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novembro 26, 2004
FAZIA-NOS FALTA

Há uns dias, estive para escrever aqui umas coisas a propósito deste texto e deste. Acabei por ficar quieto, para não ser acusado de só saber dizer mal, até por interposta pessoa... Mas vejo agora que mesmo o nosso boss, das pessoas mais generosas e tolerantes que conheço, elogia a falta de subtileza do crítico-bulldozer João Pedro George. Com as costas desta forma aquecidas, posso fazer coro na recomendação: vão lá ver. E comecem, por favor, pelo post onde é reduzido a migalhas o incensado "Fazes-me Falta" (dos três títulos ali esquartejados, este é o único que comecei a ler).
Um excerto delicioso e revelador: "neste livro há de tudo. Metáforas e imagens pavorosas: ‘borro a pintura da cara que não tenho’ (sic), ‘tumores do meu entendimento’ (sic), ‘coxear da alma’ (sic), ‘cavernas do coração’ (sic), ‘fechar as portas da dor’ (sic), ‘aeróbica interior’ (sic), ‘racionar a vida como um chocolate de leite’ (sic), ‘sofá com que mobilamos o corredor ventoso da vida’ (sic). Frases de um mau gosto difícil de qualificar: ‘porque a gente olhava para ti e via essa coisa transparente e firme, esse nó de sangue, secreções e luz a pulsar como um farol’; ‘eu não consigo acreditar nas almas abstractas, bolhas de ar discretas arrotadas entre um chá e dois suspiros’."
É a primeira vez que leio algo que faça sentido sobre esta xaropada ignóbil em forma de livro. Pelo que li na obra em (des)apreço, trata-se de comentários certeiros e que não pecam por exagero. Só mesmo num país de paspalhos e de capelinhas sacrossantas é que um fulano como o EPC vê ali obra de génio e não é coberto de alcatrão e penas na manhã seguinte.
Quem faz mesmo falta é mais gente como este "Boy George" – nas elegantes palavras de Possídónio Cachapa -, capaz de olhar para alguns reizinhos da nossa praça e clamar aos sete ventos a sua óbvia falta de roupita.
Publicado por Luis Rainha às novembro 26, 2004 12:50 PM
Comentários
Frases no mínimo estranhas, cujo sentido não entendo. Porque será que as escrevem?
Um abraço. Augusto
Publicado por: misswyoming em novembro 26, 2004 01:32 PM
Luis, permite-me um esclarecimento. Eu não elogiei a falta de subtileza de JPG. Mais ainda, não concordo com todas as demolições que ele faz, embora reconheça que algumas delas acertam na mouche. O que eu elogio é a forma de dizer as coisas como elas são, sem "paninhos quentes" e sem medo de incomodar as "vacas sagradas". Há nos seus métodos, porém, alguns perigos. Criticar com base em frases menos felizes, citadas fora de contexto, é relativamente fácil e causa sempre efeito, mas nem sempre é honesto. Além disso, a propabibilidade de se ser cruelmente injusto cresce exponencialmente.
Dito isto, acho que críticos com a verve corrosiva de JPG são necessários, quanto mais não seja para agitarem as águas demasiado paradas e consensuais da literatura portuguesa.
Não subscrevo tudo o que JPG escreve, longe disso (por vezes estou mesmo completamente em desacordo), mas parece-me que um «fenómeno» destes merece ser conhecido e discutido.
Foi por isso, e só por isso, que o linquei.
Publicado por: José Mário Silva em novembro 26, 2004 01:43 PM
Expliquei-me mal, por certo. Por "falta de subtileza", referia-me precisamente a essa mania de "dizer as coisas como elas são, sem 'paninhos quentes' e sem medo de incomodar as 'vacas sagradas'." Julgo que concordamos, aqui.
Quanto aos riscos do "método" empregue, idem. Foi mesmo por isso que resumi a minha concordância ao único daqueles livros que efectivamente li (ou tentei).
Mas não me parece que o JPG acabe por conseguir agitar grane coisa, exilado como está lá pela (excelente) "Periférica". Mas já anda por aí um outro rapaz por vezes de martelo em punho, à procura pés de chumbo: um tal de Mexia...
