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novembro 24, 2004
MAIS MOUROS NAS NOSSAS COSTAS (2)
Aqui segue a segunda parte do longo texto que o Alexandre Monteiro teve a generosidade de escrever para nossa ilustração, deleite e ocasional horror. A captura de escravos europeus por piratas africanos continua a ser o surpreendente centro da prosa. Aqui, pode ler-se um artigo que nos descreve o mesmo fenómeno, mas sob o ponto de vista britânico. A conclusão é bem aplicável a Portugal: "This may require that we rethink our belief that race was fundamental to pre-modern ideas about slavery. It also requires a new awareness of the impact of slave raids on Spain and Italy - and Britain - about which we currently know rather less than we do about slaving activities at the same time in Africa." Com mais uma vénia ao Alexandre, passo-lhe a palavra:
E tudo isso aumentava ainda mais a sangria de cabedais europeus… Por exemplo, aquando do saque de 1618 a Lanzarote, resultou maior prejuízo pela venda de terras e bens para resgate dos cativos do que propriamente pelo saque em si. Só em1617, haviam mais de 7000 cativos em Argel. Para além da falta que essas pessoas faziam nos seus países de origem, havia ainda o problema do seu resgate conduzir a Argel, a Salé e a Tunis moeda forte. Se o resgate de cada menino custava 60.000 reais, imagine-se o esforço económico que a Coroa e as famílias faziam para os descativar.
Se resgatar pai ou mãe era obrigação cujo incumprimento poderia originar deserdação, como previam as Ordenações Filipinas e se resgatar um familiar era ainda um dever moral, muitas vezes não havia dinheiro disponível…
Em Julho de 1618, o rei mostrava-se preocupado com as dividas à Redenção e apelava à população para que contribuísse para a ajuda aos cativos com esmolas em dinheiro, destinando. por outro lado, metade das coimas pecuniárias à redenção. No final do ano, para se diminuir as despesas, deram-se ordens se resgatassem apenas os menores de 14 anos e pessoas em perigo de vida, bem como os muitos pilotos e marinheiros cativos em Tetouan e Ceuta, "dos quais poderiam muito bem os turcos se aproveitar em novos saques". Em resultado desse esforço, chegaram a Lisboa, a 8 de Junho de 1620, 350 cativos, dos quais 140 eram mulheres, 85 crianças, e os restantes homens do mar. Custaram todos 26.8887.580 reis, soma essa que contribui para que, em 1621, houvesse uma dívida da fazenda Real ao cofre da Redenção de cerca 87.155.883 reis.
E porquê as crianças em primeiro lugar? Porque, como dizia Valério Barbosa em 175, "os catholicos são os que mais sofrem com os Piratas, vendo-se accometidos dos torpes sectarios de Mafoma, os quais não somente os pretendem roubar, tirando-lhes as riqueza, cativar, coorctando-lhes a liberdade, mas tambem (oh astucia diabolica, e engano Luciferino!) Mas tambem intentão, que largando a nossa Santissima, e verdadeira Ley, sigão os seus absurdos, preversos e abominaveis ritos."
Com efeito, apesar de todos os todos os banhos de Argel estarem dotados de capelas cristãs (em 1731, sete padres católicos asseguravam os serviços das 3 capelas, com procissões eram autorizadas desde que a cruz não fosse transportada) e não se pressionar os escravos à conversão - já que não haveria interesse dos redentores pelos renegados, o que dava menos dinheiro – muitos dos cativos mudavam de religião. As razões invocadas para a renegação baseavam-se muitas das vezes na administração de maus tratos (embora existisse uma prerrogativa da lei islâmica que proibia expressamente tais maus tratos), na acomodação de uma situação aparentemente imutável, na procura de uma vida melhor e de uma maior liberdade de movimentos e na fuga a castigos por ocasiões do cometimento de crimes. Raramente era feita por consciência religiosa já que quer os conhecimentos do Islão quer os próprios conhecimentos da religião cristã eram muitas vezes parcos e impediam a comparação. Quando não havia esperança de se obter resgate, os cativos eram forçados a renegar, para que Alá pudesse fazer cair sobre os seus donos as bênçãos devidas pela conversão.
Os renegados eram um subproduto resultante do difícil relacionamento entre a Cristandade e o Islão, já que, após o momento em que caíam cativos, duas opções se colocavam aos cristãos: manterem-se fiéis ao Cristianismo e esperar uma ocasião propícia para regressar – através de resgate ou fuga - ou renegar, passando a integrar-se no seio do próprio inimigo (renegados ou elches) traindo a fé e o reino. Na Península Ibérica, por exemplo, a temática dos cristão novos, dos judeus, dos mouriscos, dos cativos e dos elches tinha um maior peso do que a questão dos luteranos e calvinistas.
Os arquivos da Inquisição de Lisboa, Sevilha, Maiorca, Sicília, etc. contêm vários processos do santo Ofício levados a cabo contra arrais, nascidos na religião cristã e que se encontravam ao serviço do Islão quando foram capturados (em Espanha, uma lista mencionava que cerca de 500 cristãos se tinham convertido entre 1550 e 1670 - por exemplo, Simão Gonçalves foi feito cativo dos Mouros por volta de 1550. Renegou a fé cristã e assaltou e pilhou para os seus armadores de Argel. Preso em Portugal, arrependeu-se num Auto de Fé e chegou ainda a capitanear uma galera da Mina. Outro exemplo: em 1588, as 35 galés de Argel eram comandadas por 21 renegados, 2 filhos de renegados, e por apenas 4 árabes e 8 turcos - os renegados eram de origem húngara, francesa, genovesa, espanhola, grega, veneziana, corsa, siciliana, napolitana e calabresa.)
Em Portugal, os renegados capturados tinham de se apresentar perante a Inquisição e confessar as suas culpas. As penas consistiam geralmente em abjurações, instrução, penitência e pagamento das custas. Alguns, poucos, eram condenados a penas de prisão e um ou outro a degredo ou às galés - se bem que o islamismo fosse um dos delitos mais gravosos, de um modo geral a Inquisição era bastante benevolente para com os renegados: para além de se recuperar as almas perdidas, os renegados eram pessoas ainda muito válidas para a sociedade.
Entre 1536 e 1700, 250 renegados de várias nações compareceram perante os três tribunais da Inquisição portuguesa - destes, 5 eram mulheres, cerca de 50% eram portugueses, tendo entre todos experimentado um cativeiro que terá durado entre 3 e 35 anos.
E era um cativeiro bastante cruel. Apanhados nos conflitos religiosos, os cativos de um lado e do outro sofriam as piores torturas e sevícias. Conta Frei António de Espínola, em 1688, que, aquando do cerco de Argel, a 26 de Junho desse mesmo ano por uma armada francesa de com 18 navios de guerra, 8 galés, 10 balandras incendiárias e mais embarcações auxiliares, "o cônsul francês André Piol foi levado, com mais quatro franceses, para a Ribeira e aí foram atados pelos pés em dous paos, com a cabeça para baixo, defronte da boca do tiro, logo dispararão a peça que os fazia em migalhas. Só o consul escapou. Noutro dia puseram no canhão o Padre Vigário Apostólico D. Miguel Mot-Mafour e mais quatro franceses, a quem cortaram as orelhas e os narizes, após lhes cegarem um olho com um alfange."
