dezembro 09, 2003

SOBRE UM COMENTÁRIO LIDO NOUTRO BLOGUE

De Carlos Miguel Fernandes, recebemos uma mensagem destinada ao tchernignobyl, sobre o post «Blogalização Acelerada». Uma vez que o seu conteúdo é de interesse geral, ao desconstruir o suposto carácter científico das teses de Hayek, guru oficial dos liberais bloguísticos, decidimos publicar o esclarecedor e-mail (não sem antes agradecer a oportunidade do "aviso"):

Não sei se reparou, mas no blog Liberdade de Expressão, um dos muitos blogs liberais que infestam a nossa blogolândia, apareceu um comentário ao seu post de 5 de Dezembro. A desonestidade do autor leva-me a intervir. João Miranda, autor do blog referido, aconselha-o a ler um artigo que, segundo ele, mostra como na Universidade de Santa Fé se anda a redescobrir Hayek. Esqueceu-se de dizer que esse artigo foi-lhe sugerido por mim, numa acesa discussão noutro blog (Picuinhices, no blogspot, entrada "Há uma ortodoxia liberal?") sobre auto-organização. Nessa troca de palavras, eu defendia que os liberais, adeptos de Hayek e da Escola Austríaca, gostam muito de falar em auto-organização e ordem espontânea, mas não têm a menor noção do que é teoria da complexidade moderna, onde estes termos foram finalmente definidos com alguma precisão. Continuam a olhar para Hayek como um guru, um líder religioso do culto do liberalismo, e fecham os olhos a novos avanços e descobertas nesta área científica (leia os 23 comentários do blog Picuinhices para mais informação sobre a discussão entre mim e João Miranda) que possam pôr em causa as palavras do mestre. Hayek nunca teve uma abordagem cientificamente séria da questão, limitou-se a forçar a classificação e interpretação de certos fenómenos, de acordo com a sua ideologia e aversão ao socialismo. Se em certos aspectos acertou, noutros a sua cegueira ideológica levou-o a conclusões forçadas e desonestas.

A certa altura sugeri-lhe o artigo que ele agora refere sem indicar a fonte. Nunca chegou a devolver o repto e a comentar o artigo. Agora, acena-o como
bandeira do liberalismo. Aceite o seu desafio e leia o texto. Repare na última frase, à qual João Miranda não deve ter prestado muita atenção. Caso contrário repararia como essas palavras são destrutivas para o seu argumento.
Eu não fiz este comentário directamente no BdE porque deveria comentar
primeiro o post de João Miranda. Mas o seu blog não permite comentários
directos e visíveis para todos e eu não aceito intervir num espaço com essas
características. Por isso, se por alguma razão quiser responder a João
Miranda, não precisa de referir este comentário. Tudo o que está no blog
Picuinhas é suficiente para construir uma argumentação sólida.
(Carlos Miguel Fernandes)

Publicado por José Mário Silva em dezembro 9, 2003 10:22 PM | TrackBack
Comentários

sem pretender minimizar a importância deste post, queria só referir que não existe uma universidade de santa fé. existe, isso sim, o instituto de santa fé (http://www.santafe.edu), que é um instituto privado de investigação onde se exploram novas linguagens da ciência.

Afixado por: joão h j em dezembro 9, 2003 11:44 PM

O texto citado por mim, que eu saiba, não foi escrito pelo Carlos, por isso não vejo motivo nenhum para o citar.

Dizer que o texto citado mostra que teve uma abordagem cientificamente séria da questão é fácil. Mais dificil é prová-lo. Para isso é preciso ler Hayek e perceber o que se leu.

Dizer que "não têm a menor noção do que é teoria da complexidade moderna" também é fácil. O dificil é prová-lo. Para isso é preciso conhecer os liberais, saber qual a sua formação e quais são os seus conhecimentos científicos. O Carlos não conhece os liberais nem sabe quais são os seus conhecimentos cientificos. Mais concretamente, o Carlos não me conhece nem sabe qual é a minha formação.

Quanto à última frase, a que o Carlos se agarra, ela é uma trivialidade. É óbvio que a Escola Austríaca tem muito a ganhar com os estudos sobre sistemas complexos. Mas o que interessa é que os estudos sobre complexidade tendem a confirmar, e não a refutar, as ideias básicas da escola austríaca.

O resto do texto, no entanto, é bem mais interessante e afirma o fundamental: Hayek é um precursor dos estudos sobre sistemas complexos e as suas ideias são, no essencial, confirmadas pelos desenvolvimentos mais recentes dos estudos sobre sistemas complexos.

Afixado por: João Miranda em dezembro 10, 2003 12:31 AM

Carlos Miguel Fernandes

Considero-o uma pessoa desonesta.

Utiliza o seu nome nos mais variados espaços da blogoesfera sem mencionar quem o sugeriuu para ornamentar a sua, de certo, esbelta pessoa: foi a sua mãe? O seu pai? Algum dos seus avós? O Bokassa? Acharia também justo lembrar quem lavrou a acta do registo civil e, caso seja batizado, o senhor que lhe encharcou essa cabecinha tão cheia de ego. Não querendo estar a exagerar, não ficaria mal também lembrar o professor primário que lhe ensinou o alfabeto e que, bem vistas as coisas, foi o primeiro responsável por estar aqui e agora a transmitir-nos informações tão importantes.

NOTA: se teve algum professorque o iniciou no manejo da internet, acho da mais elementar justiça que grave aqui o seu nome.

Afixado por: maradona em dezembro 10, 2003 01:41 AM

O José Mário Silva afirma que o email do Carlos desconstrói o suposto carácter científico das teses de Hayek. Não acha o José Mário que está a exagerar? Como é que um trabalho de dezenas de anos pode ser desconstruído em dois parágrafos? Não acha o José Mário que para de desconstrir Hayek é preciso ler Hayek?

