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dezembro 19, 2004

POST SCRIPTUM

Há poucos dias, ele sonhou com a claridade febril das luzes de sódio junto à estrada. Sonhou que encontrava ali uma mulher ruiva de idade incerta: olhos famintos seguindo algo que se movia entre o arvoredo - algo que por certo ele não conseguiria ver. Pareceu-lhe bela. Mas só ao longe; aproximando-se, chocou-o o rosto marcado por mil impactos e acidentes azarados. A anatomia gasta de um anjo caído em desgraça.
No mesmo sonho, ele chegou a tentar falar com ela. Mas só o conseguia semicerrando os olhos. Não à laia de objectiva desfocada, simulando a distância. Antes como se ela fosse uma imagem digital pixelizada, carente de definição; só assim o ruído das cicatrizes, das rugas, dos dentes perdidos, desaparecia, dando lugar ao sinal claro de um rosto belo e fora do alcance do mundo. Enquanto não abrisse os olhos, até poderia imaginar que a amava.

Publicado por Luis Rainha às dezembro 19, 2004 02:53 AM

Comentários

Bonito texto.

Publicado por: booklover em dezembro 19, 2004 10:49 AM

Luis, um conjunto de textos brilhantes resultam num livro.

Abraço

Publicado por: bin_tex em dezembro 19, 2004 01:46 PM

Gostei imenso do seu texto. Adorei toda sua profundidade e sentir a beleza da junção das palavras escritas por si. No meu espaço, reservo os poemas das minhas canções e publico obras de outros autores que suscitam-me prazer ao lê-las. Poderá encontrá-las no fundo da webpage que criei. ( http://www.ensejo.blogspot.com ). No entanto, nada se compara com aquilo que escreve.

Publicado por: João Garcia Barreto em dezembro 19, 2004 04:05 PM

Belo texto!

Publicado por: Lutz em dezembro 19, 2004 04:49 PM

Infelizmente mulheres como essa há muitas nas beiras das estradas, cujos sinais de beleza do passado se diluiram no duro presente.
Um abraço. Augusto

Publicado por: misswyoming em dezembro 19, 2004 06:39 PM

O fim-de-semana chega ao fim e, depois de uma pequena viagem para rever os que mais estimo e amo, lá arranjei meia dúzia de minutos para percorrer os blogs do costume...

Um dos textos editados... este texto, chamou-me a atenção! Mais que as palavras absorvo-lhes o sentido e mais que isso disperso-me em reflexões para uns banais para mim constatações reais!

Já diz o velho ditado (mais velho e gasto que qualquer um de nós!) ...a beleza está nos "olhos" de quem a vê! Mas mais que esta ideia abstracta do Amor, no sentido mais amplo da palavra, o que me tocou profundamente foi a forma de descrever algo apelidado pelo comum dos mortais como feio ou degradante!

O texto... (belo sem dúvida!) acabou por remeter o meu pensamento para uma realidade, por vezes cruel, dos dias que correm... A azáfama diária, o trabalho, a crise que o país atravessa... cada vez há menos tempo para ver além do aspecto físico e basear emoções e sentimentos na verdadeira essência de cada um...

Que fácil é dizer: Amo-te... porque és bonito! Quando o exemplar em causa até nada tem de valores morais ou inteligência! Ou simplesmente: Adoro aquele carro porque é lindo! Não importa que consuma 15 litros aos 100 km e que seja desconfortável como uma velha e antiquada carroça...

Assim sendo não "seremos todos", uns mais que outros, exemplares de uma "anatomia gasta de um anjo caído em desgraça"?

Até Breve,
Maria

Publicado por: Maria em dezembro 19, 2004 10:01 PM