Em represália, os franceses das galés expuseram sete mouros mortos, pregados em tábuas, com os narizes, olhos e orelhas cortados e alguns vivos, com pedaços de toucinho na boca. Em resposta de terra, 28 franceses mais foram passados ao tiro de canhão. (No final do cerco quando as munições francesas acabaram, metade das casas argelinas estavam destruídas bem como todos os banhos, as tabernas dos cristão, a casa do rei, a fortaleza, as mesquitas, os 5 hospitais e as igrejas. Cinco navios muçulmanos e um inglês que estava no porto foram afundados).
Não admira pois que houvesse renegados. E era muito fácil renegar o Cristianismo: o cristão deveria declarar querer ser mouro, levantar a mão direita e dizer "La ilaha illa Allah Mohammed rezul Allah", a profissão de fé. Implicava também mudar de nome. os mais comuns eram Ali, Mustafá e Mahomet.
Em seguida vinha a circuncisão, o que para além da dor física implicava também uma marca que nunca mais se apagaria e que denunciaria o renegado caso este voltasse a ser capturado na Europa.
A aparência também se alterava, com o corte do cabelo e uso de traje mouro. A oração ritual, a "salat" era praticada muito pouco ou se o era, então era apenas dita corrompida, porque muitos dos renegados não sabiam árabe.
Depois haviam os abusos sociais. As mulheres eram violadas e tomadas como concubinas, o mesmo acontecendo a alguns homens. Migue Cervantes Saavedra, o autor do Dom Quixote, foi um deles, sofrendo um trauma que nunca conseguiu superar e que se lê bem nas entrelinhas de algumas obras que escreveu, como a da "Viagen al Parnaso, compuesto por Miguel de Cervantes Saavedra. Dirigido a D. Rodrigo de Tapia, caballero delhabito de Santiago: El trato de Argel" escrita em 1582, ainda recém-resgatado do cativeiro de Argel, e que tem como tema central o enamoramento entre escravos e amos, explicado por feitiços.
Se os renegados se mantiveram nas franjas sociais de dois mundos em permanente conflito, não inteiramente integrados no Islão e com problemas de índole diversa quando regressavam, constituindo um grupo dividido entre duas sociedades, duas culturas, duas religiões e duas vidas, também nesta questão de conflito de religiões e culturas as questões não são lineares nem maniqueístas.
Se muito dinheiro era sangrado à Europa, à conta dos saques de navios e das somas pagas pelos resgates, verdade era também o facto desse mesmo dinheiro regressar à Europa, sob a forma de pagamentos para a aquisição de produtos de luxo e armas produzidas na Europa Setentrional.
Com efeito, as relações comerciais entre as duas bandas do Mediterrâneo não foram interrompidas pelo corso ou pela violência – em determinados momentos, as autoridades viram-se até coagidas a proibir aos mercadores de adquirir, em Argel ou na zona do Magrebe, as mercadorias roubadas aos cristãos sob pena de confiscação das mesmas e da aplicação de castigos corporais – aos delatores capazes de apresentar prova daquele delito era reservado um terço do valor dos bens confiscados.
Muitas vezes, a coberto da chamada "pirataria amigável", davam-se autênticas operações de contrabando, enquanto que os menos escrupulosos vendiam aos infiéis as armas que os haveriam de cometer mais tarde. A Inglaterra trocava salitre, cera, peles e ouro marroquinos por armas e munições, através da companhia Henry St-John & Co. Os Países Baixos, por um tratado de 1610, forneciam a Marrocos fio de ferro, armas e munições. Os comerciantes judeus adquiriam por baixo preço as mercadorias roubadas e revendiam-nas na Itália, em Livorno e em Genes. Há canhões fundidos na Holanda, em 1619 e 1632, que têm inscrições em árabe invocando Alá…
Os próprio padres redentores utilizavam intermediários que clamavam uma percentagem do resgate, enquanto que a sua vantagem, reclamada ao sultão, era a de poderem construir capelas e igrejas em território magrebino.
Havia ainda muita corrupção no "negócio dos resgates", com intermediários europeus e judeus a afastar os religiosos das negociações, resgatando cativos por baixo preço e cobrando aos religiosos preços elevados, muitas vezes por cativos já mortos, não existentes ou mesmo já resgatados.
Ontem, como hoje, a religião andava de braço dado com o vil metal. Ontem, como hoje, quem se tramava era a arraia-miúda. Razão tinha Voltaire quando nomeava no seu Candide, a escravatura às mãos dos Muçulmanos como uma das maiores tragédias que afectavam a Humanidade do seu tempo. Ou, como diria João de Mascarenhas, em 1627, na sua "Memorável relaçam da perda da Nao Conceiçam que os Turcos queymarão à vista da barra de Lisboa": "não há pior transe do que esperar o cativo nesta hora o amo que terá, porque um homem não pode chegar a maior desgraça, nem seus pecados o podem trazer a maior miséria, que a ser escravo, mas se a sua má fortuna o trouxe a ser escravo de ruim patrão, não tem que aguardar cousa boa de sua estrela, se não ter-se por desgraçadissimo, porque não há pior inferno nesta vida". (Alexandre Monteiro)
Publicado por Luis Rainha às novembro 24, 2004 12:04 AM
Comentários
Não sei se é consciente disso. Mas os seus textos parecem querer desculpar o tráfico de escravos por parte de Portugal com base na argumentação de que "se eles os africanos o faziam porque nós temos que sentir-nos culpados por o ter feito?" Primeiro existe a falácia no texto tipicamente européia de considerar África como um todo único. Primeiro o norte de África árabe, que também era uma potência nos anos descritos na mercantilizáção de seres humanos, nada tem que ver com a África negra que era fonte de escravos para os europeus e para os árabes. Nomeadamente quem esteve alguma vez em Marrocos terá visto como eu vi, os conflitos ainda existentes na identidade nacional entre uma parte árabe da população que são os antigos colonizadores e actuais exploradores e uma parte berebere original e esta sim próxima a África negra. Segundo em Portugal foi uma potência da usura humana em tempos muito mais adiantados que os apresentados e quando por grande parte da Europa e do mundo dito ocidental existia já uma repulsa perante este negócio. O Brasil dos portugueses recentemente independentizados foi o último país a abolir a escravatura... Como disse não sei se és consciente do que pareces querer dizer, mas por se acaso fica aqui o aviso.
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 08:55 AM
Portugal já era em tempos de tráfico de escravos criticado um pouco por todo o lado por o fazer, por como o fazia e pela dimensão do que estava a fazer. Se tu vivesses naquele tempo suponho que gostarias de ter a oportunidade como um Voltaire, como um ilustrado, de criticar o teu país por o fazer. Porque tentar montar-te em argumentos históricos confortáveis para não criticar os que o fizeram em seu momento. O tráfico de escravos era e é a maneira fácil de gente pobre, rude e cruel de diversas partes do mundo (incluindo na própria África negra de antes e de agora) de fazerem-se ricas. E tenho dito.
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 09:09 AM
De qualquer forma é sempre interessante ler sobre história e disfrutei dos teus textos mesmo achando que havia necessidade de fazer os comentário que fiz e que não li nem nos teus textos nem nos comentários aos mesmos, pelo contrário. Um abraço.
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 09:20 AM
Para documentar os pontos que me provocaram incomodo não foram nunca nos textos do Alexandre, objectivos e nada falaciosos. Foi sim somente num comentario teu a conclusão do texto inglês, que considerei um pouco ambígua, e me levou a necessidade de tecer os comentarios que de outra forma não haveria realizado. Me refiro a este paragráfo que começa com o Luís e termina com o Robert Davis.