Afixado por: Joao Miranda em dezembro 10, 2003 02:22 AM

O Carlos diz que Hayek "em certos aspectos acertou, noutros a sua cegueira ideológica levou-o a conclusões forçadas e desonestas." Será que o Carlos nos pode falar dos aspectos em que Hayek acertou e daqueles em que errou?

Afixado por: Joao Miranda em dezembro 10, 2003 02:23 AM

Caro João Miranda:

Eu já temia que não se pudesse tocar, nem com uma pena, no vosso adorado Santo Hayek. Acontece que os blogues também servem para pôr em causa. Não há verdades puras nem garantidas. E eu volto a sublinhar que o Carlos Miguel Fernandes "desconstrói" o suposto carácter científico das teses de Hayek. Não o nega a pés juntos, não o rebaixa - desconstrói; ou seja, diz que não é tão relevante como os liberais julgam e que foi ultrapassado pela evolução posterior das ciências da complexidade. É um princípio de discussão. Só isso. Cabe-vos, a vós liberais hayekistas (é assim que se diz?), defender o Mestre o melhor que puderem ou souberem.
E já agora, concordo que para desconstruir Hayek é preciso ler Hayek. Pena é que muita gente tenha desconstruído Marx sem nunca ter lido uma página de «O Capital».

Afixado por: José Mário Silva em dezembro 10, 2003 09:25 AM

A teoria dos sistemas complexos não fundamenta o liberalismo totalitário mas sim uma concepção da vida em que a ética (a intervenção na realidade em função de valores sociais) é um elemento importante na existência do Homem.

Afixado por: timshel em dezembro 10, 2003 11:57 AM

Caro joão h j
tem toda a razão, eu estava a referir-me ao instituto...foi um lapso

João Miranda:
Não lhe dei um sinal no seu blogue antes de escrever para o BdE porque, como já referi, não permite um sistema de comentários livre. É uma opção sua, mas eu tenho o direito de discordar. Especialmente porque selecciona e divulga algumas mensagens (serão todas?...posso estar enganado) para construir alguns dos seus textos. Mas como me merece, por enquanto, todo o respeito, vou responder-lhe através deste meio.
Mais uma vez, o João Miranda distorce um pouco as minhas palavras. Claro que o texto não foi escrito por mim e não quero citações por algo que não criei (e de que serve um nome para quem não conhece a pessoa ao qual está ligado). A fonte a que eu me estava a referir era a discussão iniciada no blogue Picuinhas. Porque, ao retirar o artigo desse contexto, João Miranda rejeita (pelo menos publicamente) muito do que foi falado (atenção, tem a liberdade de o fazer, tal como eu tenho a liberdade de o criticar).
Vou relembrar as palavras que escrevi quando sugeri o artigo: "O artigo não pretende diminuir o trabalho de Hayek, antes pelo contrário. Mas pretende enquadrá-lo numa perspectiva moderna, e de cariz científico, da teoria da complexidade.". Reforço o "antes pelo contrário".
Perante a discussão anterior, o comentário de João Miranda neste blogue perde algum do seu sentido. Mas o João sabe disso, não sabe? Estava distraído ou foi traído pela memória?
Não queria falar muito da questão da “abordagem científica” porque seria necessário escrever mesmo muito. Digo apenas que os métodos de Hayek não podem ser considerados científicos. Nenhuma perspectiva moderna sustentaria tal posição. Mas até podia ter uma atitude acrítica e invocar apenas Karl Popper. Era suficiente para aguentar muita argumentação até rever a minha posição, mas cairia no mesmo erro que os Hayekianos. Por isso, fico-me por aqui na questão da ciência. Noutro lugar poderemos retomar a discussão.
Quanto à acusação de desonestidade (intelectual) baseia-se no seguinte: eu sugeri o texto como reflexão (para liberais ou não liberais) e nunca para defender uma posição ideológica (excepto se considerarem a defesa do espirito crítico e céptico como um dogma). João Miranda aproveitou-o para defender as suas ideias. Na minha opinião, fechou os olhos a uma parte do artigo (pequena ou grande, não importa...estava lá e exigia outra atenção). Se não encontrou nas palavras que leu motivo para reflexão...lamento. Espero que outros encontrem.
Reconheço que a expressão "mas não têm a menor noção do que é teoria da complexidade moderna" foi muito forte, mas tenho verificado que a afirmação é verdadeira nalguns casos. Se a frase se aplica a João Miranda, ou não, não consigo responder. Porque o desconhecimento de alguns conceitos fundamentais que revelou no fórum aberto pelo Picuinhas podem ser justificados pela relutância do ser humano em aceitar argumentos que destruam as suas bases morais, ideológicas e científicas (e quem nunca caiu nessa tentação que atire a primeira pedra). E esta é a guerra constante que devemos manter com a nossa própria pessoa: impedir que o cérebro se feche sobre si próprio, rechaçando qualquer ideia que obrigue a uma reformulação dos conceitos.
Quanto ao segundo comentário de João Miranda, penso que estas palavras e as que foram colocadas por José Mário Silva são suficientes.
O terceiro comentário também pode ser esclarecido com as palavras que escrevi (aqui e no blogue Picuinhas). Hayek pode ter acertado na interpretação das suas observações, mas forçou conclusões, porque não interpretou, obviamente, aquilo que não observou (nem tinha tecnologia ou conhecimentos teóricos para isso). Darwin não sabia o que era um gene quando divulgou a teoria da selecção natural. Continuar a defender a sua explicação para hereditariedade das características físicas, esquecendo a genética, seria um erro grosseiro. Tal como abordar a sua teoria sem espírito crítico se pode tornar dogmático. As teorias são boas até aparecerem outras melhores.
Tenho pena que João Miranda não tenha discutido o artigo comigo. Era esse o meu objectivo, também gosto de aprender com os outros. Infelizmente, optou por usá-lo como arma de arremesso.