Mas atenção que não me parece fundamental para uma crítica que seja arrasadora. Parece-me mesmo mais proveitoso (e muitíssimo mais difícil) salientar os "prós" do que chocarrar com os "contras". E só te dou os parabéns por teres o hábito de preferires o caminho mais complicado.
Publicado por: Luis Rainha em novembro 26, 2004 01:54 PM
Mas EPC não é um crítico literário. É um tipo porreiro :) que diz bem dos livros de pessoas de quem ele gosta(escritores amigos ou amigos de amigos).É um opinion maker literário bonacheirão que não consegue maldizer a escrita no feminino :). Como dizem os ingleses, é um «womanizer». É mais forte que ele. Ninguém é perfeito. Mas também não é por culpa do EPC que a literatura portuguesa não «progride». Eu até lido bem com os «fretes» do EPC, porque há ali qualquer coisa de encantador. Ou mesmo de poético. :)))
Publicado por: The Saint em novembro 26, 2004 02:41 PM
e aqui entro eu. já que evocaram o nome do eduardo prado coelho - esse precisamente que tem por hábito sentar no seu colo preferencial nomes que estão para a literatura como a minha avó estava para a assembleia da república. a literatura não precisa de críticos; precisa de leitores. e um dos meninos que se sentou no colo publicitário do pai literário foi o peixoto. mas um dia o pai morre e o filho terá de andar descalço. a minha revolta não é contra o peixoto: parece-me uma pessoa humilde e socialmente correcto. a minha revolta é contra esses fabricantes de promessas literárias como o EPC. esse teórico da realidade que o possui, como se ele sentisse que o futuro dos outros é uma construção da sua própria eternidade. e volto a repetir: peixoto é um equívoco literário. se noutro tempo os portugueses não liam; agora os portugueses lêem mal. portugal é um equívoco intelectual. nunca deixámos de ser analfabetos, pelo menos na literatura.
e as imagens que as metáforas evocam? ora, para quem não entende nada, qualquer frase é merda para ser lida.
Publicado por: fernando esteves pinto em novembro 26, 2004 02:42 PM
Conheço o JP George da Periférica (revista que talvez já se tenha aburguesado de mais para o gosto dele) e agora do seu blogue Esplanar e acho-o efectivamente indispensável: mais do que crítico literário, ele denuncia conluios, conúbios, manigâncias do nosso meiozinho literário; não respeita ninguém, nem à direita nem à esquerda (e ele confessa-se de direita), mas há que não confundir a sua frontalidade com as tergiversações jesuíticas e sempre com água no bico do Mexia, um mau rapaz, esse sim, de quem todos os tios e tias literários gostam muito, apesar de tudo. o fernando estevs pinto também diz o que tem a dizer com desassombro (sobretudo sobre a instituição EPC) e fiquei com curiosidade de ler mais os livros dele.
Publicado por: jm em novembro 26, 2004 03:16 PM
Uma pergunta apenas para o fernando esteves pinto: por acaso já leu o romance «Nenhum Olhar»?
Publicado por: José Mário Silva em novembro 26, 2004 04:18 PM
Mau rapaz, o Mexia? Só pode dizer isto quem não o conhece.
Publicado por: José Mário Silva em novembro 26, 2004 04:22 PM
«Mau rapaz» no sentido de rebelde.
Publicado por: jm em novembro 26, 2004 04:35 PM
Eu, por acaso, até acho que ele tem razão, embora "catalisar" se escreva com "s"...
Publicado por: curioso em novembro 26, 2004 08:19 PM
sem qualquer tipo de despiste ( não faz o meu género ), a resposta é não. tudo o que li do autor tem sido excessivamente concludente para a forma como encaro o seu trabalho literário. pela negativa, obviamente.
Publicado por: fernando esteves pinto em novembro 26, 2004 08:44 PM
Ok, George. Tudo bem. Quase tudo certo. Mas o que nem o George nem o Luís certamente leram foi «O nylon da minha aldeia», do Cachapa, livro antigo, recentemente reeditado em [estes títulos deviam trazer tesoura] «Segura-te ao meu peito em chamas». Esqueçam o título, leiam o primeiro e longo conto, quase metade do livro.
