado por: José Mário Silva em janeiro 22, 2004 05:50 PM

a cada poeta os seus poemas. ao f.j.v. calhou este bordado poético. a profundidade é tão legítima como o filho a quem se dedica os versos do coração. não confundir paternidade com a grandiosidade da poesia.

Afixado por: fernando esteves pinto em janeiro 22, 2004 09:34 PM

agradam-me estes poemas. não julgo que sejam enjoativos. porém, sou pai há 9 meses. será por isso que gosto destes poemas? não sei. quanto à eternidade, só sei de uma: a do tempo. o resto, mais tarde ou mais cedo, será esquecimento.

Afixado por: hmbf em janeiro 22, 2004 10:38 PM

OK, Fernando. Ficas na tua; eu fico na minha. Gostos não se discutem.

Afixado por: José Mário Silva em janeiro 23, 2004 10:17 AM

Não, Zé Mário? Pois os gostos é que se discutem. Estes versos, na sua aparente ligeireza, na sua aparente superficialidade, parece-me que hão-de resistir ao tempo, se o tempo lhes souber resistir a eles. Porque o tempo é destas coisas assim que um dia se socorrerá - da chuva do inverno, do perfume que fica (para sempre) numa camisa de flanela.

Afixado por: jcb em janeiro 23, 2004 11:23 AM

poesia é a filha
de resto toda a poesia é um sucedâneo do amor
hoje gosta-se, amanhã gosta-se mais
depois gosta-se menos ou mais
poesia não é o poema mas a manhã do poema
ou não?

Afixado por: mp em janeiro 23, 2004 05:37 PM

Eu cá fico na do Fernando. E não são os gostos que se discutem (deixa-se de ter argumentos quanto se invocam gostos), é a estética ou a falta dela, que o assunto é outra coisa. Escrever poesia sobre os filhos ou sobre a ausência divina ou outro assunto qualquer presumidamente profundo é uma falsa questão: as mais "profundas" questões podem ser tratadas com frivolidade, pose, etc. com uma forma interior inábil e com uma forma exterior deplorável, a qual, neste caso, de poema só tem a divisão de textos de prosa em dois quartetos e dois tercetos de versos longos, 15, 16, 18 sílabas, sem a força (e a justificação)que tais versos sempre exigem. Isto para não falar no soneto. Não bastam, como se sabe, duas quadras e dois tercetos, e dizer eis um soneto, ainda por cima com as estrofes cortadas à tesoura.

Pelos vistos, o Mário tem de reflectir bastante sobre poesia, e falar com menos facilidade, e depois poesia é sempre ritmo e música, qualquer que seja a noção que disso se tenha (a de Mozart não é, por exemplo igual à de Boulaise).

Nestes "sonetos" que não são sonetos pelas razões que disse, não há nada disto. Não são poesia. São prosa. Estendam-se em forma de texto e dê-se-lhe o nome devido.

No mais, compreendo, aceito e defendo que cada um faz o que pode e a mais não é obrigado.

Afixado por: César em janeiro 25, 2004 01:35 PM

Acho sempre muita piada a quem diz, com ares de Salomão, isto é poesia e isto não é.
As coisas não são assim tão simples. Felizmente.

Afixado por: José Mário Silva em janeiro 28, 2004 09:51 AM

Sim, jcb, tens razão. É claro que os gostos se discutem, não podemos é impô-los a quem não quer (ou não pode) compreendê-los. Como tu, também acho que a beleza frágil destes versos há-de ficar.