A conclusão é bem aplicável a Portugal: "This may require that we rethink our belief that race was fundamental to pre-modern ideas about slavery. It also requires a new awareness of the impact of slave raids on Spain and Italy - and Britain - about which we currently know rather less than we do about slaving activities at the same time in Africa."
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 09:39 AM
Foi a própria Santa Sé e os governos monárquicos católicos quem definiram a escravatura em termos totalmente raciais. Ao fixarem por exemplo que os índios americanos não deveriam ser escravizados, mas os negros africanos sim.
Há que dizer toda a história e não somente parte dela.
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 09:43 AM
Poça! Já chegámos á América??! Aí é que não se pode fazer um texto que fale da escravatura sem o contraditório do típico africano que vive da escravatura que os seus antepassados sofreram. Já passou suficiente tempo para que possamos falar das coisas sem o medo de ter uma pessoa a vigiar... O texto apenas indica o que se passava, não desculpabiliza nada. Apenas as mentes paranóicas é que têm sempre necessidade de alertar para os perigos da liberdade de expressão.
Ainda bem que Portugal foi uma potência.
Publicado por: zangalamanga em novembro 24, 2004 11:22 AM
A isso me referia. Luís, olha quem fica contente com o que dizes para saber se estás dizendo as coisas como devem ser ditas...
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 11:29 AM
É óbvio que tem muito que ver a situção actual sas populações negras e seu status em países onde existiu escravidão com o facto desta escravidão ter existido. Não acha?
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 11:36 AM
Olha quem fica contente? Ehehehe! Só faltava o rótulo. Parabéns! Dum simples comentário a um texto histórico conseguiu tirar conclusões socio-psicológicas. Será que adivinha a minha cor de pele? Aposto que não.
As lutas contra a segregação e discriminação racial são, no meu entender, as mais justas da humanidade. Não concordo com os exageros que se cometem e que levam á discriminação de certos povos por parte de outros outrora discriminados.
Publicado por: zangalamanga em novembro 24, 2004 12:01 PM
Rui, não vejo intenção desculpabilizadora em lado nenhum. E ninguém a "ficar contente". Estás a ver coisas que não existem. (Se não te conhecesse, diria que pareces crente numa religião que eu cá sei.) Os textos do Alexandre são um saudável exercício de "avesso do avesso". Mas os teus comentários são muito úteis.
Já agora, por que não identificas o blogue?
Publicado por: Filipe Moura em novembro 24, 2004 12:36 PM
Primeiro o final não identifico o blog porque significaria escrever mais...
Volto a referir um comentario meu, acerca do Alexandre: "Para documentar os pontos que me provocaram incomodo não foram nunca nos textos do Alexandre, objectivos e nada falaciosos. "
Agora o que achei com tom desculpabilizador e voltando a citar um comentario meu:
//Me refiro a este paragráfo que começa com o
//Luís e termina com o Robert Davis.
Foi a frase de robert e o comentario a frase de Luis que me pareceram desculpabilizadores, e como minimo todos concordarão que e o facto de me haverem parecido é compreensivel. De qualquer forma acho que Luis (nao tenho tanta certeza sobre Robert) concordará que realmente a frase não merece o destaque que ele deu-lhe, pelo menos um destaque em tom de concordância...
Meus comentarios podem parecer persecutórios mas somente para quem não os lei na sua totalidade.
E quanto a frase do "zanga" > provavelmente foi esrita sem pensar e em "modo rápido"... mas de qualquer modo era desnecssária, já que meus comentários se justificavam na medida em que existia uma dada citação (que não era do alexandre) e um comentário a esta citação que já apresentei acima. O problema assim repito não é dos textos de Alexandre, mas do contexto inicial em que Luis os apresenta no ultimo (este) post.
(FM desta apresentei o blog.)
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 12:49 PM
A citação que não aparece no meu comentario anterior provavelmente pelo uso de caracteres confundíveis com HTML:
A conclusão é bem aplicável a Portugal[Luis Rainha]: "This may require that we rethink our belief that race was fundamental to pre-modern ideas about slavery."[Robert davis]
Esta parte e só esta é que me causaram repulsão. E já está.
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 12:53 PM
A frase do zanga que tao pouco apareceu é:
Aí é que não se pode fazer um texto que fale da escravatura sem o contraditório do típico africano que vive da escravatura que os seus antepassados sofreram.
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 12:55 PM
Uma frase infeliz tua também Felipe é:
"Se não te conhecesse, diria que pareces crente numa religião que eu cá sei."
Frases destas têem que ser contextualizadas para serem ditas, se não são o que são assim soltas...
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 12:57 PM
Desculpem lá mas este Alexandre Monteiro, além de ser um idiota chapado, é um péssimo poeta. Leiam alguns "poemas" da criatura e tentem conter o vómito. Que palhaço...
Publicado por: FP em novembro 24, 2004 01:18 PM
Esta história da escravatura tem muito que se lhe diga. Portugal utilizou como escravos os mouriscos cativos aquando da Reconquista, depois os guanches das Canárias, a seguir os mouros capturados aquando da expansão para o Magrebe e finalmente os negros de África, os cativos das guerras das Índias e os indígenas do Brasil.
De todos estes, a Igreja católica sancionava especialmente o uso de escravos negros, como tradição biblica derivada da história de Caim e Abel.
Agora, o que não podemos fazer nunca é condenar a sociedade portuguesa do século XV ou XVI com a moral e a ética do século XXI.
É que, volta não volta, ouvem-se discursos politicamente correctos, apontando vícios vários e apedrejando, do alto da sua cátedra, os costumes vigentes e passados, condenando Portugal pela escravatura, culpabilizando-nos a nós, Portugueses, por aqui que Portugal fez com milhares de africanos.
Serei eu, Alexandre Monteiro, nascido em 1970, responsável por os meus tetra-tetra-penta-avôs terem chegado a África pelos seus próprios meios, por serem na altura tecnologicamente superiores aos povos que lá existiam, por terem "conquistado" bens e recursos naturais aos seus legítimos proprietários - quando no continente africano, como se sabe, era tudo um "pacífico mar de rosas" antes da Expansão europeia, nem havia guerras, morticínos, invasões, conquistas, escravatura, nem nada, era tudo paz e amor?
Devemos nós pedir desculpa, à luz da moral do século XXI, por factos acontecidos e actos cometidos de acordo os princípios e a moral do século XV?
Não compreendo estes discursos PC. E compreendo ainda menos quando se sabe que a escravatura dita "europeia" tinha o seu início apenas na linha de costa africana, local onde os traficantes árabes e africanos "largavam" a sua mercadoria humana contra a entrega da prata cristã - basta ver o que sucedeu em Mombassa quando os Omanes e os Suaílis expulsaram os Portugueses em 1698, culminando o processo na grande negociata da família Busaid, para se perceber que a grande máquina da oferta era mantida pelos africanos, tão negros quanto os escravos que vendiam aos Europeus.
É também muito confortável esquecermos que as grandes rotas terrestres do esclavagismo africano eram de exclusiva iniciativa africana, servindo os árabes e os suaílis na costa leste africana (foi apenas no século XIX que estes últimos se começaram a aventurar no interior) - este facto, apesar de ser em parte negado pelos novos revisionistas negros (Oscar Beard, por exemplo) é imutável. É histórico.