Cachapa é, em geral, um autor mal aconselhado, e sem um amigo que lhe dê umas senhoras reguadas. Mas «O nylon da minha aldeia» é um dos grandes contos dos nossos últimos anos.
Publicado por: fernando venâncio em novembro 26, 2004 09:54 PM
O tempo acaba por pôr tudo no seu lugar.
Ele se encarregará de reduzir o Mega, o Possidónio, a Pedrosa, etc., à sua verdadeira dimensão - que é nenhuma.
Publicado por: Atento em novembro 26, 2004 10:58 PM
cachapa - olha outro. esse humorista histérico a armar a tenda de circo que é a sua escrita.
Publicado por: fernando esteves pinto em novembro 26, 2004 11:23 PM
Recordo que a crítica às frases de mau gosto e as horríveis metáforas, foi também como começou a crítica aos livros do Lobo Antunes, que hoje anda por aí a ganhar prémios. Facto que apenas constato, pois dele não consigo ler absolutamente nada. Agora sobre João Pedro George: foi delicioso o desmascaramento que fez da chamada coutada literária do «Expresso», certeira e desassombrada crítica num dos últimos números da «Periférica». Na última, por agora saída, é Agualusa, que é posto a nú, na sua descarada auto-plagiação, somando páginas e engordando romances. Se já pouco gostava dele, das entrevistas pomposas que deu sobre a universalidade da sua identidade, das viagenzinhas promocionais e de ter especialmente chamado sobranceiramente velho a Saramago, aproveitando o ar pós-colonial de estar no Brasil, agora então cai o seu diáfano véu de falso escritor. Por isso, bem vindo JPGeorge!
Publicado por: HFR em novembro 27, 2004 01:11 AM
Na minha - singela - opinião, os posts mencionados convocam um humor de mau gosto e com uma fundamentação rasteira e leviana. É verdade que a cultura precisa de críticos descomprometidos, mas para criticar não basta ter muita vontade de deslilar veneno e promover ódios e invejas pessoais.
Publicado por: Nuno Pinho em novembro 27, 2004 01:13 AM
Ó HFR,
Fez bem em ler o JPGeorge na última «Periférica». Certeiro, como quase sempre. Mas, lá está, o contista Agualusa (veja-se o primeiro conto de «Catálogo de Sombras») é outra louça. Maus romancistas (como o actual Antunes) podem ser grandes noutra coisa qualquer, como o conto ou a crónica.
E, já que tem aí à mão a «Periférica», folheie um bocadinho mais, e vai ver em que ficou a «coutada do Expresso».
Depois diga coisas, homem.
Publicado por: fernando venâncio em novembro 27, 2004 07:28 AM
Desculpe, ó HFR. Chamei-lhe «homem». Você também pode ser mulher.
Publicado por: fernando venâncio em novembro 27, 2004 07:32 AM
fernando venâncio: a segunda coisa que li da última «Periférica», depois de "Os cavalos também se abatem", foi exactamente a sua carta, que não me convenceu nada sobre a coutada.
Já agora: essa do homem e da mulher é homofobia ou misoginia?
Tenho, "na cave, umas conservas".
Publicado por: HFR em novembro 27, 2004 09:29 AM
Excelentíssima Senhora Dona HFR,
Excelentíssimo Senhor [Dono... está a ver como somos discriminados?]HFR,
Percebo (com muito esforço, mas percebo) essa da da misoginia. Mas a da homofobia escapa-me, confesso. Suponho que o seu raciocínio é aqui algo tortuoso, e portanto, veja lá, ele próprio discriminatório.
Tudo isto se evitaria se a Senhora / o Senhor singelamente nos revelasse um dos seus nomes próprios. Questão de dar a cara, pronto, uma parte dela.