Afixado por: Carlos em dezembro 10, 2003 01:39 PM

José Mário Silva,

Dou-lhe toda a razão. Não é possível criticar Marx sem ler Marx. E também não é possível desconstruir Marx sem o ler. Mas se eu, que nunca li Marx, disser que "Marx não é tão relevante como os marxistas julgam e que foi ultrapassado pela evolução posterior das ciências da complexidade" estou a desconstruir Marx ou estou a mandar uns bitaites sobre um autor que não conheço?
Qual é a diferença entre uma desconstrução e uns bitaites desinformados?

Afixado por: Joao Miranda em dezembro 10, 2003 02:10 PM

Caro Carlos,

O artigo citado por mim mostra claramente que os cientistas das ciências da complexidade redescobriram Hayek. Mas o artigo não é necessário para sustentar essa tese. Basta ler Hayek e depois ler alguma bibliografia sobre sistemas complexos. As conclusões essenciais são as mesmas. Isto parece-me ser incontestável e independente da discussão no Picuinhas. Não me parece até que o Carlos o esteja a contestar. Quando o Carlos afirma que "O artigo não pretende diminuir o trabalho de Hayek, antes pelo contrário.", está a admitir que é mesmo verdade que Hayek é um precursor dos estudos sobre sistemas complexos. É precisamente isso que eu quero dizer quando digo que estão a reinventar Hayek em Santa Fé. Esta é uma opinião compartilhada com muitas outras pessoas que conhecem as duas áreas de investigação.

O Carlos diz que eu sou desonesto porque usei um texto para sustentar as minhas ideias e ignorei uma frase. É isso? A minha tese é que só agora se está a descobrir que reinventaram Hayek em Santa Fé. O texto não mostra isso mesmo? Em que é que a última frase desmente a minha tese?


Depois de ler os vários posts do Carlos, eu tenho que perguntar isto: que trabalhos de Hayek é que o Carlos leu? ´

É que eu já lhe tinha perguntado onde é que Hayek acertou e onde é que errou. Não recebi resposta.

Agora o Carlos afirma que o trabalho de Hayek não é científico. Mas não cita uma única ideia do autor, nem nos esclarece sobre os seus métodos. Que método é que Hayek usava e porque é que esse método não é científico? E já agora, será que o trabalho de Darwin não é científico? E dado que muito do trabalho de Hayek é essencialmente filosófico, o que queremos dizer quando dizemos que o trabalho de um filósofo não é científico? Em que é que Popper nos ajuda?

Talvez o próprio Hayek tenha dado a resposta na sua Nobel Prize Lecture:

It seems to me that this failure of the economists to guide policy more successfully is closely connected with their propensity to imitate as closely as possible the procedures of the brilliantly successful physical sciences - an attempt which in our field may lead to outright error. It is an approach which has come to be described as the "scientistic" attitude - an attitude which, as I defined it some thirty years ago, "is decidedly unscientific in the true sense of the word, since it involves a mechanical and uncritical application of habits of thought to fields different from those in which they have been formed."1 I want today to begin by explaining how some of the gravest errors of recent economic policy are a direct consequence of this scientistic error.

Afixado por: Joao Miranda em dezembro 10, 2003 03:12 PM

timshel,

A teoria dos sistemas complexos fundamenta o liberalismo, que por definição, não é totalitário. O próprio liberalismo é uma concepção da vida em que a ética é um elemento importante na existência do Homem. Ética não é sinónimo de intervenção na realidade em função de valores sociais. Ética é o ramo da filosofia que estuda o que é bom e desejável.

Afixado por: Joao Miranda em dezembro 10, 2003 03:32 PM

Certas perspectivas do liberalismo são totalitárias. O totalitarismo deriva fundamentalmente de um estado de espírito. A rigidez mental, o autoritarismo, a arrogância, o egocentrismo, são atitudes mentais que estão na base do totalitarismo. O amoralismo resultante de concepções positivistas do real conduz ao totalitarismo independentemente duma fachada liberal eventualmente existente. Os sistemas complexos supõem o indeterminismo relativo, o acaso. E nesses pressupostos a ética pode fazer sentido. Não o faz em concepções determínisticas da realidade, pretensamente científicas, cujo pretenso liberalismo mascara apenas um profundo egoísmo para com os outros.

Afixado por: timshel em dezembro 10, 2003 04:49 PM

O timshel informa-nos que os sistemas complexos pressupõem o acaso. Eu já lhe tentei explicar que não é assim. Por exemplo, é possível simular um sistema complexo em computador sem introdução de informação externa durante a simulação. E os computadores são perfeitamente deterministicos. As mesmas condições iniciais produzem sempre os mesmos resultados.

Seja como for, do acaso tudo se segue e tudo pode ser justificado.Pois se o futur é imprevisível então todas as normas de comportamento são igualmente válidas pois é impossível prever os efeitos de cada uma.

