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dezembro 26, 2004
DEUS ESCREVE DIREITO?
Pelo segundo ano consecutivo, a comemoração da vinda ao mundo do filho do nosso Deus é seguida por um sismo apocalíptico. Mais uma vez, milhares e milhares de homens, mulheres e crianças morrem a 26 de Dezembro, por razão nenhuma; tiveram simplesmente o azar de viver no local errado, na pior das alturas.
Para um ateu, esta ironia é apenas mais um reflexo da ausência de qualquer espécie de desígnio nos destinos humanos, mais um acaso cego da natureza que nos devolve ao nosso lugar de coisas arrogantes mas minúsculas e tão frágeis.
Para quem acredita numa divindade carregada de bondade, omnipotência e outros predicados intangíveis, aqui está mais um belo quebra-cabeças: onde caberá a noção de justiça divina na imagem insuportável – e que não larga os nossos televisores – do pai que atravessa uma rua inundada carregando o corpo rígido do seu filho? Uma criança que ainda ontem brincava, indiferente ao nascimento de um Jesus de que nunca ouviu falar, acordou hoje para ser engolida por um oceano tresloucado. O que poderão conter estas "linhas tortas", para lá de "a tale, told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing"?
Publicado por Luis Rainha às dezembro 26, 2004 11:56 PM
Comentários
falho em ver a relação.... como rematas, só mesmo um visão eurocêntrica, cristão, a poderá ver...
Publicado por: alexandre em dezembro 27, 2004 12:56 AM
Tens toda a razão.
Publicado por: MCG em dezembro 27, 2004 01:04 AM
belo post Luís, ainda que só para algumas cabeças e estomagos.
Publicado por: celsomartins em dezembro 27, 2004 01:49 AM
A morte ocasional de dezenas de milhares de pessoas por acidente geológico impressiona-me menos do que a morte anual de mil pessoas por acidentes rodoviários em Portugal. A morte de milhares por acidentes rodoviários impressiona-me menos do que a morte de uma mulher espancada pelo marido alcoólico. A morte de uma mulher espancada pelo marido impressiona-me menos do que a morte de crianças israelitas num autocarro explodido por um palestiniano suicida.
Quem leu a Bíblia sabe que a perplexidade do Luís Rainha está lá, no Antigo como no Novo Testamento. Mas também está em outras religiões. O que não se encontra é a resposta que satisfaça o positivismo da pergunta.
Não sabemos como se cumpre a vontade de Deus na morte da criança atingida pelo soldado israelita, no assassínio do idoso pela enfermeira, nas vítimas da SIDA, nos que são mortos por defenderem a liberdade.
E ainda bem que não sabemos. Sinal de que estamos vivos.
...
Estar vivo é bem mais incompreensível do que estar morto.
Publicado por: Valupi em dezembro 27, 2004 09:11 AM
Acredito em Deus-Amor. Quanto à denominada
"omnipotência" de Deus chamar-lhe-ia antes "omni(m)potência" de Deus. Tendemos a designar por este conceito um atributo humano. Ora, de um ponto de vista lógico, este é um conceito impossível: a omnipotência total deveria poder permitir a omnimpotência total. Isto é o conceito de omnipotência (tal como os humanso o concebem) é um contradictio in adjecto, uma contradição no próprio termo.
Publicado por: timshel em dezembro 27, 2004 09:43 AM
Epá, Luis, já discordei de ti noutras ocasiões, mas nunca tanto como nesta. O que tem uma coisa a ver com outra? Como raio consegues tu tirar de um maremoto a prova da inexistência de Deus é algo que me ultrapassa.
"mais um acaso cego da natureza que nos devolve ao nosso lugar de coisas arrogantes mas minúsculas e tão frágeis"
Porquê? É mesmo cego ou somos nós que não vemos?
Bem...tenho de ir trabalhar, outra prova da inexistência de Deus.
Publicado por: Monty em dezembro 27, 2004 10:16 AM
Caro Luís,
demagogia anti-religiosa? Que falta de sensibilidade e bom senso. Quase que te imagino a rasgar as roupas, a chorar os milhares de mortos e a culpar pela tragédia um deus que não existe. Aquela da coincidência das datas das tragédias é o fundo do poço. Por vezes, embrulhas-te mesmo. O que é que dizia o Wittgenstein sobre o calarmo-nos?