Vamos ao assunto. O meu texto na «Periférica» não o convenceu de que no Expresso não há a tal «coutada», tão finamente delineada pelo nosso George. Pois é, está-me o fim de semana estragado. Pensava eu ter subjugado as mentes, e acabo de saber que uma me escapou. Cuidado, gentes, portanto. Anda por aí uma mente livre.
Publicado por: fernando venâncio em novembro 27, 2004 09:58 AM
Tudo muito bem. Mas há uma coisa que eu não entendo, nunca entendi. O que levará um crítico a pensar que vale a pena escrever sobre um livro que se julgou mau? Merecerá um mau livro, que se escreva sobre ele? Não será isso condenar ao silêncio outros livros, bons livros, sobre os quais não se fala? Poderá a crítica mais “demolidora” ser considerada um factor de auto-promoção? Afinal, já são muitas as coisas que eu não entendo. Gosto da crítica literária que faz o que eu gosto de fazer na vida (a conselho de Yourcenar): «O nosso grande erro é querer encontrar em cada um, em especial, as virtudes que ele não tem e desinteressarmo-nos de cultivar as que ele possui.» Cultivar as virtudes, quer as dos que escrevem livros, quer as dos que escrevem sobre livros, parece-me sempre o melhor caminho. E talvez essa seja a verdadeira atitude "demolidora".
Publicado por: Juraan Vink em novembro 27, 2004 11:15 AM
Bom, hoje estou aqui de faxina. Não há uma cervejinha cá pró menino?
Ouça, Juraan Vink (será derivação de «Juriaan», nome holandês? Aqui Amsterdão. Escuto). Ouça, meu caro. Essa pergunta foi-me feita já vezes sem fim, e eu nunca a compreendi. Quase sempre me foi feita com esse seu tom de reprovação. De resto, as redacções de crítica literária, em jornais, não se entusiasmam muito também, e talvez concordem consigo.
E todavia alguém tem que fazer esse TRABALHO SUJO. Alguém tem que DENUNCIAR a impostura, a aldrabice, que muita prosa e muita poesia são. E porquê? Porque elas roubam oportunidades a malta que merecia um pequenino (e às vezes um grande) lugar ao sol.
Mas há um lado do problema que importa sublinhar: pouca gente sabe fazer uma crítica negativa verdadeiramente interessante, e portanto convincente. É uma questão de esperteza, e, claramente, ela anda muito mal dividida. Uma crítica negativa interessante consegue dizer ALGUM BEM, às vezes mesmo MUITO BEM. Isso é que tem graça, isso é que convence realmente a malta.
Quando alguém diz (como foi dito aí acima) que «o último Antunes» é uma fraude (não foi dito assim, mas aqui se corrige), e quando se diz que ele é um grande cronista, está-se a salvar alguma coisa (às vezes muita coisa) e mesmo assim a ser ferozmente sincero.
Percebeu-se alguma coisa?
Publicado por: fernando venâncio em novembro 27, 2004 01:58 PM
a crítica é o menos; o pior são os críticos.
Publicado por: fernando esteves pinto em novembro 27, 2004 02:04 PM
Ah, a grande arte de desconversar...
Publicado por: fernando venâncio em novembro 27, 2004 02:13 PM
os nossos queridos fazem o mesmo.
Publicado por: fernando esteves pinto em novembro 27, 2004 02:32 PM
Eu, há uns tempos, andei a ver umas revistas literárias antigas e vi que a crítica literária que se fazia nos anos ciquenta e sessenta era muito mais severa do que a que se faz hoje (bem sei que o contexto político era outro; mas falo do tom das críticas literárias no geral, as que eram politicamente comprometidas e as que o não eram). Eu, ao contrário de muitos que falaram antes, acho as críticas negativas necessárias, mesmo quando são feitas com má-fé (como foi sugerido acima - não comento a pertinência disso neste caso particular). Acho que um escritor, como uma pessoa qualquer, está em permanente evolução naquilo que faz. Em crescimento, mesmo. Para que esse crescimento seja positivo é preciso receber muitas opiniões sobre o seu trabalho: as opiniões boas, só atestam o reconhecimento de algo que foi conseguido (ou seja, do ponto de vista do escritor, olham para trás); as opiniões negativas apontam para coisas que ainda não foram conseguidas (por isso apontam para o caminho que o escritor tem pela frente). Acho importantes os dois tipos de crítica, embora o modo severo de julgar a literatura esteja fora de moda.
