dezembro 29, 2003

POSH KYLIE E CARLOS RIBEIRO

Sequências intermináveis de telediscos entopem os canais "musicais".
Em cenários fantásticos proporcionados pelos avanços técnicos do digital e do virtual, repetem-se obsessivamente os mesmos maneirismos vendidos às crianças e ao povo como chave milagrosa de todas as "operações triunfo".
Gorjeios das girlbands compostas por rapariguinhas maioritariamente de cor, asfixiadas em latex, base e lipstick.
Harmonias de boysbands insuportavelmente açucaradas, em registo de balido lamecha de ovelhas diabéticas injectadas de testosterona.
Compêndios de sabedoria erótica de rua.
Com Kylie Minogue assiste-se à proliferação de um currículo de novas artes performativas onde a banda sonora é já apenas um ruído de fundo cada vez mais acessório: o menear de ancas, o trocar e destrocar das pernas em posição mais ou menos horizontal, o gesto de atirar a cabeça para trás, para tirar o cabelo dos olhos, e o esgar desafiante da boca acentuada pelo baton e distorcida pela objectiva grande angular, acompanhado de um olhar oblíquo.
A voz ciciada podia ser a da minha avó, a de um vendedor de peixe no mercado de Olhão ou a de uma máquina de flippers na feira popular.
Novas e belas "artes", uma apoteose do kitsch e do pimba que vende milhões.
Um dia virá em que talvez o franzir de testa de Carlos Ribeiro, sublinhando o esforço intelectual requerido para apresentar o ultimo êxito da Mónica Sintra, se torne num clássico da categoria.
Talvez tenhamos de vir a "preservar" os grunhidos rudes e ásperos do quim barreiros como artefactos da arqueologia industrial dos tiques audiovisuais.

Publicado por tchernignobyl em dezembro 29, 2003 09:39 PM | TrackBack
Comentários

Concordo inteiramente consigo. Infelizmente, cada vez mais é a imagem, o silicone e o arzinho de "sexygirl" que vende. Não sei se já ouviu falar de um tal de Justin Timberlake... Esse menino fazia parte de uma boys band (da qual não me lembro do nome, elas são tantas e a qualidade não é assim grande coisa para se fixar o nome) actualmente extinta. O rapazinho não cantava nada, fazia apenas uns coros e pouco mais. Pois então, este ano fez um contrato milionário com a MTV que lhe tratou do look, dos videoclips e da divulgação. Ou seja, fabricaram-no...
Agora, é só perguntar a uma teenager e ela diz-lhe que está perdida de amores pelo rapaz. E tem o Cd, claro. Eu sei, porque tenho uma cá em casa...

Afixado por: Sofia em dezembro 29, 2003 10:52 PM
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