Saudações ateias.
Publicado por: Bruno Vieira em dezembro 27, 2004 10:36 AM
Juntando à discussão uma visão agnóstica (já conheço os comentários inscrevendo a palavra no index, façam-me só o favor de não a colarem à 'tralha New Age'), o post do Luis Rainha parece-me de facto sofrer de... precipitação na reflexão.
Claro que para quem a quiser encontrar, a 'ironia' latente na "sequência de eventos" é tentadora. Deveremos ser levados por isso a assumir que aquilo que 'salta aos olhos' dos cerca de 30% de cristãos existentes no mundo tem algum significado para todos os outros não cristãos (e... é fazer as contas... são à volta de 70% - vulgo 'a maioria da população da Terra') ?
É aí que o raciocínio do Luis coxeia ligeiramente. E quem diria que o ateísmo haveria de revelar tiques etnocêntricos judaico-cristãos?
No entanto, e com excepção da tal busca de uma ironia 'restrita', o post constitui uma reflexão fundamental (que aliás vem de longe) e está colocada nos termos precisos: de facto a profusão de religiões assentes em pais protectores ou entidades atentas, dedicadas às àrduas tarefas de castigar e recompensar na base de uma qualquer justiça que os crentes precisam de encontrar 'elsewhere', choca de frente e com estrondo, e diáriamente, em catástrofes naturais ou outras, frutos da crueldade voluntária da Natureza ou involuntária... da estupidez.
Pessoalmente, julgo desde há muito que a ciência é a resposta que temos disponível. E também ela está cheia de ironias, fruto da realidade ela mesma, e não de interpretações humanas... mais ou menos condicionadas por conceitos e hábitos adquiridos.
E já agora, de algum modo ténue relacionado com isto... não sei quantas pessoas se aperceberam que ontem a televisão de serviço público entendeu emitir um 'filme', de que só vi o início... revelador. Tratava da 'criação do mundo' pelo Deus judaico-cristão, com todos os matadores.
Excelente serviço prestado à causa da educação. Lembro-me de há uns 30 anos, teria eu 8, coisa parecida (ou a mesma) ser recorrente na programação de Natal.
Que programas como 'Cosmos' de Carl Sagan não sejam repetidos, e que os bons programas de divulgação científica estejam relegados para o canal 2 parece perfeitamente compatível com o tal filme de domingo à tarde.
Publicado por: Luis Paulo em dezembro 27, 2004 12:21 PM
Luís Raínha tem a visão fatalista de um deus que não existe. Eu, como católico, não veo Deus a mexer num computador e a lançar a morte. Deus fez o mundo e entregou-o ao homem e à natureza. Luís Raínha tem de Deus a visão de quem se ajoelha em Fátima: (não) acredita, mas espera que o menino não fosse engolido pelas águas por um qualquer deus que o salvaria.
Publicado por: Marujo em dezembro 27, 2004 01:29 PM
Mas afinal o grande Dilúvio não foi obra de Deus?Qual o espanto?
Publicado por: wuz em dezembro 27, 2004 01:35 PM
No meu comentário 'lá em cima', cometi um lapso de escrita estranho que desvirtua totalmente uma das minhas afirmações-que-valem-o-que-valem: deve ler-se "catástrofes naturais ou outras, frutos da crueldade involuntária da Natureza ou voluntária... da estupidez."
Não havia necessidade.
Publicado por: Luis Paulo em dezembro 27, 2004 02:52 PM
"Culpar pela tragédia" Deus? Aonde fiz tal coisa sem nexo?
Apenas me parece estranho chamar Pai e ter como infinitamente misericordioso alguém que tal permite. E como acreditar nos milagres da Santa Alexandrina quando seria muito mais discreto e menos intrusivo da nossa liberdade impedir este sismo, por exemplo? É este Deus de barbas brancas e colo sempre pronto para receber os seus filhos que me parece algo bizarro.
Falei em "quebra-cabeças"; claro que sei que já grandes cabeças se dedicaram a resolvê-lo. Os resultados dessas demandas é que parecem sempre um pouco fúteis nestas alturas. Só isso.