Publicado por: ZeroAesquerda em novembro 27, 2004 06:28 PM
Sem tom de reprovação, que nunca foi o meu (não tenho jeito nem lata para reprovar quem não conheço), gostava de acrescentar algumas considerações. Mas antes, fique claro que não considero TRABALHO SUJO dizer mal daquilo que não se aprova. Dizer mal, especialmente quando se é bom (ágil?) a dizer mal, pode até ser TRABALHO BEM LIMPO. «Denunciar a impostura» é que já me custa engolir. Qual impostura? A impostura de quem? Quem determina os impostores? Julgo que em matéria de facto, ninguém terá as mãos limpas. É uma desconfiança minha que pode, obviamente, estar totalmente errada. Para mim a questão coloca-se nestes termos: enquanto leitor, o que me interessa na crítica é saber que os livros estão disponíveis e ficar, antes de os ter em mão, com uma ideia do seu conteúdo, ainda que essa ideia me chegue em tom negativo. Dou até dois exemplo, curiosamente, que se passaram com o mesmo autor. No ano passado, valter hugo mãe escreveu cobras e lagartos sobre «A Hora Perdida» de Jorge Gomes Miranda. Como já conhecia os dois autores, ambos igualmente “críticos”, não me admirou o tipo de juízo feito pelo editor das Qausi a propósito daquele livro. Não me admirou, nem me condicionou minimamente quanto à decisão de adquiri-lo, lê-lo e formular os meus próprios juízos acerca do mesmo. Hoje, li no Actual uma crítica de António Guerreiro à última obra do mesmo autor. A apreciação é francamente negativa. Mas isso, mais uma vez, não me vai interessar. Vou comprar o livro, vou lê-lo e, depois, verei se estou ou não de acordo com a apreciação levada a cabo por António Guerreiro. Há, contudo, uma diferença fundamental nas duas leituras, ambas, lembro, criticando negativamente uma obra de Jorge Gomes Miranda. A apreciação de valter hugo mãe era demolidora e claramente rancorosa, viciada por condicionalismos que nada tinham a ver com o livro em causa. A apreciação de António Guerreiro é fundamentada e poderá até ajudar o autor a pensar o caminho que está a dar à sua obra. Como leitor, prefiro o estilo do último. E “acho piada” que o livro seja da Averno (editora de Manuel de Freitas, também ele crítico no Expresso), e que mereça foto de capa e do autor aquela leitura pouco mais que breve. Não olho para o facto com complacência, mas também não me precipito em censurá-lo. Portanto, dizer mal ou bem tem muito que se lhe diga. O que chateia é que, no final, parece que andaram foi todos a dizer qualquer coisa acerca uns dos outros. É a cabala! J Dito isto, cultivemos então as virtudes. Não para deixar na penumbra os vícios, mas acreditando que cultivando as virtudes os vícios possam ser ultrapassados. Esta é a minha visão utópica das coisas. Para terminar, um pouco de O’Neill: «O crítico escreve para o pequeno clã, um grupo, uma “panelinha”...»; «Os críticos são uma chatice.»; «Ó Manuel da Fonseca, você não acha que é muito mais tocante para um artista o aperto de mão de um leitor entusiasta do que a crítica de um crítico, de um critiquelho?»
Publicado por: Juraan Vink em novembro 27, 2004 09:23 PM
De facto, discussões sobre escritores e críticos dão sempre pano para «manguitos». :)
Publicado por: The Saint em novembro 28, 2004 01:38 AM
Já agora, por pouco interessante que seja, aqui fica a minha opinião sobre a discussão e os seus intervenientes.