Acaso tenho eu culpa de existir escravatura antes de os Portugueses chegarem a África e de invasões e genocídios terem sido um dado constante na História Universal, antes e depois dos Descobrimentos, e ainda o serem?
A escravatura é um fenómeno horrível. Utilizá-a, juntamente com o fenómeno do colonialismo, para explicar toda a miséria, fome e mortandade que existe em África, é de uma ingenuidade inconsciente ou de uma perversidade atroz.
Que se acabe com a escravatura de vez. E, já agora, com o politicamente correcto, essa doença moral que nos ata de mãos e pés através da nossa própria vontade.
Publicado por: Alexandre Monteiro em novembro 24, 2004 02:57 PM
Como tu próprio dissestes Alexandre a raça e a noção de superioridade de raça, e de hierarquia rácica foi algo que sempre esteve presente no mercantilismo europeu de escravos. O que desmente a suposta conclusão de Robert Davis e a concordância (talvez não reflectida) de parte de Luís Rainha.
Quanto a reflecção histórica sobre a responsabilidade moral dos acontecimentos históricos em seu momento, concordo totalmente contigo. Apenas digo que se talvez o que digas sobre a situação moral da discussão nos séculos XV e XVI possa ser defendido, posteriormente ao século das luzes e da Revolução Francesa já é muito dúbio que o seja. E como já disse Portugal manteve o comércio de escravos de maneira intensiva durante um largo período no qual este comércio já era criticado largamente no mundo civilizado. O que prova que para todos os efeitos estávamos cometendo um crime contra a humanidade num período em que já se tinha a noção de que se estava a cometer tal crime.
Quanto a sermos culpados dos crimes dos nossos antepassados não o somos é óbvio, mas sim somos de tentar escamotear-los ou negar-los.
Quanto a ser-se politicamente correcto, eu sou apenas correcto com o que penso e que tanto quanto vejo nada tem a ver com o que passa com a política na sua maior parte. E sinceramente não creio que seja fácilmente encaixotável em epítetos de duas palavras.
E a responsabilidade pela situação actual de África sendo em grande parte de Europa não é óbviamente somente ao tráfico de escravos, se extende muito mais além disso e se deve a políticas muito mais actuais que isso. E o que referi foi a responsabilidade de minorias étnicas de países colonizados pelos europeus, onde aí sim o peso do tráfico de escravos e da escravidão é muito mais importante.
E finalmente a lógica do elogio da superioridade técnológica e de conhecimento como ponto de apoio dos abusos cometidos, é muito me cheira (e mal me cheira) fascista. Não sei se era isso que querias dizer mas foi como me cheirou.
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 04:22 PM
A moral da época, se pode dizer que a nossa não era a mesma que a dos ingleses...
"Àquela época, foram notórios os episódios de extermínio de escravos capturados na África quando algum navio negreiro se deparava com uma nau da armada britânica em plena rota para a América. Simplesmente, os capturados, ainda atados a suas correntes, eram atirados ao mar com pesos amarrados aos corpos para que desaparecessem no fundo das águas. Sem a prova do crime (os próprios africanos capturados), os ingleses não podiam deter os comerciantes de escravos." (Carlos Brazil)
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 04:46 PM
«Que se acabe com a escravatura de vez. E, já agora, com o politicamente correcto, essa doença moral que nos ata de mãos e pés através da nossa própria vontade.» -> está cada vez mais reaça o Alexandre.. doença moral?! Achava eu que a doença era o sexismo, racismo, homofobia e demais discriminações que se querem varrer da língua e discursos.. diabolize-se o "politicamente correcto" pois então! Mas será essa a melhor maneira para acabar com a escravatura? Parecem-me desejos contraditórios Alexandre..
Publicado por: Boss em novembro 24, 2004 04:54 PM
O preconceito é muito perigoso. Principalmente quando existe contra formas de pensar perfeitamente plausíveis. O RF diz que lhe cheira a fascismo...Começou outra vez com o rótulos! Este tipo de pessoas são as mais perigosas para a liberdade porque estão conformadas com os clichés existentes e lutam contra a diferença a todo o custo. Exactamente o tipo de pensamento que atrasou a bolição da escravatura na Europa.
Publicado por: Zangalamanga em novembro 24, 2004 05:37 PM
Eu sou a pessoa mais perigosa do mundo, nem te podes imaginar zanga...
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 05:48 PM
E o meu tipo de pensamento foi o que atrasou a abolição da escravatura? Explica-te melhor se faz favor... Em vez de dizer cliches tu, porque não me explicas porque raios me proibes de chamar ao discurso de outro em determinado ponto de fascista. Não o chamei ao autor do discurso mas também poderia. Nem disse que lutava contra ele, disse o que me pareceu errado, falascioso, e eventualmente totalitario no discurso de outro. E eu adoro porrada, se o que eu quero é porrada. É pancadaria, é gente que pensa diferente do que eu, e ainda gosto mais quando podem comigo, e mudam a minha opinião. Gosto de evoluir sabe. Gostei de ler o alexandre, e o Luis rainha, e o Robert. Gostei também de não gostar de tudo o que li. Mas vou te ser sincero não gostei até agora nem de uma palavrita do que escrevestes. sabes porque? Porque não dás luta. Se deres bora nessa. porque o que eu gosto mesmo é de porrada. Como já disse sou perigoso...
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 05:54 PM
"A moral da época, se pode dizer que a nossa não era a mesma que a dos ingleses..."
A 'moral' dos ingleses era a de acabar com o tráfico de escravos, não por razões humanistas, mas sim porque esta mão-de-obra barata lhes fazia concorrência à sua indústria têxtil.
Aliás, viu-se bem o que aconteceu aquando da Guerra Civil Americana, com a Inglaterra a apoiar descaradamente o Sul esclavagista, trocando o algodão cultivado pelos escravos negros contra navios e armas britânicas...
Bela moral. Bonitos clichets, os vossos, também.. :)
Publicado por: Alexandre Monteiro em novembro 24, 2004 06:22 PM
Admito que era consciente das subtilezas moral sda posição britânica mas aparte subtilezas ela colaborou junto com França e outros países europeus para um câmbio na opinião publica sobre o tráfico de escravos. Isso não podes negar, nem tão pouco que Portugal e suas colônias demoraram tanto tempo a abolir a escravatura não porque não tivessem consciência moral do crime que cometiam, mas tão somente porque economicamente não lhes interessava. Como vês sou honesto só que não sou tonto. E tu, alexandre, que tonto não és, serás honesto?
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 06:36 PM
Os países devem decidir de acordo com seus interesses sacrificando questões morais. Além do mais quem assim não o faça é imediatamente prejudicado já que "todos" assim o fazem. Assim que ou se é tonto ou esperto. E aqui estamos.
Basicamente a tua opinião Alexandre será esta? Pergunto.
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 06:40 PM
Por isso que discutir é importante se sacam as coisas de onde menos se espera e coisas obscuras ficam claras.
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 06:53 PM
Força RF!
O Alexandre Monteiro está é habituado a «debater» com tótózinhos cá da terrinha, que não gostam nada de falar dessas coisas. Acho piada um português residente em Portugal manifestar-se contra o politicamente correcto. Mas em Portugal existe algum "politicamente correcto" que se veja!? Dê um saltinho a Londres e verá o que é o politicamente correcto aplicado à realidade. Só depois poderemos falar a sério sobre o que é o "politicamente correcto" no sentido mais profundo da expressão.
