« O MESTRE | Entrada | OUTRAS METÁFORAS SOBRE O GOVERNO (III) »

novembro 30, 2004

CENAS DE UM CASAMENTO (2)

Numa boda tradicional, pior do que os fotógrafos canibais que exploram até à náusea o catálogo completo dos enquadramentos kitsch, só mesmo a homilia na igreja, quando o padre é da velha guarda ultra-conservadora. Aquele tipo de padre que prefere sempre as cartas de São Paulo ao «Cântico dos Cânticos», estão a ver o estilo?
Pois o do último sábado juntava, à beatice bacoca, uma deselegância retórica que muito envergonha uma Igreja que já contou, nas suas fileiras, com a verve sublime do Padre António Vieira. Por entre comentários mais do que irrelevantes sobre a sua vida e o seu percurso de professor em Macau, o pároco lá se dignou a falar aos noivos sobre a grande união que ali se celebrava.
E o que lhes transmitiu foi, nem mais nem menos, que o casamento é um «cozinhado» (sic), na confecção do qual há três «temperos» (sic) essenciais: a tolerância, o perdão e o amor (sobretudo o espiritual). Mas a justificação para o segundo dos «temperos» é que me pareceu de antologia. Qualquer coisa como isto: «Imaginemos que a X [noiva] está na cozinha, a preparar o jantar para o Y [noivo]. De repente, vai à sala limpar o pó e esquece-se da comida ao lume. Regressada à cozinha, apercebe-se que o arroz esturricou. Como é que o Y deve reagir, num caso destes? Pois deve perdoar, porque a X não fez de propósito, errou mas não foi com o coração.»
Para além de tudo o resto, parece-me óbvio que o padre não leu a imprensa da semana passada e muito menos esta crónica (certeira) da Ana Sá Lopes.

Publicado por José Mário Silva às novembro 30, 2004 06:07 PM

Comentários