Creio que é evidente a influência de Luiz Pacheco em João Pedro George. E em textos como "A musa (parada) de Rui Nunes", JPG faz um trabalho notável. O problema são alguns outros textos em que a escrita é menos cuidada e os argumentos mais frágeis. Para criticar com aquela verrina, JPG tem de escrever exemplarmente e fundamentar bem as acusações que faz. Caso contrário, poderá ficar (como às vezes fica) a ideia gratuitidade. A prosa de Luiz Pacheco era sempre soberba e sustentada em argumentação inatacável, e as críticas nunca eram gratuitas. Parece-me que esse é um cuidado que JPG precisa de ter.
O Fernando Venâncio é um homem honesto e um crítico perspicaz. Mas a condescendência que aponta (justamente) a Prado Coelho no que respeita aos autores herméticos, por vezes tem-na também ele em relação aos outros. Veja-se o que sucede com os contos de Miguel Miranda, um escritor deslumbrado com o adjectivo, que FV recomenda. Outro exemplo: "Agarra-te ao meu peito em chamas" é um título inaceitável. Aliás, muito do que o Cachapa escreve é inaceitável - as crónicas que publicava no JL eram pouco mais do que indigentes, sendo que nem as regras mais elementares de pontuação e ortografia eram respeitadas.
Já Fernando Esteves Pinto é um caso perdido de ressentimento. Diz que "a literatura não precisa de críticos; precisa de leitores", mas desgraçadamente não parece ter o favor dos primeiros nem a atenção dos segundos. JL Peixoto tem, e isso é incómodo para FEP. Parece-lhe uma injustiça. O blog de FEP é, em grande medida, um arquivo de ressentimentos, misturando lamentos e recados para destinatários mais ou menos evidentes. Escreve ele: "É isso que eu censuro em alguns escritores: a mentira. Escrever muito bem sobre o que nunca sentiram, é isso que eles fazem (...)" A estafada máxima "write about what you know". Se fosse lei, não haveria ficção científica nem romance histórico. Nem algumas das grandes obras da literatura mundial. A título de exemplo, veja-se o que diz Zweig de Hölderlin: "(...) no Hyperion (...) descreve um âmbito de vida que não conhece, a guerra, uma paisagem onde nunca esteve, a Grécia, um tempo com o quel nunca se preocupou, o presente." Será que FEP censura Hölderlin por isso?
Publicado por: Silvério em novembro 28, 2004 12:46 PM
Caro Silvério,
Não sendo provável que haja actualmente dois contistas chamados «Miguel Miranda», tenho de concluir que você leu dele alguns contos menores. Pode suceder.
Sugiro-lhe que leia, de «Contos à moda do Porto» (ah, sim, estes títulos!), o conto 'Tripas com limão', título que também não é forte, mas que encima um dos nossos três ou quatro melhores contos sobre a cena da droga.
Sugiro-lhe, também, do livro «Como se fosse o último», que saiu este ano, o conto 'À primeira vista'. Se encontrar alguma coisa melhor actualmente na 'short story' entre nós, avise.
(De resto, estimei a sua gentileza. Farei por merecê-la.)
Publicado por: fernando venâncio em novembro 28, 2004 02:50 PM
Como é que o silvério pode estar ao mesmo tempo ao lado do luis pacheco e do peixoto? O pacheco é o primeiro a diluir o seu próprio ego na personagem do libertino. E o peixoto é um menino do coro, um mímico da literatura pimba, lamentosa e chorada. Qual é a verdade do silvério? O que é que ele entende por ressentimento? Será o mesmo ressentimento que o pacheco sente como editor falido e escritor nunca aceite pelos autores de salão rodeados por um cortejo de críticos formados no folclore medíocre da literatura que defendem e promovem? Nunca passou pela cabeça do silvério perguntar ao pacheco o que pensa do peixoto? Ou terá receio que um manguito do pacheco transforme o estilo fadista e metálico do peixoto num autor de catequese com pretensões saramaguianas? E qual é a minha verdade, não é isso que o silvério pretende saber? A minha verdade é a mágoa. Mas nem todos têm a coragem de revelar em público a sua mágoa, nem sequer que a sentem. Porque os silvérios deste mundo dizem muito menos do que aquilo que sentem. Não têm coragem. Logo, não têm verdade e disfarçam o seu discurso com ideias que apanham aqui e ali; deste e daquele, num enjoo que provoca a mediocridade das suas posições em relação aos produtores de literatura. Presumo que o silvério não sabe quem é o fep. É compreensível e aceitável, porque o fep não se constitui como figurino neste desfile de máscaras onde a obra conta ainda menos que a personalidade corrompida pelo mercado dos favores literários.