Publicado por: The Saint em novembro 24, 2004 07:20 PM
De qualquer forma quero deixar claro que a parte divergências de cáracter político (e portanto não de visões da história...) considero o contributo dos textos de Alexandre Monteiro válidos como textos de História que são.
O meu objectivo foi sempre uma crítica a um determinado tipos de conclusões que o texto de Luís Rainha neste último post e a sua citação a Robert Davis pareciam querer induzir e que considerei enganosas e perigosas. Se depois se revelou que as opiniões pessoais de Alexandre são um "pouco demasiado (perigosamente?) pragmáticas" (em minha opinião, que aliás é a única que tenho a mão...) é algo que é paralelo a discussão principal e apenas serve para situar politicamente a sua crítica aos meus comentários.
Além do mais, devo elogiar-lo do ponto de vista de estudo e apresentação da História por não haver deixado que essas suas opiniões transparecem nos textos. O que é talvez a qualidade essencial do bom historiador.
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 08:33 PM
Rf: és brasileiro, pá?
Publicado por: Dunya em novembro 24, 2004 08:50 PM
O elogio que fiz aos textos de Alexandre não posso fazer aos de Robert pelas conclusões que ele supostamente quer advogar, pelo facto de haver existido durante alguns séculos uma proximidade em termos de ordem de grandeza (1/10) entre os escravos brancos traficados por Norte de África e os escravos negros traficados por Europa. Essas conclusões basicamente podem implicitamente querer dizer (também acho suspeito que uma conclusão de tal ordem não se apresente de maneira mais contextualizada e detalhada) que os brancos não têem que pensar que fizeram barbaridades porque essas barbaridades as faziam todos.
Além de ser copmo minimo dubia a forma de cálculo (o que está relacionado com a falta de fontes para este cálculo) do numero de escravos traficados, a dimensão entre um mercado e outro são abismalmente distintas se tomadas na sua totalidade temporal, e além disso querem fazer crer uma maior proximidade dos árabes com a África negra que com Europa, o que é bastante discutível.
Por fim é como se amanhã os judeus de hoje resolvem crear camaras de gas para os alemaes de hoje, e com isso achemos que estao desculpados os alemaes de ontem de o ter feito com judeus de ontem. Na verdade seriam iguais de culpados.
Que estes textos de Robert Davis são usados (admito que provavelmente sem a sua aprovação) por gente duvidosa para apoiar os seus argumentos está confirmado, podem visitar esta página (http://www.transtopia.org/pcfreezone.html) e verão o livro de Robert Davis citado... E entre outras coisas poderão ler esta pérola (inclusive o racismo aprende com os seus erros, e se torna "agnostico"):
Note: Transtopia.org does not promote "mindless" anti-semitism and, though some of the below links may suggest otherwise, is "agnostic" regarding the propaganda-heavy Holocaust revisionism issue (i.e. why, how, and how many, Jews were killed during WW2).
Isto para mim é só mais uma prova no sentido de que se justificava a sensação que havia tido ao ler a famosa frase de Robert Davis citada com aprovação pelo Luís Rainha (ainda admito que irreflectida), e pelos vistos a posteriori também com a aprovação de Alexandre (neste caso ao que parece a aprovação é mais reflectida).
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 09:11 PM
Dunya sei lá eu o que é que eu sou... graças a deus em quem não acredito.
Mas sim andei por estas bandas do mundo, também. Mas não é a nacionalidade que me aparece no BI, que é a portuguesa, significando isto seja o que for que signifique.
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 09:21 PM
É muito interessante(por vezes até risível) a forma como a certos académicos europeus têm revolvido(ou treslido) a História em busca de alibis para os danos causados pela Europa a outros povos. Há tempos depararei-me com uma curiosa teoria desculpabilizadora dos pecados da Europa num site norte-americano(de que não me recordo agora o nome). A teoria foi improvisada a propósito da polémica em torno da legitimidade ou não de África reivindicar uma indemnização por séculos de escravatura(assunto que esteve em debate há cerca de 4 anos numa mega conferência internacional decorrida na Àfrica do Sul, e em relação ao qual tenho algumas reservas não por discordar da ideia em si, mas pela falta de critérios para a sua aplicação prática). Ora, no tal site, um sr. investigador qualquer, dizia o seguinte - « se a Europa deveria pagar uma indemnização à Àfrica então África, na "pessoa" do Egipto, também tinha que pagar uma indemnização aos judeus, uma vez que esses foram escravizados pelos faraós». E eu,incrédulo, disse para comigo - « nem os judeus se lembrariam dessa!:)». A verdade é que quando se fala em responsabilidades históricas os visados fogem por onde der, de cuecas na mão. Mas se houver méritos históricos a reclamar, aí já temos disputa pelos louros.
Publicado por: The Saint em novembro 24, 2004 10:25 PM
Se entrarmos no mecanismo das indemnizações começamos um labirinto circular um pouco absurdo. Outra coisa é escamotear a história por este motivo ou em geral por outros. Se a Europa que se dizia cristã não tinha um quadro moral para julgar o tráfico de escravos é porquê ninguém leu padre Antonio Vieira nem sabe o que é cristianismo.
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 10:59 PM
Aliás, a propósito de 'reclamação de méritos' lembro-me de certa vez um amigo egiptólogo ter-me falado de uma polémica académica que se arrastou ao longo de décadas(creio mesmo que ainda se vai arrastando) sobre a pigmentação epidérmica dos antigos egípcios. Nessa polémica tinhamos os egiptólogos europeus de um lado, e os egiptólogos africanos, sobretudo o senegalês Cheikh Anta Diop do outro. Este defendia que os antigos egípcios eram negros(talvez um bocadinho clarinhos, mas negros), e os seus congéneres europeus defendiam que não, que os antigos egípcios aproximavam-se epidermicamente mais dos brancos que dos negros(como se vê nos filmes de Hollywood). Moral da história, segundo o meu amigo egiptólogo(onde andará esse gajo?!), uns e outros disputavam precisamente os méritos científicos, matemáticos, arquitectónicos, etc, do Antigo Egípto. Claro que os srs. historiadores percerão melhor disso que eu, pelo que agradecerei eventuais correcções.
Publicado por: The Saint em novembro 24, 2004 11:10 PM
Sobre a moral em tempos de escravidão:
"Quando passei por essa rua pela primeira vez, parei para olhar através das grades de uma janela; apareceu então um cigano e insistiu para que eu entrasse. Senti-me atraído por um grupo de crianças, uma das quais, uma menina, tinha um ar triste e cativante. Ao me ver olhando para ela, o cigano a fez levantar-se dando-lhe uma lambada com uma comprida vara, e lhe ordenou com voz áspera que se aproximasse. Era desolador ver a pobre criança de pé à minha frente, toda encolhida, em tal estado de solidão e desamparo que era difícil conceber como pode chegar àquela situação um ser que, assim como eu, é dotado de uma mente racional e uma alma imortal. Algumas meninas tinham um ar muito doce e cativante. Apesar de sua pele escura, havia tanto recato, delicadeza e cordura nos seus modos que era impossível deixar de reconhecer que eram dotadas dos mesmos sentimentos e da mesma natureza das nossas filhas. O vendedor preparava-se para colocar a menina em várias posições e exibi-la da mesma maneira como faria com um homem, mas eu declinei da exibição e ela retornou timidamente ao seu lugar, parecendo contente por poder se esconder no meio do grupo."
Robert Walsh. Notícias do Brasil (1828-18299).
