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dezembro 03, 2004

A CASA DO SONO

Há algumas semanas, tive a oportunidade de conhecer Jonathan Coe. Em trabalho, passámos quatro dias nos dois lados da não-fronteira entre a Bélgica Flamenga e a Holanda. Da sua obra, já tinha lido e apreciado bastante Anões da Morte, editado pela Asa, e What a Carve Up! Nem sempre é assim – aliás, quase nunca é assim –, mas, depois de conhecê-lo, tenho lido tudo o que encontrei com a sua assinatura. Hoje, de manhã, terminei de ler o recomendável, recomendável, recomendável The House of Sleep. Publicado em 97, ganhou o Médicis no ano seguinte. Aqui fica um excerto deste romance onde, para além da curiosidade de mencionar um certo Portuguese director, me parece que pode funcionar como uma micro – necessariamente imperfeita – Ars Poetica de Jonathan Coe.


A few weeks ago, Terry wrote, I found myself overhearing one of those recurrent dinner-party conversations about who is the 'greatest' film director at work today. The two participants were both critics: one of them, a member of the old school, argued for the veteran Portuguese director Manoel de Oliveira, while the other, who seemed to think of himself as some sort of Young Turk, carried the inevitable banner for Quentin Tarantino.
It was like... well, what was it like? It was like watching two teams of blind men trying to play football on a derelict pitch, when no one had the decency to tell them that the goalposts had been taken down years ago.
It was the Taranteeny I felt really sorry for. At least his opponent's position had some sort of antiquated coherence. But as for the Turk (perhaps, remembering the Young Fogeys, we should coin a neologism for this specimen: the Old Turk), he didn't seem to realize the sheer crappiness of his argument – which was that by 'revitalizing' B-movie clichés, Tarantino was actually achieving some sort of (and yes, he really did use this word) 'originality'. I think, God help him, he may even have mentioned postmodernism at some particularly desperate moment.

Publicado por José Luís Peixoto às dezembro 3, 2004 05:56 PM

Comentários

Eu não gosto de falar de cinema pois não percebo nada, comparado convosco, mas para mim há um cinema antes de Tarantino e um depois de Tarantino (especialmente "Pulp Fiction"). Este filme MUDOU e influenciou directamente muitos filmes que se fizeram a seguir. Como poucos filmes: "O Acossado", de Godard, "The Matrix"...
Por outro lado, não me posso pronunciar sobre Manuel de Oliveira, pois nunca consegui ver um filme seu e aguentar acordado, nem com um café duplo. Mas, curiosamente, e em oposição ao texto, conheço vários "pós-modernos" que são fãs.
Falas em "argumento"? Bem, eu nem me importo que um filme não tenha um grande argumento, desde que tenha bons diálogos. O Tarantino tem as duas coisas; o Oliveira que eu conheço não tem nenhuma.
Finalmente, recordo que aqui declarei que gostava do Eurico de Barros enquanto crítico de cinema. Percebem agora?

Publicado por: Filipe Moura em dezembro 3, 2004 07:08 PM

Reparei agora num outro pormenor: "A Casa do Sono" parece-me um bom título para um livro de um fã de Manuel de Oliveira. Desculpa se a boca é foleira...

Publicado por: Filipe Moura em dezembro 3, 2004 07:11 PM

Filipe,

Nao me parece q a qualidade de um filme tenha alguma coisa a ver com a influencia que tem sobre a cinematografia subsequente. Ele há filmes muito bons que foram muito influentes, e ele há filmes muito maus que foram err... muito influentes.
E mais digo, ele há dezenas de filmes geniais que nao influenciaram nenhum outro.
Ja agora nao estou a ver assim que tantos filmes tenham sido influenciados quer pelo Pulp Fiction(so me recordo do Robert Rodriguez e do proprio Tarentino)quer pelo The Matrix (só se for o The Matrix 2 e o The Matrix 3)
Quanto há questão dos bons dialogos aconselho-te as primeiras decadas do Chaplin ou a totalidade do Buster Keaton :-)