Afixado por: Joao Miranda em dezembro 10, 2003 05:18 PM

Caro João Miranda
Não li nenhum livro escrito por Hayek. Tal como não li a Origem das Espécies de Darwin, o que não me impede de dizer que conheço bem a teoria da selecção natural. E já que estamos a falar de Darwin, e como João Miranda me perguntou se o seu trabalho não foi científico, sugiro-lhe o livre "A Espécie das Origens", de António Amorim. Nesse livro, Amorim defende que o trabalho de Darwin, não só não é científico, como não tem a importância e validade que muitos defendem. É uma posição discutível mas devemos meditar um pouco nos seus argumentos (na minha opinião, a teoria de Darwin não é científica no sentido mais estrito do termo; isso não impede que não seja válida para certos fenómenos, pelo menos por enquanto). O meu trabalho dos últimos anos tem sido influenciado por Charles Darwin. Se eu tiver que escolher entre por em causa os alicerces de muitas horas de estudo e defender cegamente uma ideia, não hesitarei: que venha um novo paradigma.
Não ter lido os livros de Hayek não me impede de conhecer a generalidade das suas ideias. Se o João Miranda acha que não tenho autoridade para comentar, diga-mo e calar-me-ei. Mas nesse caso espero que tenha lido os livros de John Holland, Stuart Kauffman, Richard Dawkins, Daniel Dennet e, porque não, Roger Penrose ou Douglas Hofstadter.
O João pede-me que assinale “onde é que Hayek acertou e onde é que errou”. Se lesse com mais atenção tudo o que escrevi veria que evito classificar nesses termos as ideias ou teorias (embora nem sempre o consiga evitar). Por isso, vou apenas referir-lhe ideias de Hayek que me parecem, pelo menos, discutíveis, tendo em conta os conhecimentos actuais:
1 – Hayek enfatiza o papel da selecção ao nível do indivíduo (embora fale da selecção de grupo, esta deriva da selecção ao nível do indivíduo). E se a selecção for, afinal, feita ao nível do gene (ver Dawkins, “O Gene Egoísta”). E se a selecção não tiver um papel assim tão importante, como diz Amorim (não é uma teoria que me atraia, mas devemos manter-nos abertos).
2 – Hayek classifica dois tipos de ordem: artificial e natural. É uma posição muito difícil de manter. Se, como diz Hayek, a ordem artificial é imposta ao grupo, ou sistema, pela entidade inteligente (humanos) supõe-se que o Homem não faz parte desse sistema. Não existe nada que prove a diferença entre ordem natural e artificial. Nem na teoria da complexidade, nem na filosofia.
3 – Hayek divide a evolução humana em três níveis (evolução biológica, evolução da inteligência e evolução da civilização). Não sei quais são os fundamentos para esta classificação. Se é apenas uma questão de argumentação, prefiro a de Edgar Mórin, que não coloca os diferentes estágios da evolução humana em compartimentos tão fechados (ver Morin, “O Paradigma Perdido”).
4 – Hayek usa as suas conclusões, baseadas em observação e argumentação (onde está a experimentação?...não é uma pergunta retórica, se João Miranda me poder responder agradecia-lhe, sinceramente, não estou usar nenhuma espécie de sarcasmo), para justificar políticas sociais. Herbert Spencer caiu no mesmo erro. Os seus argumentos também fizeram sentido para muita gente, à luz dos avanços na biologia da época. Mas, qualquer pessoa sensata (incluo João Miranda neste grupo, nunca pressenti nenhum embrião de xenofobia ou elitismo nas suas palavras), se assutaria com o social-darwinismo de Spencer.

Tenho mais alguns pontos que gostaria de questionar mas tenho que sair. Voltarei com mais tempo. Mas espero que tenha esclarecido o João neste ponto: não se trata de assinalar erros na teoria de Hayek, apenas constatar que seu conhecimento da natureza é incompleto (como será sempre, para qualquer pessoa); e o facto de Hayek, ou outra pessoa, com esse conhecimento incompleto, pretender justificar opções políticas parece-me muito perigoso.

Afixado por: Carlos em dezembro 10, 2003 05:34 PM

Carlos,

Li Richard Dawkins, Daniel Dennet, Roger Penrose ou Douglas Hofstadter.

Não li John Holland e Stuart Kauffman.

Recomendo Steven Pinker e Rober Axelrod.

Quanto ao Hayek:

1 – Não me parece que Hayek enfatize a importância da selecção individual ou de grupo. Essa não me parece um ideia Hayekiana, mas teria que confirmar. O que é importante é a selecção das ideias (memes). É a selecção das ideias por parte dos seres humanos que está por detrás da evolução cultural. Que isto ocorre parece óbvio dado que as pessoas fazem escolhas que têm consequências culturais. O mecanismo exacto não é muito relevante desde que as opções tenham consequências para quem as toma. Hayek também defende que a selecção ao nível genético não é relevante porque a escala de tempo da evolução biológica é muito maior que a escala de tempo da evolução cultural.

2 – É o próprio Hayek que defende que a distinção entre o natural e o artificial é inútil e confusa. Hayek defende a existência de dois tipos de ordens: ordens espontâneas (as línguas, o dinheiro, a economia e a biosfera) e ordens planificadas. As ordens espontâneas não são controladas por ninguém em particular enquanto as ordens planificadas são controladas por um pequeno grupo de individuos. Ordens espontâneas têm um controlo descentralizado. Ordens planificadas têm um controlo centralizado. As ordens planificadas são o produto da mente humana. As ordens espontâneas são o resultado da acção humana, mas não da mente humana. Há uma pessoa que define o organograma de uma empresa ou o plano de uma catedral ou o design de um carro. Ninguém define o organograma de uma língua natural. As línguas naturais emergem naturalmente como resultado de decisões tde forma descentralizada.

3 - A forma como Hayek divide a evolução humana não me parece muito relevante. As classificações são instrumentos, não são fins em si mesmos.

4 - Hayek não realizou experiências. Os astrónomos também não as ralizam. E depois? Como é que se fazem experiências em economia? Na maior parte dos casos, essas experiências são impossíveis. Mas a observação de experiências naturais é um método perfeitamente válido em ciência.

Não vejo qual possa ser a relação entre Herbert Spencer e Hayek. Nenhum deles realizou experiências? É isso? Lamento, mas isso não é suficiente. O Carlos terá que analisar em detalhe o trabalho de ambos para demonstrar que cometeram os mesmos erros. É que Hayek não se limita a fazer uma interpretação ingénua das suas observações. Nem segue os raciocínios que o Carlos parece imaginar que ele segue. O Carlos poderá até encontrar algumas críticas à socio-biologia em alguns trabalhos de Hayek.

O Carlos termina com uma ideia verdadeiramente Heyekiana: "e o facto de Hayek, ou outra pessoa, com esse conhecimento incompleto, pretender justificar opções políticas parece-me muito perigoso."