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 11:21 PM
"Quando trazidos de volta, além de açoitados, eles passam a ser distinguidos por uma marca que lhes é colocada ao redor do pescoço e é muito estranha. Trata-se de um colar de ferro, do qual se projeta quase em ângulo reto uma barra também de ferro terminada por uma cruz ou algo semelhante a uma flor de liz. A finalidade desse colar é não só estigmatizá-los como escravos fujões mas também dificultar a sua fuga, já que, ao tentarem abrir caminho no meio do mato a barra de ferro se embaraçaria nos arbustos e acabaria por estrangulá-los. Às vezes, a barra termina em cinco pontas, como se fossem dedos e isso implica que o escravo fugiu levando alguma coisa que não lhe pertencia, sendo por conseguinte, além de fujão, ladrão. A multidão de escravos vistos nas ruas com esse colar de ferro é uma prova de como é grande o número dos que estão sempre tentando fugir, e também uma prova de como lhes é insuportável o tipo de vida que levam ..."
Robert Walsh. Notícias do Brasil (1828-1829)
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 11:31 PM
Ah, e recentemente «descobriu-se», com recurso a apetrechos informáticos, que o faraó Tutankamon afinal era um sósia de Ronaldinho(do Real Madrid).
Publicado por: The Saint em novembro 24, 2004 11:35 PM
"[...] Não há trabalho, nem gênero de vida no mundo mais parecido à cruz e à paixão de Cristo, que o vosso em um destes engenhos [...] Bem-aventurados vós se soubéreis conhecer a fortuna do vosso estado, e com a conformidade e imitação de tão alta e divina semelhança aproveitar e santificar o trabalho!
Em um engenho saís imitadores de Cristo crucificado: [...) porque padeceis de um modo muito semelhante o que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz, e em toda a sua paixão. A sua cruz foi composta de dois madeiros, e a vossa em um engenho é de três. Também ali não faltaram as canas, porque duas vezes entraram na paixão: uma vez servindo para o cetro de escárnio, e outra vez para a esponja em que lhe deram o fel. A paixão de Cristo parte foi de noite sem dormir, parte foi de dia sem descansar, e tais são as vossas noites e os vossos dias. Cristo despido, e vós despidos; Cristo sem comer, e vós famintos; Cristo em tudo maltratado, e vós maltratados em tudo. Os ferros, as prisões, os açoites, as chagas, os nomes afrontosos, de tudo isto se compõe a vossa imitação, que, se for acompanhada de paciência, também terá merecimento de martírio. Só lhe faltava a cruz para a inteira e perfeita semelhança o nome de engenho; mas este mesmo lhe deu Cristo não com outro, senão com o próprio vocábulo. “Torcular” se chama o vosso engenho, ou a vossa cruz, e a de Cristo, por boca do mesmo Cristo, se chamou também “Torcular” [...] Em todas as invenções e instrumentos de trabalho parece que não achou o Senhor outro que mais parecido fosse com o seu, que o vosso. A propriedade e energia desta comparação, é porque no instrumento da cruz e na oficina de toda a paixão, assim como nas outras em que se espreme o sumo dos frutos, assim foi espremido todo o sangue da humanidade sagrada [...] E se então se queixava o Senhor de padecer só [...) e de não haver nenhum dos gentios que o acompanhasse em suas penas [...] vede vós quanto estimara agora que os que ontem foram gentios, conformando-se com a vontade de Deus na sua sorte, lhe façam por imitação tão boa companhia!
Mas para que esta primeira parte da imitação dos trabalhos da cruz o seja também nos afetos – que é a segunda e principal – ; assim como no meio dos seus trabalhos e tormentos se não esqueceu o Senhor de sua piedosíssima Mãe, encomendando-a ao discípulo amado, assim vos não haveis vós de esquecer da mesma Senhora, encomendando-vos muito particularmente na sua memória, e oferecendo-lhe a vossa [...] E como a natureza gerou os pretos da mesma cor da sua fortuna [...] quis Deus que nascessem à fé debaixo do signo da sua paixão e que ela, assim como lhe havia de ser o exemplo para a paciência, lhe fosse também o alívio para o trabalho. Enfim, que de todos os mistérios da vida, morte e ressurreição de Cristo, os que pertencem por condição aos pretos, e como por herança, são os dolorosos.
Destes devem ser mais devotos, e nestes se devem mais exercitar, acompanhando a Cristo neles, como fez São João na sua cruz. Mas assim como entre todos os mistérios do rosário estes são os que mais propriamente pertencem aos pretos; assim entre todos os pretos, os que mais particularmente os devem imitar e meditar são os que servem e trabalham nos engenhos, pela semelhança e rigor do mesmo trabalho. Encarecendo o mesmo Redentor o muito que padeceu em sua sagrada paixão, que são os mistérios dolorosos, compara as suas dores às penas do inferno [...] E que coisa há na confusão deste mundo mais semelhante ao inferno que qualquer destes vossos engenhos, e tanto mais, quanto de maior fábrica? Por isso foi tão bem recebida aquela breve e discreta definição de quem chamou a um engenho de açúcar “doce inferno”. E verdadeiramente, quem vir na escuridade da noite aquelas fornalhas tremendas, perpetuamente ardentes; as labaredas que estão saindo a borbotões de cada uma pelas duas bocas, ou ventas, por onde respiram o incêndio; os etíopes, ou ciclopes, banhados em suor tão negros como robustos que subministram a grossa e dura matéria ao fogo, e os forcados com que o revolvem e atiçam; as caldeiras ou lagos ferventes com os cachões sempre batidos e rebatidos, já vomitando espumas, exalando nuvens de vapores, mais de calor que de fumo, e tornando-os a chover para outra vez os exalar; o ruído das rodas, das cadeias, da gente toda da cor da mesma noite, trabalhando vivamente, e gemendo tudo ao mesmo tempo, sem momento de tréguas, nem de descanso; quem vir enfim toda a máquina e aparato confuso e estrondoso daquela Babilônia, não poderá duvidar, ainda que tenha visto Etnas e Vesúvios, que é uma semelhança de inferno. Mas, se entre todo esse ruído, as vozes que se ouvirem forem as do rosário, orando e meditando os mistérios dolorosos, todo esse inferno se converterá em paraíso; o ruído, em harmonia celestial; e os homens, posto que pretos, em anjos [...]
Os dolorosos [...] são os que vos pertencem a vós, como os gozosos aos que, devendo-vos tratar como irmãos, se chamam vossos senhores. Eles mandam, e vós servis; eles dormem, e vós velais; eles descansam, e vós trabalhais; eles gozam o fruto de vossos trabalhos, e o que vós colheis deles é um trabalho sobre outro. Não há trabalhos mais doces que os das vossas oficinas; mas toda essa doçura para quem é? Saís como as abelhas [...] As abelhas fabricam o mel, sim; mas não para si. E posto que os que o logram é com tão diferente fortuna da vossa; se vós porém vos souberdes aproveitar dela, e conformá-la com o exemplo e paciência de Cristo, eu vos prometo primeiramente que esses mesmos trabalhos vos sejam muito doces, como foram ao mesmo Senhor [...] e que depois – que é o que só importa – assim como agora imitando a São João, saís companheiros de Cristo nos mistérios dolorosos de sua cruz; assim o sereis nos gloriosos da sua ressurreição e ascensão. Não é promessa minha, senão de São Paulo [...] Assim como Deus vos fez herdeiros de suas penas, assim o sereis também de suas glórias; com condição porém que não só padeçais o que padeceis, senão que padeçais com o mesmo Senhor [...]