Publicado por: André G. em dezembro 3, 2004 09:48 PM

A "influência" dos filmes e a sua qualidade é a minha mentalidade do cientista para quem o que conta são as citações dos artigos...
Poderíamos falar do Oliver Stone e de como foi influenciado pelo Tarantino. Mas falar de Oliver Stone contigo ia dar pano para mangas, e de resto eu estou à vontade é a discutir novelas brasileiras (o fantástico Dias Gomes) e séries americanas...
De resto para bons diálogos prefiro os velhinhos Marx e o velho Woody.
Até dia 23! Entretanto vai por aqui passando, e eu por lá.

Publicado por: Filipe Moura em dezembro 4, 2004 12:55 AM

Ok, André G., mas não perca de vistas aquela do Filipe sobre os «diálogos», e o determinante que são para um filme.

Os últimos quinze minutos de «Pulp Fiction» são, do ponto de vista do diálogo, uma escola inteira. Para cineastas. Para dramaturgos. Para romancistas. Escrever diálogo é uma arte em si mesma. Que poucos dominam.

E não, o Portuguese Director não a domina, nem lhe interessou alguma vez a questão.

E o texto que o Zé Luís cita é curto mas espectacular. Aquela graça, aquela fluidez, aquela exactidão. Vou ler o homem, ZL.

É assim que se escreve, porra. Mas a malta não quer. Não quer.

Publicado por: fernando venâncio em dezembro 4, 2004 09:49 AM

Suculento naco de prosa. E um carimbo a utilizar, o dos "velhos turcos". O fenómeno dos blogs tem como um dos seus corolários o epifenómeno de uma epidemia de velhos turcos.

Só dá importância ao Tarentino quem chegou agora ao cinema. Não por demérito do (actualmente cansado) viçoso cineasta, mas por trágica ignorância da história (passada, presente e futura) do cinema. Não, não vou chamar nomes (é feio chamar nomes, especialmente se o interlocutor não sabe o que esses nomes fizeram).

Fértil é a discussão sobre a incapacidade lusa para a técnica do diálogo. Essa maleita - porque maleita o é - antes de chegar à montra mediática já infectou o quotidiano do cidadão. Não conseguimos conversar, ponto. Nem com amigos, nem com esposos, colegas, amantes, primos, vendedores, condóminos ou condutores de domingo. E as causas remontam ao século XIX, quando se instituiu a pronúncia lisboeta.

Esse modo de falar, que até aos anos 80 ainda era sinal conspícuo de regionalismo, é um fruto espúrio da influência francófona. Uma das suas perversões, a mais trágica, é a oblação das vogais. Falamos com rapidez e sonoridade totalmente incompreensíveis para um português do século XVIII que calhasse fazer férias no futuro.

Mas seria tese coxa aquela que não ajuntasse a esta insidiosa invasão francesa uma consequência e um complemento. A consequência é a de não termos gosto pela oralidade retórica, com o seu cortejo de tropos, de códigos encenatórios e de citações. E o complemento consiste no depauperado terreno intelectual do homem comum (e das supostas elites), onde nada medra que possa ser colhido. Logo, nada há para ser pensado, para ser dito, para ser conversado.

Os bravos lusitanos que querem vingar na ficção nascem neste meio, e não há meio de se livrarem da maldição. É sintomático que o "Gato Fedorento" recolha tamanha unanimidade. Sem dúvida, os textos distinguem-se por serem verosímeis, reproduzindo aquilo que todos já ouvimos espontaneamente e agora transposto para o registo da caricatura. Será este um mérito bem servido por um dos actores e explicativo do "gosto" que carregam, mas fica a consciência de o trabalho do "Gato Fedorento" não passar de um ensaio para uma "revista à portuguesa"... de qualidade revisteira. Não é pouco, mas está longe de ser tudo, para dizer uma lapalissada.

Metamo-nos no auto e rumemos até ao Gil Vicente. É uma boa estação de serviço.

Publicado por: Valupi em dezembro 4, 2004 09:15 PM

Sim senhor, boa tirada. Volte mais, Valupi.