Publicado por: Luis Rainha em dezembro 27, 2004 05:00 PM
É óbvio que este é um assunto merecedor de reflexão e que nos toca, à maioria de nós, bem de perto - não admira esta abundância de comentários, aqui e além, poucas horas depois da sua publicação. Pessoalmente não sei o que pensar. Alguns dos seres humanos mais dignos, e humanos, que conheci, eram ateus ou agnósticos. Talvez também me tenha tornado céptica, e mesmo agnóstica, nos últimos anos, apesar de ainda me considerar cristã, uma cristã ecuménica. Deixei de acreditar, todavia, num Deus interventivo na história humana, pelo menos directamente. Vejo-o antes como uma ideia a implementar por todos nós, em cada gesto. Há o Deus que nós quisermos fazer e pôr em prática.
Publicado por: Ana Miranda em dezembro 27, 2004 05:08 PM
Caro Luís, desculpe, mas volta a insistir na culpa de um deus que não existe: «chamar Pai e ter como infinitamente misericordioso alguém que tal permite». (Ou no post original, a ironia do remate do texto: "a tale, told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing"?)
E confunde as coisas («E como acreditar nos milagres da Santa Alexandrina»). O Luís é que parece insistir numa abordagem «fútil» e esperar um qualquer "milagre" (de Fátima?): «quando seria muito mais discreto e menos intrusivo da nossa liberdade impedir este sismo, por exemplo?»
«É este Deus de barbas brancas e colo sempre pronto para receber os seus filhos que me parece algo bizarro.» Deus não intervém no mundo como um «velhinho de barbas brancas sempre pronto para receber os seus filhos» (não confundiu com o Pai Natal?).
De "bizarrices" estamos conversados: «Para quem acredita numa divindade carregada de bondade, omnipotência e outros predicados intangíveis, aqui está mais um belo quebra-cabeças». A bondade - e o Amor - da «divindade» é vivido no dia-a-dia pelos homens e mulheres, não por uma qualquer coisa intangível. Esse é que é um «quebra-cabeças» tramado e difícil de praticar... Mais vale partir a cara a alguém, como faz o Bush ou Bin Laden.
Publicado por: Marujo em dezembro 27, 2004 06:21 PM
mas haverá melhor prova da existência de deus do que a morte de milhares de infieis em dois dias 26/12 em anos seguidos? primeiro 30 mil infieis do Islão, e agora ainda mais milhares de pederastras e pedófilos orientais....
ou há dúvidas que já se fazem apostas entre os cristãos fundamentalistas sobre qual o povo maldito escolhido pro próximo dia 26/12?
sarcásmos a parte...não me parece que esses cataclismos naturais sejam prova da existência ou não de Deus.
Publicado por: marini em dezembro 27, 2004 08:25 PM
Marujo,
Claro que eu não insisto na culpa de Deus, pois ele para mim é um ser ficcional, logo não poderá arcar com grandes culpas. Assim sendo, eu não espero milagres; limito-me a inquirir quem os aceita a propósito de coisa nenhuma - a suposta "miraculada" de Fátima, já que fala nisso - e acha normal que Deus deixe correr o marfim num caso destes.
Mas cada um vive com os paradoxos que quer. Por falar nisso, gostaria de ver mais explicada essa coisa de "A bondade - e o Amor - da «divindade» é vivido no dia-a-dia pelos homens e mulheres"... não estou bem a ver que sentido faz "viver" um fenómeno que não se manifesta. A não ser que você também O confunda com o Pai Natal...
Marini,
A tal tentativa de "sarcásmo" (sic) é repugnante. O pensamento subjacente é débil: ninguém quis aqui provar existência ou inexistência de coisa alguma.
Publicado por: Luis Rainha em dezembro 28, 2004 12:57 AM
A imagem do "Deus de barbas brancas" é Coca-Cola espiritual. Só a utiliza quem está na fase do refrigerante e ainda não foi iniciado nos prazeres adultos do vinho.
Discussões sobre a providência divina são inúteis fora do território da crença. Porque para quem está fora, é puro absurdo. Se não se admite a causa, para quê reclamar do efeito? Ateus e agnostas, a não ser que estejam em missão proselitista, têm mais em que pensar.