Afixado por: José Mário Silva em janeiro 28, 2004 09:53 AM

olá a vocês! até que enfim! oiço gente a ir ao profundo de si procurar a essência da poesia e do poeta!
é verdade, que aqui, na vossa útil e gratificante troca de impressões, nem se trata de eruditos nem de populares, mas de poetas, já que poeta pode surgir aonde quer que seja, com seu rol de revoltas de ternuras de amor de raiva, ódios e tudo o que transporta o ser humano, mas elevado a potência tal que as palavras e as imagens furam o solo do intimo do poeta e escorrem em poesia, seja qual for o grau de instrução a que pode aspirar
poeta nao faz so versos , nao! poeta, faz amor com as palavras que lhe nascem do contraste de suas emoções de suas realidades, renuncias, de privaçaoes! poesia grito, mesmo que de ternura, ou de revolta!
o que poeta nao é de certeza, é indiferença e silêncio ante a diferença principalmente se geral
ai! que bom é desabafar, com quem entende
abraço em poesia a todos vós
e viva a poesia
e viva a amizade entre os povos
Marília Gonçalves

e ja agora como informação em O Dono da Loja
http://www.ferool.info/index5.htm
esta-se em luta pela dignificação do poeta e da poesia, pelo reconhecimento do trabalho poético
venham até la dar a vossa força e inteirar-se do que se passa

Afixado por: Marília Gonçalves em julho 8, 2004 09:11 PM

olá a vocês! até que enfim! oiço gente a ir ao profundo de si procurar a essência da poesia e do poeta!
é verdade, que aqui, na vossa útil e gratificante troca de impressões, nem se trata de eruditos nem de populares, mas de poetas, já que poeta pode surgir aonde quer que seja, com seu rol de revoltas de ternuras de amor de raiva, ódios e tudo o que transporta o ser humano, mas elevado a potência tal que as palavras e as imagens furam o solo do intimo do poeta e escorrem em poesia, seja qual for o grau de instrução a que pode aspirar
poeta nao faz so versos , nao! poeta, faz amor com as palavras que lhe nascem do contraste de suas emoções de suas realidades, renuncias, de privaçaoes! poesia grito, mesmo que de ternura, ou de revolta!
o que poeta nao é de certeza, é indiferença e silêncio ante a diferença principalmente se geral
ai! que bom é desabafar, com quem entende
abraço em poesia a todos vós
e viva a poesia
e viva a amizade entre os povos
Marília Gonçalves

e ja agora como informação em O Dono da Loja
http://www.ferool.info/index5.htm
esta-se em luta pela dignificação do poeta e da poesia, pelo reconhecimento do trabalho poético
venham até la dar a vossa força e inteirar-se do que se passa

Afixado por: Marília Gonçalves em julho 8, 2004 09:12 PM

justamente em o DONO DA Loja http://www.ferool.info/index5.htm
rem uma rubrica sobre o que é o poeta, amigos, gostava de prla ver vossa opiniao, pois sabem que chao pisam, basta o nome do vosso blog, venham dar-me uma maozinha, vêm? fico a esperar por vocês e desculpem se me afastei um pouco do assunto principal, mas é tudo pela causa da poesia
viva a poesia
Marilia Gonçalves

Afixado por: Marilia Gonçalves em julho 8, 2004 09:30 PM

Guitarra que te tocava
cigarra fantoche grilo
enrolado sobre as formas
de teu irreal tranquilo
génio além de quanto som
de quanta alada visão
era o único! o teu tom
que elevava o coração
agora a tua guitarra
vai procurar tuas mãos
que nunca mais a agarram
ficamos orfãos! irmãos!