Oh como quisera e fora justo que também vossos senhores considerassem bem aquela conseqüência [...] Todos querem ir à glória e ser glorificados com Cristo; mas não querem padecer, nem ter parte na cruz com Cristo. Não é isto o que nos ensinou a Senhora do Rosário na ordem e disposição do mesmo rosário. Depois dos mistérios gozosos, pôs os dolorosos, e depois dos dolorosos, os gloriosos. Por quê? Porque os gostos desta vida têm por conseqüência as penas, e as penas, pelo contrário, as glórias. E se esta é a ordem que Deus guardou com seu Filho, e com sua Mãe, vejam os demais o que fará com eles. Mais inveja devem ter vossos senhores às vossas penas, do que vós aos seus gostos, a que servis com tanto trabalho [...]"
(Pe. Antônio Vieira. Sermões do rosário: sermão décimo quarto (1633))
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 11:37 PM
Se o Padre Antonio Vieira os criticava me vão dizer que não posso julgar moralmente a escravidão. A ver se deixamos de ser falsos, caramba.
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 11:38 PM
Meus amigos entre D. Joao IV de Portugal e o Padre Antonio Vieira eu fico com o segundo. Ou então tal como Padre Antonio Vieira fico com a Rainha Cristina de Suecia. Sempre a Suecia já em tempos do Antonio era assim...
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 11:45 PM
(Estocolmo, 1626-Roma, 1689) Reina de Suecia. Hija de Gustavo Adolfo II, a quien sucedió a la temprana edad de seis años bajo la tutela del canciller Oxenstierna. En 1644, a los dieciocho años, fue declarada mayor de edad y reinó personalmente. En 1645 firmó el tratado de Brömsebro con Dinamarca, obteniendo importantes concesiones, y agilizó las negociaciones de los tratados de Westfalia (1648), dando un decisivo paso para la conversión de Suecia en una gran potencia. Persona muy culta y con una gran inquietud intelectual, fue protectora de las letras y las artes, y se rodeó de los sabios más eminentes de su época, entre los que destacan Descartes y Grocio, con quienes organizaba largos debates en los que siempre aportaba reflexiones interesantes. Después de apartar del poder a Oxenstierna, emprendió una política de dispendio y se mostró poco interesada en la hacienda del reino, lo que afectó gravemente las finanzas suecas y minó su popularidad. De temperamento sensible, inestable y nervioso, rechazó el matrimonio, y para gobernar siguió el consejo de una corte de personajes intrigantes, como el médico francés Bourdelot, el conde de La Gardie, Pimentel, Tott y otros. En 1654 renunció al trono en favor de su primo Carlos Gustavo príncipe del Palatinado, que fue coronado como Carlos X Gustavo. A partir de entonces se dedicó a viajar y pasó largas estancias en diversos países europeos, estableciéndose en Bruselas. Once años más tarde, durante su estancia en Innsbruck, anunció su conversión al catolicismo y se trasladó primero a Roma y más tarde a Francia, para fijar al fin su residencia en Fontainebleau, donde se vio envuelta en el asesinato, el 10 de noviembre de 1657, de su presunto amante, el caballerizo mayor Monaldeschi. Tras el escándalo, se trasladó de nuevo a Roma, ciudad en la que pasó los últimos años de su vida rodeada de intelectuales.
O que não dizem é que a rainha acolheu durante os seus últimos anos a Padre Antonio Vieira (que também vivia seus últimos anos) como seu confessor.
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 11:47 PM
"Esse horror à escravidão chega a tal ponto que os negros, para escapar a ela, matam não só a si próprios como também os filhos. As mulheres negras têm fama de ser excelentes mães, e tive a oportunidade de ver sempre confirmada essa fama em todas as ocasiões; não obstante, essa mesma afeição que têm pelos filhos leva-as a cometer infanticídio. Muitas delas, principalmente as negras minas, repelem violentamente a idéia de ter filhos, empregando vários meios para matar a criança ainda no ventre, evitando assim – conforme declaram – a desgraça de por mais escravos no mundo ...”
Robert Walsh. Notícias do Brasil (1828-1829)
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 11:51 PM
Sob os efeitos da escravidão nas minoria etnicas em países de colonização esclavagista:
"[...] No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:
- Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que...
- Oh! Meu Sinhô! Fico.
- ... Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nascestes, eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos...
- Artura não qué dizê nada, não, sinhô...
- Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a galinha enche o papo. Tu vales muito mais que uma galinha.
[...]
Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por não me escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.
Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí para cá, tenho lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas todas que ele recebe humildemente, e, (Deus me perdoe!) creio que até alegre."
(Machado de Assis, ‘Bons Dias’. In Diário de Notícias, p. 489-491
Publicado por: RF em novembro 24, 2004 11:58 PM
"José Bonifácio, em sua justamente famosa representação à Assembléia Constituinte de 1823, chamou a escravidão de cancro mortal que ameaçava os fundamentos da nação. A abolição veio demonstrar que o cancro é mais profundo, que a metástase atinge o corpo inteiro da nação. Ele tem a ver com os valores hierárquicos e sua carga de preconceitos que estruturam nossa sociedade, bloqueiam a mobilidade, impedem a construção de uma nação democrática. A batalha da abolição, como perceberam alguns abolicionistas, era uma batalha nacional. Esta batalha continua hoje e é tarefa da nação. A luta dos negros, as vítimas mais diretas da escravidão, pela plenitude da cidadania, deve ser vista como parte desta luta maior. Hoje, como no século XIX, não há possibilidade de fugir para fora do sistema. Não há quilombo possível, nem mesmo cultural. A luta é de todos e é dentro do monstro. "
José Murilo de Carvalho, publicado no jornal Folha de São Paulo
Publicado por: RF em novembro 25, 2004 12:01 AM
RF,
Estou fascinada com o que tem andado a escrever nestes últimos posts. Nunca o tinha lido antes, mas espero poder fazê-lo mais vezes de ora em diante. Textos muito bons, com os quais se aprende imenso também.
Publicado por: Ana Miranda em novembro 25, 2004 12:43 AM
É inevitável por mais que me considere liberal e aberto, eu continuo é a gostar mesmo, mesmo, é das mulheres. Obrigado Ana.
Publicado por: RF em novembro 25, 2004 01:22 AM
No Brasil, os escravos chegavam a morrer de «banzo», uma espécie de depressão de tal forma extrema que definhava o corpo até à morte. A escritora afro-americana Tony Morrison, questionava-se em "Amada" sobre essa condição última que é ser-se escravo, e dos efeitos que isso poderá ter tido em gerações futuras(actuais). Ser-se esfarelado a nada. Ser-se levado a acreditar que se é realmente nada. Que que a cor da pele é sinónimo de lixo. Que se é menos que bicho. De ser o próprio escravo a ensinar ao filho como ser um escravo exemplar. Ensiná-lo a auto-percepcionar-se como chão humano. Disto resultou a ironia mais cruel de todas. A quando da abolição da escravatura nos EUA, ao verem companheiros seus de trouxas ás costas, não foram poucos os escravos que se insurgiram contra os que abandonavam as casas senhoriais, pois eles acreditavam religiosamente que o que estava certo, era os negros serem escravos.Curiosamente, ainda vê-se muito desse espírito no Brasil, onde o negro ainda se sente intrinsecamente inferior. O esclavagismo e colonialismo deixaram atrás de si, dos dois lados do Atlântico, um rasto de desorientação cultural, sociológica, antropológica e política, que levará décadas a ser corrigida, enquanto o mundo não pára. E vem esse Alexandre Monteiro, com tamanha arrogância, perguntar que culpa tenho eu que os meus antepassados tenham feito o que fizeram? O problema é que essa herança está mesmo debaixo dos seus olhos.