É um facto que o texto do Luís Rainha, e subsequentes argumentações, manifestam uma ingenuidade intelectual disfarçada de clarividência justiceira. Quem não teve, aos 15 anos, a crise existencial sobre a natureza do Deus cristão (o que nos tocou no sorteio geográfico)? Poderia um deus "bom" ser passivo, eventualmente cúmplice, com o "mal"?... Pois a nossa lógica aristotélica recusa-se a aceitar tal mixórdia. Vai daí, "Deus não existe" – posição que o mais das vezes, através dos mecanismos do pensamento mágico, é eflúvio da outra que diz "Ele existe, mas é um cabrão."
A referência melodramática, esteticamente patética, "do pai que atravessa uma rua inundada carregando o corpo rígido do seu filho?" é o que revela. A imagem de "Uma criança que ainda ontem brincava, indiferente ao nascimento de um Jesus de que nunca ouviu falar, acordou hoje para ser engolida por um oceano tresloucado." é o que prova. O Luís Rainha acredita tanto em Deus que está furioso com a Sua incompetência na gestão das coisas mundanas.
E, se calhar, somos todos assim. Até os ateus mais esclarecidos e arreigados. Daí o chiste que diz ser o ateu aquele que mais pensa em Deus. Na mística, o ateu está muito próximo de Deus; bem mais do que o crente comum ou até o religioso profissional – e quem tiver olhinhos, que leia.
É vulgar (em sentido pejorativo) emitir opiniões sobre a religião que não passam de espasmos emocionais. Fala-se de sombras de cópias. Ignora-se que alugámos uma caverna. Só que a história conta-nos outras estórias. Os textos bíblicos, para não ir mais longe e ficarmos pela matriz Ocidental, podem ser tudo menos ingénuos. Antes de começar a caçada, há que conseguir reconhecer o animal, não vá a seta perder-se no vazio.
Quem é Deus? Da resposta a esta pergunta depende a boa fé dos nossos raciocínios sobre as matérias com Ele relacionadas. And to make the long story short, vamos atalhar caminho e dizer que é uma de duas coisas: um adjectivo ou um substantivo. Os de nós que não O conhecem tomam-no como adjectivo, dando-lhe um valor (que pode ser positivo ou negativo, etc.). Os que O conhecem tomam-no como substantivo, usando-O como material (substantivo, lá está).
O que se pode fazer com esse material? Pode-se evitar terramotos? Acidentes de trânsito? Ataques de caspa? A resposta, obviamente, é... SIM. Vamos repetir, quem acredita em Deus consegue anular terramotos, desviar-se do condutor embriagado e ter uma cabeleira imaculada.
Como?... Pois é, e isto é lindo, bastando acreditar... Demasiado facilmente esquecemos que a teia de relações físico-químicas a que chamamos "realidade" é apenas mais uma projecção possível entre outras. Demasiadamente preguiçamos nessa outra crença de estarmos a ter um acesso privilegiado ao "real", só porque ele acontece na nossa consciência, e como se essa fosse a versão final do filme. Porque não lemos os antigos, os quais tinham mais tempo e pachorra para pensar, ignoramos que o excesso de luz é uma outra forma de cegueira.
Experimentem ler a Bíblia (ou outra qualquer fonte inspirada que fale desses "disparates" de haver Deus ou deuses, Espírito ou Ser) com a curiosidade virgem com que se lê o diário de alguém. O Antigo Testamento tem muita ganga simbólica, pedindo enquadramento explicativo, mas o Novo Testamento é um documentário bem acessível para iliteratos religiosos. Lá, Jesus é um homem que quer fazer da sua vida uma experiência de dignidade. Para isso, junta-se a outros que comungam do mesmo desejo. E juntos fazem uma revolução. Que invoquem Deus como chancela fundadora poderá não ser um acaso. Às tantas, é um imperativo do intelecto, uma estratégia evolutiva, uma necessidade genética, um plano cósmico.