Só uma coisinha de nada. A pronúncia de Lijbôa (a minha) chega de facto a ser catastrófica. Mas não vejo como o francês tenha o que quer que seja a ver com isso. É uma deriva perfeitamente clara, e até previsível, totalmente interna ao português. O que não quer dizer que leve (e não leva) a bom lado.

Solução: articular bem, bem mesmo, o que dizemos. E usar essas belas e inventivas - você chama-lhes «oralidade retórica» - expressões nossas.

Publicado por: fernando venâncio em dezembro 4, 2004 10:58 PM

Cumprimentos, Fernando. E aceite os meus parabéns pelo serviço que tem prestado à cultura portuguesa, em especial, e à vida intelectual, em geral.

O tema da ortoépia é fonte de inusitadas associações. Não sei o que se passa consigo, mas em mim a preferência vai para a pronúncia brasileira, a tal que consta ser a mais próxima do português falado por Camões.

É sempre com desencanto, desgosto mesmo, que oiço os nossos cançonetistas, actores, declamadores, a mutilarem a sonoridade da língua. Não seria de esperar que ao estatuto de artista correspondesse uma intencional sensibilidade para a expressão – ouso dizer, a substância – poética do verbo?...

A questão não é despicienda. Ao acelerarmos a fala, não estamos a acelerar o pensamento; estamos a torná-lo superficial. É como se a oralidade se tivesse tornado dolorosa, levando à necessidade psicológica de a reduzir ou tornar unidimensional, chata.

Criar expressões idiomáticas, "belas e inventivas", pede tempo de audição ainda antes do tempo da elaboração. Mas onde ir, com quem falar, nesta época e neste país de ansiosos, para ouvir um discurso que respeite o ritmo narrativo da audição? Onde estão aqueles que sabem polir a palavra com silêncios, arar o silêncio com entoações?

A deriva do português de Portugal é um caso. A deriva do português de outras terras, são outros casos. No nosso, a pronúncia da capital subjugou os falares nativos que têm na sua pronúncia bem mais do que um exotismo folclórico. O modo como se diz é também o modo como se pensa e sente: uma alma – se me for permitido usar um conceito inoperacional neste antro bem-pensante.

Sim, nem só de gramática vive a língua.

Publicado por: Valupi em dezembro 5, 2004 06:56 AM

Excelente Valupi,

Você sabe (em tudo quanto diz vê-se que sabe) que estas duas questões – a de uma pronúncia cuidada e a de uma linguagem rica e enriquecedora – não são hoje bom-tom no país. Ainda assim, e quanto a linguagem, terá visto como neste «antro bem-pensante» (gostei do timbre) e num ou noutro mais da blogosfera se produz uma feição de expor e de discorrer que, não sendo nova (ela andou, nos anos 80, pelos jornais), é duma sempre nova frescura, pelo correntio e lúdico da expressão, pela alusão culta sem esoterismo, pela hesitação entre a crítica e a auto-ironia. Concordará em que como «bem-pensante» há pior...

É gente, concordará também, que leu mais inglês do que francês, e talvez tenha lido a prosa de Cardoso Pires, de O’Neill (a Assírio acaba de reeditar «Uma coisa em forma de assim»), de Fernando Assis Pacheco. E, se não os lê, é porque a coisa anda no ar, o que também não é mau.

Já na questão de como tudo isto soa ao vivo – a questão de pronúncia – teremos de, em alguma medida, render-nos ao processo. Não creio haver forma de o inverter. Por mais que admiremos (e eu admiro, também, acredite) a pronúncia brasileira, não vejo o modo de, colectivamente, recolorir com ela a nossa. E o empenho individual, num país uniformizado como o nosso, condena-nos à exclusão, o que poderá inspirar belas elegias, nas nos corta nas oportunidades. E no raio de acção.