De facto, Hayek defende a posição liberal com base precisamente nesse argumento. Dado que somos todos ignorantes, é um erro que alguns de nós tenham a responsabilidade de controlar a vida de todos os outros. Por este motivo, as decisões devem ser tomadas, sempre que possível, ao nível do individuo. A posição de Hayek é uma posição anti-política.

Afixado por: Joao Miranda em dezembro 10, 2003 08:00 PM

A polémica nos comentários do Picuinhices já está num formato mais legível.

Afixado por: Picuinhas em dezembro 11, 2003 09:23 AM

João:
Se não leu Holland nem Kauffman, não leu o essencial. Os outros são importantes, interessantes e relevantes, mas, em relação ao estudo da teoria da complexidade e às ideias de auto-organização, são leituras acessórias. Espero que conheça pelo menos os resultados da investigação dos dois primeiros autores (como eu já disse, não é necessário ler as obras dos autores para conhecer as suas ideias fundamentais). Caso contrário, receio estarmos a perder o nosso tempo.
Quanto aos autores que recomendou: o Axelrod já fora referido pelo João e falámos sobre isso; quanto ao Pinker, espero que não o admire devido à querela com Chomsky a propósito da linguagem; como sabe, no planeta liberal, abriu a caça ao Chomsky (é uma provocação, eu sei, mas não resisto...não leve a mal).

Não gostei que classificasse a minha opinião, no ponto 3) do meu último comentário, como pouco relevante. O João forçou-me a criticar, pontualmente, as ideias de Hayek. Não me queria envolver em tão específica discussão por achar que não estou totalmente apto. Mas aceitei o desafio e o João arruma uma das questões dessa forma? E se eu considerar relevante? E se eu disser que Hayek se baseia nessa divisão para explicar a evolução das regras de conduta de uma sociedade? Hayek parte dessa divisão para chegar a uma distinção entre instinto e regras de conduta que eu não consigo encontrar, nem no mais ortodoxo pensamento darwinista contemporâneo.
Diz que conhece Dennet. Leu a “Ideia Perigosa de Darwin”? Não acha curioso que um livro que faz a síntese e a defesa do pensamento darwinista, com cerca de um terço das suas mais de 500 páginas dedicado à evolução cultural, não tenha uma única referência a Hayek. Ignorância do autor, dirá João Miranda? Sectarismo ideológico, dirá João Miranda (se ainda fosse o Stephen Jay Gould, mas enfim...)? Pode ser. Mas não poderão ser as teorias de Hayek demasiadamente ‘pré-históricas’ e vagas para que se percam algumas linhas a apresentá-las no contexto de um resumo histórico das ideias sobre a evolução cultural? Não considere isto como outra provocação. É apenas uma hipótese. Se não colocar hipótese contrárias às suas crenças não vale a pena discutir (não acredito muito que Dennet desconheça o trabalho de Hayek, mas não me custa nada admitir essa hipótese; o João consegue aceitar a hipótese que coloquei?).
Devo acrescentar que também nunca encontrei uma referência a Hayek em Holland ou Kauffman (o que não quer dizer que não exista). Ingratidão, clamará o João. Quem sabe.

Como o João classificou a minha alusão à divisão da evolução como irrelevante, vou tentar ser mais específico nos comentários.

A partir de agora entro em terreno pantanoso. Posso afundar-me. Por isso, faço já a auto-crítica:
Não tenho comigo nenhum livro de Hayek; vou basear-me em alguns artigos onde o seu trabalho é analisado (já disse ao João que posso discutir consigo a teoria da complexidade moderna sem que tenha lido nenhum dos livros fundamentais basta que o João conheça as ideias). Para além do artigo que deu origem a este debate no BdE, vou utilizar algumas citações de um texto de Erik Angner, “The History of Hayek’s Theory of Cultural Evolution”. Não são textos que ataquem Hayek (em relação ao primeiro, o próprio João disse que reforçava a sua importância).
Outro artigo, “Hayek’s Theory of Cultural Evolution Revisited: Rules, Morality and Sensory Order”, de Evelyn Gick e Wolfgang Gick, deu-me mais algumas pistas. Volto a reforçar a ideia de que nenhum destes textos é uma refutação de Hayek, ‘antes pelo contrário’. Se me baseasse em textos hostis, seria menos estimulante.
Vou utilizar citações que me podem acusar de estar a retirar do contexto, mas considero que um bom trabalho científico resiste a (quase) todas as micro-análises de qualquer afirmação (uma vez disseram-me para colocar a expressão “entre as configurações testadas” numa frase que analisava a eficácia de diferentes configurações de um algoritmo; dentro do contexto, a expressão era desnecessária, mas desse modo, ninguém poderia criticar a frase isolada; foi um pequeno, mas importante, momento de aprendizagem).


Começemos.
Hayek especifica e diferencia Regras e Ordem. Uma Regra (de conduta) é uma regularidade no comportamento do indivíduo, seja ela herdada ou adquirida. A Ordem refere-se ao grupo e permite ao observador fazer previsões sobre partes desconhecidas do grupo. Vamos partir destes conceitos para ver onde poderemos chegar.
O homem é um ‘indivíduo’, e está inserido num ‘grupo’ (designemos esse grupo por humanidade, sociedade ou família, não interessa). Eu sou um homem. Segundo Hayek, os meus hábitos (ou comportamento) são Regras. Mas os ‘meus’ hábitos são os hábitos do meu cérebro - o meu comportamento é ditado pelo meu cérebro, com a ajuda de outros órgãos que funcionam como sensores e actuadores. Como o meu cérebro é um sistema complexo, tem uma Ordem e é composto por indivíduos (neurónios, subdivisões do cérebro dedicadas a diferentes tarefas...o nível não me parece relevante para o raciocínio) com Regras. Mas aquilo que parece ser Ordem quando focamos a nossa atenção no sistema ‘cérebro’, passa a ser uma Regra quando olhamos para o sistema ‘sociedade’ (ou ‘grupo’). As definições de Hayek trazem-nos mais complicações do que soluções para alguns problemas. É muito difícil sustentar uma posição deste género num sistema de ideias. Senão vejamos:
Esta posição é uma regra no sistema de ideias do Homem, ou uma Ordem no sistema de ideias de Hayek? Se optarmos pela primeira opção, a ideia de Hayek está sujeita à selecção do grupo – adopto aqui o pensamento Hayekiano – e poderá não sobreviver; se escolhermos a segunda não podemos ir muito longe, mas, “The order of a group is produced jointly by the rules of conduct adhered to by its menbers and environment in which they live” (Erik Angner a descrever as ideias de Hayek), o que significa que a Ordem de Hayek foi produzida pelo sistema de regras de Hayek; uma eventual terceira hipótese parece-me insensata e ilógica, embora os Hayekianos mais imprudentes a possam defender: a ideia de Hayek é uma Ordem do pensamento humano. Será que vamos ver algum Hayekiano, neste blogue, a defender esta hipótese?