Publicado por: The Saint em novembro 25, 2004 03:51 AM
Até quando você vai levar,porrada, porrada?! Ah,ah,ah! É engraçado RF! Deve pensar que é muito inteligente mas infelizmente é só perigoso. Perigoso porque continua a rotular e a avaliar o passado com base no presente.
A escravatura é repugnante e eu não tenho pudor em condená-la. Mas o que o RF faz é ilibar o mundo puro e bom e condenar os mauzões portugueses. BAH!
Publicado por: Zangalamanga em novembro 25, 2004 09:56 AM
Até quando você vai levar,porrada, porrada?! Ah,ah,ah! É engraçado RF! Deve pensar que é muito inteligente, mas o que eu sei é que é o RF continua perigoso. Perigoso porque continua a rotular e a avaliar o passado com base no presente.
A escravatura é repugnante e eu não tenho pudor em condená-la. Mas o que o RF faz é ilibar o mundo puro e bom e condenar os mauzões portugueses. BAH!
Publicado por: Zangalamanga em novembro 25, 2004 09:57 AM
Esquerda LEFT, Ana Miranda, esquerda LEFT e que e.
Publicado por: Filipe Moura em novembro 25, 2004 11:03 AM
É impossível mudar as ideias a quem já as tem fixas como pedra.
Ou sequer discutir ideias novas.
Publicado por: Dunya em novembro 25, 2004 02:24 PM
Nota: os meus comentários encontram-e bastante 'gralhados' pelo facto de até agora não me ter conseguido entender com a caixa de comentários, nomeadamente com a função PREVER.
Ou é nabice minha ou é bIrrice da caixa.
Publicado por: The Saint em novembro 25, 2004 04:30 PM
Gostava apenas de concluir as minhas intervenções neste post fazendo como que uma síntese dos meus comentários à luz do que foi escrito pelos restantes intervenientes.Assim sendo, sublinho que ao trazer à liça, como que a despropósito, a questão egípcia, pretendia tão só apontar o dedo aos preconceitos e até certa e arrogante má fé que têm dominado o olhar europeu sobre o resto do mundo(e só nos fica mal pretendermos a todo custo disfarçá-los, mesmo porque não há povo que seja apenas diabo ou anjo). Ao contrapor a questão egípcia ao assunto do post, pretendi denunciar a mesquinhez patente em ambos os casos. Se em relação á escravatura alguns historiadores procuram agora relativizar culpas, distribuindo a má índole da natureza humana por todos, na questão egípcia passou-se precisamente o contrário, principalmente se tivermos em conta que a maior parte das investigações sobre o Antigo Egipto decorreram no período colonial. O facto é que as académicos europeus sempre rejeitaram a ideia de que os antigos egípcios pudessem ser negros(do genótipo etíope) por se recusarem a aceitar a ideia de que negros pudessem ter sido responsáveis por um dos períodos mais altos da História universal. Um marco de excelência científica e cultural. Foi risível ouvir num telejornal um dos investigadores britânicos responsáveis pela «reconstrução computarizada» do rosto (afinal negro) de Tutankamon dizer - "se calhar vamos ter que começar a aceitar a ideia de que os antigos egípcios eram mesmo negros"(algo que o senegalês Cheikh Anta Diop já afirmava e provava há muitos anos, encontrando sistematicamente resistência por parte dos escoláticos europeus). Posto isto, é pois muito elucidativo que os académicos europeus procurem agora fazer o contrário em relação à escravatura, ao sacudir a água do capote e distribuir o mal por todos. Claro que não se põe em causa a seriedade dos estudos relatados por Alexandre Monteiro, mas o que está em causa no Esclavagismo europeu, não é apenas a Escravatura mas o período em que ela se operou, um período em que esse comércio já era visto como desumano(como o refere, e bem, RF). Aliás coisas só não se arrastaram por mais tempo mercê da Revolução Industrial. Os escravos negros foram literalmente salvos pela «máquina a vapor». Como se sabe a pressão exercida pelos estados do norte dos Estados-Unidos para o fim da escravatura sulista pretendia sobretudo a libertação da mão de obra negra para as suas fábricas. De resto, o facto do Brasil não se ter industrializado levou a que a escravatura por lá se tenha prolongado por mais tempo. Ou seja, os Valores Humanistas já em voga na altura foram sendo cinicamente guardados na gaveta até ao advento de novas alternativas económicas e tecnológicas[sim, tecnológicas, porque o escravo negro era uma tecnologia, o primeiro tecno-humano da Era Moderna]. E tenho dito.
Publicado por: The Saint em novembro 25, 2004 07:19 PM
Depois do excelente comentário do TheSaint, uma última(?) observação.
Quem cala consente. E assim depois de tudo termino por entristecer-me que uma pessoa dita de esquerda (falo do Luís Rainha) concorde e promova "a frase":
"This may require that we rethink our belief that race was fundamental to pre-modern ideas about slavery." (Robert Davis)
Acho triste, mas satisfaço-me de pelo menos desta vez não ter deixado passar em branco (nunca melhor dito) uma afirmação com demasiadas implicações e demasiado poucas restricções. Uma afirmação mais bem própria de outras latitudes políticas.
Portugueses que gostam, tal como eu gosto, de poder e realizar julgamentos e reflexões sobre os crimes dos outros, mas que deveriam gostar tal como eu gosto de nunca e sob nenhuma circunstância de relativizar o crime mais bárbaro da História de Portugal e um dos mais bárbaros de toda a história da humanidade.
Publicado por: RF em novembro 26, 2004 08:44 AM
O Brasil dos portugueses recentemente independentizados foi o último país a abolir a escravatura...
Hum MENTIRA!
foi só depois de 1960 que os sauditas aboliram a escravatura...e mesmo assim não sei se aboliram mesmo...
Outra coisa que eu vos posso dizer era que na ÁFRICA SUB-SAHARIANA CHEIA DE ÈTICA, é onde se observam ainda hoje Genocídeos capazes de fazer orgulhar HITLER!
exemplo região dos grandes lagos, Zimbabwe, e mesmo contra a população minoritária branca, sim foram corridos os franceses no ano que passou por meio de crimes (violações e assassinatos).
Estes africanos são tão bons...
Não SÂO MELHORES NEM PIORES!
TENTEM COMPREENDER ISSO!
Se os portugas compravam os africanos a REIS Africanos quem os escravizava os Portugueses?
Rídiculo!
Vivemos num mundo pseudo-masoquista, onde alguns esquerdistas querem assassinar numa forma similar a um genocídeo, toda a cultura que promoveu A LIBERDADE E A DEMOCRACIA NESTE MUNDO!
Atrevo-me a dizer que o berloque de esquerda e em certa medida o partido comun8ista faz parte destes masoquistas anti portugal e anti europa!
Publicado por: António em fevereiro 3, 2005 04:01 AM
sim foram corridos os franceses no ano que passou por meio de crimes (violações e assassinatos).
Eswquerci-me de referir que isto aconteceu na Costa do Marfim!
Publicado por: António em fevereiro 3, 2005 04:04 AM