Outra coisa é o travar do processo de fechamento da nossa pronúncia. Isso sim, parece-me exequível. Exemplo mínimo, de um «a» pré-tónico: fechámos já o de «actual», de «actuar», começa a fechar-se o de «actriz», não tarda e o de «actor» também. Se, muito ecologicamente, decidíssemos não alinhar nos dois últimos, já o processo frearia. Como estes casos, outros muitos. Acabaríamos feitos resistentes? É também um modo de vida.

Publicado por: fernando venâncio em dezembro 5, 2004 09:30 AM

E assim se vão juntando, quase em segredo, nas catacumbas da blogosfera, os resistentes. Podes contar comigo, Fernando.

Publicado por: José Mário Silva em dezembro 5, 2004 03:56 PM

valupi,

A não ser que se trate de uma ironia, você refere-se naturalmente à "ablação(corte) das vogais" e não "oblação"(oferenda) das mesmas. Volte mais vezes.

Publicado por: wishes em dezembro 5, 2004 07:29 PM

Bem visto, wishes, trocadilho de vogais em assunto de vogais, onde o corte das mesmas, no sentido de sacrifício, é um holocausto linguístico para deuses ingratos.

Fernando, agradeço-lhe a atenção dispensada e as suas sábias palavras. É para mim uma honra poder estar em diálogo com uma pessoa do seu mérito.

Não sendo este o lugar da erudição, nem eu seu representante, colhe ainda dizer que há aturada e funda investigação no campo da prosódia, com conclusões de efeito dramático onde se constata como as alterações fonéticas sofridas pelo português, a aquisição de novos padrões rítmicos, levaram a alterações sintácticas (em particular, a posição dos clíticos), e, por fim, à adopção de uma nova gramática. Para quem se interessar, nem tem de se levantar da cadeira frente ao computador.

Confesso o meu entusiasmo pela sua sugestão. Começar um movimento de resistência cujo móbil seja a defesa das vogais átonas, lutando galhardamente contra a aceleração da sílaba tónica, é de um requinte político e sofisticação revolucionária dignos do novo milénio. Poderíamos até instituir rituais iniciáticos para recrutamento de adeptos: os candidatos teriam de pronunciar a palavra "actual".

Olhe que não brinco (embora muito me sorria). O meu sentimento descreve-se melhor com o génio de um amante da língua, Jorge de Sena, o qual deixou no final de um capítulo de "O Reino da Estupidez- II", o seguinte epitáfio:

"[...], algures no tempo da amargura difícil de amar mais de um país com amor infeliz, à beira de um oceano que não banha Brasis ou Portugais."

Abusando da citação, também para nós o oceano já não banha Brasis ou Portugais, restando o deserto onde a língua fenece. É nesta altura que entra em cena a blogosfera.

Assinaria por baixo a sua descrição. E sem desprimor para os restantes exemplos passíveis de nomeação, refiro a experiência "umblogsobrekleist" por ser um caso notável e evidente de talento. Mas tendo presente que as árvores continuam a não dever ser confundidas com as florestas, há que perder a virgindade sociológica e contemplar como o lúdico da expressão se revela expressão do lúdico da intenção.

A blogosfera é uma (anacrónica) novidade tecnológica. Em parte por estar no seu estado nascente, em parte por permitir delírios de poder, os tiques corporativos de que dá mostras parecem ocupar grande parte da actividade dos seus ideólogos, repetindo histórias velhas e relhas.

Mas há pior. Pois.

Publicado por: Valupi em dezembro 5, 2004 10:24 PM

Que bom, Valupi, estarmos aqui à conversa, dois desconhecidos. Conversa que já não pode durar muito, com tão produtivos posteiros, ali em cima, empurrando-nos para esse abismo que se abre aos pés de cada blogue.

Desconhecidos, disse eu. Mesmo que só relativamente. Você reparou na minha presença por este mundo, eu reparei na sua. Podemos ser mesmo,noutro modo de existência, conhecidos, amigos até (ou não o somos já?), mas tecnicamente – e por sua vontade – somos desconhecidos.

