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dezembro 01, 2004
80 ANOS DE SURREALISMO (1)

Cumprindo a minha ameaça, e mesmo sabendo que há alegrias mais recentes para comemorar hoje, aqui estou eu para celebrar este aniversário. Começo, com vossa licença, por uma pequena recapitulação histórica...
Logo a seguir ao final da I Grande Guerra, Tristan Tzara, o principal activista Dadá, chegou a Paris, levando na bagagem a agitação iconoclasta do Cabaret Voltaire e o escândalo imparável das manifestações anti-artísticas desse "movimento" anárquico. Recitais de poemas fonéticos, concertos de ruído, os ready mades de Duchamp, as colagens de Max Ernst, os amontoados de lixo de Kurt Schwitters, as mil invenções delirantes de Francis Picabia... muitos dos dispositivos do surrealismo tiveram aqui a sua estreia. Mas a natureza centrífuga e autodevoradora de Dadá impediu qualquer cristalização numa estrutura eficaz e duradoura.
André Breton foi um dos aderentes de primeira hora da filial dadaísta parisiense. Durante a guerra, dado que era estudante de medicina, prestara serviço em enfermarias psiquiátricas, tendo então ficado a par do trabalho de Charcot e de Freud. O encontro com Aragon, que lhe apresenta o primeiro dos Chants de Maldoror faz o resto. Os dois poetas deixam-se impressionar decisivamente pelos delírios dos doentes mentais e pela liberdade formal e temática da poesia do enigmático Conde de Lautréamont. Neste dias, ambos se dedicam a sondar as novas fontes de inspiração poética: os sonhos e a livre associação.
A revista "Littérature", a "base" de Dadá em Paris onde Breton publica, com Philippe Soupault, os primeiros escritos automáticos, acaba por implodir em 1921. Dos destroços, apenas um grupo se mantém coeso, resistindo a fricções políticas e a frequentes colisões de egos muito graças à personalidade dominadora de Breton. Quando, em Outubro de 1924, este inflaciona de tal forma o prólogo do "Poisson Soluble" que ele se transforma num Manifesto, a escolha de nome já é clara: a palavra "Surrealismo" surge como uma homenagem a Guillaume Apollinaire, que a usara para qualificar a sua peça de teatro "Les Mamelles de Tirésias". Dia 1 de Dezembro, faz hoje precisamente 80 anos, surge o primeiro número da revista "La Révolution Surréaliste".
Assim decorreu, em traços muito gerais, o parto do movimento artístico mais influente e polissémico do século XX.
Imagem: Max Ernst - "No encontro dos amigos", 1922. Primeira fila, da esquerda para a direita: René Crevel, Max Ernst (sentado sobre o joelho de Dostoyevsky), Theodor Fraenkel, Jean Paulhan, Benjamin Péret, Johannes Th. Baargeld, Robert Desnos. Na fila de trás: Philippe Soupault, Hans Arp, Max Morise, Raffaele Sanzio, Paul Eluard, Louis Aragon, André Breton, Giorgio de Chirico, Gala Eluard.
Publicado por Luis Rainha às dezembro 1, 2004 12:01 AM
Comentários
Muito bem. Eu já estou à espera é de saber como é que isto se reflectiu por aqui, na paróquia...
Publicado por: jcb em dezembro 1, 2004 02:34 AM
Em termos gerais, como seria de esperar num país periférico, isolado e sujeito a uma ditadura obscura.
Publicado por: Luis Rainha em dezembro 1, 2004 02:51 AM
Oh, sim - mas o Cesariny e aquela malta toda, para o bem e para o mal, andaram entusiasmados a armar a tenda surrealista no país de S. E isto há-de dar um bocadinho (pequenino, enfim) pano para mangas. Mais, parece-me, na literatura do que propriamente na pintura. Seja como for (aliás: não foram ter com o Papa-Breton, a pedir a bênção, e tudo?), há episódios interessantes (interessantes, também, concordo, para se compreender a pequeninez disto tudo - ou seja, a escala). Porcá andarei, a ver...
Publicado por: jcb em dezembro 1, 2004 03:48 AM
Pronto. Vais obrigar-me a reler a (excelente e gigantesca) colectânea de "Textos de Afirmação e Combate do Movimento Surrealista Mundial" que o Cesariny compilou...
PS: ná. Vou ter de me documentar noutras paragens.
Publicado por: Luis Rainha em dezembro 1, 2004 01:36 PM