Hayek defendia que a linguagem, a moral, a lei e o dinheiro(?) surgem como ordem espontânea. Outros autores consideram que são produtos da evolução. Sou mais sensível aos argumentos destes últimos, até porque eles têm argumentos, enquanto Hayek parece acreditar num gancho celeste (recupero aqui uma excelente expressão de Daniel Dennet, que pretende designar a defesa de ideias com base na fé, ou numa espera sebastiânica por uma teoria vindoura). É curioso como a abordagem de Hayek à linguagem é aparentemente semelhante ao que defende Noam Chomsky. Cuidado, João Miranda, não deixe entrar o lobo Noam na seu castelo liberal.
Hayek descreveu o mercado livre como demasiadamente complexo para ser concebido por uma mente, e até mesmo demasiadamente complexo para ser concebido (por qualquer coisa). Então, como a mente também é um sistema demasiadamente complexo para ter sido concebido. Mas foi. Foi concebido pela selecção natural. É a minha opinião e não vai ser a invocação de um milagre (porque a ordem espontânea de Hayek é um milagre) que me vai fazer mudar de ideias. Vejam como Kauffman faz questão de dizer que a auto-organização não substitui a selecção natural como processo de concepção, mas trabalha em conjunto com a mesma para criar organismos, conceitos ou artefactos. Podemos encarar a auto-organização como se tratasse de uma regra física. A selecção natural não substitui a física na explicação dos fenómenos. Adaptando uma provocação anti-darwinista que li há tempos, para esta abordagem mais conciliadora, pode dizer-se que não é necessário invocar a selecção natural para explicar a razão pela qual os elefantes não voam: a gravidade desembaraça-se sozinha nessa tarefa.

Erik Angner referindo-se às ideias de Hayek: “In cultural evolution, then, natural selection operates directly on the order of the group, which in turn is produced by the individuals’ folowing certain rules. Thus, selection operates on acquired characteristics like rules indirectly, via the order they produce. Some groups, Hayek added, have rules and orders that are more ‘efficient’, ‘advantageous’, or ‘beneficial’. Such rules and orders are conductive to survival, Hayek believed, and confer an advantage in the constant struggle with adjacent groups” (as aspas são colocadas por Erik Angner, referenciado a seguir as obras de Hayek onde este usou os termos). Mais à frente Angner citando Hayek: “a spontaneous order ‘will always constitute an adaptation (Hayek)’”. Confiando na síntese de Angner vemos Hayek numa posição ultra-darwinista que envergonharia o mais ortodoxo dos adaptacionistas. Afinal a ordem é um produto da selecção? Será isto a auto-organização que se diz que Santa Fé reinventou? Se assim for não reinventou nada. Ordem concebida por selecção nada tem a ver com moderna teoria da auto-organização. Absolutamente nada. Se acha que Hayek havia inventado a roda, João Miranda, então é melhor documentar-se noutras fontes. Não estou a dizer que Hayek está necessariamente errado. Estou apenas a dizer que defender a ordem como produto da selecção e definir auto-organização como um processo complementar da selecção são coisas claramente distintas. Pessoalmente, prefiro a abordagem de Kauffman porque, para além de ser mais recente, já observei fenómenos semelhantes em sistemas complexos. Mas se quiser ficar agarrado a uma teoria antiga, é problema seu (e, se quiser, pode continuar a tentar convencer-me, já lhe disse que não sou dogmático; a visão da minha pessoa como um liberal Hayekiano não me parece muito viável, mas nunca sabemos o que o futuro nos trará).
Para terminar este ponto, uma frase de Daniel Dennet, numa crítica a Kauffman: “O que vemos, segundo afirma Kauffman, é que a ordem surge apesar da selecção e não devido a esta”. Dennet não acredita nesta afirmação. Para ele a ordem surgiu de uma adaptação, mas de uma evolução das capacidades adaptativas, ou seja, a própria selecção natural foi sujeita ao processo selectivo. Não é um conceito muito fácil de entender porque supõe uma meta-meta-....-adaptação. É, no entanto, aquilo que consigo encontrar que esteja mais próximo de Hayek. Mas ainda está longe (ainda por cima Dennet não referiu o Hayek, não é...).

Outra consequência do pensamento Hayekiano é a evolução para um ponto específico do espaço de concepção. Hayek defendia que havia uma evolução e que o destino dessa evolução está traçado. E está traçado por uma Ordem, que segundo o próprio, também está sujeita a evolução? Quer dizer que a evolução da Ordem parou, e que os indivíduos caminham todos no sentido de apresentarem essa Ordem? E nessa altura a evolução das Regras pára? Julgo que o pensamento Hayekiano é um beco sem saída, tanto numa perspectiva científica, como filosófica.