Va-lu-pi. Valupi faz sonhar. Ou é mulher fatal ou homem gracioso. Nunca você deixou cair um adjectivo sobre si, e de certeza (como num grande e longo poema de Sena) nenhum adjectivo não comum-de-dois. Assim se criam os mistérios.

Claro que, ao longo dos seus textos, se criam em nós fantasmas. Fantasmas, até, debatendo-se por nomes. Numa fonte de aldeia vizinha, João Pedro George, em luta com um seu desconhecido, dava-lhes nomes ele mesmo – e não acertava. Quem era eu para melhor sorte?

Fique, pois, no seu enigma, aparição.

E apareça.

Publicado por: fernando venâncio em dezembro 6, 2004 06:03 AM

Esta louvaminha mútua e pública, bem-falante, bem pronunciada e vazia, parece-me uma boa tentativa de recriar o conselheiro Acácio do século XXI. Mas têm toda a razão Valupi (volte sempre) e Venâncio (também): estive a ouvir atentatamente as gravações do português que se falava no século XVIII, no tempo de Gil Vicente e de Camões, e é verdade, não sabemos falar, perdemos a arte da «oralidade retórica, com o seu cortejo de tropos, de códigos encenatórios e de citações». Também, só nos faltava ter de ouvir tantas barbaridades e banalidades laudatórias acompanhadas por um cortejo de tropos...

Publicado por: jm em dezembro 6, 2004 12:40 PM

O conselheiro Acácio não é mal visto, jm, mas o paleio ridiculamente floreado do Valupi lembra-me mais os discursos do grande Calisto Elói, do nosso Camilo. Há aqui "desertos onde a língua fenece", há "cortejos de tropos", há "códigos encenatórios" e há, evidentemente, coisas que "colhe" dizer - coisas essas que, em larga maioria dos casos, quando não são ideias velhas, são observações banais.
Já não é esse o caso quando se toma o "Gato Fedorento" por teatro de revista. Esta requer talento. Quem consegue ver nonsense no "Quem paga é o Zé!" - e vice versa - merece um prémio. Não é por acaso que chamam à Ivone Silva o John Cleese português...
Parece que a discussão ameaça prosseguir noutro lado. Vamos até lá. Pode ser que sejamos presenteados com mais oblações.

Publicado por: filipe matos silva em dezembro 6, 2004 02:29 PM

Vou fazer as exéquias desta conversa, pois ainda há respostas a dar, e depois mudar-me-ei sem armas e com bagagens para o poiso onde a discussão ameaça prosseguir. As ameaças são para levar a sério.

Saberá melhor que eu, Fernando, que “Maria Valupi” é o pseudónimo de uma poetisa portuguesa de baixa produtividade, inferior valia e nulo reconhecimento, cuja obra se fina nos finais dos anos 60. Li-a em poema num já vetusto número da “Colóquio/ Letras”, e nunca mais a reencontrei após. Ela faz parte dessa corrente lírica dita nossa, onde cabem o cavalo de raça e a carraça, cantando a natureza especular e a solidão ensimesmada. Fui atingido de paixão aristotelicamente platónica e tomei-lhe o apelido, não o género.

O único mistério é não haver mistério. Não concorda? Parece que não há escapa para uma acédia de tanto entender e de tanto desesperar. Virgílio Ferreira e Eduardo Lourenço, para dar dois exemplos próximos, escreveram páginas pungentes sobre esse “topos”. Mas o tópico é de sempre, é inevitável estação. Por isso, ou aquilo, entretemo-nos com enigmas. Pelo menos os enigmas admitem uma solução. A vida não, e para bem dos nossos pecados.

Seremos amigos, neste ou noutro plano da existência? Respondo-lhe convocando a “moira” – como poderíamos não o ser?... se até conseguimos conversar?... É soberbo de riso que lhe digo, por estarmos num espaço habitado por cínicos, que o amor não pede mais.