Se há seres humanos que objectivamente praticam o bem (desde que concordemos em que o bem é ajudar o próximo sem lhe pedir retribuição, por exemplo), movidos por uma experiência sempre inacessível no seu empirismo subjectivo mas descrita como divina, quem somos nós para a pôr em causa?... Bom, somos uma cambada de cínicos, pois, mas esse estatuto apenas nos descreve, não qualifica terceiros.
A sua pergunta, Luís, sobre o sentido de viver o que "não se manifesta" é que releva da ficção. É por se manifestar que pedimos mais, esperamos Tudo.
Publicado por: Valupi em dezembro 28, 2004 04:49 AM
não me parece que uma sarcasmo que não é repugnante tenha a mínima piada....
eu também sou ateu. Mas sinceramente não percebo que outra ideia se pode tirar do teu post que não colocar em dúvida a crença na existência num determinado tipo ("carregada de bondade, omnipotência e outros predicados intangíveis")de figura divina. Ou melhor, a compatibilidade dessa crença com os recentes desastres naturais no Índico. Não me parece que seja por aí que consegues fundamentar a debilidade dessa crença.
e, meu amigo, se o teu ateísmo é rasteiro o suficiente pra levar esse tipo de argumentos em consideração...enfim...
Publicado por: marini em dezembro 28, 2004 06:32 AM
Para os que não acreditam em profecias ou que não querem ouvir falar sobre um Juízo, sugiro então que observem mais atentamente, e imparcialmente, o mundo ao seu redor. Não precisam ir muito longe. Basta comparar o mundo de sua infância e o de seus pais com o que têm de viver agora. Não poderão deixar de reconhecer que o mundo piora dia a dia. Aliás, piora não é bem o termo, pois na verdade o mundo está sendo curado, limpo. Toda a sujeira está sendo varrida dos cantos mais obscuros para a luz do dia. E à limpeza pertence o recrudescimento e conseqüente desmoronar de todo o mal, a destruição de tudo quanto se opõe às Leis da Criação, isto é, de tudo o que se opõe à Vontade de Deus. A isso pertence também os seres humanos maus, que mais uma vez não pretendem se modificar. A Terra está sendo limpa deles.
Publicado por: jaslb em dezembro 28, 2004 08:38 AM
Deduzir a inexistência de Deus com base nas catástrofes que ceifaram a vida a milhares de pessoas nestes dois natais é ridículo e intelectualmente desonesto. Os ateus costumam afirmar que os crentes em Deus, baseiam os argumentos da Sua existência, na impossibilidade da prova da sua inexistência... por isso é que são ateus.
Publicado por: Aníbal em dezembro 28, 2004 03:55 PM
Valupi,
Tanta palavrita gasta e... tão pouco na realidade dito. Olhe que há allturas em que o estilo não basta para dar verniz a coisa nenhuma.
Olhe que a tal "Coca Cola" está mais que entranhada em toda a teologia Católica dos últimos séculos. E claro que não é "inútil" discutir minudências teológicas quando nelas não se crê; aliás porque haveria de ser de outra maneira? Porque lhe dá jeito à argumentação? Não basta emitir aforismos pretensiosos, faz falta sustentá-los.
E essa treta de "relações físico-químicas a que chamamos 'realidade' é apenas mais uma projecção possível entre outras" cheira a espiritualismo de pacotilha, assim coisa à moda do Paulo Coelho. A história dos "antigos" e da "luz" pelo mesmo folclórico caminho segue.
Você deve pensar que é o primeiro a ler a Bíblia. Enfim; se isso o conforta...
Para finalizar, o jogo de palavras com que encerra o seu comentário é apenas prestidigitação verbal: é "por se manifestar" o quê, ao certo? E como?
Muita parra. De uvas, nem cheiro.
Publicado por: Luis Rainha em dezembro 29, 2004 01:13 AM
Valupi,
Já agora, se quiseres deparar com um néscio que não conhecia os tais finos vinhos espirituais com que de certeza te enebrias quotidianamente, podes sempre regressar ao Voltaire. Ele também devia andar a beber Coca Cola a mais quando escreveu o seu célebre poema sobre o desastre de Lisboa:
Aux cris demi-formés de leurs voix expirantes,
Au spectacle effrayant de leurs cendres fumantes,
Direz-vous: "C'est l'effet des éternelles lois
Qui d'un Dieu libre et bon nécessitent le choix"?
