dezembro 27, 2003

VIDA E OBRA DE ARNON MAARTEN (5)

António Correia Guerreiro, musicólogo convidado do BdE, apresenta hoje mais uma das obras da primeira fase do compositor Arnon Maarten (1933-1996):

Oito peças soltas [para piano] Op. 4, de 1963 (26 min)
I – Allegro; II – Vivace; III – Moderato; IV – Andante ma non troppo; V – Sarabande; VI – Valse; VII – Mazurca; VIII – Minuete

Este conjunto de pequenas peças para piano, de natureza essencialmente didáctica, foi usado pelo compositor ao longo da sua vida lectiva, tal como aconteceu com a primeira sonata para piano. Assim, também estas miniaturas foram sendo alteradas e revistas por Maarten, devendo a sua forma final ter sido fixada apenas em 1995.
Arnon Maarten considerava estas peças como “pequenos e simples divertimentos, destinados a mostrar aos alunos como algumas formas tradicionais podem ainda, nos nossos dias, ser encaradas por um compositor sem quaisquer temores”.
Estas peças soltas compõem então um manifesto defendendo a possível modernidade e contemporaneidade das suites de danças, dado que, na prática, cada um dos oito “movimentos” revisita uma dança.
A este propósito, Maarten, no seu estilo algo desconcertante, escreve que “as oito peças soltas são mesmo isso: peças soltas. Podem ser interpretadas por qualquer ordem, em qualquer número (entre uma peça e as oito) e não deverão, em circunstância alguma, ser encaradas como uma peça em oito andamentos (apesar da numeração de I a VIII) a interpretar pela ordem estabelecida e na íntegra. Naturalmente que isto não impede que as oito peças soltas possam ser interpretadas de seguida e na ordem de I a VIII.”

Sigamos, pois, a numeração fornecida pelo próprio Arnon Maarten, salientando que todas as peças têm durações muito similares, de pouco mais de três minutos.
A peça I é uma espécie de canção pop, de melodia muito simples, quase simplista, algo como uma piscadela de olho aos Beatles, uma vez que “se o que está na moda são melodias de imediato apelo, que todos possam assobiar na rua, não há motivo para que um compositor não experimente a sua criatividade nesta tipologia sonora”. Trata-se, nãoobstante, de uma peça inteligentemente construída e que revela algumas surpresas para os ouvidos mais atentos.
A peça II é, no fundo, uma jiga de aparência celta, com um ritmo absolutamente dançável marcado na mão esquerda de forma constante e complicadas construções na mão direita, sendo exploradas sonoridades peculiares do piano que chega a ser quase absurdamente percutido (indicação na pauta de “com violência”). Ainda assim, não parece perder-se nunca o aspecto de dança da peça, apesar de o ouvinte se “poder sentir algo extenuado no fim da interpretação, ainda que tenha estado sempre sentado confortavelmente”.
A terceira peça (III) é de natureza bem mais calma e tranquila, remetendo para danças de roda de natureza popular. Maarten revela que pretendeu “que o piano soasse quase como um acordeão, esperando criar um ambiente de taberna, cheia de fumo e aldeões ligeiramente embriagados, dançando de forma pesada e certamente um pouco fora do tempo”. Lendo esta descrição percebe-se melhor esta peça quase programática, com frequentes dissonâncias de aspecto entre o cómico e o condescendente, alterações do ritmo a despropósito e uma melodia base de gosto pouco erudito. É talvez a peça com mais encanto e ingenuidade desta colecção.
Segue-se (IV) uma dança russa, em que os graves imitam o barulho das botas a bater no chão e os agudos vão fornecendo a melodia. Nesta peça tudo se passa “como que em progressiva câmara lenta”, soando mais estranha uma melodia que a princípio se percebe claramente. Também nesta peça o compositor faz uso recorrente de acordes dissonantes e do piano enquanto instrumento de percussão, sendo perceptíveis, muito perto do final da peça, citações a Prokofiev («Romeu e Julieta») que contribuem para a sensação de desagregação que esta peça proporciona.
As quatro peças seguintes (V a VIII) são as que possuem elas próprias designações de danças, correspondendo cada uma delas a uma criação ao estilo de determinado compositor, parodiando determinados estilos e épocas.
Assim, a sarabande é uma divertida desconstrução da música de Lully e da corte de Luís XIV, plena de uma solenidade e opulência que rapidamente se convertem em “ridículas rendas, perucas e pó de talco, vazias de mensagem e sentido”.
A valse é uma ácida paródia aos ambientes vienenses, com as notas “atropelando-se umas às outras enquanto mantêm um ritmo ternário insuportavelmente monótono”. A imagem sonora criada será a de um auditório que “não se apercebe da incrível chatice que é a música de que gostam, especialmente quando tocada de forma mecânica e não dando tempo a que uma nota termine para se ouvir já outra”. Esta é pois uma valsa demasiado rápida e monótona, nascida da mente mordaz de Arnon Maarten.
A mazurca vem quebrar este clima de algum escárnio, tratando-se de uma peça de muito difícil execução que serve para provar que “Chopin escrevia sempre notas a mais”. Desta forma, a peça começa com uma construção sonora verdadeiramente descomunal, que se vai progressivamente simplificando, tornando mais clara a melodia que encerrava desde o início. Esta é uma muito bela frase, que vai claramente beber inspiração a Chopin e que deve ser interpretada “de forma sincera e sem laivos de ironia, porque a beleza faz, hoje e sempre, sentido e merece o nosso respeito”.
Para terminar, uma evocação de Mozart, com um espírito semelhante ao da valse, mas muito menos monótona, apesar de igualmente “maquinal”. É uma peça “ao gosto das crianças e das montras de Natal, simples, bonitinha, mas desprovida de personalidade, ou seja, todo o oposto de Mozart”.
Como se vê, a ironia que viria a caracterizar algumas das peças mais bem conseguidas de Arnon Maarten dá aqui os primeiros passos, quer na música, quer na forma como o compositor vai apresentando as peças no seu “diário apenas íntimo porque ninguém o quer ler” (conjunto de cadernos – datados de 1979/81, 1986/87 e 1995/96; ou seja, os principais períodos em que Maarten procede à revisão da sua obra – que tem servido de base à globalidade das citações de Maarten que vão surgindo nestes textos).

Publicado por José Mário Silva em dezembro 27, 2003 08:04 PM | TrackBack
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