Hayek:”we are bound to explain the fact that the elements [i.e. the individuals] behave in a certain way by the circumstance that this sort of conduct is more likely to preserve the whole.”. É uma ideia antiga. Eu digo: os indivíduos agem da forma que agem para conseguir gerar descendência. Ou então: os indivíduos agem da forma que agem para preservar os genes que transportam. Consegue perceber a diferença? E o alcance dessa diferença? Se eu sobreviver mais tempo tenho mais hipóteses de gerar descendência. Isso é um facto. O João pode dizer-me que a geração de descendência contribui para a preservação da espécie. É apenas uma consequência do meu comportamento. Não se pode daí inferir que as minhas acções têm como objectivo preservação do conjunto.

João Miranda diz que a minha frase “e o facto de Hayek, ou outra pessoa, com esse conhecimento incompleto, pretender justificar opções políticas parece-me muito perigoso” é Hayekiano. Diga-me João, é tão Hayekiana como esta: “civilization depends, not only for its origin but also for its preservation, on what can be precisely described only as the extended order of human cooperation, an order more commonly, if somewhat misleadingly, known as capitalism” (Hayek, citado por Angner). O mestre falou. A civilização depende do capitalismo. Para chegar a esta conclusão teve que definir o que era civilização, qual o seu papel na evolução humana, quando e como começou a civilização. Mas o João Miranda não acha relevante a forma como Hayek divide a evolução humana. Foquemos a nossa atenção nas conclusões do mestre porque a sua argumentação é intocável.


Termino com outra pérola de Hayek, a propósito da diminuição de importância da selecção de grupo na biologia: “Altough the conception of group selection may not appear as important as it had been thought after its introduction...there can be no doubt that it is of the greatest importance for cultural evolution”. Fico sem palavras...

Esta análise resultou de uma meditação pessoal sobre as ideias de Hayek. Terá as suas falhas, tenho a certeza. Mas espero que mostre que Hayek não é intocável.

Por vezes Hayek lembra-me Pangloss. Deixe-se a natureza seguir o seu rumo e mundo tornar-se-á no melhor mundo possível. Se não concordar com a liberdade poética da analogia, substitua Pangloss por Leibniz e o resultado é o mesmo. Mas não resisto a comparar ALGUNS liberais a Cândidos viajando por um mundo Hayekiano.


Agora, João Miranda, já tem motivos para me atacar. Escusa de se agarrar ao que considera uma sobrevalorização de uma frase ‘trivial’. Estou a oferecer-lhe o flanco. Aproveite.

Afixado por: Carlos em dezembro 11, 2003 09:59 PM

O Carlos quer tentar provar que Hayek não é intocável. É isso? Não valia a pena. Ninguém é.

Hayek é um anti-racionalista. Combateu toda a sua vida o racionalismo, isto é, a ideia segundo a qual as instituições humanas podem ser concebidas por uma mente humana em particular ou por um conjunto limitado de mentes.

Para o caso, Hayek não está particularmente interessado no mecanismo pelo qual as sociedades evoluem, desde que elas resultem de um processo não racionalista. A partir do momento em que o Carlos procura critcar Hayek pelos mecanismos que ele propõe, Hayek já ganhou.

Já ganhou, porque o Carlos está implicitamente a admitir que as instituições humanas são o resultado não intencional das acções humanas, e não o resultado de uma concepção por parte de uma mente em particular ou de um conjunto limitado de mentes.

Para refutar Hayek, o Carlos tem que demonstrar que é possível planificar uma sociedade e que a economia planificada pode ser mais eficaz que o mercado.

O Carlos parece não ter compreendido totalmente o argumento anti-racionalista ao criticar Hayek por defender o capitalismo. O Carlos vê o capitalismo como uma opção política como outra qualquer. O problema é que não é.

Dado que somos todos ignorantes, e dado que as opções políticas têm forçosamente que ser tomadas, o que devemos fazer? A solução liberal para este problema é: o menos possível. A ignorância e a dispersão de informação pela sociedade implicam que o estado não deve ter políticas interventivas porque os ministros não dispõem da informação necessária para dirigir a economia e a sociedade. E o contrário das políticas interventivas é o laisser-faire, isto é, capitalismo.

Claro que a definição de capitalismo do Carlos é muito provavelmente diferente da de Hayek. O Carlos tem razão: é preciso saber o que é que Hayek quer dizer com as palavras, mas as palavras são sempre instrumentais. Não se pode criticar um autor pelo seu uso especifico das palavras sem estudar toda a sua obra para perceber o sentido que as palavras têm para ele. Por isso, o problema não pode estar na forma como Hayek classifica a evolução humana ou define civilização, mas na coerência com que usa esses conceitos.

Ao admitir que as instituições humanas resultam de um processo que ninguém controla, o Carlos já é um Hayekiano. Claro que, perante um problema político o Carlos poderá optar por uma solução racionalista. Por exemplo, o Carlos acha que deve existir um Ministério da Economia? O Carlos acha que o estado deve manipular a moeda? O Carlos acha que o estado deve gerir o ensino? Deve o estado incentivar a investigação, a cultura, a agricultura, a indústria ou as comunicações? Se deve, como é que isso é compatível com o facto de todos sermos ignorantes e os ministros não serem excepção? A verdade é que em política, um ministério da economia é o equivalente a um gancho celeste.

O Carlos diz que por vezes Hayek lembra Pangloss. E depois diz: "Deixe-se a natureza seguir o seu rumo e mundo tornar-se-á no melhor mundo possível." Mas o que o Carlos devia analisar é se a natureza pode deixar de seguir o seu rumo. A natureza é ou nºao determinista? É que os seres humanos não são agentes externos à natureza e o que quer que façam será natural. Curiosamente, Hayek defende que os seres humanos devem respeitar determinadas regras de comportamento. A verdade é que não as respeitam e a natureza segue de facto o seu curso. Não me parece que Hayek seja panglossiano. Se fosse, não defenderia um determinado tipo de regras de conduta.