Direz-vous, en voyant cet amas de victimes:
"Dieu s'est vengé, leur mort est le prix de leurs crimes"?
Quel crime, quelle faute ont commis ces enfants
Sur le sein maternel écrasés et sanglants?
Lisbonne, qui n'est plus, eut-elle plus de vices
Que Londres, que Paris, plongés dans les délices?
Publicado por: Luis Rainha em dezembro 29, 2004 03:06 AM
Concedo, Luís. Sou mais uma "fashion victim", embora não anoréxica. Para agravar o caso, já tive a minha fase Paulo Coelho e sou dado ao folclore, o musical e o etnográfico.
Num ponto estamos de acordo: gastamos muitas palavras para dizer tão pouco (isto, sendo optimista). Porém, há que continuar a tentar dizer, até ao fim. Sinto-o comigo, nessa demanda.
Eu também achava que as relações físico-químicas eram uma treta. Até ao dia em que li um livro de biologia sobre a vida de uma carraça. Aprendi que a realidade é variável. Mais tarde, estudando outra classe de predadores, aprendi que os humanos vivem numa realidade avariável. [Sim, lá estou eu a fazer jogos de palavras; é compulsivo, não se irrite.]
Talvez o amigo Luís alinhasse numa discussão sobre física quântica. É uma rapaziada que não se assusta com o cardápio dos espiritualismos de pacotilha, esses maluquinhos que enfiam matéria e energia nos pacotes da matemática e nos avisam que nem tudo o que parece é como aparece. Não o quero assustar, mas vejo-me obrigado a revelar-lhe que é obrigatório abandonar as referências da experiência comum para se poder investigar cientificamente. O que nenhum cientista fará, pelo menos em estado sóbrio, é excluir possibilidades ou confirmar teorias. A ciência é uma deriva, não um porto de chegada.
Muito bem. Uvas? Tentarei servi-las. Armando-me em psicanalista de tasca, diria que o drama do Luís é em tudo igual ao dos coevos de Jesus. Também a esse prestidigitador eram requeridos sinais, milagres (para sermos etimológicos) ou manifestações (para ficarmos no léxico que escolheu). O que esperavam os judeus de Jesus? Que manifestações seriam essas?
Dos livros, da exegese, da hermenêutica, da investigação histórica e antropológica, podemos dizer que esperavam manifestações de poder sobrenatural e político. Se do sobrenatural nada há que confunda (quem não achará útil, e de um exótico até chique, curar cegueiras com cuspo, certo?), sobre o político importa esclarecer. Os judeus esperavam um chefe bem terreno, o tal Messias, que cumpriria a profecia relativa ao Reino de Israel – eles iriam ter finalmente um quinhão de terreno e deixariam de ser melgados pela vizinhança. Assim, o político era o religioso; validado pela genética, quem é que era filho de quem. Neste contexto, o que fez Jesus? Ensaiou a pose mas no final baldou-se – por incúria, azar, ousadia, loucura ou intuição. [riscar o que não interessa]
Para espanto de muito boa gente – e maldição de muitos mais, que assim vieram a nascer numa cultura que demonizava a pulsão sexual por causa de um Agostinho que estava fadado para entrar em cena séculos mais tarde – os sinais continuaram após a morte do líder. O cristianismo nasceu, ganhou balanço e voltou às ramadas da Árvore do Conhecimento, desta vez levando as maçãs todas que conseguiu apanhar. Nem os Romanos lhes resistiram e o resto, como diria o Fukuyama, é o fim da história.
Problema: os sinais invocados por milhares, ao longo de milhares de anos, são realidade ou ilusão?
Estamos perante um dilema clássico, acerca do qual já parece ter sido tudo dito, o da concomitância da ausência de Deus e da presença dos crentes. Não estando nós a elaborar uma tese de doutoramento, vamos ser rápidos (e nano-redutores); perguntemo-nos se a realidade se reduz à sua manifestação material.
Se o Luís estiver de boa fé, começa logo por me pagar uma cerveja, pois sabemos os dois que a realidade não se reduz à matéria. Ele há o vácuo e a energia, a qual assume as mais pretensiosas formas; como, por exemplo, a consciência e seus modos, a conceptualização, a memória, a imaginação.