Marília


Lembro-me de ti Carlos Paredes, numa noite de música no Teatro Lethes de Faro, em 1977. Era verão, e estavam presentes mais dois vultos da Cultura Portuguesa, o José Gomes Ferreira, esse vulto de anc~~ao inesquecivel, de cabeleira branca, como se a lua o tivesse coroado, com seu ar humano e bom, e o Adriano, o nosso inesquecível e terno Adriano! de vocês três já nenhum volta a animar nenhum sarau, nenhuma noite de Cultura, de música, de poesia. Queria dizer-te tudo o que me vai por dentro neste momento em que nos deixaste! e o que me vai por dentro não se traduz em palavras, soam lágrimas que caem no silêncio duma solidão infinita!
Ai meu amigo, que quando morre um Artista, como tu, como eles, a nossa pobreza cresce tanto, que mesmo o grito que nos sobrevoa o rasgão aberto para sempre, não tem força para dizer o que é
Sinto-me vazia! vazia e esmagada por dentro! Porque morreste e porque não tiveste a vida que os que te amavam, os que se desalteravam com tua música, teriam querido para ti! mas sabes? claro que sabes! Nós meu querido amigo, somos, uns, fazedores de versos, outros, inventores de música e de mãos que a desferem, mas em nossas mãos onde brota Arte, não cresce nunca a vileza do ouro e do dinheiro. Por isso nossa vontade solidária, embora grande, nesse campo é tão fraca! é que nunca podemos dar a um amigo nada mais que o nosso coração!que o nosso apreço! e embora isso seja importante,e indispensável, não sustenta um homem, uma mulher, uma família!
entregaste tuas mãos onde poisava a magia da música, a tarefas que te traziam o direito indispensável de sobreviver! e assim foste vivendo, mas sempre com esse manacial de sons que desaguavam na tua guitarra, a dar a cor aos teus dias e aos nossos!
poetas, músicos pintores, escultores, artistas, a colorir e a perfumar a vida; numa época gelando, a trazer no criativo invento, o calor que falta à humana necessidade de acreditar.
Por todos os que estão, que permanecem contra ventos e marés, que sobrevivem numa Arte que traz nela os alicerces da vida, não vamos mais calar nossa crença: a Arte tem um papel fundamental, na transformação das mentalidades, na transformação da sociedade, porque tem que semear pelo mudo, a certeza de que o ser humano, traz nele a solução de todos os seus problemas. Morreu Carlos Paredes, e aqueles que o ignoraram, que lhe negaram o direito de ser aquilo que realmente era, um músico com o direito de viver de sua música, vão até começar, seu cortejo de fúnebres lamentações! não nos deixemos enganar!
Carlos Paredes, se tivesse podido viver de sua música talvez ainda hoje estivesse vivo.
Pelo direito a viver, pelo direito ser o músico que foi, (sempre estes verbos no passado a que me não faço!!) desgastou-se muito mais que o necessário!
e agora? Agora nosso pranto, nossa dor, não o trazem à vida. Vamos continuar a escutar-lhe a Guitarra, a saborear-lhe os sons como se nada fosse conosco? qual o futuro Paredes, qual o futuro abandonado?
Para que tudo mude não nos calemos nunca mai!. pela sua grata e generosa memória e por quantos Paredes nos venham a nascer e a morrer em Portugal! Para que tudo mude, não silenciemos nunca, denunciando toda e qualquer forma de hipocrisia!
Honra à sua grata memória
Viva a Arte
Viva Portugal !


Portugal mais uma vez de luto!!!!
Faleceu Carlos Paredes
a Guitarra portuguesa chora as mãos que a desferaim com o génio que Carlos Paredes tinha
Agora, que se lhe façam homenagens! mas nunca nada pode apagar a ofensa dos que governam Portugal ignorando quase, o Génio ao abandono! Quando governos de nosso Portugal vão olhar seus artistas com o respeito que merecem? Quando sua dignidade vai começar a ser honrada e enaltecida? é preciso que venha a morte? Que palavras encontrar num momento destes, quando ficamos tão mais pobres na nossa Cultura! eu não tenho mais palavras! agora deixo lugar às minhas lágrimas de poeta, de ser humano e de cidadã cada vez mais pobre! Adeus Amigo! até à curva do caminho onde quem sabe nos espera a tua Guitarra, as tuas mão de música e nossos poemas! até sempre companheiro! Até à Música e à Poesia
Marília Gonçalves

Afixado por: Marília Gonçalves em julho 25, 2004 12:34 AM
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