Publicado por: fernando esteves pinto em novembro 28, 2004 07:53 PM
Ó Fernando, você tem a certeza de que leu bem o que o Silvério escreveu? A sua obsessão por José Luís Peixoto é tão grande que agora o vê em toda a parte?
Ora leia mais uma vez, agora sem pressas, o comentário do Silvério. Tá? E depois diga o que acha do outro paralelo, aquele que você atropelou.
Publicado por: fernando venâncio em novembro 28, 2004 09:23 PM
sempre desconfiei que o fernando venâncio é perito a maquilhar aparências. qual é o papel que lhe cabe neste grande circo? fazer caretas no espelho virtual ou mastigar as palavras dos outros como se fossem vidros?
Publicado por: fernando esteves pinto em novembro 28, 2004 11:27 PM
Olhe, meu caro. Bons sonhos. E amanhã desperte menos profético.
Publicado por: fv em novembro 28, 2004 11:49 PM
Em que ponto do meu texto é que eu digo que estou "do lado" do Peixoto?
A simples referência a "lados" é, aliás, bem reveladora de uma forma de olhar para a vida muito maniqueísta e cheia de (desculpe lá) ressentimento.
Aparentemente, há dois lados. O dos maus (de que faz parte o Peixoto e, penso, todos os que tiverem algum “sucesso”) e o dos bons (onde está o FEP e, supõe-se, mais dois ou três). O resto da história é conhecido: uma cabala de dimensão internacional dirigida por Prado Coelho tem vindo a manter os bons na obscuridade. Tanto melhor. Eles não precisam cá de estardalhaço público para saberem que são os maiores. EPC que promova essa “literatura pimba, lamentosa e chorada”. Só há um pequeno problema: se EPC continuar a levar ao colo a “literatura pimba, lamentosa e chorada”, há uma probabilidade muito forte de, em breve, escrever uma crónica elogiosa sobre a obra do FEP. Vejamos alguns excertos do blog do FEP:
"tenho os meus olhos cheios das tuas lágrimas.
nenhuma lágrima poderá apagar qualquer palavra dita ou algum acto cometido."
"Foram estas as minhas cenas em criança, sentir o amor em sofrimento, amar na dor de alguém que é massacrada e violada e mesmo assim esconde as suas lágrimas."
“Sempre invejei a harmonia emocional da minha mãe; tão depressa está no chão alagada nas suas lágrimas, como a vejo sentada no trono feliz do seu destino.”
"Pequenas lágrimas de suor rolam nas minhas nádegas."
"O fotógrafo mandou-nos sorrir depois de a mãe ter enxaguado as suas lágrimas."
Se é pimba ou não – é uma questão de gosto. Mas que é lamentosa e chorada, parece-me indiscutível. A abundância de lágrimas assim o denuncia. Que diabo, FEP, você até no cu tem lágrimas. E, na última citação, a mãe, em lugar de enxugar as lágrimas, enxagua-as. Já é vontade de não as secar...
Publicado por: Silvério em novembro 29, 2004 12:51 AM
"Que diabo, FEP, você até no cu tem lágrimas". Com o devido respeito, FEP, esta tirada do Silvério foi de antologia.
Publicado por: Tulius Detritus em novembro 29, 2004 02:22 AM
E andei eu ontem, graças à matemática da minha filha, longe daqui. Mas que bela discussão :-) Ia tendo um AVC quando li esta última...
Publicado por: Luis Rainha em novembro 29, 2004 11:13 AM
Desculpa la, Luis, mas reparei num pormenor.
A tua filha e a tal que nao te liga quando tu lhe telefonas, nao e? Mas liga-te quando quer explicacoes de matematica.