Pegando na última, imaginemos que o obrigavam a provar o seu afecto (admite a palavra amor?...) por determinada entidade. Alguém lhe exige uma manifestação material da existência de uma determinada disposição mental (admite a palavra sentimento?...) em relação a um ser humano ou ideal (admite a existência da liberdade, não importando como a defina, ou é mais uma ficção?...). Pois bem, quais os seus recursos? Qual a sua estratégia para cumprir o quesito?
O que quer que viesse a fazer, desde escrever um poema fatela a deslocar a Serra da Estrela para o concelho de Beja, seria sempre passível de dúvida. Pura e simplesmente, com a tecnologia actual, não temos acesso directo à consciência alheia (e graças a Deus, permita-me o desabafo). O conhecimento é sempre mediado pela linguagem, a do outro e a nossa. Ou seja, o Luís admite que há no outro uma realidade que não conhece directamente, que não se oferece à prova material. No entanto, não lhe passa pelas sinapses pô-la em dúvida, porque a experimenta em si.
Voltemos ao princípio. Que tipo de manifestação lhe seria suficiente para poder vazar o desejo de beijar os pés ao Criador? Algo subjectivo, uma aparição no meio de um sonho, essa luxúria de ser um dos eleitos? Ou algo mais hollywoodesco, uma epifania que até desse para filmar e mandar para a CNN? What's your poison?
Eis o que eu sei. Há pessoas que fazem o bem e há pessoas que fazem o mal. Algumas das que fazem o bem relacionam os seus actos com a existência de Deus. Não me compete a mim julgá-las pela explicação. Mas não posso fingir que elas não fazem o bem em nome de Deus, pois não quero perder a credibilidade passando por mentiroso. Portanto, assumo que é real a existência de pessoas que fazem o bem por causa da existência de Deus. É isso mesmo que agora está a pensar, Luís: o bem que elas fazem é manifestação de Deus.
Jogo de palavras? Mas claro! Não se esqueça é do princípio, o Logos. Nunca nascerá o dia em que a palavra não seja a forma do pensamento, e este o sentido da realidade.
Publicado por: Valupi em dezembro 29, 2004 04:10 AM
Mau maria, estou à beira dum ataque de esquizofrenia com a etiqueta. Ora é "você", ora é "tu"... Eu prefiro "atuar". Acabaram-se as cerimónias pequeno-burguesas.
(achei que ficava bem este registo proletário, não achas, ó Luís?)
Publicado por: Valupi em dezembro 29, 2004 04:24 AM
Caro Luís,
As questões suscitadas pelo terramoto de Lisboa tinham actualidade em 1755. Se o post do Luís tivesse sido publicado em 1755 seria pertinente. Publicado em 2004 é fraquinho. E é por isso que trazer Voltaire como testemunha de defesa não melhora as coisas. Torna apenas mais evidentes as debilidades do teu post.
P.S: um conselho: não percas mais tempo com a Joana. Ela não dá a mão à palmatória. Nem ela, nem os seus acólitos acéfalos.
Abraço,
Bruno Vieira
Publicado por: Bruno Vieira em dezembro 29, 2004 11:19 AM
Valupi,
Vais desculpar um certo mau-génio exagerado na minha resposta anterior. Talvez fosse do adiantado da hora. Marcaremos sim e para breve essa tal cerveja, que agora não consigo angariar tempo para conversas com pés e cabeça...
Bruno,
Olha que estas perplexidades não passam de moda nem ficam obsoletas. Se citei Voltaire, não foi como testemunha de defesa, antes como parceiro de incredulidade...
Quanto à Joana, não acredito que os fiéis continuem a persistir na adoração depois desta.
Publicado por: Luis Rainha em dezembro 29, 2004 12:58 PM
Combinado. Já agora, ao Voltaire respondeu o Rousseau. Vale a pena ler, a argumentação não perdeu um caracter de actualidade, "au contraire!".
Escusas de te arrepender pela agressividade. Faz parte do meio, mas não faz mossa. Enfim, aquela estória do trigo e do joio, capiche?
Publicado por: Valupi em dezembro 29, 2004 03:16 PM