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dezembro 10, 2004
80 ANOS DE SURREALISMO: DINO VALLS

"Entre a Terra e o Céu: Per Luctam/Cripodidimo/Per Luctum" - 1998
Nascido em 1959, em Saragoça, Valls é um autodidacta que, antes de optar pela pintura, foi médico e cirurgião. Desde cedo se preocupou com os aspectos mais oficinais da Pintura, tendo estudado em profundidade os mestres renascentistas até desembocar na improvável escolha da têmpera de ovo como técnica preferida.
Segundo o próprio artista, a sua pintura pretende eliminar as divisões entre pensamento lógico e pensamento mágico; um desiderato eminentemente surreal. Como escreveu o crítico Carlo Fabrizio Carli, "Valls não é de todo um pintor realista, muito antes pelo contrário. A sua arte, imaginativa e mental, metamórfica e visionária, destaca-se ao enfrentar a Natureza, alimentando-se sempre da história da Arte".
Por vezes, ele parece resvalar para um maneirismo virtuosista e para temas não muito distantes dos de Delvaux ou de Dorothea Tanning. Mas, nos seus melhores momentos, e a partir da profunda inflexão que sofreu em 1998, a obra de Valls transfigura-se de uma forma quase religiosa, banhando o sadismo mais cruel na luz impassível das visões sagradas.
Trata-se de uma pintura difícil de enquadrar; a sua técnica imaculada e anacrónica acaba por funcionar quase como um verniz de estranheza entre as imagens e o espectador, uma membrana que desfoca expectativas e se esquiva aos pontos de fuga banais. O centro nunca anda longe do corpo humano: as suas relações nem sempre pacíficas com o tempo e com o espaço, os acidentes cruéis, a transgressão mutante de todos os seus limites, e, acima de tudo, uma obsessão ascética com a pureza da autoflagelação, com a redenção que só os ferimentos rituais podem mediar.
Valls é hoje um produtor de imagens sacras ao serviço de uma terrível religião ainda em busca da sua divindade, tendo como liturgia o credo nas possibilidades infinitas da anatomia humana.
Publicado por Luis Rainha às dezembro 10, 2004 02:01 AM
Comentários
Não tem nada a ver com surrealismo, mas também trata de arte, num contexto extremamente inovador (e tem a virtude de limpar o efeito bojarda do comentário precedente).
Ontem, fizemos (link) AQUI a nossa homenagem a Garrett. Se quiserem visitar, poderão aceder às versões integrais das “Viagens na Minha Terra” e “Folhas Caídas”, entre outros.
À margem de Almeida Garrett, fizemos também um “documentário” a não perder sobre o Presidente da Câmara do ano e a forma inteligente como foi recuperada artisticamente a capital do terceiro mundo europeu. No http://briteiros.blogspot.com/.
Nota de LR: desculpa lá, mas retirei o comentário riaposo a que aludes. Era mesmo cretino demais para aqui poder ficar...
Publicado por: JAM em dezembro 10, 2004 03:47 PM
E o Zé Mário, porque é que não apresenta(e fundamenta) o seu top-10(salvo seja), de música clássica? A cultura a quem trabalha, ora!
Publicado por: wuz em dezembro 11, 2004 12:09 PM
Excelente ideia, wuz. Vou pensar nisso (a sério).
Publicado por: José Mário Silva em dezembro 11, 2004 09:26 PM
Força!
Publicado por: wuz em dezembro 12, 2004 05:12 AM