Eu nao tenho filhas, mas sei bem o que isso e.
Publicado por: Filipe Moura em novembro 29, 2004 11:29 AM
Filipe; a coisa também não é assim tão má quanto eu a pinto em alturas de neura... a paternidade tem mesmo mais alegrias que outra coisa.
Publicado por: Luis Rainha em novembro 29, 2004 12:15 PM
«Lágrimas no Rabo", olhem que belo título isto daria. :)))
Publicado por: The Saint em novembro 29, 2004 03:12 PM
Para começar, devo dizer que até eu me vim com o antológico humor do silvério. A acção onde a cena se insere é assim: “ a noite é também o peso do corpo sobre o corpo. na ausência do amor, o corpo tem um peso infinito. O meu corpo é longo e eu projecto-me na distância onde o prazer não atinge. É assim que ele me rasga e me espreme sob o peso da loucura. Vira-me do avesso e chora nas minhas costas. Pequenas lágrimas de suor rolam nas minhas nádegas. Arde-me o sexo seco e ferido de rancor. “ posto isto, e desafiando o silvério na sua tendência afecta ao culto que propõe alterar o contexto literário, o sentido de humor pertence por inteiro à personagem. Portanto o que o silvério fez foi parafrasear uma frase onde já existia um humor perverso e desumano. Como vês, até consigo extrair lágrimas do cu das minhas personagens. Cuidado, silvério, pouco falta para que sejas uma delas.
Quanto à questão dos lados, pretendi somente lançar o debate de ideias pacheco/peixoto. Só espero que agora não venha por aí o venâncio com o seu estilo pirata a adulterar o sentido da discussão. Portanto, volto a perguntar ao silvério: o que sabes tu do pacheco? Será que ele alguma vez se cruzou com o eduardo prado coelho em alguma pensão do intendente? Será que esse mostrengo das ideias e das revelações pindéricas ( epc)alguma vez visitou o galinheiro do sabastião alba? ( este também não aparece aqui por acaso, não te assustes ). Do que é que falas quando te referes à crítica literária? Pacheco vs peixoto faz todo o sentido. Qual é a tua posição? Revela-te.
Para finalizar: a mãe não enxaguou as suas lágrimas. A gralha deveu-se a um soluço gramatical. Sorte teve o silvério de não se tratar de uma flatulência lacrimal no momento em que fazia a pesquisa.
Publicado por: fernando esteves pinto em novembro 29, 2004 04:12 PM
Esta gente não é a sério, o Luiz Pacheco é. Neste aspecto, sou reaccionário: a crítica dos costumes literários deveria ter parado nele, e nós ficávamos à espera do d. Sebastião (pode ser Alba). Apesar das obscenidades (forçadas), acho este debate muito respeitoso. Há aqui demasiada literatura. O George, que é o centro disto, foge com o cu à seringa...
Publicado por: jm em novembro 29, 2004 04:39 PM
nem mais. os ratos espreitam dos buracos.
Publicado por: fernando esteves pinto em novembro 29, 2004 04:43 PM
No entanto, o Pacheco é um pantomineiro que dá gosto ler e o Pacheco não dá gosto ler por ser um pantomineiro.
No entanto e no entretanto, pois entre tanto crítico a carecer de crítica sobejam os escritores a carecer de literatura.
O que acima vai escrito foi longamente pensado para não fazer qualquer sentido. Um pouco como esta discussão (a qual até contém um ou dois momentos epifânicos), neo-terapêutica para crises de spleen.
Uma singela ideia retirada da armadilhada metafísica aquinatense: o mal é uma ausência de bem.
Não há rapazes maus nem críticos a dizer mal. Todos os críticos dizem bem, só restando medir o seu grau de bondade. De facto, e gravata, todos os críticos dizem bem de si próprios. As obras são o pretexto, os meios são o contexto e a vaidade é o desfecho.
É o que o George, no texto que está no génesis desta algaraviada, nos conta com cândida desfaçatez. Palavras para quê? É um crítico português.
Publicado por: Valupi em dezembro 2, 2004 05:01 AM