E os inevitáveis cínicos de serviço cumpriram a sua pulsão. Os que nos saíram em sorteio, jm e filipe matos silva, consolam-me pelo acerto da análise. Veramente, não tenho matéria para o contraditório. Diria mais, concordo. E agradeço o abetum. [arcaísmo, para vos confirmar na pose]

Porém e no entanto, há sempre um mas, todavia. Mas, ó jm, não pense que sou insensível ao problema epistemológico que teve a frontalidade de partilhar. A sua estupefacção, eventual estupor, resulta de não ter acesso a gravações do português falado no século XVIII e anteriores. Com certeza fez uma busca no Kazaa, não encontrou MP3 dignos de confiança, aproveitou para sacar um ou outro documento mais contemporâneo e concluiu que o conceito da tanga verteu do económico para o linguístico. Em suma, está céptico (e se me permitir o diagnóstico, também séptico). Fez bem em gritar a sua dor. Não é de agora o debate sobre a metodologia das ciências humanas. Aqui entre nós, aquilo é tudo muito subjectivo... mas é o que há. A alusão ao conselheiro Acácio acrescentou enquadramento queirosiano ao seu drama. De facto, fica-lhe bem a farpela do Conde de Abranhos, o tal que também não se dava bem com “cálculos estranhos” e temia os processos científicos.

Falar-lhe em gramática gerativa, modelagem estocástica, estatística descritiva, análise quantitativa, interpretação semântica, representação fónica, estruturas profundas ou de superfície, e até mandar-lhe um DVD com palestras do Chomsky, sei bem, não o irá demover. O amigo quer é a gravaçãozinha, de preferência do Camões ou do Gil Vicente, que sempre têm fama; mas acredito que a sua generosidade fosse ao ponto de aceitar ouvir a voz de um Lope de Vega ou de um Rodrigues Lobo, rapaziada esforçada.

Solução para o seu problema? Precisa de dar um salto semântico (ou, no seu caso, quântico). Aceitar – mesmo que a medo, no início – serem os suportes em papel, madeira ou pedra, superfícies viáveis para o processo de gravação de sinais. Depois, justissimamente carente de uma sonoridade, ler. Em voz alta.

E... mas, ó filipe matos silva, quem lhe encomendou o mau serviço de reduzir o “Gato Fedorento” a mais um exercício, sem sentido, de “nonsense”? O que é que há de “nonsense” (se não o soubesse tão alérgico, diria que colhe amanhar uma tradução do vocábulo) num exercício de investigação sobre os estereótipos sociais e sua tradução em caricatura? Porque raio o simpático do Cleese (y sus muchachos) tem sempre de ser acordado a meio da noite para servir de caução ao humor que não faz da genitália o motor do espasmo? Por que ignara razão a revista, como género teatral com mais de 150 anos de história em Portugal, lhe suscita tamanho desprezo?

O amigo, que dum passo conseguiu a delirante proeza de maldizer o estilo camiliano e a ele me elevar, talvez beneficiasse de uns pozinhos de mediologia. É que está em causa distinguir comunicação de transmissão. A sua vivência poderá estar repleta de comunicação (afinal, até sabe quem é o John Cleese e aplica o conceito de “nonsense” com despudor), mas já quanto à transmissão temos avaria. A revista foi quase sempre (exceptuando a fase da sua decadência) um meio de transmissão cultural, conferindo identidade nacional a diferentes gerações, transportando a memória através do tempo, mediando as tensões sociais fracturantes, exorcizando a opressão política e económica, viabilizando bolsas de liberdade e reflexão sob a capa do “divertimento popular”. E devido à sua natureza libertária e libertina, não deixou de ser irónico (mas, ainda mais, revelador) o modo rápido como a esquerda pós-25 a enterrou e maldisse. Sim, o escadote já tinha cumprido a sua função, o melhor era derrubá-lo antes que alguém se lembrasse de subir não se sabe bem para onde.

Acredite, não quero perturbar a sua hermenêutica de bolso, mas incluir o “Gato Fedorento” nesta tradição não corresponde em mim à opinião que os amantes do felino “doudejem com essas ficções e visualidades” – para homenagear aqui o delicioso Calisto.

Publicado por: Valupi em dezembro 7, 2004 05:28 AM