Mas esta coisa do Pangloss sugere que o Carlos acredita que os seres humanos podem ser os Ganchos Celestes de si próprios. Ou seja, o Carlos parece defender a posição racionalista segundo a qual os seres humanos podem dirigir a evolução da sua própria sociedade.

O Carlos pergunta "Esta posição é uma regra no sistema de ideias do Homem, ou uma Ordem no sistema de ideias de Hayek? " Suponho que o Carlos está a falar da teoria Heyekiana. A resposta é: é uma representação de uma Ordem no cérebro de Hayek. Esta Ordem depende das regras de processamento de informação no interior do cérebro de Hayek e dos inputs que o cérebro recebe. Estas regras são inconscientes e não fazem parte das ideias de Hayek. Não vejo como é que possa ser uma regra no sistema de ideias do Homem porque as regras só o são se forem seguidas por um número significativo de pessoas. As regras são normas de conduta. Nem todas as ideias são regras.

Noutro ponto do texto, o Carlos parece ser ainda mais Hayekiano que o próprio Hayek ao ser frontalmente contra a existência de granchos celestes. Essa é uma posição claramente anti-racionalista porque exclui logo à partida a possibilidade de uma autoridade central poder conceber ou dirigir uma sociedade. Falta só saber se existe um meio termo entre Pangloss e os Ganchos Celestes.

Dado que o Carlos parece ser um Hayekiano, a questão que nos resta é a de saber se Hayek é hayekiano. Hayek é um darwinista, ou mais precisamente, um pré-darwinista porque segue uma tradição anterior a Darwian. Um dos precursores de Hayek é Adam Fergunson que escreveu em 1767:

Every step and every movement of the multitude, even in what are termed enlightened ages, are made with equal blindness to the future; and nations stumble upon establishments, which are indeed the result of human action, but not the execution of any human design.

A ideia de que os arranjos sociais não são concebidos por uma mente é portanto uma ideia antiga partilhada pelos filosofos escoceses do século XVIII, entre os quais estava Adam Smith. Hayek defende que estes Srs influenciaram Darwin, o que a ser verdade sugeres que aqueles srs em Santa Fé foram beber algumas das suas ideias à mesma fonte.

Hayek não recorre a ganchos celestes. Procura explicar a Ordem Espontânea por mecanismos que não têm nada de mágico. Ou, dito de outra forma, quanto menos mágicos, melhor.

Não é na questão do mecanismo que origina a Ordem que Hayek é importante como precursor dos estudos de sistemas complexos. É na questão da dispersão da informação.

O Carlos parece colocar em oposição dois mecanismos, um mecanismo de selecção natural e outro mecanismo físico (deterministico) de aparecimento de uma ordem espontânea. Não há nenhuma oposição entre estes dois mecanismos. São descrições do mesmo fenómeno a escalas diferentes. A evolução por selecção natural é, em todas as circunstâncias, uma metáfora. A selecção natural depende de duas coisas que são construções humanas: agentes e processos aleatórios. Por um lado, ainda ninguém provou que os processos aleatórios existem na natureza. Podemos perfeitamente viver num universo deterministico no qual o que tem que acontecer acontecerá. Por outro, é possível descrever a realidade apenas ao nível dos átomos e das moléculas ignorando os agentes. Desta forma, a evolução por selecção natural será uma consequência obrigatória da física.

Não percebo porque é que o Carlos diz que "Hayek defendia que havia uma evolução e que o destino dessa evolução está traçado." Não me parece que Hayek defenda isso.

Também não me parece que Hayek defenda que os individuos se comportam desta ou daquela maneira com o objectivo de beneficiar o conjunto. O que Hayek defende é que as instituíções cuja regras não beneficiam os seus membros não são estáveis. Podem ser destruidas por dentro ou por fora. Por dentro, pela emergência de sub-grupos com regras mais eficentes. Por fora, por aculturação, pela guerra ou pela competição por recursos escassos.

E não percebo onde o Carlos quer chegar quando critica o comentário de Hayek a propósito da selecção de grupo. Será porque a selecção de grupo nunca pode ser importante ou será porque se não é importante em biologia também não pode ser importante na evolução cultural?

Hayek dá-se ao trabalho de explicar os mecanismos abaixo do nível do grupo, desde aqueles que determinam a forma como o cérebro funciona e as preferências humanas emergem àqueles que determinam o destino de grandes estados. A teoria de Hayek é suficientemente reducionista para que ele não caia nas armadilhas da selecção de grupo. Por exemplo, Hayek não explica o aparecimento e a propagação de novas regras dentro de um grupo pela sobrevivência desse grupo. As novas regras podem evoluir porque conferem vantagens evolutivas a quem as adopta, quer estejamos a falar de pequenos grupos dentro do grupo, quer estejamos a falar de indivíduos. Até uma teoria ultra-reducionista é possível em Hayek dado que ele defende que as preferências humanas são elas próprias o resultado de regras de funcionamento do cérebro que não podem ser controladas conscientemente. Neste aspecto, a posição de Hayek em relação é completamente contrária ao dualismo cartesiano. Devem ser poucos os autores que já eram anti-dualistas nos anos 20.

Afixado por: Joao Miranda em dezembro 12, 2003 04:32 PM

Caro João
Uma gripe não me está a deixar ler convenientemente o que escreveu, e muito menos me deixará contribuir lucidamente para a discussão.
Voltarei quando o virus me deixar em paz (mas o meu cérebro está tentado a tomar uns comprimidos em vez de deixar o sistema (corpo) complexo tratar sozinho do bicho)
Um abraço

Afixado por: Carlos em dezembro 12, 2003 08:37 PM

gripe ou nanobots?
se quiserem passem a discussão lá para cima para o meu novo post sobre a emergência, escusa de ficar esquecida aqui em baixo.

Afixado por: tchernignobyl em dezembro 17, 2003 09:38 PM
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